Pusilânime? Talvez... Agora todos o chamam de rei de boa memória...

D. João, Mestre De Avis

Libertador e estadista:
1357 - 1433



Quando tudo aconteceu...

1357: Nasce D. João, filho bastardo de D. Pedro I - 1363: Apenas com 6 anos, é agraciado com o Mestrado de Avis. - 1383: D. João mata o Conde de Andeiro, valido de D. Leonor Teles, viúva do Rei D. Fernando (meio-irmão de D. João) e que se prepara para entregar o trono português ao Rei de Espanha; D. João, Mestre de Avis, é nomeado regente e defensor do Reino. - 1384: D. Nuno Álvares Pereira derrota os castelhanos na batalha de Atoleiros. - 1385: D. João é aclamado Rei nas Cortes de Coimbra, dando início à segunda dinastia portuguesa, dita de Avis; com o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, em Aljubarrota arrasa as pretensões castelhanas à Coroa portuguesa; para comemorar a vitória, manda edificar o Mosteiro da Batalha. - 1386: Inicia a unificação interna do país, tentando sempre o equilíbrio das Finanças da Coroa; tentando sempre o equilíbrio entre os interesses da nobreza e da burguesia comercial; firma a aliança anglo-portuguesa que ainda hoje vigora - 1387: Casa com D. Filipa de Lencastre - 1415: Participa na tomada de Ceuta, iniciando assim a expansão ultramarina portuguesa. Escreverá depois O Livro da Montaria. - 1433: Morte de D. João I, Mestre de Avis.

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EM QUE SE CONTA O NASCIMENTO DE UM PEQUENO PAÍS...

Península Ibérica, um país pequeno, Portugal. A história de um Rei e do seu Condestável. Começa no século XIV e entra pelo século XV. O Rei, bastardo de Rei, foi aos seis anos Mestre da Ordem de Avis, benesse paterna. O Condestável mais tarde será Santo, é o que dizem..

O cargo de Condestável fora criado por D. Fernando, meio irmão do Mestre de Avis. Quando subiu ao trono, procurou estabelecer leis que fomentassem o desenvolvimento do país, principalmente nos domínios do comércio e da agricultura. Fez aprovar nas cortes várias leis com esse intuito.




MAIS SE CONTA DO GRANDE INIMIGO QUE ESSE PAÍS TINHA

Na guerra e no amor, no entanto, foi D. Fernando assaz infeliz. Assim: em 1366, D. Henrique, filho ilegítimo de Afonso XI, faz-se coroar Rei na cidade de Burgos. Três anos depois manda assassinar o meio irmão e anterior Rei de Castela D. Pedro I. Os partidários do assassinado convidam D. Fernando a auxiliá-los a vingar a morte do primo. O nosso Rei não se faz rogado e, ainda em 69, invade a Galiza. Tendo conquistado Orense, Tui e Corunha, vê-se confrontado com uma invasão castelhana ao norte do seu próprio território. O Papa tem um poder considerável e Urbano V obriga os dois monarcas a fazer a paz, com restituição mútua das terras entretanto conquistadas. E a promessa do casamento da filha de D. Henrique com D. Fernando. A princesa chama-se D. Leonor. Só que o nosso suserano anda tomado de amores por uma viúva mal-afamada, também Leonor, mas de apelido Teles.

E é mesmo com esta última que D. Fernando acaba por contrair matrimónio. O povo, dizem, ama o Rei e tem um ódio de morte à rainha. É voz corrente que a mulher o trai com um nobre ao seu serviço, o Conde João Fernandes Andeiro, para mais galego...

Entretanto, a guerra com os castelhanos continua intermitentemente - e dando muito que fazer à diplomacia pontifícia. Ao saber que Portugal pretende assinar um tratado de paz e aliança com a Inglaterra, lá vem de novo D. Henrique de Castela invadir-nos. Chega a entrar em Lisboa em 1373, ano da assinatura do Tratado, aliás. O Cardeal de Bolonha, D. Guido, a mando papal, impõe aos beligerantes a paz de Santarém.




