Polémica: consciência e livre arbítrio...

miguel bombarda

Médico e Político:
1851 - 1910



Quando tudo aconteceu...

1851: Nasce no Rio de Janeiro a 6 de Março. – 1877: Naturaliza-se português e termina o curso da Escola Médica. – 1883: Funda A Medicina Contemporânea. – 1892: É colocado à frente da direcção do Hospital Psiquiátrico de Rilhafoles. – 1898: O seu livro Consciência e Livre Arbítrio provoca grande polémica. – 1906: Notabiliza-se na organização do Congresso de Medicina de Lisboa ao mesmo tempo que inaugura o novo edifício da Escola Médica. – 1908: É eleito deputado ainda como monárquico. – 1909: Torna-se membro do Partido Republicano Português. – 1910: Coloca-se à frente da Junta Liberal, que pedia o registo civil obrigatório e a expulsão das congregações. – 1910: É eleito deputado republicano nas eleições de Agosto. – 1910: É membro do comité revolucionário para implantação da República em Portugal e considerado o seu chefe civil. – 1910: Não chegou, contudo, a assistir à vitória dos republicanos por ter sido assassinado por um louco em 3 de Outubro de 1910, poucas horas antes do início da revolta.

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LÁ O MATARAM!

Pela cidade, a notícia corre veloz, como correm as más novas. E toda a gente, ansiosamente, indagava do fundamento do que se propagava. Seria verdade? Teriam realmente assassinado o Dr. Miguel Bombarda? Mas quem? Com que fim? Para quê? E, enquanto a triste verdade não era conhecida em todos os seus pormenores, bordavam-se mil conjecturas. Grupos, pelas ruas, comentavam a notícia, ainda mal definida, dos quais saíam pragas contra o assassino, de identidade e condições de momento ignoradas.
— Lá o mataram!
Nada está, a tal respeito, averiguado. O que, de positivo, se sabe, é que o ilustre psiquiatra morreu às mãos de um doido, com o delírio da perseguição. É o que, por enquanto, está averiguado. Se o doido, e a sua especial doença, foram alvo de uma criminosa sugestão, impossível é dizê-lo, ou, no momento prová-lo, caso este boato tenha qualquer fundamento.
A verdade é que o Dr. Miguel Bombarda, deputado republicano por Lisboa, foi assassinado. Está morto; e a verdade é que esse facto produziu em toda a cidade de Lisboa e produzirá em todo o país uma sensação indescritível. A notícia realmente caíra na cidade como um raio. Ao princípio, a sensação foi de estupor; depois, foi de dor, depois de indignação contra o assassino. Mas se ele é um doido?..




UMA TRAGÉDIA DOLOROSA

Mais do que páginas e páginas de pormenorizados relatos, bastaram meia dúzia de linhas no diário de um memorialista genial para recriar a verdadeira dimensão de um dos cruciais eventos que precederam imediatamente a eclosão do movimento revolucionário que levou à implantação da República em Outubro de 1910: o assassínio daquele que assumiria a chefia civil da revolução. O memorialista é Raul Brandão, que, a 4 de Outubro, escreve nas suas Memórias, aludindo aos graves acontecimentos ocorridos na véspera:



“Mataram o Dr. Bombarda. Espalha-se na cidade que foram os padres que instigaram um tenente a assassiná-lo. É falso, mas há correrias no Rossio e O Portugal foi apedrejado. Toda a gente acredita num crime planeado, toda a gente se insurge contra o facto brutal — toda a cidade republicana se transforma num vulcão. No Rossio juntam-se grupos de gente taciturna e desesperada: — Mataram-no! mataram-no! — ouve-se. À uma hora da noite o Machado Santos, à frente dum bando de populares, atira-se ao portão de Infantaria 16”.




UMA TRAGÉDIA COMO ELA É CONTADA

Miguel Bombarda não estará com os seus, nesses dias de Outubro de 1910. Umas horas antes de a Revolução eclodir, um louco tirava-lhe a vida, prostrando para sempre o principal chefe civil das forças revolucionárias.

