O ontem que perdura, o amanhã que tarda, vacilações...

Infante D. Pedro

Regente de Portugal:
1392 - 1449



Quando tudo aconteceu...

1392: Nasce em Lisboa o Infante D. Pedro, quarto filho de el-Rei D. João I e D. Filipa de Lencastre. - 1415: Morte da rainha D. Filipa de Lencastre. O Infante D. Pedro participa na conquista de Ceuta e ali é armado cavaleiro; no regresso é-lhe concedido o título de duque de Coimbra. - De 1418 a 1428: Longa viagem do Infante D. Pedro às “Setes Partidas do Mundo”: as principais Cortes da Europa e a Terra Santa. - 1429: O Infante D. Pedro casa com D. Isabel, filha dos Condes de Urgel (Catalunha). - 1433: Por morte d’el-Rei D. João I, D. Duarte sobe ao trono. - 1436: Nas Cortes de Leiria o Infante D. Pedro opõe-se à conquista de Tânger. - 1437: Durante a falhada conquista de Tânger é aprisionado D. Fernando: início do martírio do Infante Santo. - 1438: Morte de el-Rei D. Duarte. - 1439: Em virtude da menoridade do futuro Afonso V, o Infante D. Pedro (seu tio), assume a regência de Portugal. Isenta de impostos alfandegários os produtos do arquipélago da Madeira. Manda iniciar o povoamento dos Açores. - 1441: As Cortes aprovam o projecto de casamento de D. Afonso, o príncipe herdeiro, com D. Isabel, filha do Infante D. Pedro. Este concede ao Infante D. Henrique, seu irmão, o monopólio da navegação, guerra e comércio das terras para além do Cabo Bojador. - 1443: Em nome de D. Afonso V o Infante D. Pedro funda, em Coimbra, um novo Estudo Geral. Isenta de impostos alfandegários os produtos do arquipélago dos Açores. - 1444: Em nome de D. Afonso V, o Infante D. Pedro promulga as Ordenações Afonsinas. - 1445: D. Leonor, mãe de D. Afonso V, morre em Toledo. - 1446: Nas Cortes de Lisboa o Infante D. Pedro entrega o poder a D. Afonso V, mas este, com apenas 14 anos, pede que ele o ajude na governação do Reino. - 1448: Por intriga dos nobres, entre os quais o conde de Barcelos (também duque de Bragança) e o conde de Ourém, D. Afonso V dispensa os serviços do Infante D. Pedro. - 1449: O Infante D. Pedro é morto no recontro de Alfarrobeira (perto de Alverca).

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D. FILIPA DE LENCASTRE

O inglês John Gaunt, duque de Lancaster (os portugueses dizem e escrevem Lencastre...) é pretendente ao trono de Castela em virtude do seu casamento com Constança, filha de Pedro-o-Cruel. Já conquistou todo o norte da Galiza e agora muito lhe convém uma aliança com D. JOÃO I, Mestre de Avis, pois este, para garantir a independência de Portugal, está sempre em guerra contra os castelhanos. E a aliança, porque interessa a uma e outra parte, é assinada em 1386 e reforçada em 1387 através de um casamento político: John Gaunt dá a mão da sua primogénita D. Filipa de Lencastre a D. JOÃO I. O casamento realiza-se na Sé do Porto, a 2 de Fevereiro.

Em 14 anos, de 1388 a 1402, D. Filipa dá à luz oito filhos: D. Branca, D. Afonso, D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique, D. Isabel, D. João e D. Fernando. A primeira, D. Branca, morre com oito meses de idade. O segundo, D. Afonso, com dez anos. O sucessor ao trono será pois D. Duarte.

Apesar de fatigada com as sucessivas maternidades, D. Filipa impõe um estilo novo à Corte de D. JOÃO I: decoro e animação cultural. São banidas as atitudes desabusadas, vingam as que passam a ser chamadas de corteses. Vinga também a apetência pelas belas-letras. Os Infantes, todos eles, nasceram bem dotados e sendo a Corte uma espécie de Academia fundada por D. Filipa, natural é que D. Duarte, D. Pedro e D. João venham a ser autores de obras de moral, doutrina e política e D. Henrique, o soturno, aprenda a decifrar cartas de marear. Deles dirá Camões: “ínclita (ilustre) geração, altos infantes.”

Nem só com os filhos se preocupa D. Filipa. Protege as damas e criadas do Paço, para todas pretende arranjar - e arranja! - bons casamentos.

