Soeiro Pereira Gomes abre os olhos ao que o rodeia...

Soeiro Pereira Gomes

Escritor, político, cidadão, luta contra a ditadura salazarista e defende a causa dos explorados e oprimidos::
1909 - 1949



Quando tudo aconteceu...

1909. Nasce Joaquim Soeiro Pereira Gomes, em Gestaçô, concelho de Baião, a 14 de Abril. É filho de Alexandre Pereira Gomes e de Celestina Soeiro Pereira Gomes. 1915. Vai viver para casa de uma tia em Espinho e começa ali a frequentar o ensino primário. 1920. Matricula-se em Coimbra no curso de regentes agrícolas. 1928. Após a conclusão do curso, durante a festa de formatura, conhece a futura esposa, Manuela Câncio Reis. 1930. Parte para Angola, para trabalhar na Companhia Agrícola de Cassequel, em Catumbela. Insatisfeito com o trabalho e com o clima, chocado com o tratamento dado aos nativos e com problemas de saúde, regressa no ano seguinte. 1931. Casa com Manuela Câncio Reis e emprega-se na fábrica Cimento Tejo, em Alhandra, para onde vai viver. 1934. Primeira aparição pública do casal, colaborando na revista Carnaval, da autoria de Francisco Filipe dos Reis, pai de Manuela. 1935. Envia o conto O Capataz a O Diabo para publicação. É cortado pela censura. São realizados melhoramentos na Charca da Hortinha e começam as lições de natação. 1937. É levada à cena a revista Sonho ao Luar, no Teatro Salvador Marques, em Alhandra. Adesão ao Partido Comunista. 1938. Inauguração da piscina do Alhandra Sporting Clube. 1939. Início da publicação de crónicas no jornal O Diabo. 1940. É publicado em O Diabo o conto O Pàstiure. 1941. A 15 de Fevereiro um grande ciclone devasta a região da Grande Lisboa. Soeiro Pereira Gomes e alguns amigos passam vários dias a socorrerem vítimas isoladas nos mouchões e outras ilhas e recantos do estuário do Tejo. Neste mesmo ano a editora Sirius, no Porto, publica a primeira edição de Esteiros. 1944. Após movimentos grevistas de grande amplitude na cintura industrial de Lisboa, Soeiro Pereira Gomes passa à clandestinidade. 1946. É eleito delegado ao II Congresso do Partido Comunista Português. 1948. É eleito para o Comité Central do PCP. É-lhe detectado um cancro nos brônquios. 1949. A 5 de Dezembro falece em Lisboa, em casa da sua irmã, a escritora Alice Gomes, após um internamento de dois meses, com um nome suposto, no Instituto Português de Oncologia.

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A vida na época

Soeiro Pereira Gomes nasce um ano antes da proclamação da República. Portugal vive, no primeiro terço do século XX, naquilo que Fernando Rosas chama uma espécie de guerra civil intermitente[1]. A cena internacional é agitadíssima. A Primeira Guerra Mundial, a Revolução de Outubro de 1917, o advento do fascismo em Itália, a crise económica que culmina no crack da bolsa de Wall Street, em 1929, a chegada ao poder do nazismo, e mais tarde, a guerra civil de Espanha marcam profundamente este período.

Em Portugal acentuam-se as migrações dos habitantes das zonas rurais para a cidade. Almejam tentar a sorte no estrangeiro, sobretudo nas Américas, mas muitos acabam por ficar em Lisboa e nos arredores. A partir de 1920 a emigração para o estrangeiro diminui. Em 1930, mais de metade da população da capital é oriunda do resto do país. As condições de vida de grande parte dessa população são muito precárias, sendo frequentes a promiscuidade, o trabalho infantil, a falta de higiene, as carências alimentares, todo o tipo de vícios e abusos. Entretanto, em 1926 ocorre o golpe do 28 de Maio. Salazar assume o poder, e em 1930 pronuncia no Arsenal da Marinha o discurso que fundamenta o lançamento do Estado Novo. O Acto Colonial em 1930, as leis do condicionamento industrial, a Constituição de 1933 definem o caminho da ditadura que vai durar até 1974. A burguesia industrial e financeira e os grandes proprietários rurais dominam o país. Começam a aparecer as grandes indústrias que virão a ter grande peso em Vila Franca de Xira, Alhandra e na área da Grande Lisboa em geral. Existem importantes concentrações operárias nas duas margens do Tejo. Em 1936 são criadas a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa.