Tudo começa no dia 3 de Outubro pelas 11 da manhã, quando Miguel Bombarda, descendo dos seus aposentos do Rilhafoles para o gabinete hospitalar da direcção, é informado de que um visitante aguardava, na sala contígua, o momento de ser recebido. O seu nome está no cartão de visita que o médico logo lê: Aparício Rebelo dos Santos.

Lembrou-se rapidamente desse indivíduo, seu antigo cliente, outrora internado no manicómio, do qual saíra para ser observado e tratado por sumidades da psiquiatria francesa. Recordava-se do facto, sobretudo por ter anuído contrafeito a sancionar a alta requerida pelo pai do doente. Aparício dos Santos fora aluno dos padres jesuítas. Fez com distinção os preparatórios liceais e abraçou a seguir a carreira das armas, alcançando o posto de tenente.

Bombarda mandou entrar imediatamente o antigo cliente. Ao vê-lo, levantou-se da poltrona para o receber afavelmente: «Então como tem passado o meu caro tenente? Sente-se melhor?» Mas Aparício dos Santos, que avançara até meio do gabinete e ali se quedara imóvel, não respondeu. Bombarda estranhou o semblante carregado do demente, mas, como estava afeito àquelas posturas delirantes, continuou a aproximar-se de mão estendida. Em gesto brusco, o doido sacou uma pistola e desfechou o primeiro tiro à queima-roupa. A bala bateu numa costela e resvalou. Instintivamente, o psiquiatra correu para o alucinado, a fim de o desarmar. Mas ele dispara mais três vezes e os projécteis tinham-se alojado no ventre do médico. A cena durou alguns segundos. Um funcionário do hospício, acorre agarrando o demente pelas costas A restante carga da pistola já não atinge o director do manicómio. Aparício dos Santos gritava como possesso: «Largue-me que já não tenho mais balas...»

Levado para o Banco do Hospital de S. José, o médico vai-se esvaindo em sangue. Ao chegar ao hospital, ainda consegue entrar pelo seu pé no corredor daquele serviço. Os cirurgiões aparecem imediatamente e o Dr. Pinto de Magalhães pergunta-lhe quem o agredira. «Foi um doido!», respondeu Bombarda. «E diziam-me que estava curado...»

Momentos depois, já deitado na mesa operatória, deixou-se invadir pelo desânimo: «Morrer assim é estúpido», dizia ele. «Esta noite, Magalhães, podia eu morrer pela República!»




QUEM É MIGUEL BOMBARDA

Nascera no Rio de Janeiro, de pai português, em 6 de Março de 1851. O pai era miguelista, tendo regressado a Portugal em 1858. O filho naturalizara-se português e terminara o curso da Escola Médica em 1877. Fora intensa a sua actividade científica e actividade clínica. Grande autoridade em doenças nervosas, desde 1892 que fora colocado à frente de Rilhafoles, que buscou sempre melhorar. Ao mesmo tempo colaborava na luta antituberculosa. Pertencia a muitas sociedades médicas e outras, e à Academia das Ciências de Lisboa. Notável fora a sua organização do Congresso de Medicina de Lisboa, em 1906, ao mesmo tempo que inaugurava o novo edifício da Escola Médica.

Fundara A Medicina Contemporânea, em 1883, e a sua bibliografia científica é enorme. A ciência trouxera-o para a luta política e em prol da emancipação da consciência humana, e este aspecto mais se acentua à medida que os anos passavam. O seu livro Consciência e Livre Arbítrio, de 1898, provocou grande polémica com o jesuíta Manuel Fernandes Santana, que respondia no Correio Nacional e no volume Questões de Biologia — o Materialismo em Face da Ciência, a que Bombarda, com o estilo violento do seu contendor, responderia com Ciência e Jesuitismo — Réplica a Um Padre Sábio. Mas tudo isso a cova levava, uma vez que o «padre sábio» morrera cinco meses antes de Bombarda...

