Elias Torres (galego amigo) aborda Camilo...

Camilo Castelo Branco

Escritor:
1825 - 1890



Quando tudo aconteceu...

1825: Nasce em Lisboa Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco. 1836: Traslada-se para Vila Real e, depois, vilas próximas, com a sua irmã. 1841: Casa em Ribeira da Pena com Joaquina Pereira França, de quem nascerá a filha Rosa. 1844: Estudante e, sobretudo, boémio, no Porto. 1845: Publica o seu primeiro volume literário, Os Pundonores Desagravados, poema herói-cómico de dez páginas. 1848: Instala-se de maneira permanente no Porto. Alterna a colaboração em jornais e publicação de textos com a procura de outros empregos. Nasce Bernardina Amélia, filha de Patrícia Emília do Carmo de Barros e de Camilo. 1851: Sai o seu primeiro romance em volume, Anátema. 1856: Publica Onde está a Felicidade? Começa a ser um autor consagrado. 1859: Rapto, consentido, de Ana Plácido. 1860: Ana e Camilo em prisão, perseguidos polo marido dela, Pinheiro Alves. 1861: Juízo e absolvição. 1862: Amor de Perdição. Nasce o seu “filho do coração” Manuel, legalmente fruto de Ana Plácido e Pinheiro Alves. 1863: Morre Pinheiro Alves; forçosamente, parte da herança passa a Manuel, entre a qual a casa de S. Miguel de Ceide, para onde vão viver permanentemente desde 1864: Nasce Jorge, que virará louco. Nasce Nuno, principal fonte social de desgostos familiares. 1871: António Feliciano de Castilho visconde. Começa a sua luta pelo viscondado e o consequente enfrentamento com o rei, que lhe nega a desejada distinção. 1875-6: Novelas do Minho. Camilo está no topo de uma popularidade já ameaçada pelos escritores realistas. 1882-3: A Brasileira de Prazins, último romance com algum sucesso. 1885: Viscondado de Ferreira Botelho. 1890, 1 de junho: Perdida a esperança, também de recuperar a visão, mata-se com um tiro.

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A APRENDIZAGEM NUM NORTE EM VIOLÊNCIA DE UM FILHO NATURAL E DESAMPARADO RURAL

Camilo nasce quando acaba de entrar em cena D. Miguel, impulsado pela sua mãe Carlota Joaquina. Nasceu em 16 de março de 1825, embora ele ache sempre que nasceu em 1826. Filho natural, a sua mãe, publicamente desconhecida, morre em 1827, também o seu pai, quando o menino tem dez e a sua irmã Carolina catorze. Lá vão os dois irmãos para Vila Real, enviados pelo conselho de família ao cuidado da sua tia Rita Emília. Com catorze anos, vai Camilo viver com a sua irmã numa pequena vila próxima quando ela se casa com um estudante de medicina. Recebe formação clássica e católica de um cura, irmão do seu cunhado. Trabalha como assistente administrativo em outro lugar da zona, onde melhora a sua formação com outro sacerdote. Casa com Joaquina Pereira de França e tem uma filha, Rosa, as quais abandona (segundo conta Camilo) devido à perseguição desencadeada por uma sátira que dirigira a um fidalgo da região. Viaja para Lisboa numa tentativa frustrada de cobrar a legítima da sua herança que nunca obterá na sua totalidade, sendo parte dela disputada pela sua tia. Em 1843 realiza exames no Porto para entrar na Escola Médico-Cirúrgica, instituição acessível à sua condição económica e sociocultural.




A LAVRA DE UM ROMÂNTICO DE REALIDADE E LENDA E A SUA CONDIÇÃO ANTI-BURGUESA. CAMILO NO PORTO

Tens 18 anos, como o futuro Simão Botelho do Amor de Perdição. Até aqui vão contados os episódios mais conhecidos da tua vida, embora confusos, mas desde agora já é quase impossível distinguir realidade ou lenda. Numa mostra: do teu Duas Horas de Leitura deduz-se que, neste ano, foges de Lisboa com uma amante, Maria do Adro, cujo cadáver exumarás junto a um médico, mais tarde.

O certo é que prossegue os seus estudos na Escola Médica mas suspende-os no segundo ano. A sua primeira estadia no Porto mais parece dedicada ao mundo dos jovens dandys ou leões românticos subversivos da moral burguesa. Fazendo-se poeta: publica em 1845 o seu primeiro texto, Os Pundonores Desagravados, editado à sua custa e de maneira anónima, que incluirá a sátira anti-religiosa Juízo Final e o sonho do inferno, primeira obra que assina. Faz amizades literárias, pelo geral pertencentes ou bem relacionadas com setores da burguesia e da aristocracia portuenses, o que lhe abre portas de salões, tertúlias e editoras.

Em finais de quarenta, Camilo vai tentar arranjar emprego, mesmo recorrendo ao prestigiado Herculano para uma vaga de bibliotecário no Porto. A julgar pelos seus depoimentos, alista-se em 1846 na guerrilha de Mac Donnell, o general escocês que luta pela causa de D. Miguel. No entanto, há quem o situa vivendo maritalmente no Porto com a jovem vila-realense Patrícia Emília de Barros, com quem fugiu e com quem acaba na prisão do Porto em outubro (onde se apresenta como solteiro…) denunciados polo seu tio por roubo, pretexto para impedir a sua união. Neste mesmo 1846 começa a sua colaboração em jornais portuenses; estreia-se como dramaturgo em Vila Real com o seu Agostinho de Ceuta; e talvez seja sua a incompleta e anónima Lágrimas para quatro vítimas do despotismo, novela de atualidade na linha da francesa, que publica O Nacional (jornal contrário ao governo de Costa Cabral).

