Existe muita tristeza na rua da Alegria...

Ismael Silva

Professor de samba:
1905 - 1978



Quando tudo aconteceu...

1905: Nasce Ismael, em Jurujuba, Niterói, Estado do Rio. – 1908: Morre-lhe o pai – Benjamim da Silva. Muda-se para o Bairro do Estácio. – 1912: Ingresso na escola pública, onde aprende a ler, escrever e a se movimentar pelas ruas do Estácio. – 1916: Ingresso no Liceu de Artes e Ofícios, curso técnico. – 1919: Compôs sua primeira música Já desisti. – 1922: Término do curso ginasial. – 1928: Início das relações comerciais com Francisco Alves. – 1929: Desfile da primeira Escola de Samba “A Deixa Falar”, fundada por Ismael e outros bambas do Estácio. - 1935/38: Período em que cumpriu pena no presídio Frei Caneca. – 1940: Volta a ter sambas gravados, mas desaparece até os anos 50. - 1950 a 1960: Anos de grandes dificuldades financeiras. Gravação de Antonico, em que relata as dificuldades por que passa um amigo, talvez ele mesmo. - 1963/64: Aparecimento do “Zicartola”, bar de encontro dos compositores do samba autêntico. – 1966: Participação no espetáculo O Samba Pede Passagem, organizado por Sérgio Cabral, em que participa ao lado de Baden Powell, Araci de Almeida, MPB-4, Raul de Barros, entre outros. – 1970: Show na boate “Jogral” - 1973/74: Com Carmen Costa comanda o espetáculo Se você jurar, que viraria disco. - 1975/76: Gravações e shows. – 1978: Morte de Ismael Silva – por enfarte, decorrente da cirurgia de próstata a que foi submetido.

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SAMBA NO MORRO NÃO É SAMBA, É BATUCADA

Eu nasci em 1905, em Jurujuba, Niterói. Aos três anos vim para o Estácio, com minha mãe. O Estácio fazia parte da Pequena África Carioca, que se estendia da Saúde, Gamboa à Praça Onze, da Praça Onze ao Estácio, Catumbi. Era um reduto de costumes africanos trazidos da Bahia, quando nós imigramos para cá. Convivi com essa cultura. Cultivei e fui cultivado por ela. Sou sambista. Um dos bambas do Estácio.

Sou negro e como negro devo achar meu caminho na vida. A libertação muito recente não modificou em nada nossa situação. Somos postos de lado nas escolas, nos serviços. A identidade que nos envolve é penosa e devemos lutar para preservá-la.

Não, não é isso. O que houve foi uma novidade no ritmo, uma modificação do que já havia nos lundus, nas polcas, no maxixe, no batuque. A situação era difícil. As fazendas de café, as guerras pela República despejaram gente na cidade, fazendo não haver lugar para todo mundo. O jeito foi subir o morro. A região onde o samba nasceu era mais pobre, mais abandonada do que a que se vê aqui hoje. O samba representa, leva essa marca desde sua origem. Para nós, galgar os espaços, conquistar as rádios nunca é fácil – roubam-nos as músicas, somos obrigados a vendê-las e as vendemos.

A história do samba. Dizem que o primeiro samba é Pelo Telefone – não é; esse é maxixe. No morro, samba é batucada. O samba mesmo nasce de uma necessidade rítmica que nos permite cantar, dançar e desfilar ao mesmo tempo. O samba tem uma história interessante e longa – vem da Bahia. Os nossos ascendentes são negros que sofreram a escravidão, que trabalharam. A malandragem foi e é uma forma de sobrevivência, necessária. Aprendemos a defender, desde a escravidão, o nosso corpo que é o que possuímos. Isso ficou, na fama de valentia, nas danças dos pagodes dos morros. A navalha no bolso. O corpo do malandro é intocável – sua casa, seus haveres são outra coisa, nunca tivemos.