É também prudente conselheira do seu marido. Quando do grande cisma do Ocidente insiste que ele se mantenha fiel ao Papa verdadeiro, o de Roma, porquanto falso e herege será o de Avinhão. É dama piedosa que segue prazerosamente a liturgia católica. O que não a impede de também apreciar a destreza de cavalgatas e torneios, ainda as canções de escárnio e maldizer.

Junto de el-Rei, D. Filipa apoia com entusiasmo o seu projecto de, no norte de África, conquistar Ceuta aos mouros. Será esse o início da expansão ultramarina portuguesa.

Em 1415, em Sacavém, D. Filipa é mordida pela peste. Moribunda, mas lúcida, a rainha chama para junto do seu leito os filhos Duarte, Pedro e Henrique. Ordena que aos três sejam entregues as espadas que mandara forjar para quando fossem armados cavaleiros. Pede-lhes que jurem votos de protecção. A D. Duarte, futuro rei, a protecção dos povos. A D. Henrique, a protecção dos nobres. A D. Pedro, a protecção de damas e donzelas; ou seja, a protecção dos fracos. Acha a rainha que havendo bons protectores para todas as classes de homens, será possível manter no Reino a paz que Deus manda.

Lúcida rainha... Porém apontar nem sempre é acertar.




CEUTA

Um pequeno rectângulo à beira-mar, limitado a norte e leste por fronteiras com os castelhanos. Para a expansão sobra oeste e sul, sobra o mar. D. JOÃO I aponta Ceuta, no norte de África e, muito em segredo, é aparelhada a expedição. D. Henrique vai para o Porto organizar o contigente do Norte e a frota de galés. D. Pedro vai para o Alentejo e Algarve organizar o contigente do Sul e a frota de naus.

Antes da conquista el-Rei pretende que os filhos sejam armados cavaleiros. D. Pedro recusa participar em torneios, opina que ele e os seus irmãos Duarte e Henrique só devem ser armados cavaleiros se destemidos se mostrarem em batalha verdadeira. E destemidos os três acabam por se revelar: Ceuta é conquistada aos mouros e os Infantes são armados cavaleiros.

Ainda em Ceuta o Infante D. Pedro arma cavaleiro o seu companheiro de armas, D. Álvaro Vaz de Almada, futuro conde de Avranches (Normandia).

No regresso ao Reino, em Tavira, el-Rei atribui ao Infante D. Pedro o ducado de Coimbra e os senhorios de Montemor-o-Velho, Aveiro, Tentúgal, Cernache e Condeixa. Tem apenas 23 anos e contente fica em ser alçado a senhor feudal embora intua que riqueza maior não é a posse da terra, mas a posse de mercadorias que, ao circularem, geram lucro.




AS SETE PARTIDAS DO MUNDO

O Infante D. Pedro assenta arraiais no ontem que perdura enquanto pressente o amanhã que tarda, terreno movediço, vacilações. Teme perder o equilíbrio, lusco-fusco das transições. Gostaria de saber e sentir o que se passa no resto do mundo e decide viajar. Não só para visitar e conhecer as principais Cortes da Europa mas também a Terra Santa e, se possível, o Reino do Preste João. Com a anuência do pai e os bolsos recheados de dinheiro e cartas de crédito sobre banqueiros italianos, resolve partir de Portugal. Convida o seu irmão D. Henrique a acompanhá-lo. Mas este já está empenhado nas navegações ao longo da costa de África e pede escusas. Pede também que D. Pedro lhe recolha cartas de marear e narrativas de viagem de mercadores genoveses e venezianos e ainda que obtenha o máximo de informações sobre o Preste João das Índias.

Em 1418 o Infante D. Pedro larga de Lisboa acompanhado por numeroso séquito, cavaleiro andante. Quem fica a administrar as suas terras é o seu irmão mais novo, Infante D. Fernando. Apesar de ter apenas 16 anos, é varão ajuizado.

A paz já está firmada entre Portugal e Castela e em Valhadolid encontra-se com o rei de Castela (afinal seu primo), o qual lhe cede alguns intérpretes de línguas orientais.

De Espanha ruma para a Hungria, onde o imperador Segismundo o acolhe calorosamente. Por ele, bate-se contra os hereges hussitas da Boémia e, durante cinco anos, envolve-se em batalhas na Alemanha. Recebe do imperador o feudo de Treviso.

Em 1424 deixa Álvaro Gonçalves de Ataíde como governador de Treviso e dirige-se para Chipre e desta ilha para a Terra Santa, recapitulando o itinerário dos antigos cruzados.