Participa nas manifestações do caso Calmon, em 1901, e depois pusera-se à frente da Junta Liberal, que pedia o registo civil obrigatório e a expulsão das congregações. Foi das maiores manifestações de Lisboa a de 2 de Agosto de 1909, dirigindo-se ao Parlamento, à testa da qual ia Miguel Bombarda. Muitas vezes ameaçado de morte, o cientista, clínico eminente, era um combativo político, que iria fazer parte do Governo Constituinte, depois de partilhar da luta popular que foi sobretudo a da proclamação da República. O seu anticlericalismo violento correspondia ao clericalismo implacável da época que olhava a justiça social como um pretexto de esmolas e a liberdade de pensamento como uma heresia. Mais do que qualquer outro dos dirigentes republicanos, Miguel Bombarda é representativo da sua época. Não por ser republicano. Só muito tarde entrou no Partido Republicano. Era o homem do seu tempo. Tanto que a obra de combate, a de ciência, a de assistência, ele a realiza antes de se inscrever no Partido Republicano.




NAS VÉSPERAS DA REVOLUÇÃO

A morte de Miguel Bombarda, dada a conhecer pelas notícias afixadas em O Século, foi como chama que se espalha por Lisboa inteira e a incendeia. Espelhava-se nos rostos a máscara das horas graves, de quem espera acontecimento grande. Vultos atarefados passavam, cosendo-se com as paredes, transmitindo ordens. Os dirigentes republicanos não se vêem. Na manhã de 3 tinham reunido os oficiais comprometidos na Rua dos Correeiros, na Empresa das Aguas do Monte Banzão, de Inocêncio Camacho.

Cândido dos Reis, em vista de os navios terem ordem para sair na manhã do dia 4, impunha a revolta na madrugada desse mesmo dia. Houve ainda hesitações; mas acabou por se marcar uma reunião definitiva para a Rua da Esperança, no segundo andar em que vivia a mãe de Inocêncio Camacho, às oito horas da noite.

À tarde, quando a notícia do assassínio de Miguel Bombarda corre de boca em boca e os conspiradores sentem o acre da vingança, Machado dos Santos encontra-se com Cândido dos Reis, no Centro de S. Carlos. Aquele diz que não estará na Rua da Esperança. A essa hora andará tratando de entrar em Infantaria 16. E, medindo todo o perigo, no seu feitio valente e pensativo, Cândido dos Reis diz para o comissário naval: «Então abrace-me. É possível que não nos tornemos a ver.»

Cândido dos Reis saíra da reunião da Rua dos Correeiros não muito optimista, mas mais decidido que nunca. Vários oficiais ressaltavam os contratempos; então ele: «A Revolução ou se faz esta noite ou não se faz.»

E, como as objecções continuassem: «Iremos com o que temos e, se a sorte nos for adversa, terei muita honra em ser fuzilado na rua pelos meus camaradas do Exército!»



A decisão estava tomada, embora no jornal O Mundo desse mesmo dia se levantasse de novo o fantasma da intervenção estrangeira. O ministro dos Estrangeiros, José de Azevedo Castelo Branco, dera uma entrevista ao Daily Chronicle em que dizia que se não fossem bastantes os meios de defesa contra os inimigos do regime: «O Governo tem outros meios à sua disposição que não hesitaria em empregar para acabar com a insurreição.»

Era a ameaça da invasão inglesa? O mesmo José de Azevedo procurara, na antevéspera, evitar as manifestações populares ao marechal Hermes da Fonseca, pondo em jogo o regime, como acontecera com o presidente da República Francesa, anos atrás. Por isso, o presidente do Brasil saíra pelo Arsenal e fora a caminho de Belém desabridamente. Mas o povo de Lisboa tinha ido aclamá-lo, no dia 2, com delírio, em frente ao palácio aonde ficara instalado.

À tarde, ao constar da morte de Miguel Bombarda, houve manifestações no Rossio, no Chiado. O placard de O Século atribui o crime aos clericais. Foi apupado, insultado, o jornal O Portugal, que o padre Matos dirigia e magotes de povo corriam as ruas, aos gritos, desabafando a sua ira contra a reacção.