BREVE HISTÓRIA ANTERIOR, IMPORTANTE PARA COMPREENDER ESTE RELATO

É sabido que "Rei morto, Rei posto". D. João de Castela sucede no trono a D. Henrique e, em 1381, declara novamente guerra a Portugal. Pequenas escaramuças em terra e no mar. Por fim, o grosso dos dois exércitos encontra-se frente a frente entre Elvas e Badajoz. A batalha parece inevitável. À última hora os dois exércitos retiram-se. A paz é assinada em 1382. E lá voltamos ao tema do casamento...

D. Beatriz (filha única de D. Fernando e D. Leonor Teles), como consequência do Tratado, casa com D. João I de Castela. No papel, parece que Portugal nada tem a perder. Séculos depois, dirá Alceu de Faria na sua "Sinopse da História de Portugal":

Na escritura de casamento assinada em Salvaterra de Magos procurou D. Fernando defender a Nação de perturbações internas causadas pelos pretendentes, filhos de D. Pedro I, e assegurar a sucessão em seu descendente. Por isso (...) ficou estipulado que se D. Fernando, à data da sua morte, tivesse algum filho varão, seria este o Rei de Portugal; que, se morresse sem filho varão, seria herdeira do trono D. Beatriz, governando Portugal D. Leonor (Teles), como regente até que D. Beatriz tivesse um filho de catorze anos; que D. João de Castela herdasse a coroa de Portugal, se D. Beatriz e D. Fernando falecessem sem deixar descendência; mas que o Rei de Portugal herdasse o trono de Castela, se D. João ou a Infanta, sua irmã, falecessem sem deixar filhos legítimos. Em 1383 faleceu D. Fernando e, nos termos do que fora estipulado, D. Leonor assumiu a regência do reino em nome da filha e mandou-a aclamar Rainha de Portugal. Esta aclamação foi mal recebida em muitas terras onde o povo se manifestava por D. João, Mestre de Avis, filho de D. Pedro e D. Teresa Lourenço. O povo odiava D. Leonor e o seu valido, João Fernandes Andeiro, conde de Ourém. Dizia-se que o Rei de Castela se preparava para invadir Portugal.




EM QUE SE CONTA COMO O POVO TOMOU O PARTIDO DO MESTRE CONTRA CASTELA

O povo então, em Lisboa, Santarém, Elvas e outras cidades e vilas importantes, amotina-se. Pressente-se no horizonte a subjugação a Castela e a arraia miúda não parece disposta a perder o seu falar, os seus usos e costumes. Mas que chefes há para a revolta deste povo? No século XX, Jaime Cortesão adaptará um comentário da "Crónica do Condestável de Portugal" de um autor anónimo dos século XIV. Assim:

Os fidalgos? Os grandes Senhores de Portugal?! Mas esses, cujo estado e riqueza eram todos de herança e se acrescia com os privilégios e os favores reais, tinham para si que todo um reino podia passar, como couto ou alfaia herdada, de senhor a senhor, por legítimo direito, com ou sem o agrado dos vassalos. E como da parte de El-Rei D. João [de Castela] estava a força, tanto o interesse como a prudência aconselhavam a tomar o seu partido. (...) Porém, senhores, quando a causa justa parece mais perdida, surgem homens de coração nobre e esforçado, embora de menor condição, que tomam sobre si o encargo que os outros abandonam. Isto sucedeu então. Alguns fidalgos moços, cujo entendimento alcançou que "a tempos novos, verdades novas", e sentiam que a razão e o direito estavam com a gente popular, tomaram logo partido contra o Rei de Castela, e apregoavam também que Portugal havia de ser livre e governado por um Rei, seu natural. Entre estes, mais que nenhum, era Nun'Álvares.




EM COMO SE RELATA O PRINCÍPIO DA CONSPIRAÇÃO

Álvaro Pais, antigo chanceler-mor - primeiro de D. Pedro e depois de D. Fernando - vê chegada a hora de se ver livre do Conde João Fernandes Andeiro. Sabendo que D. João Afonso, conde de Barcelos, também lhe queria mal, procurou que se encontrassem. Contou-lhe da má fama que a Rainha tinha nas gentes por causa do Andeiro e de como isso até a ele trazia desonra, pois era D. Leonor sua irmã. Estava na hora de voltar a dar bom nome à instituição real.