Na ilha de Patmos é recebido faustosamente por Amurat II, Sultão da Turquia. Pressente que a expansão otomana irá converter-se num grave problema para toda a Europa. Parte para Constantinopla e dali navega até ao norte de África, Alexandria e Cairo. Visita a Palestina e a Terra Santa. Regressa ao Cairo e em 1425 embarca para o sul da Europa.

Alcança Paris donde passa para a Corte da Dinamarca e daqui para a Inglaterra onde o seu primo Henrique IV o investe na Ordem da Jarreteira.

Segue para Ostende, na Flandres, onde combina o casamento da sua irmã Isabel com Filipe, o Bom. Demora-se dois anos na Corte flamenga. Exerce influências para intensificar o comércio luso-flamengo. É de Bruges que, em 1427, escreve a D. Duarte, seu irmão, carta que há-de ficar famosa.

Em 1428 retorna à Hungria e daqui, como duque de Treviso, segue para Veneza, onde o doge o recebe com múltiplas dádivas, entre as quais um exemplar do Livro de Marco Polo que entregará mais tarde ao Infante D. Henrique. Ainda em Veneza compra um mapa-múndi com o traçado das vias comerciais entre o Oriente e a cristandade. Mapa-múndi que também oferecerá a seu irmão Henrique.

De Veneza avança para Roma onde é recebido pelo Papa Martinho V.

Retorna à Península Ibérica. Combina o casamento de D. Duarte com D. Leonor, irmã do rei de Navarra. Também combina o seu próprio noivado com D. Isabel, filha dos condes de Urgel, Catalunha.

Por Valhadolid, Zamora e Salamanca ruma para a Guarda. Chega a Coimbra em 19 de Setembro de 1428, mesmo a tempo de assistir ao casamento de D. Duarte com D. Leonor de Aragão.

Dez anos demorou a viagem do Infante D. Pedro pelas “Sete Partidas do Mundo”. Muito viu e assimilou, muito sabe.




A CARTA DE BRUGES

Foi de Bruges que, em 1427, o Infante D. Pedro escreveu a D. Duarte, o homem que no mundo mais amava, a carta que ficou famosa. Porquê famosa? Porque é um verdadeiro breviário político no qual recomenda a aliança entre o poder e a sabedoria. Exige, explicitamente, que príncipe e sabedor sejam uma só cousa. De forma agreste critica a falta de cultura da administração do Estado português. Situação tanto mais grave quanto é certo ser a cultura a luz da razão que orienta e ilumina o homem. É a cultura que lhe traça um horizonte de felicidade, na qual o poder é um meio e não um fim. D. Pedro frisa que mais fortes são as nações que se impõem pela cultura e prestígio dos seus colégios e universidades e aponta como modelo as de Paris e Oxford. Também demonstra ter ideias muito claras sobre política financeira e social, eclesiástica, militar e judicial. Exige que se calem os interesses privados quando está em jogo o bem geral do país.

Mas uma coisa é opinar como exercer o poder, outra será exercê-lo entre o ontem que perdura e o amanhã que tarda, vacilações que já veremos...




A VIRTUOSA BENFEITORIA

Ao traduzir e comentar De Beneficies de Séneca, já antes, por volta de 1415, o Infante D. Pedro centrara a sua atenção no saber e no poder.

A redacção final do livro Virtuosa Benfeitoria deve-se a Frei João Verba, confessor de D. Pedro, mas o verdadeiro autor é, obviamente, o Infante. Nessas páginas evidencia-se a reinterpretação do pensamento dos clássicos (Platão, Aristóteles e Séneca) e também da filosofia cristã (S. Paulo, S. Tomás de Aquino, Sto. Agostinho e Dionísio Areopagita). É a escolástica medieval a estribar a doutrina que mais interessa à Geração de Avis:

O poder, em abstracto, procede de Deus. Mas o poder, em concreto, que é o domínio político, é outorgado ao rei por consentimento do povo e tem de servir o bem comum. Já o domínio servil decorre do pecado original. Donde, para garantir a harmonia entre os homens, ter de haver sempre um benefício dos senhores em favor dos servos, porquanto a sabedoria deve estar em aliança permanente com o poder. O Infante louva por isso a virtude da obediência dos servos e a superioridade moral dos governantes. Mas ignora o direito à resistência dos servos ante a eventual indignidade dos governantes...