Em toda a tarde, a fúria tomou os grupos que se formavam, aqui e além. No Rossio não cessavam os ajuntamentos, as explosões contra os Jesuítas, contra quanto cheirasse a reacção. «Lá o mataram!», dizia um, como se fora um membro da sua família. E outro respondia logo: «Morte aos padres!» E a manifestação lá seguia Chiado a cima, até O Portugal. Outros iam mais longe Calçada do Combro a baixo, até ao Quelhas.

Em frente ao sessenta e dois da Rua Garrett, em cujo segundo andar se encontra a redacção de O Portugal, a Polícia tem por vezes de intervir. Há pedradas, as lojas próximas encerram, vidros estilhaçados. Populares e marinheiros tentam desarmar a Polícia, mas esta resiste, os sabres vêem-se no ar. Há prisões.

O atentado contra Miguel Bombarda põe o País em alvoroço.

De toda a parte surgiam pedidos de informações sobre a agressão: Sempre é verdade? O Dr. Bombarda foi assassinado? Já morreu? Escapará? — Tais eram as interrogações aflitivas que se faziam.




A MORTE DE MIGUEL BOMBARDA

O agressor fora dominado, amarrado, vestiram-lhe o colete-de-forças e conduziram-no para o pavilhão dos doidos furiosos. Bombarda serenamente dizia: «Não são duas balas que matam um homem. Tenho de ir ao Hospital de S. José, que estou ferido!»

Mandara chamar logo o Dr. João de Meneses. Não esquecia que se estava à beira da revolução e que tinha uma missão grande a cumprir.

Era na República que ele pensava, quando chegou o Dr. Francisco Gentil e entrou na sala das operações. Chegam também João de Meneses e Brito Camacho. Acena-lhes e diz baixo a João de Meneses: «Vá dizer ao Cândido dos Reis que a senha a pode dar ao Simões Raposo.»

Contou o que se passara e, como a operação tinha de se fazer no anfiteatro especial, já não sentia forças para se erguer, nem sequer para tirar dos bolsos todos os papéis que lá trazia e que mandou entregar em sua casa. Mandou ainda tirar da carteira um papel determinado que quis ver queimar. Era o plano geral da Revolução, com a distribuição dos grupos, como o que havia entregue antes a Simões Raposo. Depois: «Estou pronto!» Encostado aos médicos, dirigiu-se, já tacteando, à medida que as forças faltavam, para o salão de operações. Era ele que ia animando sobretudo João de Meneses e Brito Camacho, os mais emocionados e medindo o que representava para a República a falta de Bombarda. A seu filho foi dito claramente que não eram grandes as esperanças e que deveria ir preparar a família para o pior. Não se lhe permitiu assistir à operação.

No banco, os médicos de serviço, reconhecendo a gravidade dos ferimentos, fizeram-no transportar para o anfiteatro da casa das operações, e na presença de grande número de médicos e quintanistas da Escola Médica os Drs. Gentil e Oliveira Feijão, sem perda de tempo, procederam à operação da laparatomia. Ao cabo de três quartos de hora de trabalho já lhe têm encontrado seis perfurações intestinais. Em certa altura da operação suspende-se a cloroformização e a anestesia passa a ser feita com éter. Há o receio de complicações fatais e os médicos que estão no segredo da operação mostram-se em extremo pessimistas.

O Dr. Gentil, feito o desbridamento, encontrou numa ansa intestinal as seis perfurações e duas contusões. Não encontrou a bala que causou todo esse estrago, calculando-se que esteja alojada na massa muscular do quadrado dos lombos. Na impossibilidade de prolongar a exploração, o Dr. Gentil coseu a parede abdominal, protegeu a ansa ferida com compressas drenou e mandou transportar o ilustre professor para um quarto particular do hospital de S. José, onde ficou sentado no leito.