D. João Afonso aquiesce, pois de tudo está ao corrente e mais concorda com a vontade de Álvaro Pais de assassinar o outro. Mas não vê como fazê-lo de momento. Após longas confabulações, concordam que o melhor seria falar com o Mestre de Avis, que lhes parece a pessoa indicada para empreender o feito e enfrentar quaisquer obstáculos. D. João Afonso compromete-se a estabelecer o contacto entre os dois homens.




O ACORDO ENTRE ÁLVARO PAIS E O MESTRE DE AVIS

Estando Álvaro Pais velho e doente, foi-se a ele o Mestre tão logo pôde responder ao recado do Conde de Barcelos. E o homem honrado, sentencia que mais ninguém existe, em todo o Reino, tão certo para desempenhar o mister:

- Primeiramente - disse Álvaro Pais - por vós serdes irmão de El-Rei, a quem a sua desonra deve doer mais que a ninguém. A segunda, porque fostes preso por azo do conde João Fernandes e da Rainha, e posto em tal perigo como todos sabem. E mais que não fosse, só por segurar a vossa vida, que nunca estará segura enquanto o conde João Fernandes for vivo, devíeis fazê-lo. E agora que El-Rei morreu ainda mais usarão de sua maldade, e temendo-se de vós, que bem sabem que deveis sentir isto mais que qualquer outra pessoa, sempre vos buscarão azo e caminho para que vossa vida seja finda. E pois que a vingança desta acção a ninguém compete mais que a vós, fazendo-o da maneira que eu vos digo, praticareis uma grande façanha e muito de louvar aos vindouros. Tal que nenhuma outra cousa poderia agora ser achada que merecesse entre os homens louvor igual nem comparável. (in "Crónica de El-Rei D. João" de Fernão Lopes.)

D. João pondera. Tem fortes razões pessoais para querer o mal da Regente e do seu amante. A Rainha D. Leonor começara por bem lhe querer para depois temer as suas pretensões ao trono. Conspirara com João Fernandes, seu amante, e ambos levaram o Rei a prendê-lo. Não contentes com isso, forjaram ordem do Rei para a sua execução. Os avatares da sorte protegeram-no. A dúvida instalou-se nos seus algozes. Pediram a confirmação do Rei que, horrorizado, anulou a ordem. D. João, em sequência da ajuda que pediu aos aliados ingleses, sobretudo ao Duque de Lencastre, acabou por ser libertado. Mas sabe agora ter inimigos ainda mais "figadais" que os castelhanos.

O Mestre tem desejo grande em cometer o feito, mas apresentam-se-lhe dificuldades. Como reagiriam os acólitos do Andeiro, eles que são em tão grande número e em permanência lhe garantem a segurança? E o resto das forças leais à Rainha? Cometer o acto dentro dos muros de Lisboa parece-lhe demasiado imprudente. Promete-lhe então Álvaro Pais que o povo, ao saber da notícia, há-de ajudá-lo e protegê-lo. Ele próprio se encarregará de assegurar isso.

O Mestre decide-se. A coisa vai ser posta em prática. Ao ouvir isto, os olhos do velho chanceler ficam marejados de lágrimas. Ora chama o interlocutor de filho ou de Senhor. E depois, beijando-o no rosto:

- Agora vejo a diferença que há entre os filhos dos reis e os homens comuns!...




A CONSPIRAÇÃO TOMA FORMA

O grupo dos conspiradores alarga-se. Para além de D. João e Álvaro Pais, juntam-se-lhe D. João Afonso, claro, o irmão de D. Leonor e muitos outros, entre os quais avultará Rui Pereira.

