Neste site colabora com a(s) seguinte(s) biografia(s):

Hudson Moura



Sou descendente de várias tribos tanto indígenas e negras quanto européias – dos portugueses e espanhóis aos suíços e alemães. Com sangue de tantas cores que correm em minhas veias e com nome inglês, vem daí talvez a minha sina nômade. Uma das histórias que meu pai me conta é de que ele previa que com a “colonização” americana no Brasil nos anos 70, um dia eu partiria para os Estados Unidos. Ele quase acertou, realmente eu parti para as terras dos Hudson, mas não a americana e sim a canadense. Por todos os lados que eu olhe tem uma rua, um lago ou uma escola com o meu nome. Estranha familiaridade.

Mas, minhas origens remontam das terras baixas e quentes da cidadezinha cafeeira de Baixo Guandu, às margens do rio Doce no Espírito Santo a poucos metros da divisa com o estado de Minas Gerais. Apesar de capixaba, o único da minha família, eu tenho uma cultura e formação muito mais mineira. Isto explica o espanto de alguns quando digo que nunca aprendi a gostar da moqueca capixaba, ou dos caranguejos e garamuns.

Meu primeiro contato com o cinema foi no Cine Alba ainda em Baixo Guandu nas matinées dos filmes de Mazzaropi. Depois dos cinemas de Vitória, a grande descoberta aconteceu em 1986 com o vídeo. Um novo mundo se abria diante dos meus olhos, do cinema italiano ao cinema independente americano, do cinema sueco ao cinema chinês. Finalmente eu poderia ter acesso àqueles filmes que fizeram a história do cinema.

No ano seguinte, em 1987, uma sessão especial de cinema vai marcar minha vida cinéfila. Era um dia de semana à tarde, no Cine Paissandu em Botafogo no Rio. O filme, um dos mais censurados pela ditadura militar, reunia nada mais nada menos do que dois mitos do cinema mundial: Marlon Brando e Maria Schneider. O filme era “O último tango em Paris” de Bertolucci. As misturas de línguas e culturas, o inglês e o francês, a estrangeiridade tanto do espaço quanto dos diálogos, e, sobretudo a presença visceral de dois ícones do cinema, me deu a sensação de presenciar algo de majestoso e histórico. Ainda na capital carioca vi o meu primeiro filme preto e branco no cinema, “Asas do desejo” de Wim Wenders.

Anos mais tarde eu veria dois outros filmes essenciais: “Viagem à Tóquio” de Yasujiro Ozu e “O passageiro: profissão repórter” de Antonioni ao mesmo tempo em que descobria a escritura puissante de Gilles Deleuze, apresentados por Stella Senra.

Em 1994, após a universidade de jornalismo e um programa de cinema no rádio, vou para São Paulo. O encontro com Jerusa Pires Ferreira no Núcleo de estudos poéticas da oralidade foi essencial. Um novo conceito de intelectual se formatava no meu imaginário. Jerusa pulsa conhecimento e transpira cultura. Ela transita entre a obra popular e o erudito com o mesmo rigor e requinte que a língua portuguesa exige, sem perder as referências aos encantamentos e mistérios que outras culturas e línguas pode oferecer.

Nesta época, Jerusa me apresentou o documentarista Vladimir Carvalho e seus filmes. Encontrei então um viés de estudo sobre o movimento de conquista do espaço e a poesia cinematográfica: exílio e memória. Após o mestrado, minha curiosidade sobre o assunto continuava aguçada e inquieta.

Minha busca era por uma teoria do exílio enquanto experiência individual, ontológica, filosófica, incutida no âmago da aventura do deslocamento espacio-temporal. Minha idéia era de que a imagem cinematográfica construída no estrangeiro continha em seu interior as experiências e memórias do espaço estrangeiro. Com a falta de literatura sobre o assunto no Brasil (a maioria falava sobre a experiência de exilados políticos durante os regimes ditatoriais de Vargas e dos militares), e mesmo a inexperiência pessoal de viver no estrangeiro (nunca havia saído do país), me fizeram decidir por realizar o doutorado em francês no Canadá.

Em 1997, com uma cópia do filme “Terra Estrangeira” de Salles e Thomas, com legendas em francês, debaixo do braço desembarco em pleno outono à Montreal.