Joaquina morre nesse ano, parece que Camilo não o soube. Acabada a guerra civil, segundo alguns, Camilo abandona a guerrilha, refugia-se em casa da sua irmã e é nomeado amanuense do Governo Civil de Vila Real. Em março morre Rosa e em junho nasce Amélia, fruto do seu relacionamento com Patrícia Emília. Entretanto, no Eco Popular publica A última vitória de um Conquistador. No final de 1848 diz que fugindo de ameaças e agressões sofridas pelas suas críticas ao governador civil, instala-se no Porto, onde se relaciona com o sacerdote liberal Alves Martins, diretor de O Nacional e com outros influentes intelectuais. Publica textos satíricos sobre episódios urbanos e, baseado em um macabro matricídio acontecido em Lisboa e também anonimamente Maria! Não ma mates que sou tua mãe. O sucesso foi maiúsculo, Camilo ganhou o seu bom dinheiro e até surgiram imitadores, pelo que acabará reivindicando a sua autoria ao assinar a quarta edição de 1852. Por entregas publica a sua incompleta Um episódio de Alcácer-Quibir, e começa a fazer crítica teatral, o que aumenta a sua familiaridade com ambientes da burguesia portuense. Nesse ano publica por sua conta e por assinaturas O Marquês de Torres Novas, drama de sabor gótico, e a brochura de propaganda anticabralista O Caleche, de duvidosa autoria.

Publica muito, a abrir-se espaço em relação aos próprios e, sobretudo, aos escritores estrangeiros: vinga o terrífico, o medievalismo, a truculência, a aventura estranha ou exótica, começa o romance de atualidade, mas o ultra triunfa e trespassa tudo; alguns nomes: Scott, Radcliffe, Goethe, Ayguals e sobretudo o romance francês: de D’Arlincourt, Dumas, Hugo, Lebrun, Sue, etc., depois Sand, Balzac ou Musset. Jornais e revistas proliferam, e, com eles, os folhetins. A pequena e média burguesias constituem os núcleos leitores; a mulher é progressivamente uma cliente fundamental no incipiente e consolidado circuito mercantil da atividade literária: estão configurados alguns dos meios e fatores em que Camilo vai (ter que) começar a navegar.

Desde fevereiro de 1850 está em Lisboa, como redator na Semana, quiçá pela intermediação de Herculano e da sua amizade com o fundador e diretor da revista - o diplomata miguelista e poeta João de Lemos - e com outros colaboradores da Nação: as amizades juvenis davam os seus frutos. No seu folhetim saem os primeiros capítulos do seu Anátema, até à sua suspensão por causas que desconhecemos (desacordo com o editor, falta de interesse do público, entregas não em dia?).

Publica mais; intervém na polémica que se seguiu à publicação de Eu e o Clero de Herculano em defesa deste, talvez devolvendo algum favor… De volta ao Porto matricula-se no Seminário, segundo alguns biógrafos para pôr cobro à sua intensa vida amorosa e social, que se prolonga com o relacionamento simultâneo que mantém com a dona da casa de hóspedes em que vive, Eufrásia Carlota de Sá, e com a freira Isabel C. Vaz Mourão. E começa na imprensa agras polémicas, muitas vezes desabridas, que nele constituirão quase um costume e uma estratégia que procura fazer-se auctoritas temível, publicar e vender os seus produtos.




PROFISSIONAL DAS LETRAS À FORÇA. COMEÇA A CARREIRA DO ROMANCISTA

Em 51 abandona o Seminário e sai Anátema, o seu primeiro romance em volume, que apresenta como verídicos uns amores trágicos que acabam em suicídio da amante sequestrada por um vingativo sacerdote cuja mãe era violada pelo pai da rapariga. Há outras intrigas secundárias, com suicídios, assassinatos, seduções, vinganças, filhos ilegítimos, anagnórises, casualidades, com algo de medievalismo legendário tão em moda entre os seus colegas de profissão, pequenas doses de religião de amor e crítica à burguesia, tudo contido numa estrutura folhetinesca, de suspense a cada entrega. Aparecem marcas camilianas singulares: a atenção a elementos que podem cunhar a erudição, o classicismo e a vernaculidade da sua obra, um dos caminhos expeditos para competir com as obras estrangeiras; igualmente aos que podem garantir-lhe a simpatia de amplos setores do público, como a variedade de modalidades com que se relaciona com as suas leitoras e os seus leitores. A distância que lhe proporciona a ironia, com o seu potencial (auto-paródico) vê-se compensada por arroubos líricos, dramáticos, passionais, em que o autor mostraria o seu coração, às vezes numa mesma sequência: tudo “marca da casa” daqui em diante.