Sucedem-se as reais exéquias. O Andeiro, que tinha dado às-de-vila-diogo aquando da morte de D. Fernando, volta. Isto apesar dos seus apaniguados o desaconselharem. Parece-lhe que as águas estão mais calmas. E também que as preocupações tomam demasiado o pensamento dos seus inimigos para se preocuparem em fazer-lhe mal. Para mais, D. Leonor afasta o Mestre de Avis, quem ele mais teme. É enviado para defender a fronteira da comarca de Entre Tejo e Guadiana, correspondendo mais ou menos às terras do Mestrado mais alguns conselhos e vilas ao seu redor.

As reuniões conspiratórias sucedem-se. Os conjurados decidem que assim que o Mestre consuma o acto, o seu pajem, Gomes Freire, montará o cavalo do amo e atravessará a cidade bradando que estão a matar o Mestre. Avisado Álvaro Pais, este acorrerá ao Paço Real arrastando atrás de si quanto povo possa.

D. João parte para o Alentejo. Há quem diga que já fazendo tenção de voltar no dia seguinte. Outros que, apesar das combinações, o Mestre viu a empresa como demasiado insegura e está disposto a abandoná-la. Porquê? Muitos dos nobres com quem fala, escusam-se. Temem o poderio castelhano e, portanto, receiam pela própria vida. Por outro lado, o prometido apoio popular arregimentado por Álvaro Pais, parece-lhe duvidoso.

Que o faz voltar? Pois a constatação de que, uma vez a engrenagem posta em marcha, o caminho é sem regresso. Falara com muita gente - e se aqueles que não querem acompanhá-lo vão contar o projecto à Rainha ou aos castelhanos? Qualquer que seja a escolha, o perigo de vida é praticamente o mesmo.




O DIA D OU A HORA H

D. João entra no Paço e força depois a entrada na sala onde está a Rainha, seguido por alguns homens, todos armados dos pés à cabeça. D. Leonor reage mal a isto. E pior reage João Fernandes. Pela frente, sorrisos e mesuras. Só que envia todos os seus homens a armar-se e depois voltar por si. Erro táctico. Não tarda que o Andeiro esteja sozinho: os seus homens ausentes a seu mando, os outros nobres aproveitando a hora do jantar para uma airosa saída. Uns porque fazem parte da conspiração e outros por pressentir a iminência de algo.

D. João recusa partilhar a refeição que lhe propõe o Conde de Ourém mas leva-o para outra sala, dizendo que tem algo a dizer-lhe. Despedem-se de D. Leonor e são seguidos pelos homens de armas do Mestre, onde pontificam Rui Pereira e Lourenço Martins. Vão para junto duma janela, longe dos outros. Falam baixo, ninguém os ouve. Parece que o Mestre acusa o outro de tramar a sua morte. O Andeiro terá ripostado que não. Sem aviso, D. João saca dum cutelo comprido e fere-o na cabeça. João Fernandes tenta fugir para a sala da Rainha. Mas os homens do Mestre já desembainharam as espadas e é Rui Fernandes quem passa pelas armas o Conde de Ourém, provocando-lhe a morte.

Gomes Freire, o pajem, cumpre a sua parte do papel. Álvaro Pais também. O povo revolta-se ao pensar que estão a matar o Mestre de Avis. A revolta popular dirige a sua ira contra todos aqueles que julga serem do partido castelhano. As portas do Paço foram fechadas pelos seguidores do Mestre. O povo, por seu lado, mata o Bispo de Lisboa, D. Martinho, por se ter recusado a tocar a rebate os sinos da Sé. E as mortes não teriam ficado por aí, não fora o Mestre de Avis. Depois da "Revolução", impõe "o Estado" e assegura a paz interna. Para reunir apoios para a sua causa, D. João começa também a prometer o que mais tarde irá negar ter prometido. Dar o dito por não dito, irá trazer-lhe dissabores. Chegará mesmo a provocar o quase rompimento com Nun'Álvares. Mas isso será mais tarde. Por agora, as baterias estão unicamente assestadas aos castelhanos.




