A paz é inseparável da Independência...

Samora Moisés Machel

Primeiro Presidente de Moçambique:
1933 - 1986



Quando tudo aconteceu...

1933: Em Xilembene (província de Gaza, Moçambique) nasce SAMORA MOISÉS MACHEL. 1942: É matriculado na Instrução Primária dirigida por padres. 1952: Em Lourenço Marques é admitido no Hospital Miguel Bombarda, onde tira o curso de enfermagem. 1956: Na ilha de Inhaca casa com Sorita Tchaicomo que lhe dará quatro filhos. 1961: Eduardo Mondlane confidencia que a FRELIMO está a ser organizada na Tanzânia. 1963: Adriano Moreira e Eduardo Mondlane, diálogo de surdos. Neste mesmo ano SAMORA MOISÉS MACHEL salta para a Tanzânia e dali é encaminhado para a Argélia onde recebe intenso treino militar. 1964: A FRELIMO vence a tropa portuguesa estacionada em Chaí, província do Cabo Delgado. 1968: SAMORA MOISÉS MACHEL comanda a Frente de Tete. 1969: Eduardo Mondlane morre ao abrir uma encomenda-bomba. No mesmo ano SAMORA MOISÉS MACHEL casa com a guerrilheira Josina Mathemba que lhe dará um filho. 1970: SAMORA MOISÉS MACHEL, Presidente da FRELIMO, consegue ser recebido pelo Papa Paulo VI. 1971: Vítima de doença, morre Josina Mathemba. 1974: A 25 de Abril, em Portugal, a chamada Revolução dos Cravos. 1975: A 25 de Junho a independência da República Popular de Moçambique. 1975/86: Tentativa falhada de implantar em Moçambique uma economia socialista. 1976: SAMORA MOISÉS MACHEL casa com Graça Simbine (Graça Machel). 1986: SAMORA MOISÉS MACHEL morre num desastre aéreo.

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PRIMEIROS TEMPOS

Olá Samora!
Filho de um esforçado agricultor negro, sei que nasceste em 1933 em Xilembene, aldeia da província de Gaza, norte de Moçambique. Aos 9 anos és inscrito na Instrução Primária. Mas como as autoridades coloniais entregaram à Igreja Católica a educação dos indígenas, padres é que são os teus professores. E como eles afogam as aulas em orações, só aos 18 anos é que terminas o curso. Pretendes continuar a estudar mas a única opção que te oferecem é Teologia. Recusas e rumas para Lourenço Marques, a capital assim denominada pelos portugueses em homenagem ao navegante e mercador que no século XVI explorara o litoral sul de Moçambique..
Em 1952 consegues um lugar no Hospital Miguel Bombarda, ao teu alcance está o curso de enfermagem.




REBELDIA

Neto de um guerreiro de NGUNGUNHANE, a rebeldia flui em tuas veias. Contestas que os brancos tenham nascido para mandar e os pretos para obedecer. Rebeldia que te converte em devoto da União Soviética e da China de Mao Tsé Tung. Também em assanhado admirador de Nkrumah que em 1957, no continente africano, fomentara a independência do Gana.
Um intervalo: em 1956 és colocado como enfermeiro na ilha de Inhaca (frente a Lourenço Marques) onde conheces, namoras e casas com Sorita Tchaicomo que te dará quatro filhos.

MONDLANE

O sociólogo Eduardo Mondlane, negro e moçambicano, em 1961 regressa à terra natal, mas como funcionário da Curadoria da ONU. É-te apresentado em Lourenço Marques. Ele fareja a tua rebeldia e acaba por confidenciar-te que na Tanzânia está a ser organizada uma Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO).
Ficas entusiasmados e em 1963 abandonas mulher e filhos e saltas para a Tanzânia, onde a FRELIMO já é presidida por Mondlane.
Nesse mesmo ano de 1963 Adriano Moreira, ministro de Salazar, convida Mondlane a participar no governo colonial de Moçambique. Mondlane responde-lhe que Portugal devia era seguir o exemplo das outras potências europeias que outorgaram a independência às suas colónias africanas. Adriano e Eduardo, cada qual na sua, diálogo de surdos...

FRELIMO

É Mondlane quem te encaminha da Tanzânia para a Argélia onde recebes rigoroso treino militar.
Munida com armas dos países do leste da Europa, em 1964 a FRELIMO ataca e vence a tropa portuguesa estacionada em Chaí, província do Cabo Delgado.
Ó SAMORA MOISÉS MACHEL: depois de regressares da Tanzânia em 1966 és nomeado chefe do Departamento de Defesa da FRELIMO. Dizem de Defesa, porém mais preciso seria dizer Militar... Também em 1966 o Joaquim Chissano é nomeado chefe do Departamento de Segurança.
Em 1967 tratas de organizar o Destacamento Feminino do vosso movimento para que as mulheres melhor entendam a luta pela libertação.
Observas que há muitas rixas tribais entre os guerrilheiros por ti comandados. Por isso, em 1968, resolves abrir a Frente de Tete, pois a luta contra o inimigo comum elimina a interna divergência de crenças. Mas uma vitória isolada não garante que a guerra seja ganha, tanto mais que o número de guerrilheiros da FRELIMO nem de longe se aproxima dos 70 mil soldados portugueses aquartelados em Moçambique. Aquartelados e comandados por um militar astuto, que é o General Kaúlza de Arriaga. Neste panorama a táctica da FRELIMO só pode ser a de atacar aqui, se possível vencendo, e logo sumir para atacar ali. E sempre obedecendo à rigorosa disciplina do Partido único, inspiração soviética.
Em 1969 é trucidado Eduardo Mondlane ao abrir uma encomenda-bomba. Quem a enviou? Certamente as autoridades coloniais portuguesas sob a orientação da PIDE (polícia política de Salazar), Mas quais os cúmplices que a colocaram ao seu alcance? Não se sabe, e será difícil ou impossível saber.
Ainda em 1969 um novo intervalo: esqueces a mulher e filhos que abandonaste na ilha de Inhaca e casas com a guerrilheira Josina Mathemba que te dará um outro filho.
Em 1970 os teus camaradas elegem-te Presidente da FRELIMO. Marcelino dos Santos também é eleito, mas Vice-Presidente. Nesse mesmo ano consegues ser recebido pelo Papa Paulo VI, numa tentativa (bem sucedida) de neutralizar o seu costumado apoio à política de Portugal.
Em 1971, vítima de doença, morre a tua Josina Mathemba.