Às 3.30 da tarde declara-se a peritonite e o desenlace, na opinião de muitos clínicos, é inevitável. Outros confiam em que a robustez física do ferido triunfará da infecção peritoneal. Junto do leito está o Dr. Beirão, o Dr. Miguel Bombarda Júnior e um oficial de infantaria 1, que ali foi examinar a pistola de que o louco, que é tenente, se serviu para o acto criminoso.

Conta-se que Miguel Bombarda, que habitualmente recebia muitas cartas de loucos e de reaccionários, ameaçando-o de morte, dissera, há dias, ao ler um desses papéis:

— Não queria morrer já; isso seria dar um alegrão à canalha que me odeia.

Às quatro da tarde, vê-se passar para o quarto do ferido vários balões de oxigénio. O estado do ilustre homem de ciência é desesperado. Fora do hospital a aglomeração é enorme.

No Rossio, onde um frade se permitiu aplaudir o atentado, a agitação é extraordinária.

O estado do distinto professor, porém, apesar dos esforços para salvá-lo, piorava, sendo, por último, necessário propiciar-lhe oxigénio, para manter o pulso convenientemente. Em seguida à sonolência, causada pela anestesia, ficou muito agitado. Declarara-se a peritonite, e o desenlace era fatal.

A vida ia-se-lhe esvaindo, com o sol da tarde. Francisco Gentil lembrava-lhe a necessidade de descanso, mas ele exigia ler o relatório médico-legal. Depois encostou-se mais. Já não via e perguntou quem lhe apertava a mão.

— O doutor Francisco Gentil…

— Tenho pena de que ele não seja meu filho porque é muito bom rapaz.

Nova crise, mais tranquilidade momentânea, angústia e, às seis e cinco minutos num murmúrio: «Estou muito mal!»

Foi o fim. Francisco Gentil saía da sala, desesperado, e o filho e o irmão de Bombarda abraçavam-se e choravam como crianças.

Notava pouca gente, quase ninguém, junto do doente, donde inferia andarem nos trabalhos de pôr de pé a revolução. As primeiras homenagens eram da família, dos médicos e da Maçonaria.

Miguel Bombarda, que morre no momento em que a revolução vai estalar, era uma das primeiras figuras da ciência e da intelectualidade portuguesas.




O ASSASSINO. QUEM É ELE.

O autor deste abominável crime é tenente do exército, com o curso do estado-maior, e chama-se Aparício Rebelo dos Santos, de 32 anos de idade, que há cerca de um ano, e durante uns três meses, esteve internado em Rilhafoles, por loucura e delírio perseguidor, com a recomendação de ser muito vigiado, visto que as suas alucinações concentradas eram das mais perigosas. Tinha a mania da perseguição. O pai, que é um grande proprietário no Brasil, requereu para lhe ser entregue o filho, a quem desejava levar a Paris para consultar alguns especialistas da capital francesa.

O que se sabe é que, depois de o Rebelo ter estado internado aqueles meses em Rilhafoles, foi para a África, onde o clima tropical, parece, lhe acabou de agravar ainda o pouco juízo que já tinha. Regressando à metrópole, acentuou-se-lhe a mania da perseguição e há tempos que procurou o Governador civil, que o enviou ao Comandante da polícia, fazendo a esta autoridade tais revelações de supostas perseguições que logo o coronel Morais Sarmento ficou convencido de que se tratava de um doido, resolvendo-se oficiar para o Depósito de Praças do Ultramar, a que está adido, para providenciarem devidamente sobre o caso. Ao comandante da polícia chegou o Rebelo, a certa altura das suas queixas, a dizer-lhe o seguinte:

— Tanto me perseguem, por todos os lados, que, indo eu uma destas noites ao teatro do Príncipe Real, vi lá uma peça que era a reprodução da minha vida. Nem no teatro me largam!

O criminoso apareceu em Rilhafoles de trem de praça, o qual depois serviu para conduzir o ferido ao hospital de S. José. Depois do crime, o tenente Rebelo não mostrou a menor comoção, tendo o aspecto indiferente dos loucos perigosos com a mania da perseguição. Apenas quando foi subjugado disse ao fiscal Martins:

— Pode largar-me, que já acabaram as balas. Não tenha medo!