Ainda publicando, e muito, sobretudo poesia, o que não parece é decidido a converter o jornalismo e a produção literária na sua profissão. Mas não consegue. Em 1852 funda O Cristianismo (que abandonará por desavenças ideológicas e como rejeição à censura de alguns leitores que se queria impor ao seu interrupto “conto moral” O Temor de Deus) e participa em outros com poesia (em O Bardo, por exemplo), traduções, narrativa, polémicas, algumas com jornais ou pessoas com quem mantinha bom relacionamento.
Depois de novas empresas económicas, polémicas e colaborações em jornais, saem os seus Mistérios de Lisboa, folhetim de O Nacional, desde março de 1853 até janeiro de 1855, em volume em 1854: o decalque sobre tantos Mistérios que circulavam resulta evidente, começando naturalmente pelos de Paris, de Sue. Na obra anuncia a sua continuação com O Livro Negro do pai Dinis: Camilo vive da engrenagem editorial em que entrou o que significa que a ela deve dedicar a sua atividade e que a novela / o romance é género que lhe dá algum dinheiro e lhe permite adquirir contratos. Essa engrenagem motiva igualmente o (por exemplo balzaquiano) aparecimento de personagens em diferentes obras, constituindo em ocasiões séries romanescas. Mas o peso fundamental está ainda do lado da novela negra, gótica, de aventuras ao Radcliffe costurada com os elementos melodramáticos já presentes em Nodier, Pixérécourt, Soulié, Féval, que triunfarão definitivamente com Sue e Hugo.

Camilo, trinta anos; a maioria dos teus colegas de geração estão já todos ou bem situados ou em via de estar, nenhum submetido à instabilidade de um emprego irregular como o jornalismo que até este momento é, pelo geral, considerado complementar de outro trabalho estável ou, para alguns, devaneio de juventude boémia. Sem títulos académicos nem capital social que mobilize e longe dos compromissos políticos (também jornalísticos) que possam garantir um posto na administração do Estado, a tua posição é claramente subalterna. Resta apenas o recurso a um empresário jornalístico ou editor para navegares entre a literatura industrial e a literária ou procurares outro meio de vida. Em 1853 pensas emigrar e apresentas a tua candidatura a comandante de guardas de alfândega; não obténs o posto: não há padrinho vinculado ao meio burguês portuense que esteja disposto a te apoiar. Entregas a educação da tua filha, que vivia com a mãe em Vila Real, à freira Vaz Mourão. E continuas publicando muito, em ocasiões à tua custa como o caso do poemário Um livro, impresso com o auxílio de José Barbosa e Silva, abrindo um procedimento consistente em petições de ajuda (dinheiro ou cunhas) e com frequência apareces romanticamente como escritor incompreendido e fatal.

Entre poemas, poemários (Duas Épocas da Vida) e sátiras anti-burguesas, sai em 1854 A Filha do Arcediago, primeiro volume das Cenas Contemporâneas balzaquianas desde este subtítulo até à crítica ao burguês portuense e maior atenção ao dinheiro e ao quotidiano.

Em 1855 é redator de O Porto e a Carta. Publica Cenas Contemporâneas - II, incluindo o O Livro Negro do Pai Dinis, que mais segue os Mistérios nos seus principais ingredientes do que na trama e A Neta do Arcediago n’A Verdade, publicando-a em volume com o subtítulo de Cenas Contemporâneas - III no ano seguinte: paixão amorosa irrealizada pela convenção social ou a maldade humana (com a mulher fatal romântica em local relevante e inclusive neste caso, excecional, a concreta atenção ao desejo sexual, retirada pelo autor de edições posteriores), o castigo e o penar que só pode achar solução ou consolo em Deus ou nos seus agentes, constituindo uma axial religião de amor na ficção camiliana.

A novela / o romance (não é fácil precisar, é indiferente) proporciona-lhe maior sucesso, ganhos, contínua presença no mercado e uma posição importante no sistema literário português. Em 1856 sai em livro A Neta do Arcediago e n’A Verdade em folhetim Onde está a Felicidade? e Lágrimas Abençoadas, definitiva versão de O Temor de Deus. Também o drama Justiça, com amores, emigrantes no Brasil retornados ricos - os brasileiros - , alvo habitual da sátira camiliana - e demais elementos conhecidos. Inicia a sua colaboração no Aurora do Lima, de Viana, fundado por pessoas vinculadas ao Partido Progressista, entre elas o seu (abastado) amigo José Barbosa e Silva. Com o notabilíssimo jornalista portuense Evaristo Basto, e dois escritores de nome, Alexandre Braga, e Coelho Lousada, redige O Clamor Público, encarregando-se do folhetim: “Eu posso escrever romances jesuítas, romances franciscanos, romances carmelitas, romances jansenista, romances despóticos, romances monárquico-representativos, cabralistas, e até romances regeneradores: o que eu quiser, e para onde me der na veneta”, Camilo dicit, oferecendo-se ao proprietário Faria Regras, para o que promete Um homem de Brios como continuação de Onde está a felicidade? Mas em fevereiro de 1857, com Basto e Lousada, abandona o diário, e o romance, com data de 1856, sai editado por Oliveira Guimarães, proprietário da tipografia onde se imprimia O Clamor.