Entre 1930 e 1940 a população portuguesa aumenta 13 %, o maior aumento num decénio até então. Em 1940, cerca de 50 por cento da população portuguesa maior de dez anos é analfabeta. Um terço do total tem menos de 15 anos. A percentagem da população activa que trabalha no sector primário (agricultura, pesca e afins) é de 52 %, muito superior ao que se verifica nos países avançados.

[1] Lisboa Revolucionária, pág. 15.




O homem e as suas origens

Soeiro Pereira Gomes nasce numa família rural, razoavelmente abastada. Não conhece a miséria na sua vida familiar, ao contrário do que se chega a afirmar, com certeza devido ao impacto causado pela sua obra, sobretudo Esteiros. É o mais velho de seis irmãos. A todos eles é proporcionada a oportunidade de estudar, com êxito diferente como é natural. Uma das suas irmãs, Alice Gomes, também é escritora de reconhecido talento, para além de professora e pedagoga. Outro dos seus irmãos é o matemático Alfredo Pereira Gomes.

Aos seis anos Soeiro Pereira Gomes vai para casa da madrinha, tia da sua mãe, que vive e trabalha em Espinho. A família pretende que tenha uma educação mais apurada, que não consegue proporcionar-lhe em Gestaçô. Joaquim faz o ensino primário e frequenta o liceu aqui em Espinho. A tia Leopoldina, viúva, sem filhos, é uma pessoa austera, que acha que a educação das crianças deve ser ministrada com dureza. Joaquim sente a falta do carinho familiar e do ambiente de que usufruía em Gestaçô. Sem dúvida que esta transição, de um ambiente familiar alegre e cheio de vida para outro, austero e exigente, lhe desperta a atenção para as situações de sofrimento e para as diferenças entre as pessoas, o que mais tarde o vai ajudar na percepção da realidade que vai retratar na sua obra.

Aos onze anos Joaquim parte para Coimbra. Matricula-se na então chamada Escola Nacional de Agricultura, no curso de engenheiros agrícolas, onde fica a estudar como aluno interno. Passa 8 anos na escola, concluindo o curso de agricultor diplomado aos 19 anos. É um amante do desporto e do convívio social. O hábito adquirido da disciplina e da severidade faz com que não estranhe a vida do internato. Cria amizades que vão perdurar. Frequenta os cafés e as tertúlias literárias, onde os estudantes são sempre bem recebidos. Os amigos referem que na altura já é amante de literatura. Conhece a futura esposa, Manuela Câncio Reis, irmã de um colega de curso, na festa de formatura.

A situação familiar degrada-se sob o ponto de vista económico. Pretendendo casar-se e não conseguindo obter uma posição profissional compatível com as suas habilitações, de modo a proporcionar -lhe uma situação suficientemente desafogada, Joaquim pensa tentar a vida em África. Responde a um anúncio, e vai trabalhar para Angola, numa companhia que explora o cultivo do açúcar. Contra as suas expectativas, é colocado num armazém. Para além da desilusão com o trabalho, e do choque que sofre com o tratamento que vê ser dado aos nativos, vem a contrair paludismo, doença que o vai acompanhar para o resto da vida. Regressa sem meios a Portugal.

Joaquim e Manuela resolvem não adiar mais o casamento. A família da esposa apoia-o e o casal fixa-se em Alhandra. O sogro, Francisco Filipe dos Reis, pessoa muito prestigiada na vila, chefe de escritórios na Fábrica dos Cimentos Tejo, arranja-lhe emprego como escriturário na firma.

