Não nasci para famoso nem para ilustre...

jorge amado

Escritor:
1912 - 2011



Quando tudo aconteceu...

1912: Jorge Amado nasce em 10 de Agosto na fazenda de cacau Auricídia, distrito de Ferradas, município de Itabuna, a sul do estado da Baía, filho de João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado.
1913: Vítima de emboscada, seu pai é gravemente ferido.
1914: Inundação do rio Cachoeira - a família perde todos os bens e vai para Ilhéus, onde o pai monta um pequeno negócio.
1917: Aplicando as economias, o pai volta a plantar cacau.
1918: Nasce seu irmão Joffre..
1919: Doente, Jorge abandona o colégio.
1920: Nasce seu irmão, Joelson.
1922: A Semana de Arte Moderna, em 1922, reúne em São Paulo artistas como Heitor Villa-Lobos, Tarsila do Amaral, Mário e Oswald de Andrade. Jorge entra, como interno, no colégio de jesuítas António Vieira. Nasce James Amado.
1923: Escreve a redação “O mar”, impressionando o professor.
1924: Foge do colégio, atravessa o sertão baiano e chega a Itaporanga, a casa do avô paterno, em Sergipe.
1925: É transferido para o internato Ipiranga.
1926: Gilberto Freyre, no Congresso Regionalista, condena o modernismo paulista por “imitar inovações estrangeiras”.
1927: Aluno do Ipiranga, em Salvador, é repórter no Diário da Baía e em O Imparcial; publica na revista A Luva o texto Poema ou prosa. Passa ao regime de externato e aloja-se no Pelourinho. Conhece o pai-de-santo Procópio, que o nomeará ogã (protetor), o primeiro de seus títulos no candomblé.
1928:José Américo de Almeida lança A Bagaceira, ficção nordestina, onde (diz Jorge), se fala da realidade rural “como ninguém fizera antes”. Jorge integra a Academia dos Rebeldes, favorável a uma arte moderna sem ser modernista. Na Baía há dois grupos modernistas, o da revista Arco & Flecha e o do Imparcial; Jorge adere ao último.
1929: Sob o pseudónimo Y. Karl, publica em O Jornal a novela Lenita, escrita de parceria com Edson Carneiro e Dias da Costa.
1930: Conclui no Rio o curso liceal. Conhece Vinicius de Moraes, Otávio de Faria e outros vultos da literatura. Lenita é editada em livro no Rio. Entra na Faculdade de Direito.
1931:Cândido Portinari pinta-lhe o retrato. Liga-se ao Movimento de 30, integrado por José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos e outros escritores da chamada “literatura social”.
1932: Publica na Editora Schmidt o primeiro romance, O País do Carnaval - prefácio de Augusto Frederico Schmidt e tiragem de mil exemplares. Elogiado pela crítica, é um sucesso. Partilha um apartamento em Ipanema com Raul Bopp. Aproxima-se dos intelectuais comunistas. Conhece Gilberto Freyre. Sai a segunda edição de O País do Carnaval, com tiragem de dois mil exemplares; impressionado com a vida dos trabalhadores em Pirangi, na Baía, começa a escrever Cacau.
1933: É o redator ­chefe da Rio Magazine. A Ariel Editora, do Rio publica Cacau, com tiragem de dois mil exemplares, capa e ilustrações de Santa Rosa. Esgota-se num mês; a segunda edição sai com três mil exemplares. Lê o original de Caetés, romance de Graciliano Ramos e vai a Maceió para o conhecer, iniciando uma amizade que durará até à morte de Graciliano. Conhece José Lins do Rego, Aurélio Buarque de Holanda e Jorge de Lima. Casa-se com Matilde Garcia Rosa. Gilberto Freyre publica Casa-grande & senzala, que influirá na visão de mundo de Jorge.
1934: Escreve o romance Suor.
1935: Conclui a licenciatura em Direito, mas nunca exercerá advocacia. Nasce sua filha Eulália Dalila. Publica Jubiabá.
1936: É preso devido à militância comunista e acusado de ter participado na Intentona Comunista de 1935. Publica Mar Morto, ganhando o Prémio Graça Aranha. 1937: Faz papel de pescador no filme Itapuã, de Ruy Santos. Publica Capitães da Areia, com grande sucesso. A 6 de Novembro é preso em Manaus. Em 10 de Novembro, implantada a ditadura do Estado Novo, os seus livros são considerados subversivos e queimados nas ruas de Salvador. Jubiabá, é lançado na Argentina em castelhano. Em Setembro, publica Capitães da Areia.
1938: Sai da prisão e é mandado para o Rio. Vai para São Paulo, onde reside com Rubem Braga. Depois mora em Salvador e, em seguida, em Sergipe; sai uma pequena edição de A estrada do mar, (poemas) que oferece aos amigos. Suor sai em inglês pela New America, de Nova Iorque, e Jubiabá em francês pela Gallimard. 1939: É nomeado chefe de redacção de Dom Casmurro. Volta ao Rio, exercendo grande atividade política. Albert Camus classifica Jubiabá como "magnífico e assombroso".
1940: Diretrizes publica o primeiro capítulo de ABC de Castro Alves e, em forma de folhetim, a novela Brandão entre o mar e o amor, iniciada por Jorge e continuada por José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz. Trabalha no jornalMeio-Dia.
1941: Expatriado na Argentina, ali e no Uruguai, colhe elementos sobre a vida de Luís Carlos Prestes, com vista à biografia que está a escrever. De volta ao Brasil, é preso uma terceira vez e enviado a Salvador, sob vigilância. Publica ABC de Castro Alves. Divorcia-se de Matilde. Compõe, com Dorival Caymmi e Carlos Lacerda, a serenata Beijos pela noite.
1942: É publicada em Buenos Aires, em castelhano, a biografia de Prestes O Cavaleiro da Esperança. Escreve no Uruguai Terras do Sem Fim. Colabora na Folha da Manhã, de São Paulo; torna-se chefe de redacção do diário Hoje e secretário do Instituto Cultural Brasil--União Soviética.