Com Onde está a felicidade? há um giro: o protagonista Guilherme de Amaral é um jovem mau influído agora pela mesma novela negra que nutria a produção camiliana pouco antes. Camilo modera a sua imitação dos modelos franceses mais próximos do fantástico e simplifica a trama. A crítica social ao meio portuense recrudesce, com novos ecos balzaquianos, sem abandonar por isso o produtivo enredo amoroso, banhado na angústia de Augusta e o remorso de Amaral, um nutriente progressivamente central na sua obra; é mais equilibrada construtivamente, com alguma censura ao melodramatismo de alguns contemporâneos. A crítica começa a valorizar o seu portuguesismo como nota distintiva e o livro vende-se bem. Fórmula e personagens prolongam-se em Um Homem de Brios: mas, atenção! Camilo: na trama há pessoas que veem refletido o relacionamento que, por estas datas, inicias com Ana Plácido, a elegante jovem casada com o destacado brasileiro muito maior que ela, Pinheiro Alves.

Camilo consolida-se como romancista e contribui para consolidar o género, numa posição de relevo que críticos como Ernesto Biester não lhe reconhecem: é a “sociedade de elogio mútuo” lisboeta e o seu desprezo pelo meio portuense, opinas.

Mas ganhas audiência. Além disso, consegues alguma estabilidade profissional contratando com Cruz Coutinho várias obras e recebendo adiantamentos (embora não satisfaçam as tuas necessidades) pedes ajuda com insistência a amigos, aos quais asseguras querer abandonar aquela vida instável e queixas-te da tua saúde, particularmente da tua vista. Mas isto não implica uma inteira sinceridade, Camilo: os teus rendimentos correspondem, em média, aos de um alto servidor público. Certamente, produzes muito, vendes não sempre nas melhores condições e não podes relaxar na atenção aos gostos de público e de editores determinantes às vezes da temática, da perspetiva, da forma ou do género das tuas obras.

Em 1857 dirige por breve tempo A Aurora do Lima, instalando-se em Viana, embora pareça que por estar mais próximo de Ana Plácido, que ali passa uns meses, que por exercer a direção, que deixa quando ela regresse ao Porto. Aqui dirige literariamente O Nacional, no meio de crescentes rumores sobre o seu relacionamento amoroso, aos quais parece responder com o seu folhetim O Mundo Patarata, que origina um contencioso com o proprietário e o abandono do cargo. Por esta data envia a sua filha a Vila Real. E veem luz Duas Horas de Leitura, compilação de colaborações jornalísticas, Lágrimas Abençoadas, duas peças teatrais de amores e peripécias - Espinhos e Flores (dedicada a Herculano e estreada com sucesso no Porto) e Purgatório e Paraíso (estreada no D. Maria II) - e duas pequenas novelas de sátira de costumes sob o título Cenas da Foz, que previamente constituíram folhetim n’A Aurora.

Em 1858 publica a passional Carlota Ângela, Vingança (mundo da peripécia e do folhetinesco, combinado com balzaquiana crítica social, amores contrariados e moralismos edificantes ) e O Que Fazem Mulheres (idem, “romance filosófico”, em que, moralizante, se burla dos modelos terríficos que anos atrás utilizara): mais público ainda que nem sempre com crítica favorável. Reeditam-se ademais várias das suas obras, o que implica ter em circulação atualizada mais de uma dezena de livros, superando qualquer outro escritor português. Herculano proclama ser ele o grande romancista do futuro, o que, ao lado de valer uma consagração fundamental, lhe indica, quase, o caminho a seguir: a novela / romance passional e de costumes (de que era quase o iniciador em Portugal); no prólogo à segunda edição das suas Lendas e narrativas, Herculano quase também o designava seu sucessor.

Mas continuas queixando-te da falta de dinheiro. Os teus amigos tentam procurar um trabalho como servidor público para ti porém mais fortes parecem os obstáculos levantados pelo teu ataque à burguesia do Porto, e cresce o rumor de que o filho da Ana, Manuel, é teu na realidade... A glória literária vai em proporção inversa ao capital económico: Herculano propõe-te sócio correspondente da Academia Real dás Ciências de Lisboa. Entras como redator do magazine O Mundo Elegante: a guerra desde aí com a tal burguesia é já aberta. Apresentas-te ao concurso para preencher uma vaga na Biblioteca Pública do Porto, com o apoio de Herculano. Mas nem assim.

Nada publica em volume em 1859, ainda não deixando de escrever e polemizar duramente na imprensa. Publica vários textos (alguns sobre “casamentos felizes”) na Revista Contemporânea de Portugal e ou Brasil: entra na rede da que anos antes dizia marginá-lo, publicando entre outras umas “Cartas a Ernesto Biester”, o seu mais contínuo elogiador na revista, agora “velho amigo”.





O AMOR DE PERDIÇÃO E O AMOR DE SALVAÇÃO. CAMILO NO TOPO DA POPULARIDADE SOCIAL E LITERÁRIA.

O escândalo amoroso tomou proporções enormes. Ana é pressionada para abandonar a Camilo ou ingressar num convento, decidindo fugir com o seu filho e a sua criada com o escritor, ameaçado inclusive de morte, segundo consta. Os amantes fogem a Lisboa, mas as dificuldades económicas fazem com que Ana se dobre aos desejos de Pinheiro Alves e entre no Convento da Conceição em Braga, de onde fugirá com Camilo outra vez. Este recorre aos seus amigos, entre eles Nogueira Soares a quem pede que fale diretamente com o ministro Fontes Pereira de Melo oferecendo-lhe os seus serviços. Nada obtém. Em precário, vende a Cruz Coutinho parte da sua biblioteca.