Os primeiros tempos são sossegados. Joaquim integra-se rapidamente na vida da vila. Amante do desporto, começa a ir ao futebol aos domingos, no Alhandra Sporting Clube. Aí conhece muitos habitantes da terra, incluindo pessoas dos estratos sociais mais modestos. O casal começa também a colaborar com o pai de Manuela, que participa em numerosas actividades comunitárias, é um amante de teatro com formação musical, e participa na vida de colectividades desportivas e artísticas, tendo mesmo chegado a abrir um cinema ao ar livre. Trabalham na preparação de revistas que serão levadas à cena no Teatro Salvador Marques, na vila. Manuela torna-se numa compositora de música popular de mérito, chegando as suas músicas a adquirir fama nacional. Joaquim não é amante de teatro, mas colabora na preparação dos espectáculos e na elaboração dos textos. Frequenta em Lisboa as tertúlias do Café Portugal e do Chiado. Mais tarde, diz numa entrevista a O Primeiro de Janeiro, em 1943, que sempre ambicionou escrever, mas só em 1935 se abalança a enviar um conto a um concurso aberto por O Diabo. Esse conto, O Capataz, cuja publicação é impedida pela censura, traduz bem o modo como o autor vê, já na altura, o ambiente na fábrica e como sente a exploração a que os trabalhadores estão sujeitos.

Familiariza-se com os hábitos das crianças e jovens da terra. Observa o trabalho infantil nos telhais, pequenas fábricas que utilizavam o barro dos esteiros para fabricar telhas, tijolos e outros artigos. Vê as crianças nadarem nos esteiros e nas charcas, afloramentos naturais de água, muitas vezes cheios de lodo e de imundícies, e onde chegam a ocorrer afogamentos. Entretanto, começa a dar aulas de ginástica aos filhos dos operários da fábrica onde trabalha. Sempre amante do desporto, também vai nadar nas charcas. Um dia, é procurado por Luís Rato, carpinteiro, e Alfredo Peniche (conhecido por Alfredo Tinoco), fragateiro, que lhe apresentam uma ideia deste último, a de aproveitar a charca da Hortinha, no Telhal dos Canários, para fazer uma piscina. Joaquim aceita coordenar a comissão que se formou para promover, dirigir e executar as obras necessárias. Começam por arranjar a charca, dando-lhe melhores condições de higiene e segurança, e organizam aulas de natação para crianças e jovens dos dois sexos. Mobilizam a população e muitas entidades para obter os meios necessários à construção da piscina. Para o efeito, lançam um empréstimo público, de 2000 acções, a dez escudos cada, para ser subscrito pela população de Alhandra. Joaquim trabalha intensamente nesta iniciativa, mesmo como operário. É um sucesso.

É de salientar o carácter inovador da inclusão de elementos do sexo feminino na prática desportiva, o que na altura requer vencer preconceitos muito arreigados. Para dar o exemplo, Soeiro convence a esposa a ser a primeira pessoa a entrar na piscina, na inauguração.

A criação de bibliotecas nas colectividades é outra das iniciativas de Soeiro, assim como o lançamento de cursos de alfabetização e a realização de palestras sobre os temas mais variados. Mas o mais importante foi a conquista do respeito e do afecto das pessoas de Alhandra. Elas apercebem-se do enorme sentimento de solidariedade que o move, e das perspectivas que se lhes podem abrir, a partir de um trabalho sob a orientação de pessoas como ele.

Em Fevereiro de 1941, Alhandra e outras terras ribeirinhas são devastadas por um ciclone, acompanhado por uma cheia gigantesca do Tejo. São enormes os estragos e numerosas as vítimas. Soeiro e alguns amigos passam dias no rio e nos mouchões procurando socorrer os sobreviventes. Trazem de volta dezenas de trabalhadores isolados pelas águas. Na parte de Esteiros dedicada ao Inverno procura retratar o ambiente à volta da catástrofe.

