Souza-Cardoso e a sua obra vivem doravante no estrito reino da revolta e da esperança, na idade da juventude.

Amadeo De Sousa-Cardoso

Pintor:
1887 - 1918



Quando tudo aconteceu...

1887: No dia 14 de Novembro, nasce em Manhufe, freguesia de Mancelos, concelho de Amarante, Amadeo Ferreira de Souza-Cardoso, filho de José Emygdio de Souza Cardoso e de Emília Cândida Ferreira Cardoso. Amadeo vive uma infância tranquila e protegida. Seu tio materno encoraja a propensão artística do jovem que cedo manifesta uma invulgar aptidão para o desenho Toda a família o admira e em 1897 pinta dois «Pierrots» nas portas de um armário da sala de jantar da casa de Manhufe que demonstram a sua precocidade, pois tem apenas dez anos. 1905: Nas férias de Verão, em Espinho, estabelece amizade e, depois, uma intensa correspondência com o médico e homem de letras Manuel Laranjeira, a qual manterá até 1912, quando este se suicida. Por pressão do pai, matricula-se no curso de Arquitectura na Escola de Belas Artes de Lisboa. 1906: Em Junho e Julho, presta provas, com aprovação em todas as cadeiras. Porém, interrompe o curso e parte para Paris, instalando-se em Montparnasse. 1907: Relaciona-se com diversos artistas e, no dia 6 de Janeiro, é-lhe oferecido um almoço por um grupo de amigos no Restaurante Daumesnil do Quartier Latin. Vive no n.º 33 da Rue Denfert-Rochereau, perto de Montparnasse. 1908: Aluga o estúdio número 21 do número catorze da Cité de Falguière. Conhece Lucia Pecetto, jovem de origem italiana, iniciando com ela uma relação amorosa.1909: Instala-se num estúdio vizinho do de Gertrude Stein, no n.º 27 da Rue des Fleurus. Frequenta ateliers preparatórios para a Academia das Beaux-Arts e a Academia Viti do pintor catalão Anglada Camarasa. Conhece Amadeo Modigliani. 1910: Permanece por alguns meses em Bruxelas, estudando os primitivos flamengos. 1911: Expõe pela primeira vez em Paris, no Salon des Indépendants. 1912: Publica um álbum com vinte desenhos. O seu amigo Manuel Laranjeira suicida-se. 1913: Nos Estados Unidos da América, no Armory Show, participa numa exposição com oito trabalhos. Volta a Portugal, onde realiza duas exposições, respectivamente no Porto e em Lisboa. Neste ano participa ainda no Herbstsalon da Galeria Der Sturm, em Berlim. 1914: Casa no Porto com Lucia Pecetto, oficializando uma relação que já dura há anos. Vai a Barcelona onde conhece o grande arquitecto catalão Antoni Gaudí. 1915: É lançado o primeiro número de “Orpheu”. 1916: “Abstraccionismo”, é o nome dado à exposição que inaugura no Porto e na qual mostra 114 quadros. 1917: Almada Negreiros dedica-lhe o livro K4 – o Quadrado Azul; decorre a sessão futurista no Teatro República; colabora na revista Portugal Futurista. 1918: No dia 25 de Outubro, morre Amadeo de Souza-Cardoso, vítima de uma epidemia de gripe – a “pneumónica”, também designada por “gripe espanhola” . Tem apenas 30 anos. 1925: Realiza-se em Paris uma retrospectiva do pintor, com 150 trabalhos, bem aceites pelo público e pela crítica.1935: Em Portugal, é criado o Prémio Amadeo de Souza-Cardoso para premiar «pintores modernistas». 1987: Realiza-se uma grande exposição de Amadeo na sede da Fundação Calouste Gulbenkian.

Ler mais...




UMA CRIANÇA PRODIGIOSA

Vida curta, obra grande – assim se pode resumir o percurso de Amadeo de Souza-Cardoso. Uma carreira fulgurante, diz o ensaísta e crítico de arte francês Jean Cassou, enriquecida por todas as mais veementes inquietações do seu tempo. Jean Cassou (1897-1986) foi o fundador e director do Museu Nacional de Arte Moderna, de Paris.

Nasce numa família abastada – o pai, homem culto e viajado, é proprietário rural, grande negociante de vinhos, e pertence ao segmento superior da sociedade nortenha. Sob o olhar protector e autoritário de sua mãe, vive uma infância calma e protegida. Entre irmãos, irmãs, primos e primas, crianças normais, cedo se lhe descobre o talento e é considerado um «menino prodígio»., um sobredotado, como se diria hoje.

Com dez anos pinta dois Pierrots nas portas de um armário da sala de jantar – um deles “abraçado a uma enorme lata de biscoitos, o outro equilibrado numa banqueta, a tentar martelar no teclado de um piano”. Os elogios familiares afagam-lhe o ego e a auto-estima de Amadeo enche como um aeróstato. Este ambiente de permanente adulação irá ter reflexos no futuro. Nem todos positivos, pois Amadeo está mais bem preparado para o sucesso do que para as contrariedades.

