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Mario Quintana

John D. Godinho



A guerra estava declarada; era uma decorrência natural da emigração. Mal sabiam as forças inimigas que o conflito teria curta duração e que, em pouco tempo, seriam aliadas e até amigas íntimas – comadres, digamos – num esforço comum para a sobrevivência do território em disputa. Feitas as pazes, elas se uniriam definitivamente visando ao crescimento e bem geral do território ocupado. O conflito – a língua portuguesa vs. a inglesa. O território – a mente de uma criança.

Para John/João, a vida de emigrante começa cedo. Sina de português, dizem. Ainda criança, emigra para os Estados Unidos com a família: o pai, João, pescador de Cascais, já naturalizado americano; a mãe, Domingas, de Setúbal; quatro filhos homens. Chegando a Nova Iorque, seguem para a pequena cidade de Gloucester, no estado de Massachusetts, a 45 kms ao norte de Boston. Tudo diferente da Travessa da Paz 22, em Santos-o-Velho, Lisboa.

Instala-se o conflito. Persistem a língua, os costumes, as tradições portuguesas; surgem as primeiras ameaças, seguidas pela invasão avassaladora da língua, costumes e tradições americanas. Qualquer criança é terreno fértil para plantar. John não é exceção. O inglês cresce rapidamente; o português reage contra o invasor lutando com unhas e dentes, mas o resultado é inevitável: em casa, a língua portuguesa, sempre, junto com o fado e a sardinha assada; lá fora, a língua inglesa vale como um passaporte para outros mundos. Entre as duas, dá-se finalmente uma trégua, que vira amizade, que se torna união indissolúvel. O acordo: quando as circunstâncias o exigirem, uma delas assumirá o comando para o bem-estar geral dos três. Enquanto isso, a outra nem de longe se permitirá ciúmes mesquinhos. E assim tem sido.

John termina a educação primária e secundária em Gloucester. Segue-se o serviço militar na Força Aérea dos Estados Unidos. Local: Base Aérea de Langley, no estado da Virginia. Longe de casa, a língua portuguesa recolhe-se aos confins do território antes disputado, resignada, julgando-se esquecida, mas sem ressentimentos; fica de prontidão para voltar à luz da ribalta a qualquer momento dando corpo aos pensamentos do dono. E, como numa história de Hollywood, de segunda linha, eis que surge a oportunidade de brilhar. Um certo Coronel Harold W. Smith ouve dizer que há na base um airman de origem portuguesa. Manda-o chamar. A Força Aérea precisa da língua lusa. Que tal? Seguem-se entrevistas e uma longa viagem. Destino: Base Aérea das Lajes, na Ilha Terceira, Açores, onde John será tradutor e intérprete das forças armadas americanas. A situação se inverte: na base aérea, ou seja, em casa, prevalece a língua inglesa junto com a Coca-Cola e o hambúrguer; lá fora, a língua portuguesa é o passaporte para a volta às raízes e para mundos não acessíveis aos colegas americanos.

De volta aos Estados Unidos, John começa a vida universitária. A língua inglesa sobe ao palco e a portuguesa sai de cena retirando-se para o seu camarim. Mas só por uns tempos. Há um papel de coadjuvante reservado para ela. É que, enquanto persegue os estudos, John também é professor the português na Escola de Idiomas Berlitz, em Boston.

Terminados os estudos, John forma-se em Ciências Políticas pelo College of Liberal Arts, da Universidade de Boston, e é Juris Doctor pela Faculdade de Direito, da mesma universidade. Faz pós-graduação em Direito Comparado Internacional, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Está pronto para iniciar a carreira. Integra uma banca de advocacia na cidade de Newark, estado de Nova Jersey e, ao mesmo tempo, exerce a função de assistente de Promotor Público daquele município. Mas não é bem esse o seu caminho. Espera-o uma colocação no Departmento Jurídico Internacional da United States Steel Corporation, em Pittsburgh, Pennsylvania. No futuro, deverá ir para Caracas, Venezuela, para dirigir o departamento jurídico de uma subsidiária da empresa. Entretanto, na sede da !!!!