Quando morre em Lisboa, a família decide levar o corpo para Espinho, onde tem um jazigo. A manifestação de solidariedade que faz com que o carro funerário seja desviado da estrada do Norte e percorra as ruas de Alhandra foi organizada pelo comité local do PCP, mas isso não lhe retira o significado. Sessenta anos depois ainda vivem muitas pessoas em Alhandra testemunhas do choque que causou na vila a notícia da morte do escritor, e da adesão geral a prestarem-lhe a última homenagem. Apesar do afastamento causado pela perseguição política que o levou à clandestinidade, não o tinham esquecido.




O escritor no seu tempo

Um dia alguém diz a Jorge Luís Borges, que ele, graças à literatura, alcançou tudo o que há de mais importante na vida. O escritor argentino suspira e responde que não, que tinha falhado no mais importante: viver. Soeiro Pereira Gomes, que tem uma vida curta, mas intensa, quase que pode dizer o contrário: vive tão ardentemente, que não lhe sobra muito tempo para mostrar os seus dotes de escritor. Contudo, o que consegue produzir, mostra um enorme escritor, e deixa a interrogação sobre o que poderia ter escrito se tivesse vivido mais tempo.

A obra de Soeiro Pereira Gomes traduz, desde o início, uma grande preocupação com os problemas sociais e as condições e relações de trabalho prevalecentes no seu tempo. Os dramas resultantes da transição de uma economia agrícola para uma economia industrial, sob a égide de uma ditadura severa e de um capitalismo em expansão, são descritos de uma forma linear, mas extremamente eficaz.. A simpatia com os humilhados e oprimidos domina a narração, mas o autor não perde nunca de vista a complexidade das situações.

No conto O Capataz, escrito em 1935, e rejeitado pela Censura, sente-se já estar formada uma visão sobre o que são as relações de trabalho, e sobre o impacto destas na sociedade.

Em Esteiros, a sua obra mais conhecida, Soeiro Pereira Gomes conta a vida de um grupo de meninos de Alhandra, que vivem entre a escola, o trabalho, a mendicidade e a vadiagem. A propósito, Adolfo Casais Monteiro, seu cunhado, escreve[1] linhas muito afectuosas, sem dúvida, mas sobretudo muito expressivas, que exprimem sem rodeios e de modo inultrapassável o que move o irmão de Alice Gomes, a sua mulher:

“Esses garotos miseráveis, cuja amarga existência constitui o tema central do romance, deram a Pereira Gomes a oportunidade de se destacar de entre todos os escritores da mesma geração e de tendência idêntica; porque, melhor do que nenhum, ele soube compreender as suas personagens; porque, como nenhum, os soube amar”.

Diz também Adolfo Casais Monteiro:

“Amor e compreensão, disse eu. Quero acrescentar solidariedade, e qualquer das três formas de participação me parece inseparável de todas as outras. Pois como os teria compreendido se, vivendo num mundo tão diferente, uma força não o impelisse irresistivelmente para junto deles … Com todo o talento, Pereira Gomes teria falhado, caso não se tivessem junto nele essas três virtualidades.”

E ainda:

Porque Pereira Gomes, se, socialmente, estava muito longe dos seus vagabundos e miseráveis, estava perto deles, bastava-lhe abrir os olhos, como abriu, para ver essas misérias e muitas outras à sua volta. Quero eu dizer que não fez expedições para “colher material”, não andou a escolher um tema com as características convenientes para levar a cabo a sua intenção de fazer “arte social”.

Pois Soeiro Pereira Gomes abre os olhos ao que o rodeia e bem. E quais serão as influências literárias sobre a sua escrita? As opiniões dividem-se sobre esta matéria. Isabel Pires de Lima, professora de literatura portuguesa, na introdução a Esteiros, das Edições Avante (1979), refere como determinante a influência do russo Gladkov[2], sobre o neo-realismo da primeira fase, e nomeadamente sobre Soeiro. Por seu lado, Arquimedes da Silva Santos, o médico e poeta da Póvoa de Santa Iria, em Testemunho de Neo-Realismos[3], refere a descoberta que o escritor lhe proporcionou dos movimentos modernistas, e a sua abertura às posições artístico-literárias da Presença. Salienta o cuidado artístico posto na redacção de Esteiros, invulgar entre os neo-realistas da altura.