1943: Volta a O Imparcial com a secção Hora da guerra e escreve pequenas histórias na coluna José, o ingênuo, que reveza com o jornalista baiano Wilson Lins. Sai Terras do sem fim, o seu primeiro livro vendido livremente após seis anos de censura.
1944: A pedido de Bibi Ferreira escreve a peça O amor de Castro Alves, mas a companhia teatral da actriz é desfeita antes da encenação Escreve São Jorge dos Ilhéus.
1945: Em Janeiro, chefia a delegação baiana, ao I Congresso de Escritores, em São Paulo. No jantar dos congressistas, o Barão de Itararé apresenta-o a Zélia Gattai. Em Junho, participa, com Pablo Neruda no comício de Prestes no Estádio do Pacaembú, em São Paulo. Lança Baía de Todos os Santos. É preso por breve período juntamente com Caio Prado Jr. Vivendo já com Zélia, é eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro. Propõe leis que assegurem a liberdade de culto religioso e protejam os direitos autorais.
1946: Fixa residência no Rio. Publica Seara Vermelha.
1947: Publica O amor de Castro Alves. A Atlântida compra os direitos de Terras do sem fim; escreve os diálogos do filme O cavalo número 13 e ainda o argumento de Estrela da manhã. Em Maio o Partido Comunista é ilegalizado. Publica a peça de teatro O Amor do Soldado. Nasce no Rio João Jorge, o primeiro filho com Zélia. 1948: Em Janeiro, o seu mandato é cassado. Vai viver para Paris, onde conhece pessoalmente Ferreira de Castro, Jean-Paul Sartre, Picasso e outros expoentes da literatura e da arte mundial. Dedicado ao filho, escreve O gato malhado e a andorinha Sinhá. Vai a Praga, passando por Moscovo. A sua casa no Rio é invadida pela polícia, que apreende livros, fotos e documentos. Zélia e João Jorge juntam-se-lhe na Europa. Na Polónia, participa no Congresso Mundial de Escritores e Artistas pela Paz. Com o título de Terras violentas, estreia-se no Rio a adaptação da Atlântida de Terras do sem fim.
1949: Em viagem para a Checoslováquia, onde vai participar num congresso de escritores, escapa ileso de um acidente de avião em Francoforte. Morre no Rio sua filha Eulália.
1950: O governo francês expulsa-o e à família do país. O escritor, Zélia e João Jorge alojam-se no castelo da União dos Escritores, em Dobris, Checoslováquia. Faz viagens políticas pela Europa Central e União Soviética. Escreve O Mundo da Paz, livro sobre os países socialistas.
1951: Recebe, em Moscovo, o Prémio Estaline. Nasce sua filha Paloma, em Praga. Publica o volume de viagens O Mundo da Paz. Escreve a trilogia Os subterrâneos da liberdade (Os ásperos tempos, Agonia da noite e A luz no túnel). Sai no Brasil, pela Editorial Vitória, do Rio, o livro O Mundo da Paz pelo qual seria processado e enquadrado na lei de segurança.
1952: Regressa ao Brasil e fixa-se no Rio. Viaja pela China e pela Mongólia.
1953: Viaja pela Europa, Argentina e Chile. Informado do estado de saúde de Graciliano Ramos, volta ao Brasil para rever o amigo, que morrerá em seguida. Profere o discurso de despedida à beira do túmulo. Substitui Graciliano na presidência da Associação Brasileira de Escritores.
1954: São publicados os três volumes de Os Subterrâneos da Liberdade. A trilogia provoca dura reação dos trotskistas brasileiros, gerando polémica com o jornalista Hermínio Sacchetta (o "Abelardo Saquilá" do romance). Sai em Portugal, pela Editorial Avante, um folheto de seis páginas assinado por Jorge Amado e Pablo Neruda, propugnando a libertação de Álvaro Cunhal.
1955: Entre Janeiro a Março vive em Viena, onde escreve o guião do filme O Solar dos Azulejos. Em Temps Modernes - Julho/Agosto - sai a tradução de Cacau. Deixa o PCB.
1957: Visita o Extremo Oriente com Zélia, Pablo e Matilde Neruda. No regresso, volta a colaborar na imprensa. Assina contrato com o produtor Carlo Ponti para a cinematização de O Mar Morto.
1958: Escreve Gabriela, cravo e canela que publicará em Agosto, esgotando 20 mil exemplares em duas semanas; até ao fim do ano venderá mais de 50 mil. Sai o disco Canto de amor à Baía e quatro acalantos de Gabriela, cravo e canela, com leituras de Jorge Amado e música de Dorival Caymmi. Recebe cinco prémios por este romance.
1959: É-lhe atribuído o título de obá Arolu no Axé Opô Afonjá. Materialista convicto, admira o candomblé, que considera religião “alegre e sem pecado”. 1960: Vice-presidente da União Brasileira de Escritores, promove num centro comercial de Copacabana., o Festival do Escritor Brasileiro. O 25 de Julho passará a ser o Dia do Escritor. Acompanha Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir na viagem que fazem pelo Brasil.
1961: São publicados os romances A morte e A Morte de Quincas Berro d'Água e Os Velhos Marinheiros ou o Capitão de Longo Curso. Por unanimidade, é eleito, em 6 de abril, em primeiro escrutínio, para a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, que pertencia a Otávio Mangabeira.
1962: Seu pai morre no Rio de Janeiro, com 81 anos.
1963: O cavaleiro da esperança" é apreendido pela polícia. Vai habitar a casa do bairro de Rio Vermelho, Rua Alagoinhas, 33, onde morará até falecer.
1964: Sai o romance Os Pastores da Noite.
1966: Publica Dona Flor e Seus Dois Maridos - em Lisboa, mais de mil pessoas acorrem à primeira sessão de autógrafos na Sociedade Nacional de Belas Artes e chega aos mil autógrafos no lançamento na livraria Civilização Brasileira, em Salvador. A tiragem inicial é de 75 mil exemplares.
1967: A União Brasileira de Escritores formaliza a candidatura de Jorge ao Prémio Nobel de Literatura, embora este recuse.
1968: A UBE apresenta de novo a sua candidatura ao Nobel. Exige que seja feita junto com a de seu amigo Ferreira de Castro.
