Palpitam-me os sons do batuque...

Agostinho Neto

Primeiro presidente da República de Angola:
1922 - 1979



Quando tudo aconteceu...

1922: Nasce em Kaxicane, Angola. 1947: Depois de concluir o liceu em Luanda vai para Portugal e matricula-se em Medicina, em Coimbra. 1949:Transfere-se para a Faculdade de Medicina de Lisboa. 1951: É preso pela PIDE por andar a recolher assinaturas para a Conferência de Paz em Estocolmo. 1953: Participa no Festival da Juventude, em Bucareste. 1955: É outra vez preso pela PIDE. Dois anos depois a AMNISTIA INTERNACIONAL elege-o como Prisioneiro Político do Ano. 1958: Forma-se em Medicina e casa com Maria Eugénia. 1960: É eleito Presidente Honorário do MPLA. 1962: Foge, clandestinamente, de Lisboa para Kinshasa. 1974: Revolução dos Cravos, em Portugal. 1975: Independência de Angola, com Agostinho Neto na Presidência. 1979: Morte de Agostinho Neto, em Moscovo.

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CAFÉ CHIADO

Ó Agostinho Neto,

Angolano que tu és, negro filho de negros, nasceste em Kaxicane, a 60 quilómetros de Luanda. Conheci-te em 1952, no CAFÉ CHIADO, em Lisboa. Tu, estudante de Medicina, primeiro em Coimbra, depois em Lisboa. Apesar dos estudos ainda tens tempo para escrever poesia, a tua apetência.

Eu, oscilando entre Económicas e Letras, sei que em 1951 foste preso pela PIDE por andares a recolher assinaturas para a Conferência de Paz em Estocolmo. Por isso, logo me apeteceu ser teu amigo. Porém, sisudo te mantiveste, como sempre. És o oposto do MÁRIO PINTO DE ANDRADE, outro angolano frequentador do CAFÉ CHIADO e sempre em busca de acontecimentos que provoquem gargalhadas. Resolvo provocar-te, a ver se te arranco um sorriso:

- Ó Agostinho, as raparigas com as maminhas ao léu, fazem da vossa terra um autêntico paraíso. Ou não fazem?

Silêncio. Insisto:

- Então, não dizes nada?

Lá te descais:

- Nós não ligamos para isso.
- Ai não? Então o que é que vos assanha?

Explicação final:

- É um rabo a rebolar...

Gargalhadas, porém minhas, pois carrancudo tu continuas. Como sempre...




FESTIVAL DA JUVENTUDE

Em Agosto de 1953 voltamos a encontrar-nos, mas em Paris. Ali, entre portugueses e africanos somos dez. Num avião romeno, de Paris seguimos todos juntos para Bucareste, onde vai ocorrer mais um Festival da Juventude, de inspiração comunista.

No cortejo inicial pretendes desfilar sozinho empunhando um cartaz com o nome ANGOLA. Aviso:

- Ó Agostinho, põe-te a pau, olha que vais ser um petisco para os fotógrafos. Para que a PIDE não te reconheça nos jornais, o melhor é usares óculos escuros e uma barba postiça muito comprida.

Recusas:

- Eu sou quem sou, nunca me disfarço.
- Tu lá sabes...

Em Fevereiro de 1955, em Lisboa, durante um comício de estudantes, operários e camponeses, outra vez és preso pela PIDE. Mas ninguém me tira da ideia que o motivo principal dessa nova detenção foi a fotografia do teu desfile em Bucareste...




PRISIONEIRO POLÍTICO DO ANO

A tua prisão provoca indignação internacional. Entre outros, a dos franceses Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Louis Aragon e André Mauriac; a do cubano Nicolás Guillén; a do mexicano Diego Rivera.

Em 1957 és eleito Prisioneiro Político do Ano pela AMNISTIA INTERNACIONAL. Esse protesto global contribui decisivamente para a tua libertação ainda em 1957.




LICENCIATURA E CASAMENTO

Em 1958, no mesmo dia em que obténs a licenciatura em Medicina, casas-te com a Maria Eugénia, portuguesa e branca. Trombudo és tu, mas racista, lá isso é que não.