Em 1860 unicamente sai publicado em volume (com o seu nome) a tradução de Le Génie du Christianisme. Com Camilo e Ana fugitivos estreia-se com sucesso no D. Maria II a sua comédia Morgado de Fafe em Lisboa e as suas Abençoadas lágrimas, com o morbo de permitir uma leitura biográfica do drama adulterino ali representado. Pinheiro Alves denúncia Ana por adultério e ela é detida em 6 de junho; Camilo passa todo esse verão fugido pelo norte do país até que decide entregar-se em 1 de outubro, ingressando no cárcere do Porto, onde já está Ana.

O movimento de interesses a favor e contra os réus é formidável. No cárcere visita-o duas vezes o rei D. Pedro V. Surgem crónicas que o engrandecem (sobretudo em O Nacional e em A Revolução de Setembro onde o próprio Camilo sob pseudónimo faz propaganda da sua figura) e a biografia Camilo Castelo Branco. Notícia da sua vida e obras do jovem rendido admirador Vieira de Castro. É, indiscutivelmente, o mais reconhecido escritor português contemporâneo. E, com licença por razões de saúde, caracola a cavalo pelas principais ruas do Porto. Os seus adversários pressionam o tribunal e tentam conseguir testemunhas dispostas a declarar a culpabilidade dos amantes, travam a proposta dos seus amigos membros do Instituto de Coimbra para nomeá-lo sócio e setores da burguesia portuense fazem circular o 14 de outubro uma Revista do Porto, reprodução de um ataque camiliano aos seus novos ‘editores’ onze anos antes.

Em 1861 publica-se a sua tradução de Fanny de Fedeyau (conhece o romance realista, que não parece repercutir no seu repertório). A esta obra, e às de O Morgado de Fafe e Abençoadas Lágrimas (publicadas por A.M. Pereira em Lisboa, ainda vende mais que no Norte) une mais duas narrativas impressas na lisboeta Tipografia da Revista: Doze Casamentos Felizes e Romance de Um Homem Rico, com um protagonista omnicompreensivo das fraquezas humanas, sobretudo as da sua repetidamente infiel amada, adubada de falsas incriminações, crimes de adultério e perdões compassivos. Dois textos, pois, de inevitável e morosa leitura biográfica.

Ana e Camilo absolvidos a 16 de outubro. O julgamento foi muito seguido pela imprensa. A estas alturas, a tua vida e obra aparecem absolutamente concertadas arredondando uma summa de valores românticos associados ao amor como bem supremo, à mulher fatal, ao desprezo pelo burguês, à aventura e à peripécia rocambolesca, ao fatum. Camilo e Ana; vocês encarnam aos olhos de muitos dos teus leitores e leitoras os heróis românticos que assomam nos textos camilianos de raptos, brasileiros, perseguições e encarceramentos. Vão para Lisboa, onde recebes o apoio de escritores e intelectuais de renome: os heróis veem à progressista Lisboa fugindo do provinciano Porto, beneficiando-se daquela ‘sociedade do elogio mútuo’ e até defendendo-a dos seus críticos.

Obviamente a sua situação económica complicou-se. Trabalhou muito no cárcere e, apesar das hostilidades desatadas, contratou com alguma estabilidade com várias editoriais, do que, à sua vez, resulta maior volume de atividade e, claro, de rendimentos. A diversificação de contratos parece obedecer tanto à impossibilidade de que uma casa editorial se arrisque a contratar a exclusividade da ingente produção camiliana como à tática do escritor de poder manejar melhor os seus relacionamentos com os empresários, já na entrega de originais, já nas petições de progresso de remunerações ou, ainda, no uso irregular das obras vendidas (inclusive entregando a uma casa o que já vendia a outra). Camilo, premido pela necessidade de dinheiro, vende direitos absolutos o que, a médio prazo, não é bom se tiver sucesso. Com A. M. Pereira publica a humorística Coração, Cabeça e Estômago, Coisas Espantosas e O Último Ato (1862); e Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado, Cenas Inocentes da Comédia Humana e Noites de Lamego (1863); O Morgado de Fafe Amoroso será a última (1865) publicada com A.M. Pereira.

Por meio de um antigo amigo contrata com o conservador Comércio do Porto. Seguem-se As três irmãs, (1861-62), o celebrado romance de ação Estrelas funestas (1862), Estrelas propícias (1862-63), O bem e o mal (1863), A filha do doutor Negro (1864), Vinte horas de liteira (1864) e os romances históricos Luta de gigantes (1865), O santo dá Montanha (1866) O senhor do paço de Ninhães (1867) e A enjeitada (1866), esta diretamente publicada em volume. Pelas mesmas datas contrata, também por mediação de um amigo, com a portuense Moré, que publica os livros citados, menos os três primeiros, e ainda lhe acrescenta: Amor de Perdição (1862), Memórias do Cárcere e segundas edições de O Romance de Um Homem Rico e de Doze Casamentos Felizes (1863), Amor de Salvação, No Bom Jesus do Monte, (1864), Divindade de Jesus, Esboços de Apreciações Literárias, A Sereia e a segunda edição de Agulha em Palheiro publicada no Rio em 1863 (1865), O Judeu, Vaidades Irritadas e Irritantes, a biografia D. António Alves Martins, os textos teatrais O Condenado (1870) e Teatro Cómico (1871) e a narrativa Voltareis, ó Cristo? (1871) e Livro de Consolação (1872).