1969: Publica A Tenda dos Milagres.
1970:Recebe em São Paulo o Prémio Juca Pato, da UBE, como Intelectual do Ano. Lidera, com Érico Veríssimo, um movimento contra a censura prévia aos livros. Estreia do filme Capitães da areia.
1971: Nasce o primeiro neto, Bruno, filho de João Jorge. Vence com Ferreira de Castro o Prémio Gulbenkian de Ficção, entregue na Academia do Mundo Latino, em Paris. É convidado a acompanhar um curso de um semestre sobre sua obra na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos.
1972: Sua mãe morre em Salvador, com 88 anos. Nasce Mariana, a primeira neta, filha de Paloma e Pedro Costa. A escola de samba Lins Imperial, do Rio de Janeiro, apresenta o enredo Baía de Jorge Amado. Encontra-se em Barcelona com Gabriel García Márquez. É editado Teresa Batista Cansada de Guerra.
1973: Nasce a neta Maria João, filha de João Jorge. Fernando Sabino realiza um documentário sobre Jorge Amado, Na casa do Rio Vermelho.
1975: A TV Globo produz a novela Gabriela, com Sônia Braga no principal papel.
1976: Sai a público a historieta O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. Nasce a neta Cecília, filha de Paloma
1977:Recebe o título de sócio benemérito do Afoxé Filhos de Gandhi, em Salvador. É estreado o filme de Nelson Pereira dos Santos inspirado em Tenda dos Milagres. Publica Tieta do Agreste.
1978: Casa-se oficialmente com Zélia. Glauber Rocha realiza documentário sobre a sua obra de Jorge.
1979: Estreia o filme Dona Flor e seus dois maridos, realizado por Bruno Barreto. Sai Farda, fardão, camisola de dormir, e o conto Do recente Milagre dos Pássaros. Estreia na Broadway o musical Saravá, de Richard Nash e Mitch Leigh, baseado em Dona Flor e seus dois maridos.
1980: Nasce o neto João Jorge Filho.
1981: Em edição não-comercial, lança O Menino Grapiúna.(memórias).
1982: Publica o romance O Sumiço da Santa .1983: Nasce Jorge Amado Neto, filho de João Jorge. Não tendo em Salvador tranquilidade para escrever, passam, ele e Zélia, a morar uma parte do ano em Paris e outra no Brasil. Recebe do presidente François Miterrand a Legião de Honra. É produzido o filme Gabriela, realizado por Bruno Barreto, com Sônia Braga e Marcelo Mastroianni.
1984: Publica A bola e o goleiro, literatura infantil e o romance Tocaia Grande.
1985: Toma posse na Academia de Letras da Baía.1986: Morre sua ex-mulher Matilde. Participa, como presidente do júri, do VIII Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano, em Cuba; é homenageado por Fidel Castro. Decreto do presidente José Sarney cria a Fundação Casa de Jorge Amado. Lança O capeta Carybé, sobre seu amigo, o artista plástico argentino Hector Julio Páride Bernabó.
1987: Em Salvador é inaugurada a Fundação Casa de Jorge Amado, concebida para divulgar a sua obra.
1988: Zélia publica, Jardim de inverno, onde fala do exílio na Checoslováquia . A Escola de Samba Vai-Vai vence o Carnaval paulista com o enredo Amado Jorge: A história de uma raça brasileira. Publica O sumiço da santa.
1989: A escola de samba Império Serrano, do Rio, apresenta o enredo Jorge Amado - Axé, Brasil. Recebe o Prémio Pablo Neruda, da Associação dos Escritores Soviéticos. É entrevistado no programa de Georges Simenon na TF1 (França).
1990: Representa o Brasil na comissão internacional do projeto de reconstrução da biblioteca de Alexandria. Recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Israel e da Universidade Degli Studi de Bari. Em Itália recebe os prémios Cino del Duca. A Universidade Livre de Berlim realiza o seminário Cultura popular na obra de Jorge Amado.
1991 - Escreve Bóris, o vermelho e Navegação de cabotagem. Recebe Dias Gomes na Academia Brasileira de Letras. Escreve A descoberta da América pelos turcos. Preside ao 14° Festival Cultural de Asylah, Marrocos. O tema é Mestiçagem, o exemplo do Brasil. Participa em Veneza no Fórum Mundial das Artes.
1992: Estreia na Rede Globo, a mini-série Tereza Batista. Publica Navegação de cabotagem (memórias), que, em Setembro será lançado em Lisboa.
1994: Sai no Brasil A descoberta da América pelos turcos. Gabriela, cravo e canela é a primeira das reedições revistas por Jorge. É lhe outorgado o Prémio Camões.
1995: Paloma Inicia o processo de revisão de sua obra.
1996: Após um enfarte e perda da visão central, sofre um edema pulmonar em Paris.
1997: Tieta do Agreste é o tema do carnaval de Salvador. O bloco Amigos do Amado Jorge, liderado por Caetano Veloso, desfila em homenagem a Jorge, que assiste ao lado de Zélia no camarote da passarela da Praça do Campo Grande. Publica O Milagre dos Pássaros.
1998: É convidado de honra do 18º- Salão do Livro de Paris, cujo tema é o Brasil. Recebe doutoramentos honoris causa pela Sorbonne Nouvelle e pela Universidade Moderna de Lisboa. Em Salvador, praças e largos do Pelourinho recebem nomes de personagens de Jorge Amado. Estreia na Rede Globo a mini-série Dona Flor e seus dois maridos, (adaptação de Dias Gomes).
1999: Em Maio é hospitalizado. Exames de rotina; é tratado de mal-estar digestivo. Em Junho, a Fundação Casa de Jorge Amado lança Rua Alagoinhas 33, Rio Vermelho.
2000: .Festeja os 88 anos com amigos e família. Deprimido, quase não vê nem pode escrever.
2001: Internado a 21 de Junho com uma crise de hiperglicemia, sofre fibrilação cardíaca. Recebe alta. Em 6 de Agosto, sente-se mal - morre às 19,30 horas. Determinara que o corpo seja cremado, as cinzas espalhadas em torno de uma mangueira na casa de Rio Vermelho. E assim se faz.