Então, os negros se empregavam no cais do porto. Toda aquela zona era o nosso domínio. Não, o trabalho não nos integrou à sociedade, não. O contato acabou por se fazer naturalmente; embora marginalizados, participávamos da vida social – minha mãe mesmo lavava roupa para o Flamengo, as Laranjeiras e acho que São Cristóvão. Estávamos nas ruas, não é? O trabalho não nos dá nada, nem dinheiro, nem reconhecimento social. Havia era a precisão de ganhar a vida, o sustento, e isso fez com que buscássemos alternativas. O cais dava emprego, mas não para todos. A música poderia ser uma saída. Nós fazíamos música e havia o mercado fonográfico... os discos... e uma necessidade de furar o bloqueio social. O negro é muito mal visto. Branco é quem compra disco.

No carnaval há manifestações do que quero dizer. Havia o bloco de sujos e os ranchos. Os blocos de sujos eram uma manifestação selvagem, socialmente tensa, provocadora de tumulto e violência; os ranchos, cercados por cordas, eram organizados, mas faziam-se acompanhar por música dolente e arrastada, parecia procissão. Evidentemente as autoridades davam preferência a eles. O carnaval bem-comportado recebe o aplauso branco até hoje, não é? Daí que foi isso: o samba nasceu desta necessidade social e rítmica. Donga diz que o samba é marcha, não é. Apenas deixou de ser maxixe, apenas deixou de ser batucada.






REGISTRO

O que se passou foi o seguinte. Numa sala da SBACEM, é, da Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música, eu e Donga discutimos sobre o verdadeiro samba. Foi assim, o Sérgio Cabral pode confirmar:

- Ué, ué. Samba é isso há muito tempo: “O chefe da polícia / pelo telefone/ mandou me avisar / que na Carioca / tem uma roleta para se jogar.”

- Isso é maxixe.

- Então o que é samba?

- Se você jurar / que me tem amor / eu posso me regenerar / mas se é pra fingir, mulher / a orgia assim não vou deixar.”

- Isso não é samba, é marcha.




DEIXA FALAR

Bem, fundei, no Estácio, com os bambas de lá, a primeira escola de samba, a Deixa Falar. Era costume, no carnaval carioca, a disputa, que sempre degenerava em briga. A polícia batia, nós revidávamos – não era bom para ninguém, não é? A Deixa Falar nasceu do desejo de não apanhar da polícia. Alguns dizem que o samba se modifica, se adapta ao mundo social por isso. E podia ser diferente? Samba não é folclore, tem de se modificar. É a parte viva da nação. O sambista interage, anda nas brechas do permitido e vai se afirmando, se aprimorando...

Uma das mudanças que aconteceu ao longo dos anos, que faz parte mesmo das mudanças sociais do país, foi a maior participação popular. Isso pode ilustrar a importância do que fizemos, eu, Edgarzinho, Nilton Bastos, Bide e Marçal. Foi através das escolas de samba que a preocupação política se estendeu a uma faixa maior de cidadãos, que nós pudemos soltar a nossa voz e criar algum respeito.

Um amigo meu, o Cartola, fez um samba belíssimo sobre isso... “Os tempos idos/nunca esquecidos/trazem saudade/ao recordar/uma escola na Praça Onze/ testemunha ocular... então vinha: é exemplar. “Depois aos poucos o nosso samba/ sem sentirmos se aprimorou/ pelos salões da sociedade ele entrou/ já não pertence mais à praça/ já não é samba de terreiro...” A escola de samba foi um ato programático que serviria de impulso social à integração negra. A partir da fundação da Deixa Falar, o malandro pôde brincar seu carnaval, sem ser incomodado, como os brancos, entende?

Deixa Falar, porque éramos atacados. Como fizemos modificações no modo de desfilar, para a segurança do grupo, os tradicionalistas disseram-nos não. Vinham saber, reclamar. Instigar. Deixávamos que falassem, por um lado. Por outro, as mudanças promovidas ao longo dos tempos trouxe uma dinâmica de desfile, onde liberdade e salvo-conduto para brincar o carnaval, sem apanhar, resultou numa maior socialização das camadas populares. A coisa é bem bolada. Tivemos reações contrárias de um e outro lado.

Nasceu a Deixa Falar que tinha como organização e exigência a presença de diversos elementos que se perpetuam até hoje. As baianas, exigência minha, o mestre-sala, o porta-bandeira e destaques. Não havia enredo no princípio – no primeiro ano em que a Escola desceu – saída do Buraco Quente, na Mangueira, não havia nenhuma determinação temática e para não dispersar e manter tudo certo, arrumadinho, tivemos que criar o ritmo. O segundo desfile já foi feito com enredo, era uma versão nossa da Divina Comédia, com baiana e tudo!