Na sua obra, Soeiro Pereira Gomes debruça-se sobre o ambiente dos meios industriais, e sobre a transição das populações do campo para a cidade. Engrenagem, que é um romance inacabado, centra-se nesta transição, esquematizando o impacto da implantação de uma fábrica num ambiente rural. Nele também se abordam os problemas causados pelo impacto ambiental da industrialização.

Em Contos Vermelhos, escritos já na clandestinidade, narra histórias da vida política clandestina, que dedica a camaradas seus do PCP. O enredo parte do ponto de vista individual, do militante preso e sujeito a interrogatório e tortura, ou em fuga, ou simplesmente no seu dia a dia de clandestinidade. A diferença na abordagem, em relação a Esteiros ou Engrenagem, é grande, mas a escrita mantém-se rigorosa e eficaz. O mesmo se pode dizer dos contos e crónicas que Soeiro entretanto foi produzindo, depois de acabar Esteiros. Sente-se a preocupação de olhar o mundo de diferentes ângulos. Chega mesmo a escrever um conto exemplar, a modo de uma ficção utópica, Breve história de um sábio.

A vida curta de Soeiro impede-o de concretizar vários projectos. Sabe-se que projectava escrever um romance passado no Norte, como que um regresso às suas origens em Gestaçô. Pensa também noutro romance, ou série de contos, com o título Companheiros, sobre os dramas da clandestinidade. Para além de concluir Engrenagem, está claro.

Soeiro inclui-se sem qualquer dúvida entre os neo-realistas. O rigor que põe na escrita, o cultivo do respeito pela forma, em nada o afastam do objectivo principal: pôr a arte ao serviço da causa do povo.

Entre os seus críticos, há quem acuse Soeiro de maniqueísmo. Que de um lado põe os bons, do outro os maus. Há que ver, primeiro, que as críticas, muitas vezes, nos dizem mais sobre as convicções dos críticos do que sobre propriamente as obras criticadas. Por outro lado, Esteiros, uma obra elogiada até por pessoas afectas ao regime fascista, como Marcelo Caetano e Franco Nogueira, aborda uma realidade que muitos desconhecem, apesar de viverem no mesmo país dos Ginetos e Gaitinhas. São assim tentados a subestimar a crueldade e o impacto dessa realidade, e, nalguns casos, mesmo a própria existência dessa realidade. Mas o próprio Soeiro reconhece haver alguns exageros no seu romance. O caso mais falado é o dos charutos do proprietário, o Sr. Castro. Contudo, pesa bem pouco no conjunto, há que reconhecer. Se analisarmos, um por um, os vários personagens do romance, teremos muitas dificuldades, em classificá-los como bons ou maus. As situações descritas são claramente verosímeis E os personagens são bem reais, tal como as estruturas sociais e os conflitos retratados, que impiedosamente esmagam os mais fracos.

Quando Esteiros é publicado, alguns críticos lembram-se de Jorge Amado e opinam que Soeiro, ao escrever o seu romance, é influenciado pelos Capitães da Areia. Sucede que, embora Capitães da Areia seja anterior a Esteiros, pelas informações que há, Soeiro Pereira Gomes só leu aquele romance em data posterior, impelido precisamente pelas críticas que sugerem a referida influência. E o que se pode dizer a este respeito é que, primeiro, a problemática da infância marginalizada é universal, segundo, que o tratamento dado a essa problemática é muito diverso. Os Capitães da Areia de Amado são um grupo coeso em luta sem tréguas com a sociedade. Os meninos de Esteiros, junto com as suas famílias, são alvo de processos que os excluem e destroem, assim como a todos os que não são necessários aos objectivos de quem controla a vida social e económica. São maneiras diferentes de encarar a realidade.