REVOLUÇÃO DOS CRAVOS

Em Portugal, a 25 de Abri de 1974 ocorre a REVOLUÇÃO DOS CRAVOS, militares a apagar a ditadura ateada por Salazar.
Mário Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros do novo governo português, dirige-se a Lusaca (capital da Zâmbia) onde propõe à FRELIMO a paz imediata e um referendo para se saber se a maioria dos moçambicanos (brancos e negros) quer ou não quer a independência. Tu, SAMORA MOISÉS MACHEL, avisas:
- A paz é inseparável da independência.
Reacende-se novamente o rastilho dos confrontos armados.
A 7 de Setembro de 1974 o novo governo português retorna a Lusaca, mas desta vez representado pelo Major Melo Antunes que propõe a paz imediata e a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975, constituindo-se entre as duas datas um governo de transição integrado por elementos da FRELIMO e de Portugal.
Tu, SAMORA, aceitas a proposta e a FRELIMO indica Joaquim Chissano para primeiro-ministro do governo de transição e a ti para futuro Presidente da República Popular de Moçambique, cuja Constituição é redigida e votada favoravelmente (cerca de 100%) em Inhambane.

REPRESSÃO

Antes da independência tratas de abafar os opositores quer da FRELIMO, quer do marxismo-leninismo. Nomes? Por exemplo Lázaro Kavandame, Uria Simango, Paulo Unhai, Kambeu, Joana Simeão e o Padre Mateus Gwengere. São por ti rotulados como elementos nocivos. Presides a um julgamento dito revolucionário e todos eles são passados pelas armas.

RACISMO ÀS AVESSAS

Antes mesmo da independência a tua aversão aos portugueses leva-te a mudar o nome de alguns locais e cidades. Lourenço Marques passa a ser Maputo, que é o nome do rio no extremo sul do país.
Nem todos os camaradas partilham dessa aversão. Por exemplo: Joaquim Chissano, primeiro-ministro instalado em Lourenço Marques (Maputo) não se cansa de publicamente apregoar que, para pretos e para brancos, a independência de Moçambique só trará vantagens.
Um mês antes da independência tu e os teus guerrilheiros, vindos da Tanzânia, entram em Moçambique pela fronteira norte. E conforme vão descendo para o sul, rumo à capital, com os teus discursos vais inflamando as populações negras contra a presença de brancos num país que é só vosso. Ou seja: um racismo às avessas que irá provocar a debandada dos quase 200 mil portugueses que vivem em Moçambique. A quem interessa esse racismo às avessas? A ti? Aos negros moçambicanos? Ou á União Soviética que aspira ser o esteio dum país recém-nascido?

PRESIDÊNCIA

Como presidente da República Popular de Moçambique, no campo externo consegues neutralizar a hostilidade de Ronald Reagan (presidente dos americanos) e de Pik Botha (presidente dos sul-africanos e líder do apartheid). Habilidade diplomática já comprovada durante o teu contacto com o Papa Paulo VI.
Novo intervalo: em 1976 casas com Graça Simbine (mais tarde conhecida apenas por Graça Machel) e Ministra da Educação no governo a que presides.
No campo interno apontas ao socialismo. Nacionalizas a Justiça, a Saúde e a Educação, também as casas de rendimento, a terra e a agricultura. Com mão de ferro reprimes opositores e dissidentes, circunstância que fomenta a aparição da RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana) a qual, apoiada pelo Ocidente, de armas na mão combate o governo e a presidência da FRELIMO. Guerra civil que, em 16 anos, irá provocar cerca de um milhão de mortos.
Tu, SAMORA, também concebes e pões em circulação a nova moeda moçambicana que é o Metical.
A debandada dos portugueses provocou a pasmaceira nas pequenas e médias empresas que eram suas: indústrias químicas, têxteis e metalúrgicas, entre outras. Pasmaceira que rapidamente alastra por toda a economia moçambicana. Para combatê-la, a contragosto és forçado a dar prémios financeiros aos quadros da FRELIMO que melhor fazem a gestão de empresas. É assim que o socialismo começa a fugir das tuas mãos...

MORTE

Em 19 de Outubro de 1986, num Tupolev 134, cedido pela União Soviética, com vários dos teus colaboradores voas de Lusaca para Maputo. Mas o avião despenha-se contra os montes Libombos (África do Sul) e assim morrem todos os tripulantes e passageiros.
Sabotagem sul-africana através de um rádio-farol enganador? Ou sabotagem dos soviéticos porque tu, ó MACHEL, estavas a afastar-te do comunismo?
Talvez nem uma coisa nem outra, mas bebedeira que extravasou dos passageiros para os tripulantes.