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O escritor e o homem – os ecos da grande epopeia

No livro de memórias Navegação de cabotagem, diz Jorge Amado: «Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem». E, no entanto, foi famoso, ilustre, foi um grande homem. Foi um dos grandes escritores do seu tempo e um dos maiores que escreveram em língua portuguesa. Chega ao mundo num cenário de luta pela posse da terra. E o ambiente de violência e drama, que envolve a sua infância terá influência na sua obra, principalmente nos primeiros livros. A cheia do rio Cachoeira e a epidemia de varíola, a «bexiga negra», obriga a família a transferir-se em Ilhéus. Em 1917 mudam para a Fazenda Taranga, em Itajuípe, onde o pai volta à lavoura de cacau. Antes dos seis anos, sua mãe já o ensinou a ler. Em Ilhéus vai à escola de D. Guilhermina, professora que não poupa o uso da palmatória. Ainda menino, Jorge sabe já que a vida não é fácil: Eu vinha de uma infância nas terras bravias do cacau, assistira ao drama da conquista da selva, ouvira a voz dos advogados nos júris dos coronéis de toda a audácia, ainda infante fora banhado pelo sangue de meu pai, ferido numa tocaia. Trazia dentro de mim os ecos da grande epopeia, e também os lamentos lancinantes dos trabalhadores curvados nas roças, numa vida de bestas de carga. Adivinhando-lhe o inconformismo, o pai quer domar a sua natureza de potro rebelde. Da palmatória da D. Guilhermina, passa para a disciplina jesuítica – é matriculado, em regime de internato, no Colégio Antônio Vieira.