Eloquente Infante, porém atascado ainda no ontem que perdura...




CERCADORES, CERCADOS...

Em 1429 o Infante D. Pedro casa com D. Isabel, a sua noiva catalã. O casal virá a gerar seis filhos: D. Pedro, que virá a ser Condestável; D. Isabel, que virá a ser rainha de Portugal ao casar com o seu primo D. Afonso, filho de D. Duarte; D. Jaime, que virá a ser bispo de Arras e cardeal; D. João, que virá a ser rei de Chipre; D. Brites e D. Filipa.

Após o casamento o Infante pensa dedicar-se às letras e à administração das suas terras. Mas a morte de D. JOÃO I em 1433 vem alterar os seus planos. D. Duarte sobe ao trono e o Infante D. Henrique, cruzado serôdio, insiste com ele para que alargue as conquistas de Portugal no norte de África. Depois de Ceuta, a próxima cidade a tomar deve ser Tânger. D. Fernando, o mais novo dos Infantes, entusiasma-se e concorda com D. Henrique.

Em 1436, nas Cortes de Leiria, o Infante D. Pedro opõe-se à conquista de Tânger. Acha ruinosa a expansão para Marrocos, essas praças serão sempre sorvedouros de homens, armas e dinheiros. Nelas, “os cercadores ver-se-iam cercados”. O que interessa ao país são novas terras que possam ser arroteadas, colonizadas. E essas terras hão-de ser as ilhas desertas, porém férteis, do Atlântico. O que interessa à grei é produzir! Andar em busca da pura glória militar é empenhar o futuro, é ónus sem proveito.

Desta vez o Infante D. Pedro surge à cabeça do amanhã que vem aí...




O INFANTE SANTO

Apesar da advertência do Infante D. Pedro, no ano seguinte (1437) larga rumo a Tânger expedição comandada pelos Infantes D. Henrique e D. Fernando. Desastre militar, muitos mortos e feridos e uma calamidade: o Infante D. Fernando queda prisioneiro dos mouros. Estes, para o livrarem do cativeiro, exigem a devolução da cidade de Ceuta.

No Reino, o Infante D. Pedro pugna pela devolução de Ceuta e consequente libertação de D. Fernando. D. Henrique opõe-se, nada se deve restituir aos infiéis, argumenta que as virtudes cristãs de D. Fernando irão suavizar o seu martírio e assim se vai forjando a lenda do Infante Santo. D. Duarte não sabe o que fazer. Roído de remorsos falece em 1438.




AS CORTES DE 1439

D. Duarte deixou um filho com 6 anos, o futuro monarca D. Afonso V, garoto irrequieto. O Infante D. Pedro é o primeiro a prestar-lhe vassalagem. D. Duarte deixou também um testamento no qual indica a sua esposa, D. Leonor de Aragão, para regente durante a menoridade de D. Afonso V. Mas o terceiro estado (burguesia) adivinha que os interesses da nobreza senhorial já controlam a rainha. Reage e eis os burgueses e o povo de quase todas as cidades e vilas do Reino a clamar que o testamento do falecido monarca não tem valor, pois as Cortes é que devem indicar o regente. Um nome vem à baila: Infante D. Pedro. Os nobres, liderados pelo conde de Barcelos, opõem-se à sugestão, resmungam: senhor é senhor, servo é servo, e acabou-se...

Agitação popular fomentada pelo Infante D. João e nas Cortes de 1439 votação maciça no Infante D. Pedro para tutor do príncipe herdeiro e regente de Portugal. Extremam-se posições e paira a ameaça de guerra civil. A rainha segue para Almeirim e daqui para o castelo do Crato, no Alentejo, perto da fronteira, onde fica à espera da prometida intervenção castelhana a seu favor, a qual acabará por não se concretizar. Assustada, D. Leonor fugirá para Espanha.

Ao tomar posse como tutor do príncipe herdeiro e regente de Portugal, o Infante declara não ter intenção de prejudicar os privilégios da nobreza e do clero. Tenta assim firmar a paz entre as facções adversas. Chegará mesmo a doar o ducado de Bragança ao conde de Barcelos. Tentativa de conciliação que não resulta; antes pelo contrário, irá acirrar o conflito.

Em contrapartida o Infante suspende o direito de aposentadoria, que é a obrigação que os povos têm de dar pousada gratuita aos séquitos dos nobres em jornada pelo Reino. Em alternativa, mandará construir uma rede de estalagens, nas quais a pousada será paga por quem a utilizar.