No âmbito familiar, o seu talento é, pois, um dado adquirido. O pai, homem culto e viajado, espírito aberto, apreciador de arte, sabe que num país onde as convenções e os preconceitos moldam os comportamentos, os artistas só são aceites depois de consagrados e só são consagrados, as mais das vezes, depois de morrerem. Tenta encaminhar o talento do filho num sentido mais prático – quer que ele estude Arquitectura. Francisco Ferreira Cardoso, um advogado irmão de sua mãe, incentiva o jovem a seguir a carreira de pintor (saliente-se que Cardoso é apelido comum à família paterna e materna). É um homem também de grande erudição e sensibilidade que o contagia com o fascínio de Paris. O «tio Chico» é a personagem tutelar da infância e da juventude de Amadeo.

É na casa deste familiar, a Casa do Ribeiro, com livros, pinturas, música, que Amadeo se sente bem. Francisco conhece e corresponde-se com grande parte dos escritores e artistas e abre-lhe as portas desse mundo. Tio e sobrinho forjam uma cumplicidade, amizade sólida, alicerçada em convicções comuns, na maneira idêntica como encaram a vida. Em casa do tio, Amadeo sente-se num enclave de cultura rodeado pela dureza da realidade quotidiana das gentes do campo.

A família passa férias em Espinho e é aí, no Verão de 1905, que conhece Manuel Laranjeira, um médico e intelectual, e o seu grupo de amigos onde se destacam António Carneiro e João de Barros. Amadeo é aceite neste círculo e a sua intenção de enveredar pela carreira da pintura sai reforçada por este convívio. Mas não pode continuar em Manhufe e em Amarante. São um universo acanhado onde o fulgurante sol de Amadeo não cabe.




LISBOA – CIDADE ANÉMICA

Portanto, a infância e a adolescência, decorrem sem sobressaltos de monta. Estuda no Liceu de Amarante. Com dezanove anos parte para Lisboa. Vai matricular-se em Arquitectura na Escola de Belas-Artes em Lisboa. Parece fazer a vontade ao pai. Mas depressa chega a uma conclusão - não gosta nem do que se ensina na escola, nem gosta da capital – que qualifica como «cidade anémica». Vindo de uma sociedade provinciana, Lisboa aparece-lhe como uma Amarante gigantesca – a provinciana capital de um país cultural e socialmente periférico. Paris é o seu sonho e, no ano seguinte, com dezanove anos, abandona o curso de Arquitectura e é para lá que parte. Francisco Smith, (1881 – 1961) um jovem pintor lisboeta, vai com ele.




PARIS, FINALMENTE

Paris não desilude Amadeo – é uma verdadeira capital. Literal e metaforicamente luminosa. Quando chega, em 1908, instala-se no estúdio n.º 21, no n.º 14 da Cité Falguiére. Os portugueses que vivem na capital francesa, fazem do estúdio de Souza-Cardoso ponto de reunião: Eduardo Viana, Acácio Lino, Emmerico Nunes e tantos outros. Bebe-se bom vinho português e outros mimos chegados de Manhufe, discute-se o Universo… Ainda em 1908, conhece Lucia Pecetto, uma jovem descendente de italianos donos de uma “crêperie” do Boulevard Montparnasse. Amadeo relaciona-se amorosamente com a rapariga.




O GRANDE SALTO

Amadeo passa então por uma fase levemente depressiva. Não acredita muito nos seus méritos e pensa dedicar-se à caricatura, especializar-se nesse nicho menos elevado da arte. Não faz disso uma tragédia. Porém, entre 1912 e 1913 dá-se um enorme salto qualitativo na obra de Amadeo. Diz numa carta; «Tenho progredido consideravelmente» e afirma que nenhuma das escolas a que o querem amarrar, tem a ver com a sua obra - «o futurismo é um truque charlatão sem sensibilidade nem cérebro, camelote do cubismo; o cubismo uma caligrafia mental e literária». Em todo o caso. Em 1915 assinará o manifesto do movimento; em 1917 será um dos colaboradores do Portugal Futurista. Mas passará à história como elemento da «geração do Orpheu».




A GERAÇÃO DO «ORPHEU»

Embora não tenha sido colaborador da revista (faz um desenho para o terceiro número que não chega a ser publicado), Amadeo ficará como fazendo parte da chamada «geração do Orpheu» – Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor, Luís de Montalvão, Raul Leal, Armando Côrtes Rodrigues e António Ferro que menos de duas décadas depois será o responsável pela Propaganda do Estado Novo (e criará um Prémio Amadeo de Souza-Cardoso). Mas estamos ainda em 1915, quando o grupo vanguardista lança o primeiro número da Orpheu.

O século XX ainda não chegou à Europa, muito menos a Portugal. Naqueles tempos anteriores à Grande Guerra, prevalecem as convenções, os comportamentos, os conceitos, típicos do século XIX. Mau ambiente para vanguardismos…




ENTÃO ISTO É QUE É ARTE?