O mar baiano

Aquele ano chuvoso em excesso, torna mais triste o cativeiro dos alunos internos do Colégio Antônio Vieira, conhecido em Salvador como «dos jesuítas». Os rapazes não podem sequer jogar futebol nos intervalos das aulas. O pátio fica vazio, povoado por poças de água… Jorge está junto da janela do dormitório olhando distraidamente a chuva. Onze anos, cabelo desgrenhado emoldurando um rosto magro. Dedos sujos de tinta Sardinha seguram um cigarro 17 a que vai puxando fumaças. Pelo canto do olho, espia a porta onde a qualquer momento pode aflorar um indesejável prefeito. Rara é a semana em que não sofre um castigo por ser surpreendido a fumar. Sorve o clandestino cigarro até ao fim. Entreabre a janela e, com um piparote, projecta a minúscula ponta. Vai sentar-se e sacudir o tédio escrevendo a composição sobre o tema que o padre Cabral determinou. Escreve o título – “ O Mar”.

Dias após, na aula o professor distribui as redações e as respetivas notas. Fica só com uma nas mãos. Dirige-se à carteira de Jorge e, agitando a folha, diz para a turma: «Ele será um dos vossos grandes escritores!» Gargalhada geral. Corado, envergonhado, Jorge emite um grunhido e dá um furtivo pontapé no colega de carteira que se juntara à surriada. Luís Gonzaga Cabral não é um professor qualquer – padre jesuíta português, fugido de Portugal após a proclamação da República, filólogo, dramaturgo, ensaísta, é considerado o maior tribuno sacro da época. Atento ao precoce talento de Jorge empresta-lhe livros de autores portugueses, brasileiros e os grandes clássicos.

O mar de que falou na composição terá uma presença constante na obra do grande escritor que o miúdo virá a ser - a plantação de cacau e o mar serão cenários recorrentes dos seus romances. Não raro, o mar baiano assume o protagonismo nas suas efabulações – «Penso na Baía (…) nas pessoas de amigos tão caros ao meu coração como Dorival Caymmi, cantor de pescadores e do mar baiano». E Dorival conta como, em 1941, num cordial convívio em casa de João Amado de Faria, pai de Jorge, se fez um concurso entre os presentes - Érico Veríssimo, Clóvis Amorim e outros. Partindo de um tema de Mar Morto, o romance sobre os mestres de saveiros, Jorge acrescenta alguns versos e completa a canção. São os seus versos que vencem:

É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar…




“Há quem diga que escrevo mal”

Acusação frequente é a de que, os romances de Jorge, com enredos sólidos, bem construídos, têm uma tessitura formal pobre. Jorge reage: «Há quem diga que escrevo mal, mas escrevo o que posso. Não acredito que o estilo possa ser desligado da expressão do talento do autor: (…) Se escrevo bem ou mal, só o futuro poderá dizer, quando a minha obra puder ser examinada com a distância crítica necessária». Mas nenhum crítico quer deixar para o futuro a tarefa de julgar um escritor com tanto impacto junto do público no Brasil, são os modernistas a desdenhar as obras de Jorge Amado. E em Portugal?