As polémicas que a obra de Soeiro suscita são a melhor prova do seu impacto. Apesar da repressão violentíssima e da alta taxa de analfabetismo que se verificam em Portugal, Esteiros é um sucesso. A segunda edição aparece seis meses depois da primeira. São numerosas as referências na imprensa[4]. Mas a vida política vai afectar a carreira do escritor.

[1]Soeiro Pereira Gomes e o mundo da infância (ver Obras Consultadas).
[2] Fyodor Vasilyevich Gladkov (1883-1958), escritor russo apontado como expoente do realismo socialista.
[3] Livros Horizonte, 2001, Lisboa. Págs. 27 a 30.
[4] Ver Soeiro Pereira Gomes – Uma biografia literária, de Giovanni Ricciardi, págs. 127 a 131 (ver Obras Consultadas).




A vida política

Vivendo num país em convulsão Soeiro conheceu diversas influências, a começar pela própria família. Já referimos o que conheceu na sua estada em Espinho. Mas o pai do escritor é um republicano da primeira hora. Em 1919, quando ocorrem as incursões de Paiva Couceiro e é proclamada a Monarquia no Norte do país, Alexandre Gomes chega a ser procurado. Sem dúvida que transmite aos filhos princípios democráticos. Não é só o filho mais velho que luta contra a ditadura. Alice Gomes, a segunda por ordem de idade, chega a ser detida no Porto em 1936, assim como o marido, Adolfo Casais Monteiro, e ficam presos dez meses, sob a acusação de pertencerem ao Socorro Vermelho Internacional.

Outra pessoa da maior importância foi o sogro; Francisco Filipe dos Reis. Tal como o genro, tinha vindo para Alhandra do Norte, mas de Oliveira do Bairro. Envolveu-se sempre activamente na vida da vila, com destaque para o teatro, mas também com outras iniciativas, como a de uma escola para os analfabetos. Ainda antes do 5 de Outubro chega a ser acusado de republicano perigoso e preso, devido a intrigas dos poderosos da terra.

Soeiro Pereira Gomes entra para o Partido Comunista de Portugal cerca de 1937. É a data mais provável, embora haja quem defenda outras versões. Mas essa adesão foi sem dúvida apenas mais uma etapa resultante da profunda inserção de Soeiro nas lutas do povo de Alhandra. Também não é de estranhar haver alguma incerteza sobre a altura em que ocorreu, porque a organização do partido por células, que se desconheciam entre si, e os cuidados postos na preservação do secretismo das acções, necessários a quem defrontava uma repressão feroz, tornam compreensível que hajam informações desencontradas.

Quando passa à clandestinidade, sem dúvida que já exercia funções de responsabilidade na organização do partido no Ribatejo. Essa passagem à clandestinidade ocorre na sequência das greves e manifestações de grande amplitude, que aconteceram a 8 e 9 de Maio de 1944, para protestar contra as enormes carências que se sentiam, na sequência do racionamento de géneros essenciais e do aumento do custo de vida. Soeiro Pereira Gomes foi um dos principais organizadores da greve e das manifestações. A passagem à clandestinidade destrói a sua vida familiar e limita extraordinariamente a sua carreira de escritor. A esposa é detida durante vários meses, para o obrigar a entregar-se.

Soeiro está identificado na PIDE como responsável pelo Comité Provincial do Ribatejo do PCP. É tenazmente perseguido. Usa vários pseudónimos. Percorre várias zonas do país. Integra o MUD, Movimento de Unidade Democrática, em 1945. Em 1947 integra o MUNAF, Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista. Participa no II Congresso do PCP. Escreve textos para o boletim clandestino Ribatejo e um livrinho Praça de Jorna, destinado aos assalariados rurais.