O Infante afirma-se como homem de Estado, isento, que não cede a pressões deste ou daquele grupo, pois apenas lhe interessa o bem comum. Discurso que tenta disfarçar a sua vacilação entre o ontem que perdura e o amanhã que tarda...

Cisma devolver aos mouros a praça de Ceuta para livrar do cativeiro o seu irmão Infante D. Fernando. Mas os conselhos das cidades de Lisboa, Porto e Lagos opõem-se à medida e D. Pedro tem que renunciar a ela. O já chamado Infante Santo irá morrer em 1443 num calabouço da cidade de Fez. D. Pedro verifica que uma coisa é opinar sobre o exercício do poder, outra é exercê-lo realmente.




REGÊNCIA

O monarca deve ser o mais culto dos homens! O Infante D. Pedro faz o pedido aos seus parentes Lancaster e da corte inglesa vem o italiano mestre Mateus Pisano, professor de latim e História, para preceptor de D. Afonso, o príncipe herdeiro.

Ao assumir a regência, em 1439, D. Pedro isenta de impostos alfandegários os produtos do arquipélago da Madeira e manda iniciar o povoamento dos Açores, ilhas descobertas em 37.

Em 1441 as Cortes aprovam o antigo projecto de D. Duarte: casamento do príncipe herdeiro com D. Isabel, filha do Infante D. Pedro. O conde de Barcelos opõe-se ao casamento, esperançado estava ele que a sua neta viesse a ser a rainha de Portugal...

Ainda em 1441 o Infante D. Pedro, em nome de D. Afonso V, concede ao Infante D. Henrique o monopólio da navegação, guerra e comércio das terras para além do Cabo Bojador. Nos descobrimentos ao longo da costa africana D. Pedro vê a possibilidade de apropriar-se quer da mão de obra que falta nas lavouras do Reino (escravos negros), quer do ouro que possa compensar a desvalorização da moeda.

Em 1443, sempre em nome de D. Afonso V, funda em Coimbra um Estudo Geral, do qual se declara protector pois a dotação para normal funcionamento da nova universidade brota dos seus próprios rendimentos pessoais.

No mesmo ano de 1443 isenta de impostos alfandegários os produtos do arquipélago dos Açores. O Infante D. Pedro vê na produção das ilhas atlânticas uma forma de solucionar os problemas económico-sociais do país, tais como a míngua de cereais e o sustento dos nobres (o ontem que perdura...)

Em 1444, sempre em nome de D. Afonso V, o Infante D. Pedro promulga as Ordenações Afonsinas, sucedâneo do Livro de Leis de D. Dinis, verdadeiro Código Civil, monumento legislativo, grande golpe no sistema político medieval. Tardou, mas afinal vem chegando o amanhã... Aliás, quando D. Duarte subira ao trono, o Infante D. Pedro já o aconselhara a não ser pródigo em doações e tenças, pois o Estado não pode ser exaurido por aqueles que pouco ou nada fazem por ele.




INTRIGAS

Em 1446 o príncipe herdeiro faz 14 anos. É a idade legal para assumir a governação. O Infante D. Pedro, nas Cortes de Lisboa, entrega-lhe o poder. Contudo, o novo monarca pede-lhe que o assista na administração do Reino e D. Pedro passa de regente a assessor.

É também em 1446 que se efectiva o casamento de D. Afonso V com D. Isabel, filha de D. Pedro. Dois púberes de 14 anos a ensaiar cenas horizontais da vida adulta... Depois de iniciado nas lides amorosas, o príncipe herdeiro também quer aprender a lidar com os súbditos. Porém, cabeça-de-vento embora coroada, irá sempre confundir lisonja com louvor, esperteza com sabedoria, intriga com lealdade...

Orientados pelo conde de Barcelos (e já duque de Bragança...), pelo conde de Ourém e pelo arcebispo de Lisboa, os nobres adulam e enredam o jovem rei. Assustam-no, dizem-lhe que D. Pedro pretenderá derrubá-lo para entregar a coroa a um dos seus próprios filhos; que el-Rei trate pois de livrar-se de seu tio e sogro, que homem de confiança ele não é. Chegam mesmo a insinuar que, no ano anterior, D. Leonor de Aragão, a rainha-mãe, morrera envenenada em Toledo a mando do Infante D. Pedro.