A GUERRA

O Mestre de Avis é aclamado pelo povo de Lisboa como "Defensor e Regedor do Reino". D. Leonor refugia-se primeiro em Alenquer e seguidamente em Santarém. Pede ajuda ao genro. Em 1384 os castelhanos invadem Portugal. Entram pela Guarda, cujo Bispo é seu partidário e lhes franqueia as portas. Mal chegam a Santarém, D. Leonor abdica da regência em favor de D. João de Castela. A resposta deste foi enviá-la como prisioneira para o Mosteiro de Tordesilhas.

O povo e a burguesia apoiam o Mestre, sem reservas. Encontrando-se o Tesouro Público à beira da bancarrota devido às guerras do tempo de D. Fernando, Lisboa oferece cem mil libras para obviar às primeiras despesas da guerra nova. Outras cidades seguem o exemplo e o bolo vai crescendo. Algumas igrejas cedem pratas, os judeus também participam.

Mas se o povo era pelo Mestre, o mesmo não sucedia com parte da nobreza que se pronunciava por Castela, fundada no juramento de fidelidade feita a D. Beatriz nas cortes de Torres Vedras, em 1380, e em Badajoz. Entre os nobres que acompanharam e defenderam o Mestre, nota-se D. Nuno Álvares Pereira, filho do prior do Hospital, casado aos 16 anos com D. Leonor Alvim que, contra a opinião dos irmãos Pedro e Diogo, partidários de Castela, se dirigiu de Entre Douro e Minho a Lisboa e se torna o símbolo das virtudes da nossa raça, pela sua valentia, pela sua fé, pela sua acção. (in "Sinopse de História de Portugal", de Alceu de Faria.)

D. João funda a Casa dos Vinte e Quatro ou Câmara de Lisboa. Nomeia o seu Conselho, que inclui João das Regras, o seu chanceler. Organiza a defesa. Manda Nuno Álvares defender as terras de Entre Tejo e Guadiana. Toma o castelo de Lisboa e prepara a defesa da cidade, cercada por terra e por mar por D. João de Castela. A cidade resiste, havendo grande fome e privações. Por fim, a Fortuna põe fim ao cerco: a peste faz levantar o campo inimigo. Fidalgos e povo reunidos decidem a realização de Cortes em Coimbra: reunião de todos os fidalgos, clero e concelhos partidários do Mestre, reconfirmado na regência. Este e Nuno Álvares, cada um por seu lado, partem à conquista do maior número de castelos partidários de Castela. O Mestre de Avis alcança algumas vitórias, mas é a D. Nuno que se fica a dever a vitória na guerra.

Tudo começa quando, em 1384, encontrando o exército castelhano perto de Estremoz, e vendo que os seus homens são em menor número, inova, passa à prática o que lera sobre as falanges de Alexandre Magno. Dispõe os seus homens em quadrado: à frente, a vanguarda de lanceiros; à retaguarda, os besteiros a atacar o inimigo com dardos e virotões; a cavalaria, desmontada, integrava-se no quadrado - fechado ainda pelas alas esquerda e direita. Os castelhanos atacam em ondas, como é costume, e vão morrer contra as lanças. Entretanto, os besteiros disparam sobre os castelhanos. As alas laterais garantem a solidez da formação e estão prontas a envolver o inimigo. Os de Castela atacam a cavalo, confiados na tarefa fácil que será desbaratar o reduzido número de portugueses. O descalabro é total e não tardam a pôr-se em fuga. O nome da batalha: dos Atoleiros, nome do local, perto de Fronteira.

Seguem-se mais batalhas. Acabam sempre com a derrota dos castelhanos. A mais famosa é a de Aljubarrota. Apesar das hesitações de D. João momentos antes de terçar as armas, Nun'Álvares toma a iniciativa: outra vez o quadrado que já dera certo em Atoleiros. Aljubarrota é a batalha mítica desta guerra. Faz perceber definitivamente aos portugueses que os castelhanos nada mais são que "moinhos de vento". Apesar de em maior número e melhor armados, sucumbem ao querer dos portugueses. É um querer muito forte, sustentado pelo génio militar de Nuno Álvares - também o líder espiritual das gentes lusas.