Pois bem: aqui está a escola de samba. Milhões de pessoas. Um solista. Quando o samba entra na segunda parte, entra o solista. Como é que, naquela confusão toda, o pessoal vai saber quando deve atacar a primeira parte novamente? Aí é que entra o surdo, que dá aquelas duas porradas fortes e o pessoal entra maciço, certinho.

Estamos aí – o samba é o retrato da nação, nossas histórias são contadas pelos versos, sentidas pelo levar dos instrumentos. Amanhã acontecerá de novo.

Anote ainda duas coisinhas mais aí: o samba provocou a substituição da música européia pela de origem africana, na sociedade brasileira e mais: quando é que a gente poderia imaginar que aquelas brincadeiras fossem dar nisso? Uma coisa de esquina encher avenida? Hoje isso não é mais escola. É universidade, é academia, é faculdade, sei lá! A festa maior. Que coisa!




PARCERIAS

Quando componho, componho samba. No estilo antigo, o samba era assim: tan tantan tan tantan. Não dava. Como é que um bloco ia andar assim na rua? Aí a gente começou a fazer um samba assim: bumbum paticumbumpruburundum. A partir do meu meio social, fiz muita música – a primeira aos quatorze anos – Já desisti. A temática era o Estácio, seus habitantes, seu modo de vida. A malandragem, o amor.

Fiz música com amigos, outras vendi a parceria... com Noel, com Nilton Bastos, com o Lamartine Babo. Já com o Chico Viola – o Francisco Alves – muitas parcerias foram compradas. Sambista negro e pobre, sabe como é, não? Entrar para o mundo da música profissional, só através das mãos brancas mesmo.

O contato foi quando eu estava hospitalizado. Bide apareceu para uma visita, olhar afobado, foi logo me dizendo:

- Ismael, O Chico Alves ouviu Me faz carinhos e quer comprar seu samba!

Dei um pulo da cama, é claro! Oferecia 20 mil réis. Sair um samba meu, gravado pelo Francisco Alves era espantoso. Eu tinha 23 anos, estava internado, e sabia, tinha tanta consciência disso naquela época, quanto tenho hoje, que aquela era a minha chance. Vendi o samba. Ficou nisso. Um dia, no Estácio, ele apareceu por lá, num carrão. Acordamos nosso negócio sob um poste que está no Estácio. Deveria ser tombado, boa parte da música dos anos 30 nasceu ali. O acordo selou uma parceria que rendeu muitos sucessos. Primeiro compus sozinho ou com o Nilton Bastos. Depois com o Noel Rosa. Nesta época sempre ganhávamos um parceiro extra – o Chico. Não, não é como é hoje. A parceria comprada era uma instituição e só através dela o sambista conseguia se colocar em um mundo diferente do que vivia.

Uma ilustração do que digo. Já no final de nossa parceria, num show do Chico, em que ele foi ovacionado, cantando minhas músicas, a platéia exigiu minha presença no palco. O Chico Alves me chamou. Eu subi. E ele me apresentou, levantando-me o braço direito:

- Este é o Ismael Silva, o preto de alma branca!

Minha música é espontânea, letra e música saem juntas, mas eu não sou otário, não. O Estácio é meu berço, o berço do samba que ele cantava. O samba é negro de alma negra.




MALANDRO QUE É MALANDRO

Malandro que é malandro não desperdiça tapa. Eu não desperdicei o que precisei dar. Mexeram com minha irmã e tirei satisfação. Noel havia me dito que no século do progresso o revólver apareceu para acabar com a valentia. O tiro não matou o sujeito, acertei sua bunda. Fui condenado a cinco anos de reclusão, pena mínima. O Dr. Prudente de Morais, neto, defendeu-me. Cumpri metade, por bom comportamento.

Desse episódio guardo duas lições. O mundo branco não perdoa a quem foge de suas regras ou impõe um pesado fardo a quem dele se desliga. Fiquei anos sem gravar, sem compor. A outra é a de que a lei pode ser melhor ou pior lida se dela fazem defesas pessoas ilustres. Tudo é apropriação, não é?