Até 1950*, são as edições brasileiras que circulam em Portugal onde depressa conquista leitores. Alexandre Pinheiro Torres confessa-se devoto dos livros de Jorge Amado desde os anos 40. Joaquim Namorado considera-o a principal referência de uma nova descoberta do Brasil, expressão que António Ramos de Almeida adoptará. Manuel da Fonseca revela a influência que a leitura de Jubiabá teve na sua obra. Álvaro Salema não lhe poupa os elogios. Álvaro Cunhal saúda em Jorge a efabulação construída a partir de pressupostos sociológicos - uma polémica entre os neo-realistas e os presencistas é ateada. Cunhal enfrenta José Régio, em cuja opinião duas realidades diferentes - a portuguesa e a brasileira - não podem ter uma abordagem literária similar. No plano literário Régio terá razão, mas Cunhal firma a sua argumentação numa perspectiva sociológica e política; nesse terreno, são os pruridos esteticistas de Régio que não se justificam. Um diálogo de surdos…

No pós-guerra, a discussão da prevalência do conteúdo sobre a forma (ou vice-versa) está na moda. Sobre Ferreira de Castro colocara-se a mesma questão. Com cruel mordacidade, Almada Negreiros, ao ser publicada a magnífica tradução francesa de A Selva, feita por Blaise Cendrars, sugerira que um bom tradutor de francês vertesse a tradução de Cendrars para português… Aliás, há uma grande identificação entre os dois escritores. Após década e meia de correspondência trocada, Castro e Amado encontram-se em Paris: «Eu o conheci pessoalmente em 1948, em Paris: Forêt Vierge, a admirável tradução francesa de A Selva, realizada por Blaise Cendrars, era best-seller nas livrarias de Paris, recebia os maiores elogios da crítica. Sucesso que se repetiu alguns anos depois, com a tradução de A Lã e a Neve (Les Brebis du Seigneur). Antes de conhecê-lo pessoalmente, porém, eu já era seu devedor de provas de amizade e de confiança. Quando publiquei Cacau, em 1932, Ferreira de Castro, já consagrado, veio a público, na imprensa portuguesa, dar-me o seu estímulo, num artigo que foi de fundamental importância para o jovem aprendiz de escritor: senti-me consagrado aos vinte anos de idade. Jamais seu incentivo me faltou no curso de meu trabalho de romancista».

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*Uma nota sobre as edições portuguesas – Em 1950, a editora Livros do Brasil, lançou Jubiabá. Depois, Publicações Europa-América, Círculo de Leitores, entre outras, publicaram praticamente tudo o que Jorge Amado escreveu. Referir estas edições na cronologia, tê-la-ia aumentado de forma desmesurada.




O círculo de amizades do Movimento de 30

Voltando atrás, mergulhemos no bulício cultural do Rio de Janeiro no começo da década de 30. Jorge entra na Faculdade de Direito e trava amizade com escritores. Artistas, políticos, tais como Cândido Portinari, José Américo de Almeida, Gilberto Freyre, Carlos Lacerda, José Lins do Rego, Vinicius de Moraes… Adere ao “Movimento de 30” e aí se situa um marco importante na sua formação cultural e na evolução da sua escrita. Lê, através de José Américo de Almeida, o original de Caetés, e vai até Maceió especialmente para conhecer Graciliano Ramos. A sua amiga, a escritora Rachel de Queiroz, argumenta com eloquência a favor do ideal comunista. E os seus romances reflectem eloquentemente a sua opção ideológica - Suor, a crueldade da realidade urbana de Salvador. Jubiabá, onde irrompe a figura de Antônio Balduíno. Albert Camus, lendo a tradução francesa escreve um artigo no Alger Républicain, classificando Jubiabá como "magnífico e assombroso". Uma nova maneira de escrever, desprezando cânones, violando regras, irrompe na literatura brasileira. Voltemos ao Colégio Antônio Vieira.