Quando, em 1916, expõe no Porto e em Lisboa as 114 obras sob a designação genérica de Abstraccionismo, as reacções são de escândalo, Tudo enraivece os visitantes, desde as pinturas às colagens, aos preços indicados no catálogo e aos títulos das obras. Há quem se sinta ofendido por lhe dizerem que «aquilo» é arte – há mesmo quem cuspa nas telas. Agustina Bessa-Luís conta que um portuense ao sair de uma exposição que Amadeo fez no Jardim Passos Manuel, se interrogava ao sair – Estarei bêbedo? A burguesia convive mal com a própria ignorância. A repulsa burguesa por aquilo que a maioria das pessoas considera uma mistificação, manifesta-se de diversas formas, pela agressão inclusive. Além dos insultos, Amadeo sofre uma agressão física e tem de receber tratamento no Hospital da Misericórdia do Porto.

Quando a obra é exposta no salão da Liga Naval, em Lisboa, repete-se o escândalo. Amadeo, desta vez já preparado, diverte-se com os comentários que escuta. Para desagravo, Almada Negreiros organiza um jantar opulento. Muitos artistas, muitos intelectuais, fazem questão de estar presentes e de demonstrar até que ponto a sua obra é apreciada. Entre esses está Fernando Pessoa e o compositor Ruy Coelho.

Um americano, Walter Pach, o mesmo que organizara a exposição de 1913 no Armory Show, propõe-lhe uma exposição em Nova Iorque. Exposição que, realizada em Novembro de 1916, obtém um estrondoso êxito. Estão previstas novas mostras da sua obra, mas a entrada dos Estados Unidos na guerra, o armistício entre a Rússia e a Alemanha, modificam todo o cenário. O conflito agrava-se e as exposições não se fazem.




A GRIPE ESPANHOLA

No meio culturalmente mais evoluído, a obra de Amadeo é reconhecida e apreciada. Amadeo vai, com a sua maneira optimista de navegar a vida, vencendo obstáculos. Diz «Diverti-vos a valer, quem leva o mundo a sério não passa de um idiota. De que serve a tristeza, de que servem os preconceitos? É uma tolice, nada lucramos, tudo perdemos. Deve-se ser alegre, mas de uma alegria sã, sem medo, que desafie até». E é essa a forma como encara a vida.

Mas há um epílogo inesperado.

Na Primavera de 1918, um surto de gripe mortífera varre Portugal.. É a chamada pneumónica ou gripe espanhola por se ter declarado em Espanha. Nos bairros pobres das duas maiores cidades, vivem famílias mal alojadas, mal alimentadas, sem condições de higiene, e transformam-se em focos difusores da epidemia. Nos meses de Junho e Julho morrem em Lisboa cerca de 400 pessoas por dia, número tão elevado que torna difícil a realização dos enterros por falta de carretas funerárias. Governa Sidónio Pais, que visita os doentes e se deixa fotografar junto das camas, debruçado sobre os enfermos mais graves. É uma jogada de marketing político que contribui para a sua popularidade, mas não resolve a dramática situação. Só em Novembro, sem que haja uma explicação cientificamente aceitável, o surto abranda. O saldo foi de 60 mil mortos em Portugal.

Souza-Cardoso e a família vão para a casa de férias em Espinho para fugir ao contágio. No dia 25 de Outubro Amadeo morre, vitimado pela gripe espanhola. Um outro pintor do Orpheu é também atingido pelo vírus fatal – Santa-Rita.




OBRA INCOMPREENDIDA

António Cardoso, director do Museu Amadeo de Souza-Cardoso em Amarante, diz que Amadeo tinha a cabeça em Paris e o coração em Manhufe. O que talvez seja verdade, pois a sua obra, sendo de vanguarda, conserva uma permanente ligação às raízes populares. De Amadeo, após a sua morte, diz-se muita coisa, é relacionado com vários movimentos e escolas – impressionismo, expressionismo, cubismo, futurismo… Ele recusa ser classificado como seguidor seja do que seja - reconhece influências, mas não aceita rótulos – sempre procurou a originalidade.

Rui Mário Gonçalves, em palestra na Academia de Belas Artes, revela que a pintura de Amadeo, bem como a dos seus amigos Sonia e Robert Delaunay, que fugidos à Grande Guerra, viviam em Vila do Conde, foi suspeita (por parte de gente do mar) de ser sinais para os submarinos alemães – porque «pintura de arte, não podia ser». Almada Negreiros considera-o o primeiro artista português a descobrir a Europa do século XX e, num artigo de jornal, acusa os contemporâneos de cegueira, dizendo que virão a ter remorsos de não terem sabido ontem o valor que hoje é reconhecido a Amadeo de Souza-Cardoso.

Voltemos a Jean Cassou, escritor, crítico de Arte, ensaísta francês; ele diz: :«Fremente de impaciência e de exuberância, ele é juventude em pessoa, numa extraordinária época que foi uma época de juventude» (…) «Souza-Cardoso e a sua obra vivem doravante no estrito reino da revolta e da esperança, na idade da juventude»