CADEIRA CATIVA

Há casos que acontecem com a gente que ficam gravados na memória. Nem tudo é glória ou desgraça na vida de um sujeito, malandro ou não. Eu apenas mantenho o charme da malandragem. A vida pesa sobre nós. Ela é implacável. Nunca a vida das pessoas pobres foi satisfatória. A escola de samba foi feita para a diversão dessas pessoas, não é? Pois, então, como nós podemos pagar os ingressos? O samba, desde que passou para a jurisdição da administração, foi perdendo essa participação popular de irmos ver o desfile e torcermos para a nossa agremiação. Eu mesmo não posso ir à avenida ver o desfile...

Todo carnaval vocês me entrevistam, falam comigo. Criticam as autoridades por não me darem um lugar de honra para ver o desfile. Acho justo, claro. Sugere daqui, insiste dali, um prefeito desses de vocês resolveu criar uma lei dando direito a duas cadeiras cativas para eu assistir o desfile. Precisava disso? Eu? Eu não pedi nada. No mesmo ano, em 1976, vieram buscar-me com o carro da Assembléia. Cheguei à avenida. Quando procurei o lugar, as minhas entradas eram para as arquibancadas.

Eu acho que tem que ser cumprida a lei. O que me deixa triste é as pessoas ainda pensarem que você é bobo. Só elas são inteligentes. Protesto, sim. Lugar nobre é nas cadeiras cativas. E no samba quem é mais nobre do que eu? A história parece se repetir, não?




ISMAEL, LEGENDA DO SAMBA

Dizem que o sucesso de minhas músicas é eterno; que meu nome uma legenda. E eu estou aqui. Vocês vêem: estas mesas, minha bengala, o time do América de onde tiramos as cores da Deixa Falar – vermelho e branco – meu terno branco, já gasto – tudo é a imagem do sambista. Ontem ainda vieram me chamar para um circuito universitário, cantar para os jovens. Minha música está aí, falando para quem deseja, com o mesmo vigor de sempre...

O fim do negócio com o Chico Alves, a prisão, o desgosto me fizeram meio solitário. As pessoas não só não dão emprego como se afastam. Assim, raramente uma composição minha aparecia...

Acontece que há pessoas interessadas em samba, sempre. Algumas delas me fizeram o favor de recolocar o samba na ordem do dia: Almirante e Sérgio Cabral. Almirante nos anos 50 criou toda uma expectativa de recepção do samba. Cabral nos anos 60. Nos anos 70, além do Cabral, o Ricardo Cravo Albin.

Durante o início dos anos 60, o país entrou em ebulição. Parecia que as questões culturais, a discussão sobre a melhor maneira de nós olharmos para nós mesmo, enfim, teria uma grande explosão. O país respirava sua história, valorizava certos aspectos perdidos. Cartola, Zé Kéti, Nélson Sargento, Nélson Cavaquinho, eu e outros víamos crescer o interesse por nossas músicas e o despontar de alguns compositores que reliam o samba, como os bambas do Estácio fizeram, uns quarenta anos antes. O Paulinho da Viola, O Elton Medeiros. Os freqüentadores sabiam nossas músicas. Foi uma beleza.

Nos anos setenta fiz shows em 70, 73, 74, 75. O show de 74 está registrado em disco. Todos cantam minhas músicas, meus sambas, nesses shows. Acompanham. Algumas eu só marco o compasso com o braço, na dignidade de velho sambista do Estácio, que sabe o que faz. Mas são aparições complicadas, pois não resolvem meus problemas. Como você vê – minha vida não mudou muito desde quando passei a morar no Estácio, não é? Vez ou outra a renovação da certeza de que o samba sempre resiste, se reafirma. No show que fiz no Teatro Senac, em Copacabana, o Chico Buarque diz de minha música: “Ismael é a maior influência que eu tenho em toda a minha obra. Muito maior que as citações que me são imputadas: Noel Rosa e Ataulfo Alves. Ismael, na verdade, é o meu verdadeiro pai musical”.
Faço sambas, vivo na pendura – vou ser internado para uma cirurgia. Tenho 72 anos. Quando sair do hospital vou fazer o circuito universitário, me apresentar em shows, cair nas atividades.

O velho sambista tem de lutar pela sobrevivência, não é?