O padre Cabral empresta-lhe livros, ajuda-o a rasgar nas paredes do internato uma janela para o maravilhoso mundo da criatividade. Jorge lê e aprende muito, mas já não suporta a clausura, quer respirar outro ar que não aquele – bafiento e cediço do colégio dos jesuítas. Jorge sente-se encarcerado. Não aguenta mais. Após umas férias, o pai leva-o ao colégio e Jorge, despede-se, finge dirigir-se para o portão, mas quando o pai parte, foge. Com dez mil réis no bolso, anda desaparecido por dois meses - atravessa o sertão baiano até chegar a Itaporanga, em Sergipe, onde residia seu avô paterno, José Amado. São “dois meses de maravilhosa vagabundagem”. Eu acho que aquela fuga teve um papel fundamental na minha vida. Tudo partiu daí. Ela me abriu perspectivas, já que me possibilitou conhecer outros lugares, outras pessoas. As viagens foram sempre uma boa fonte de alimentação da minha obra.

Sobretudo, Jorge terá aprendido que um homem nunca deve aceitar a realidade como imutável. A transgressão é necessária quando estamos perdidos num labirinto – a solução pode não ser procurar o caminho para a saída, pode consistir em arremeter contra as sebes das paredes, destruir o labirinto. Jorge sempre reagiu contra a normalidade que lhe queriam impor – os livros da sua primeira fase, mais do que realistas, são autênticas reformulações da realidade. E são fruto da sua opção ideológica.




Dicho en Pacaembú - O caminho do compromisso

«Quanto a mim, busquei o caminho nada cómodo do compromisso com os pobres e com os oprimidos, com os que nada têm e lutam por um lugar ao sol, com os que não participam com os bens do mundo, e quis ser, na medida das minhas forças, voz das suas ânsias, dores e esperanças». Em 1934 adere ao Partido Comunista Brasileiro.

Consequência desse compromisso assumido, quando em 1990, no Recife, no arquivo do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) – é aberto o prontuário número 6.172, vê-se como as actividades políticas de Jorge Amado mereceram uma atenção permanente da polícia. Sofre três prisões. O seu prestígio crescente ter-lhe há evitado problemas maiores, como o de ser suprimido fisicamente, por exemplo.

Em 1936, no mesmo ano em que o mestre de saveiro Guma surge nas páginas de Mar morto, é preso pela primeira vez, no Rio, acusado de ter participado na Intentona Comunista do ano anterior. Após uma viagem pelo Brasil, pela Argentina e Uruguai e pelos Estados Unidos, durante a qual escreve Capitães da Areia, quando regressa, é apanhado pela onda repressiva do Estado Novo de Getúlio Vargas, é preso e, na sua cidade, em Salvador, os seus livros são queimados na praça pública por agentes da polícia getulista. Em 1938 Jorge sai em liberdade mas o Brasil vai transformando-se num imenso colégio dos jesuítas. O ambiente é sufocante e exila-se entre 1941 e 1942, no Uruguai e na Argentina, onde escreve a biografia de Luís Carlos Prestes, O cavaleiro da esperança, publicada originalmente em castelhano, em Buenos Aires, e proibida no Brasil. Quando regressa é preso uma terceira vez. Prisão domiciliária deste vez – residência fixa – usando a expressão da secreta portuguesa. Não pode sair da Baía.

15 de Julho de 1945. O Estádio de futebol de São Paulo, o Pacaembú está cheio, mais de cem mil pessoas – o São Paulo vai jogar com o Corinthians? Não. O líder comunista Luís Carlos Prestes, amnistiado três meses antes, vai realizar um segundo comício, pois em 23 de Maio fizera um outro no estádio de São Januário no Rio de Janeiro. Prestes está muito nervoso. Passou nove anos no presídio, incomunicável, é a segunda vez que fala em público, pois antes de ser preso nunca o fizera. E logo perante uma multidão tão numerosa. Entre os cem mil que o escutam, estão dois grandes escritores – Pablo Neruda e Jorge Amado. Pablo Neruda representa os escritores comunistas do Chile e lê uma mensagem. Mais tarde, no seu Canto General incluirá um poema alusivo à inesquecível jornada:

Cuántas cosas quisiera decir hoy, brasileños,
cuántas historias, luchas, desengaños, victorias
Que he llevado por años en el corazón para decirlos, pensamientos
y saludos.
Saludos de las nieves andinas,
saludos del Océano Pacífico, palabras que me han dicho
al pasar los obreros, los mineros, los albañiles, todos los pobladores de mi patria lejana…

Nesse mesmo ano de 1945, Jorge é eleito deputado federal à Assembleia Constituinte pelo Partido Comunista Brasileiro. Quando no ano seguinte assume o mandato, apresenta propostas, algumas das quais são aprovadas, como a da liberdade de culto. Numa outra, defende a protecção dos direitos autorais. Mas, ilegalizado o PCB, o seu mandato é cassado.