As obras citadas, romances na sua imensa maioria, alguns outras, como o passional O Esqueleto (1865) e a histórica O Olho de Vidro (1866) publicadas no lisboeta Jornal do Comércio, a reedição de outras muitas e inclusive a adaptação teatral de alguma informam do sucesso camiliano. A novela passional é central agora na sua produção. A consagração procede de Amor de Perdição, que sai com data de 1862 dedicada a Fontes Pereira de Melo e em que interliga o halo romântico da sua biografia e a história contada, reforçada com a declaração da ter escrito em “quinze atormentados dias” de cárcere, contribuindo assim para o mito de um Camilo escritor inspirado e de rara emenda.

Mas a sua vida convulsa e precária em termos físicos (a sua contínua queixa de problemas oculares, de enxaquecas, de velhice prematura) e económicos não cessa, tentando outra vez aceder a um posto administrativo. A morte de Pinheiro Alves no verão de 1863, dias após ter nascido o segundo filho de Ana, Jorge, muda as cousas: Alves vê-se obrigado a deixar herança a Manuel, na qual figura uma casa em São Miguel de Ceide, na região do Minho. Ali irá viver Ana, nela nascerá Nuno, em 1864, e ali se instala Camilo definitivamente.

Por estes anos, junto a outros romances (Anos de Prosa e Memórias de Guilherme de Amaral, saídas em 1863), traduções, prefácios, narrativas breves, miscelâneas... destaca-se em 1865 a compilação Esboços de Apreciações Literárias com muita expressão da tal “sociedade de elogio mútuo” e pouca crítica: se não, dirá, “nenhum escritor faria um nome que o compensasse dos dissabores e da precariedade dos lucros”.

Quando surge a Questão Coimbrã, Camilo não sente aquela pugna como inteiramente própria. Requerido por António Feliciano de Castilho (e forçado talvez pela duradoura recíproca estratégia de elogio mútuo), intervém, mas tarde e, parece, não de muito bom grado. Entretanto, o lisboeta Campos Júnior, outro importante editor de Camilo, publica o folhetim de O Jornal do Comércio do verão anterior, A Filha dum Anjo, sátira sem moralismo de um provinciano deputado cujos hábitos antigos e austeros e os da sua mulher, a capital corrompe em que a crítica ao constitucionalismo (já presente em Coração, Cabeça e Estômago) e, agora, à corrupção durante o Regeneração, assoma. E aparecem também a passional e moralizante A doida do Candal (na segunda edição dirá que escreve para entreter e para comer, não para filosofar...) e a miscelânea historiográfica Cavar em Ruínas, com Campos Júnior.

Em 1868 acrescenta as igualmente passionais O Retrato de Ricardina, O Sangue e Mistérios de Fafe. Dirige o semanário Gazeta Literária do Porto, que cessa no número 16 por desavenças com o seu proprietário e fracassa em outro projeto de fundar um jornal. Em 1869 só publica o pouco inovador Os Brilhantes do Brasileiro. Vê reforçado o seu capital simbólico com galardões como a comenda de Carlos III de Espanha. Em 70 publica quatro títulos, mas só um romance, A Mulher Fatal, história de amores adúlteros e castigados editada por Campos Júnior. Estreiam-se e publicam-se com êxito Como os Anjos se Vingam e O Condenado dedicado a Vieira de Castro, preso por uxoricidio.

Castilho recebe em 70 o título de visconde a duas vidas. Camilo, filho ilegítimo (uma das personagens mais abundantes nos teus romances), por que tu não? Garantirias, assim, alguma viabilidade económica à família e terias a distinção que julgas merecer.

Em setembro escreve para esse fim ao agora bispo de Viseu e ministro do Rei Alves Martins, de quem dá à luz uma biografia. A resposta é dura: enquanto viva amancebado, o rei não lhe concederá o título. As dificuldades económicas levam-no a vender parte da sua biblioteca (uns mil livros) e a escrever prefácios, miscelâneas e traduções. Em Quatro Horas inocentes (1872) Camilo deteta o potencial ascenso do realismo; produz pouco (parece que inclusive pensa em dedicar-se ao comércio por essa data); tenta conseguir o título nobiliário, recorrendo a Castilho e escrevendo ao influente político Rodrigues Sampaio, cuja resposta é similar à de Alves Martins. A réplica de Camilo é um romance, passional e anti-Bragança, A Infanta Capelista, onde as razões dadas para a negativa se voltam argumento em pessoas da realeza em época das guerras civis, mas que, já impressa, destrói, quiçá pela intervenção de amigos que queriam evitar escândalos e/ou pela crença em uma mudança de postura da monarquia. Mas não cedendo esta, a consequência é O carrasco de Vítor Hugo Jose Alves, reutilização da Infanta, publicada por Chardron. Sai também o Livro de Consolação de argumento facilmente relacionável com a vida de Vieira de Castro, morto nesse ano. Recebe a Ordem da Rosa brasileira e é nomeado sócio do Instituto Vasco da Gama. A intervenção enérgica de Camilo na Questão Faustiana, defendendo Castilho dos ataques dos realistas, valer-lhe-á os primeiros ataques diretos dos seus adversários.