Ainda em 58 és um dos fundadores do clandestino MAC (Movimento Anticolonial). Nele participam africanos de todas as colónias portuguesas.




PRISÕES E FUGA

Em fins de 59 voltas a Luanda com a Maria Eugénia e o vosso primeiro filho, o pequenito. Abres um consultório e começas a atender graciosamente pacientes que não têm dinheiro para pagar consultas. A tua atitude é considerada subversiva. É o próprio director da PIDE em Angola quem te dá ordem de prisão. A população da tua aldeia insurge-se, manifestação ruidosa, porém pacífica. Reacção da polícia: tiros, massacre, trinta mortos e duzentos feridos.

Mesmo preso, as autoridades fascistas não acham conveniente a tua presença em Angola. Por isso transferem-te para uma prisão em Lisboa e depois para o campo de concentração do Tarrafal (Cabo Verde).

Em 1960, em Conakry (Guiné), Viriato da Cruz e os irmãos Joaquim e MÁRIO PINTO DE ANDRADE elegem-te Presidente Honorário do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Em 1961 o MPLA muda a sua sede para Kinshasa (ex-Leopoldville, Congo, perto da fronteira com Angola).

És novamente transferido para Lisboa, prisão do Aljube. A indignação nacional e a internacional outra vez provocam a tua libertação, embora com residência fixa em Lisboa. É esta circunstância que, em Julho de 1962, facilita a tua fuga clandestina para Kinshasa. A tua e a da tua família.




INDEPENDÊNCIA

Honorário tu já eras, mas passas a Presidente efectivo do MPLA. Apoiado pelas tácticas e pelas armas soviéticas, comandas a guerrilha contra a tropa colonial portuguesa.

Para além do MPLA existem em Angola mais duas organizações de guerrilha, aglomerações tribais. Uma é a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) liderada por Jonas Savimbi, e que tem o apoio de sul-africanos e americanos. Outra é a FNLA (Frente Nacional para a Libertação de Angola) liderada por Holden Roberto e com o apoio de americanos e chineses. A FNLA não só combate a tropa colonial portuguesa como chacina sistematicamente as indefesas populações brancas.

Angola está assim transformada num tabuleiro onde, de forma sangrenta, se enfrentam os representantes das principais potências do mundo: soviéticos, americanos e chineses.

Em 25 de Abril de 1974 ocorre, em Portugal, a Revolução dos Cravos. Em Alvor (Algarve, Portugal) os militares portugueses e os guerrilheiros angolanos assinam um Tratado de Paz e marcam a data de 11 de Novembro de 1975 para os Capitães de Abril outorgarem a independência de Angola. Mas uma coisa é assinar um papel, outra é a movimentação no terreno.

Por influência dos soviéticos, tropa cubana vem ajudar o MPLA a expulsar das imediações de Luanda a UNITA e os sul-africanos que, apesar do Tratado de Paz, não desistem de ocupar a capital. E a 11 de Novembro de 75 tu, ó Agostinho Neto, és mesmo proclamado Presidente da República de Angola...

A tua forma de governar é, obviamente, estalinista, não me contrariem, pois eu quero, posso e mando. Os irmãos Joaquim e MÁRIO PINTO DE ANDRADE é que não suportam a tua forma ditatorial de exercer o poder. Por isso organizam a REVOLTA ACTIVA, ferozmente perseguida por ti. De tal forma que os forças ao exílio na Guiné-Bissau, apesar de terem sido eles os fundadores do MPLA. Circunstância de que te esqueces, ó Agostinho, sectarismo a devorar-te...




MORTE

Ó Agostinho, em 1979 vais a Moscovo tratar do fígado. Em 10 de Setembro faleces durante a operação. Maria Eugénia, a tua viúva, e a tua filha Irene dirão mais tarde que foste assassinado, porque deixaras de ser o peão mais conveniente para os soviéticos, em Angola. Verdade ou mentira? Não sei o que pensar destas palavras...