O tenente Aparício nasceu em 5 de Julho de 1878. Sentou praça em 13 de Setembro de 1898, foi promovido a alferes em 25 de Outubro de 1900 e a tenente em 1 de Fevereiro de 1905. Tem o curso do estado-maior. Como já se disse noutro lugar, esteve em Rilhafoles durante meses, de onde saiu contra vontade do Dr. Bombarda, que o não dera por curado.

Uma nota curiosa:

Corria ontem que um enfermeiro do hospital de S. José afirmou há dias ao Dr. Esteves da Fonseca:

— A vida do Sr. Dr. Bombarda corre perigo.

E que ontem, quando soube do crime, observou ao mesmo clínico:

— Vê... bem lhe dizia!

O certo é que esse enfermeiro, ao que apurámos, ficou detido no hospital, para averiguações.




A INDIGNAÇÃO POPULAR

A indignação no povo era, como já foi dito, geral. Uma provocação bastava para exacerbá-lo ainda mais. Foi o que sucedeu. Pelas 4 horas da tarde deu-se o primeiro conflito na praça do Rossio por ter um indivíduo, junto à sucursal do Século, aplaudido o assassínio do Dr. Miguel Bombarda:

— Foi bem feito!

Perante tão estúpida opinião, levantaram-se protestos, sendo o homem apupado até à calçada do Carmo. Um padre que também ali se encontrava, como censurasse o procedimento dos populares, teve de se refugiar na ourivesaria de Xavier de Carvalho, 203, onde, para disfarçar, pediu que lhe trocassem 10$000 réis em prata por papel.

Como visse que o povo protestava contra a sua atitude e temesse qualquer desforço violento, refugiou-se no interior do dito estabelecimento, pelo que alguns populares, julgando que ele se evadisse pelos lados da rua do Príncipe, para onde aquele estabelecimento tem duas portas com os números 20 e 22, as apedrejaram danificando-as ligeiramente. A polícia nessa ocasião, puxando das espadas, houve-se com a amabilidade do costume, distribuindo pranchadas a torto e a direito, a ponto de o capitão França os intimar a aplacar a fúria.

Pouco depois, um outro padre, que se supõe pertencer ao colégio de Campolide, como, ao apear-se na paragem defronte do café Gelo, visse muitos populares, fez menção de tirar da algibeira qualquer arma, mas, como fosse apupado, refugiou-se na tabacaria Espanhola, da rua do Príncipe, onde o capitão França, depois de ter mandado afastar os populares, o aconselhou a tomar um carro eléctrico, que, naquele instante, seguia para a Estrela.

Como os populares seguissem até à Avenida o eléctrico onde o reverendo entrara, o cabo 55 mandou desembainhar das espadas e correr sobre eles, sendo preso nessa ocasião um rapaz que, levado para o governo civil, foi pouco depois mandado pôr em liberdade.

No Chiado também se salientaram os guardas 1221 e 886, que, na fúria que de quando em quando os acomete, não respeitaram ninguém, chegando o primeiro a agredir com uma pranchada nas costas uma pobre velhota que passava.

Tanto no Rossio como no Chiado, e noutros pontos da cidade, houve manifestações de revolta. Ontem à tarde, seriam 6 horas, um numeroso grupo de populares subiu o Chiado fazendo ruidosa manifestação em frente do órgão dos jesuítas, O Portugal.




SENTIMENTO PÚBLICO

Miguel Bombarda faleceu às 6 horas e 5 minutos da tarde. Às sete horas foi o cadáver, coberto com um lençol, metido na maca do hospital e dali conduzido, por quatro moços, para a sala dos passos perdidos do novo edifício da Escola Médica, edifício inaugurado em 1906 pelo Congresso Médico, de cuja organização Miguel Bombarda fora a alma solícita e activa. Acompanhando o cadáver, além de pessoas de família do extinto, iam, pelo corpo docente da Escola, os Drs.: Augusto de Vasconcelos, Monjardino, Silva Amado, Henrique Jardim de Vilhena, e Drs. Ravara, Brito Chaves e Bastos Lopes.