Em 1873 Camilo só publica Visconde de Ouguela (a biografia de um amigo da infância) e o primeiro dos dois volumes do romance O Demónio do Ouro, que lhe publica o seu principal editor em meados de setenta, o lisboeta Matos Moreira. 1874 começa com a sua frustrada tentativa como empresário de “Leitura para Todos”, editorial popular de curta vida que funda com outros sócios. Para a sua pretensão nobiliária, solicita a ajuda do destacado político Tomás Ribeiro. A resposta é que o rei só lhe dará o título a ele e que se quer que passe ao seu filho deverá legalizar a sua situação familiar. A réplica de Camilo é agora mais virulenta: com regularidade mensal Chardron publica-lhe Noites de Insónia fascículos, alguns literários outros polémicos com o realismo mas, sobretudo, com vários “Subsídios para a História dá Sereníssima Casa de Bragança” duramente críticos com esta. Sai o romântico poemário amoroso (e em parte autobiográfico) de doze anos atrás Ao Anoitecer da Vida, e o romance O Regicida, nova carga antibragantina editada por Matos Moreira.

Em 1875, translada-se do Porto a Coimbra para estar com os seus filhos menores, estudantes na cidade, e de Luanda regressa Manuel, onde passou dois anos. Aumenta a sua produção com as também antibragantinas A Filha do Regicida e A Caveira do Mártir (1875 -1876), em que oferece uma visão sombria, de repressão e hipocrisia dos reinados dos séculos XVII e XVIII, e ataques moralistas e sentimentais na Introdução aos realistas.




CAMILO, LÍDER ROMÂNTICO PERANTE O ASCENSO DO REALISMO

Em junho morreu Castilho. Aí ficas, Camilo, como exclusivo central representante do romantismo e do antigo perante as primeiras obras de Eça ou Bento Moreno. Tanto, que mudas a atitude em relação à Casa de Bragança (e retiras os volumes em circulação de A Caveira do Mártir, de acordo com o teu editor).

Desde inícios de ano circula já o seu Curso de Literatura Portuguesa. Em 1875 -1876 são publicadas as oito Novelas do Minho editadas por Matos Moreira. Camilo aproveita um meio que conhece em profundidade para uns relatos não de tratamento bucólico mas cheios de peripécia, violência, em qualquer das suas manifestações, de tragédia tratada com vontade de pormenor.

Novos problemas surgem-lhe: no final de 1876, e perante a evidência da loucura do seu filho Jorge volta a Ceide. No verão seguinte morre o seu boémio “filho do coração” Manuel Plácido. Não publica nenhum romance.

Em 1879 Camilo passa ao ataque frontal à já conhecida como ”Ideia Nova”; desde janeiro redige quase em exclusivo a mensal Revista de Bibliografia Nacional e Estrangeira de Chardron, uma magnífica plataforma propagandística em que se entrincheira como defensor do bom português frente à corrupção idiomática que atribui aos seus adversários, como erudito e experimentado homem de letras que se lavrou uma auctoritas. A casa Chardron, publica-lhe o extraordinariamente publicitado Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros, parcialíssima visão de poetas contemporâneos em que se mostra tão comprazedor com os correligionários como agressivo com os partidários da “Ideia Nova” (a começar por Junqueiro). Surge a previsível polémica, mas (já) não intervêm as primeiras figuras do bando contrário. Com ela, Camilo ganha publicidade, enche páginas da Bibliografia e acaba por publicar em volume Os críticos do «Cancioneiro Alegre».

No meio dessa polémica Chardron edita nesse verão, outra vez com grande aparelho propagandístico, Eusébio Macário, no que se anuncia como série “interminável” de “romances facetos”. A sua reação e agressividade anti-realista crescem: o romance é um irónico braço de ferro aos líderes da nova corrente exagerando o pretenso retrato da imoralidade e do vício, e combatendo as técnicas do realismo e o seu republicanismo; mas já há quem considera que Camilo se passou ao bando inimigo. Na segunda edição, com não pouca confusão de conceitos, declara não ter querido atacar os realistas e reclama, outra vez e mais paradoxalmente, paternidade (como explícito discípulo de Balzac) legitimidadora do uso do género.

Mal iniciada a receção do Eusébio Macário na imprensa, a revista A Arte começa a publicar A Brasileira de Prazins, interrompida nos primeiros capítulos, em que o anúncio de um romance passional pode ser intuído. No ano seguinte, publica uma biografia de Camões e A Corja, “continuação de Eusébio Macário”: mais polémica, virulenta (paralela à publicação de outra provocada pela sua crítica a um livro da Princesa Ratazzi cujo retrato de Portugal, e sobretudo a alusão crítica às obras de Camilo estão largamente distorcidos, que quase acaba em duelo com o marido da princesa). A polémica, por vezes eticamente insofrível, estende-se em vários meses.




COMO CONTINUAR O PROJETO CAMILIANO? AMBIGUIDADE E DECLÍNIO, FIEL A SI MESMO

Nada publica em volume em 1881. Os seus problemas aumentam e à loucura agressiva de Jorge une-se a crescente vida dissoluta de Nuno que com, quiçá, a ajuda do seu pai, rapta uma rica herdeira “brasileira” e casa com ela, parece que como modo de garantir o seu futuro económico. Em 1882 sai só o seu crítico Perfil do Marquês do Pombal, e a miscelânea Narcóticos. E com essa data aparece A Brasileira de Prazins, duas histórias, uma jocosa protagonizada por um falso D. Miguel e outra trágica, que narra a sordidez e frustração de uma rapariga casada à força com o seu indiferente e egoísta tio “brasileiro” situadas “pela Maria da Fonte”. Chardron publica-lhe também a polémica denominada A Questão da Sebenta, que tem a sua origem nas acusações de mercenarismo dirigidas por um professor de Coimbra contra Camilo. E uma biografia de D. Luís de Portugal publicada pelo seu novo editor Costa Santos quando já começa uma rutura com Chardron que Camilo atribui ao facto de que lhe pedia “romances realistas, bem picantes” mas que bem pode obedecer ao ‘pouco negócio’ que o editor detetava na futura obra camiliana.