Zélia

Zélia Gattai, que lhe é apresentada durante o jantar de um congresso de escritores, é o grande amor da vida de Jorge.

E terá tido uma influência positiva na sua obra, com uma visão mais doce, mais global e menos centrada exclusivamente no sociopolítico. Não falaremos muito dela – mas teve uma grande importância no seu percurso, sendo a face mais luminosa e feliz da vida de Jorge. Em 1948 fixa-se em Paris, pois o Brasil deixou de ser respirável para ele – é perseguido, os seus livros censurados . Durante esse exílio, conhece Jean-Paul Sartre e Picasso, entre outros escritores e artistas. Ferreira de Castro, por exemplo, como já vimos. Em 1950, o governo francês expulsa-o por motivos políticos. Refugia-se com a família na Checoslováquia. Publica alguns dos seus livros mais comprometidos, tais como a trilogia Os subterrâneos da liberdade, publicada em 1954. Mas é o fim de um ciclo. Em 1956, após as denúncias de Nikita Khruschov contra os crimes e desvios de Estaline no XX Congresso do PCUS, Jorge Amado sai do Partido Comunista. Sai, como explica, sem renegar seja o que for. Desde 1954 estava ao corrente do que foi revelado no XX Congresso. Saiu, porque queria voltar a escrever. (…) deixei de militar politicamente porque esse engajamento estava me impedindo de ser escritor. Mas o seu compromisso político, a sua militância, marcaram profundamente a sua obra.

Os ritos afro-brasileiros são outro elemento marcante no seu percurso literário. Recebe mesmo elevados títulos do candomblé, o de obá Arolu do Axé Opô Afonjá. E a sua torrente criadora jorra novos romances e novelas : A morte de Quincas Berro Dágua, considerada uma obra-prima, que depois seria publicada junto com o romance O capitão-de-longo-curso no volume Os velhos marinheiros, Dona Flor e seus dois maridos, Tenda dos Milagres, Tereza Batista cansada de guerra e Tieta do Agreste…




A Academia

No dia 17 de Julho de 1963, Jorge tomará posse da cadeira nº 23 da Academia Brasileira de Letras. Mas não entra sozinho… Jubiabá, Quincas Berro Dágua, Gabriela, Vasco Moscoso de Aragão, com os Capitães da Areia abrindo caminho, e outros fechando o cortejo, entram de roldão na Academia Brasileira de Letras.
Sentam-se, faz-se silêncio e, envergando o fardão de académico, entra o Jorge. Discurso longo que termina assim:

E quando aqui chego, chegam a esta casa, a esta tribuna, vestindo este fardão, pessoas simples do povo, aqueles meus personagens, pois é por sua mão que aqui ingresso. Vêm mestres de saveiro e pescadores, Mestre Manuel, Maria Clara, Lívia e Guma, e sua ansiosa espera da morte no mar; vêm negros e mulatos, o pai-de-santo Jubiabá e o negro Balduíno, Rosenda Rosedá e o Gordo, vêm crianças abandonadas, os capitães da areia, trabalhadores dos campos de cacau e rudes coronéis de repetição em punho; vêm o rei das gafieiras da Baía, Quincas Berro Dágua, e a mulata Gabriela, feita de cravo e canela, e o comandante Vasco Moscoso de Aragão, que amava sonhar e comandava os ventos. Gente simples do povo, não sou mais do que eles, e, se os criei, eles me criaram também e aqui me trouxeram. São uma gente boa, Srs. Académicos, gente baiana de muita delicadeza, e ao sentar-me com eles em vossa ilustre companhia, ao agradecer a honra dos votos que de vós mereci, quero a eles também agradecer o homem que eles construíram e até aqui trouxeram. Porque eles são o meu povo e a vida que tenho vivido ardentemente.




Uma nota final

A vida e a obra de Jorge Amado não pararam na Academia. A Academia nunca foi um objetivo para ele. Lembrai-vos do que disse - Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem. Por quase mais quarenta anos continuou a escrever e a aumentar o número das suas maravilhosas personagens que talvez rondem junto da velha mangueira do jardim de sua casa. Talvez se sentem no mesmo banco onde pelas tarde descansava ao lado de Zélia. Vivem sobretudo na memória de todos nós, os seus leitores.