O número de visitantes ao hospital foi aumentando durante a noite. Logo ás 7 horas e 1 quarto da noite, esteve ali o conselheiro Teixeira de Sousa, que apresentou as suas condolências e as do Governo à viúva do desditoso professor, a qual momentos antes ali chegara, acompanhada do filho e do irmão de Miguel Bombarda.

O cadáver está na maca do hospital, sobre um pequeno catafalco, que quatro tocheiros ladeiam, a meio da sala dos passos perdidos, em frente da porta que abre para a sala dos actos. Um lençol envolve e encobre o corpo nu do ilustre professor, que conserva ainda os pensos e as ligaduras da operação. O rosto, que, apesar de sereno, ganha já os primeiros livores cadavéricos acentuados, está coberto, também com um lenço. Em volta, vestidas de negro, algumas senhoras, parentes próximas do finado, velam piedosamente o cadáver. Ali estão também o irmão do Dr. Miguel Bombarda e o escrivão Moreira. Numa outra cadeira e debruçada, numa comovedora, convulsiva angústia, sobre o corpo, está uma figura, um vulto de mulher, de luto carregado, rosto quase coberto por uma mantilha preta, que chora permanentemente. Alguém esclarece:

— É a viúva.

E uma grande dor compunge todos, vendo o soluçar constante daquela alma ferida pela mágoa pungente e crudelíssima.

O filho do extinto passeia, nervoso e inquieto, ao longo da sala, preso de dor idêntica. Por vezes, os seus olhos marejam-se-lhe também.

O silêncio paira inviolável na sala deserta de quaisquer decorações e mobília, além dos panneaux de azulejos, da meia dúzia de cadeiras e do catafalco onde a maca com o cadáver repousa. Junto da porta lateral sobre uma mesa improvisada, em folhas soltas, registam-se as assinaturas das pessoas que ali estiveram a inscrever os seus nomes — de médicos e de alunos do professorado. Na sala dos actos, mergulhada quase em trevas, movem-se indecisamente alguns vultos.

No Mundo receberam-se numerosos telegramas pedindo notícias detalhadas do triste acontecimento, assim como muitos cartões de pêsames pela morte do ilustre e dedicado correligionário.

Entretanto, o enfermeiro Xavier, encarregado da ronda ao hospital de Rilhafoles, passou pela enfermaria de Santa Esperança, onde se encontra detido o tenente Aparício Rebelo dos Santos. O enfermeiro perguntou-lhe se se achava arrependido de ter assassinado o Dr. Bombarda. O tenente, cheio de resolução, respondeu secamente:

— Não estou arrependido. Havia de o matar, fosse aonde fosse.

A autópsia foi feita no dia 5 de Outubro. Notou-se uma ferida de bala no coração, a qual abrira dois orifícios na grande camada de gordura que cobre o miocárdio do ventrículo direito. No ventre havia seis perfurações no intestino delgado. Não havia peritonite. A bala estava alojada na massa musculosa da fossa ilíaca esquerda. Notaram também que, à parte as lesões do atentado, ele tinha lesões tais que a sua vida corria graves riscos. A causa da morte foi a congestão pulmonar.




UMA DECLARAÇÃO

Previamente preparada, Miguel Bombarda deixou uma declaração para ser enterrado civilmente.

Essa declaração é concebida nos seguintes termos:



— Eu, Miguel Augusto Bombarda, lente da Escola Médica de Lisboa, de 59 anos de idade, casado, nascido no Rio de Janeiro, mas português, morador hoje no hospital de Rilhafoles, filho de António Pedro Bombarda e de Maria Teresa Bombarda, não professando a religião católica, desejo que, por ocasião do meu falecimento, me seja feito o enterro civilmente e por ser esta a minha espontânea e consciente vontade, quero que fielmente se cumpra.



Lisboa, 14 de Julho de 1910.

Miguel Augusto Bombarda.