Está na hora de retomar Portugal, desejo simbolizado na construção do Mosteiro de Santa Maria da Batalha, mandado edificar por D. João para cumprir voto a que se obrigara antes do embate e agradecer a Deus a mercê da vitória.




CORTES, ORGANIZAÇÃO E CASAMENTO

Em Coimbra realizam-se as Cortes. Há grande divergência de opiniões e vários pretendentes ao trono: D. Beatriz, D. João e D. Dinis, filhos de D. Pedro e Inês de Castro, e os inevitáveis D. João de Castela e o Mestre de Avis. João das Regras, jurisconsulto, rebate uma por uma as pretensões e declara o trono vago. Faz o elogio do Mestre: "merece esta honra e estado de Rei". E como tal é aclamado a 6 de Abril de 1385, dando início à segunda dinastia, dita "de Avis".

D. João nomeia Nuno Álvares seu Condestável. Cria uma espécie de exército permanente e de serviço militar obrigatório, um arsenal em Lisboa e condições para a compra e manutenção de cavalos e material de guerra. Aprofunda as relações com a Inglaterra, que já o ajudara nalgumas batalhas. Entrevista-se com o Duque de Lencastre, que conquistara todo o Norte da Galiza e pretende o trono castelhano. Reforça-se a aliança entre as duas Nações. A 2 de Fevereiro de 1387, no Porto, realiza-se a união do Rei de Portugal com a filha do Duque, D. Filipa de Lencastre. Do casamento irão nascer homens de vulto, como D. Duarte (herdeiro do trono) e os infantes D. Pedro, D. Henrique, D. João e D. Fernando. Camões chamar-lhes-á a ínclita geração, a ilustre geração. E realmente ilustre, porque todos serão príncipes de conhecimentos muito alargados. Influência da mãe? Talvez, mas certamente do pai. Este, quando apenas Mestre de Avis, já traduzira do latim um Livro de Horas, e continua a praticar a arte caligráfica. Domina o direito canónico, administra a "coisa" pública, preocupa-se com o registo histórico. E irá escrever, no fim da vida, obra notável, O Livro da Montaria.

D. Filipa é, sem dúvida, a esposa que faltava a D. João pois deste, após o casamento, não serão conhecidos nem bastardos nem amásias, nem dele há notícia com uma ou outra barregã, contrariamente à devassidão em voga.




FIM DA GUERRA

A guerra com Castela encontra-se reduzida a escaramuças de fronteira desde a batalha de Valverde... Em 87 D. João de Castela pede a paz - e novamente em 89. Segue-se um não acabar de tréguas não cumpridas, entremeadas com conquistas portuguesas: Tui (duas vezes), Badajoz. Só em 1411 é estabelecida a paz definitiva, por sinal apenas ratificada em 43.

D. João continua a obra iniciada por D. Dinis de tornar cada vez mais poderosa a marinha e armadas portuguesas. Feita a paz com Castela, prepara a expansão territorial do país. Só pode ser para o lado do Mar. Em 1415, encabeça a tomada de Ceuta, iniciando assim a expansão ultramarina portuguesa. Seguir-se-ão os Descobrimentos, que o Infante D. Henrique toma a peito.

D. João vive mais dezoito anos, tentando sempre manter unidas as gentes portuguesas, por isso percorre o país de lés a lés; tentando sempre equilibrar as Finanças da Coroa e os interesses da nova aristocracia com os da burguesia comercial. Começa a partilhar o governo da Nação com o seu filho D. Duarte. Tem assim tempo disponível para recordar ainda os feitos da sua juventude e escreve O Livro da Montaria. Nele descreve as múltiplas técnicas da montaria, a caça foi sempre a sua grande paixão. Evoca o prazer das lutas de corpo a corpo, do jogo da pela e da dança, da música e do xadrez. Chega mesmo a comparar à beata contemplação de Deus, a alegria de ver um urso a cair na armadilha.

Morre em 1433. Prudente? Com certeza. Pusilânime? Talvez... Agora todos o chamam de Rei de Boa Memória.