Os seus problemas crescem com o agravamento das suas doenças (sobretudo a dos olhos), e a sua precariedade económica leva-o a vender em leilão em 1883 boa parte da sua biblioteca, ao redor de 2.000 volumes, e a tentar desde tempo atrás por meio de amigos influentes que o Estado compre algum dos seus estudos.

O Vinho do Porto e O General Carlos Ribeiro é toda a sua produção em livro em 1884. Aquela, uma narrativa entre histórica e memorialista, provoca novas polémicas com jovens naturalistas. A segunda, uma biografia, dedicada ao Visconde de Benalcanfor, vai atualizar polemicamente também a sua pretensão nobiliária, ao ser interpretado o presente que faz ao rei de um exemplar em pergaminho como um ato de submissão.




O REVOLVER DO VISCONDE. FIM

Em 18 de junho de 1885 é nomeado por fim Visconde de Correia Botelho, para o que foram decisivas a colaboração de Tomás Ribeiro e a sua atitude colaboradora com a monarquia. Publica cada vez menos. Neste ano só o estudo Maria da Fonte e entre este e o seguinte Serões de São Miguel de Ceide, fascículos dedicados à crítica (por exemplo a favorável sobre A Velhice do Padre Eterno de Junqueiro, prova da reconciliação de ambos) e à crónica cultural e social que suspende na sexta entrega, muito possivelmente por falta de sucesso. Em 1886 sai o Boémia do Espírito: ampla compilação de textos, alguns retocados, suavizando por exemplo a sua crítica à monarquia. Isso provocará uma nova polémica, que publicará, com os sucessores de Chardron Lugan & Genelioux, proprietários (absolutos?) da grande maioria dos textos, que ordenam o confisco da edição. Entre esses textos não está, por exemplo, “A Fidalguinha”, uma sátira a O Primo Basílio e ao seu autor publicada nas revista Repúblicas, que recolherá mais tarde em Serões. E, entre as suas retribuições ao favor régio, deve contar-se a sua crítica amável à tradução que D. Luís de Bragança tinha feito do Otelo de Shakespeare. E por fim sai o seu anunciado “romance de sensação” Vulcões de Lama que não atinge o sucesso apetecido. É, outra vez, uma romance passional e rural centrado na época das guerras civis (o enquadramento histórico mais privilegiado por Camilo), com a crueza das suas últimas obras, pessimista em parte, com um final romântico e sentimentalista. Os problemas familiares e de saúde assediam-no e a ideia da morte, inclusive o suicídio (esta é já antiga), estará cada vez mais presente. Em 1887 não publica nenhum livro e, quase cego, visita vários médicos para encontrar remédio. Com o título “Nota à procissão dois moribundos” publica no Novidades uma réplica ao prólogo de Azulejos do Conde de Arnoso em que Eça, sem citá-lo, atacava Camilo e os “discípulos do idealismo” por hipócritas e passados de moda, três meses após a publicação de “A Fidalguinha”. Mas Eça não fará polémica. Em 1888 Camilo casa com Ana, quiçá como resultado de um compromisso pela obtenção do viscondado. Publica Nostalgias, que dedica a Freitas Fortuna, o seu principal valedor económico e amical destes últimos anos, que muito possivelmente pagou a edição. Em 1889, em Lisboa, recebe uma homenagem de estudantes e intelectuais promovida polo reconhecido escritor João de Deus e a visita do destronado Pedro II do Brasil e obtém uma pensão para Jorge. Publica compilações mas nada novo. E em 1890 sai o livro de sonetos Nas Trevas, editado por Tavares Cardoso & Irmão, após ter sido recusado por vários editores.

A 1 de junho, cego, recebes na tua casa a visita de um prestigioso oftalmologista, nele tens postas as últimas esperanças, mas o teu mal não tem remédio e dás um tiro, suicídio.

O seu enterro e funerais no Porto (no panteão da família de Freitas Fortuna), parece constituir uma pobre manifestação de dó, com a ausência de quase todos os escritores de prestígio e, claro, do mundo burguês da cidade, salvo representações oficiais. A Câmara dos Deputados aprovará um voto de “profundo sentimento” pela morte de uma “glória da literatura nacional” e encerrará em sinal de luto mas não prosperarão outras honras maiores propostas por Junqueiro
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(*) Texto traduzido e adaptado pelo seu autor das páginas 60 a 87 da “Introducción" à tradução La Brasileña de Prazins, Madrid, Cátedra, 2003, e de "Camilo Castelo Branco" (Dictionary of Literary Biography. Portuguese Writers (Ed. de Monica Rector and Fred M. Clark), : A Brucoli Clark Layman Book – Thomson, Detroit, pp. 58-74, 2004