Em 1448, dois anos depois de subir ao trono, D. Afonso V exalta-se e dispensa os serviços do sogro. Ânsias porque ele tomara o lugar do seu falecido pai? Ou porque ele provocara a fuga e a morte da sua mãe? Por isto, ou por aquilo, ou por tudo isso junto, exaltação. Este reizinho merece é umas palmadas... pensa o Infante D. Pedro. Mas para evitar mais danamentos larga a governação e retira-se para as suas terras de Coimbra. Está convencido que o seu afastamento chamará à razão o seu sobrinho e genro. Mas engana-se: o reizinho, insensato, é sorvido pelo ontem e queda prisioneiro voluntário dos intriguistas. Afasta do Paço todos os partidários do Infante D. Pedro.

D. Pedro pede a seu irmão D. Henrique para ajudá-lo a desenlear aquele mal entendido com o sobrinho... D. Henrique diz que sim mas não se empenha. Talvez indiferença, talvez protecção aos nobres, conforme os votos que jurara a D. Filipa, sua mãe...

Quem sai a campo para, desassombrado, defender D. Pedro e denunciar o enxovalho que D. Afonso V faz ao sogro, é o conde de Avranches, herói armado cavaleiro pelo Infante, quando da conquista de Ceuta.

Também o conde de Arraiolos vem de Ceuta a Lisboa tentar a reconciliação entre el-Rei e o antigo regente. O monarca repudia a tentativa.




ALFARROBEIRA

Em cada região do Reino deve haver um senhor que tudo põe e dispõe a seu bel-prazer e os súbditos, sem tugir nem mugir, obedecem; predomínio da nobreza senhorial contra a centralização régia - é essa a ambição do duque de Bragança. Mas continua a recear o prestígio popular do Infante D. Pedro. Não lhe basta que se tenha retirado para Coimbra porque, mesmo de longe, ele poderá influenciar a Corte. Atiça D. Afonso V e el-Rei, escarmentado, exige que o sogro entregue as muitas armas que armazenou em Coimbra. O Infante recusa, oferece o seu valor em numerário. E aproveita para outra vez clamar a sua lealdade ao monarca mas vontade sua é dar-lhe um puxão de orelhas...

Não contente com a resposta do sogro, el-Rei ordena que o Infante consinta que o duque de Bragança e os seus homens atravessem, armados, as terras do Mondego, rumo a Lisboa. Provocação! murmura o Infante. Esse traidor por aqui não passa. Recusa-se a obedecer a el-Rei e está na sua prerrogativa senhorial de recusar. É precisamente essa prerrogativa que a nobreza muito aprecia e da qual não abre mão...

Para evitar terçar armas com o Infante D. Pedro, o duque de Bragança interrompe a sua marcha para o sul, desvia-se de Coimbra e, para arribar a Lisboa, é forçado a contornar por leste a Serra da Estrela. Ao saber do acontecido el-Rei é tomado pela fúria, não foi desobediência casual, é rebeldia sistemática. Decide que o Infante seja condenado ou à morte, ou à prisão perpétua, ou ao desterro. Que ele mesmo escolha a pena... D. Afonso V manda que D. Isabel, sua esposa, vá a Coimbra transmitir ao Infante a régia decisão. Em lágrimas, D. Isabel insiste com o pai para que, rapidamente, trate de abalar para Inglaterra, onde seu primo é rei; ou para Bruges, onde fez tantas amizades; ou para a Hungria, onde é ainda reconhecido como duque de Treviso.

O Infante D. Pedro não aceita qualquer dos castigos, qual deles o mais iníquo... Com a sua companhia marcha para a Corte a exigir justiça. Vontade sua é dar umas palmadas no reizinho. A 20 de Maio de 1449, em Alfarrobeira, perto de Alverca, é confrontado com o exército d’el-Rei, 30 mil homens. O reizinho levanta o braço e os besteiros disparam. Um virote vara e mata o Infante D. Pedro. O mesmo acontece com a maioria dos seus acompanhantes, entre os quais D. Álvaro Vaz de Almada, conde de Avranches. O ontem a revidar, chacina.




34 ANOS DEPOIS

1483: 34 anos depois de Alfarrobeira el-Rei D. JOÃO II, filho de D. Afonso V, vinga o seu avô materno ao mandar executar em praça pública os cabecilhas da conspiração da nobreza senhorial contra a sua vida; e ao matar, à punhalada, em pleno Paço, o duque de Viseu, seu cunhado. Eis que irrompe o amanhã, vacilações não as tem o “Príncipe Perfeito”. El hombre! - dirá Isabel, a Católica, rainha de Espanha.