Entretanto, no Ribatejo, onde continua a acompanhar o trabalho de base do partido, desloca-se numa bicicleta para contactar as células. O moleiro Policarpo Marcelino Gonçalves, de Pernes, seu grande amigo, conta[1] que, uma noite, durante o Inverno de 1947, Soeiro chega a sua casa, cheio de dores e ferido. Julgando-se perseguido, afastou-se da estrada e acabou por dar uma queda gravíssima, batendo com o peito numa pedra. Na sequência é-lhe detectado um cancro. São desenvolvidos numerosos esforços para o tratar, apesar das difíceis condições da clandestinidade. Ainda é eleito para o Comité Central. Três meses antes de morrer redige as suas últimas disposições. A família consegue interná-lo no Instituto Português de Oncologia, sob um nome falso. É demasiado tarde. Morre em casa da irmã Alice, em Lisboa.

[1] Ver Obras Consultadas.




Obra Literária

O Capataz. 1935. Este conto é remetido ao semanário O Diabo, e a publicação cortada pela censura.

Crónicas: As crianças da minha Rua, O meu Vizinho do Lado, Companheiros de um Dia. Publicadas em O Diabo, em 1939 e 1940.

Pesadelo. 1940. Conto.

O Pàstiure. 1940. Lisboa. Publicado em O Diabo, n.º 318 (26 de Outubro).

Esteiros. 1941. A primeira edição deste romance é da Editora Sirius. As ilustrações são da autoria de Álvaro Cunhal.

Coisas quase inacreditáveis. 1942. Lisboa. Conto publicado na colectânea Contos e Poemas, organizada por Carlos Alberto Lança e Francisco José Tenreiro.

Alguém. 1942. Crónica publicada no jornal República.

Breve história de um sábio. 1943. Conto publicado no jornal regional O Castanheirense.

Engrenagem. 1944. É um romance inacabado. Soeiro Pereira Gomes interrompe a sua escrita quando passa à clandestinidade. Escreve no rascunho “Para eu corrigir um dia”. Nunca teve oportunidade de completar esta obra.

Contos Vermelhos: O Pio dos Mochos. 1945. Refúgio Perdido. 1948. Mais um Herói. 1949.

Estrada do meu Destino. Um Caso sem Importância. Contos. Sem data.

Última Carta. Sem data. Esta crónica era para fazer parte de um volume, Diário dum Foragido. Está dedicada a Alfredo Dinis (Alex).




Obras consultadas

50 anos a ler Esteiros de Soeiro Pereira Gomes 1941-1991. Introdução biográfica a Soeiro Pereira Gomes, por Júlio Graça. Nota introdutória a uma selecção de textos, por Luís Augusto Costa Dias.

Soeiro Pereira Gomes e o Futuro do Realismo em Portugal, de Álvaro Pina. Caminho, Lisboa, 1977.

Soeiro Pereira Gomes. Uma Biografia Literária, de Giovanni Ricciardi. Caminho, colecção universitária. 1999. Prefácio de Urbano Tavares Rodrigues.

Joaquim Soeiro Pereira Gomes: um retrato. Giovanni Ricciardi. Bari.

Adolfo Casais Monteiro: Soeiro Pereira Gomes e o mundo da infância, in O Romance e os seus problemas, Lisboa, Livraria Editora da Casa de Estudante do Brasil, Biblioteca de Cultura Contemporânea, n.º 1, 1950, pp. 317-322, referido por

Gérard Lacaze, na sua Mémoire pour l’obtention de la maitrise de portugais.

Joaquim Soeiro Pereira Gomes e o seu romance Engrenagem. 1983. Université Paul Valéry (Montpellier III).

Soeiro Pereira Gomes e a Engrenagem. Luís Trindade. In Vértice, Janeiro-Fevereiro de 1997.

A Passagem. Uma Biografia de Soeiro Pereira Gomes. Manuela Câncio Reis. Editorial Caminho. Biografias. 2007.

As Mulheres de Alhandra na Resistência. Anos quarenta, século XX. Antónia Balsinha. Editora Ausência. 2005.

Testemunhos de neo-realismos. Arquimedes da Silva Santos. Livros Horizonte. 2001.

Texto dactilografado, inédito, de Policarpo Marcelino Gonçalves. Este senhor era natural da Ribeira de Pernes. Foi-me facultado o acesso a este texto por Maria Helena Carvalho Vicente, cidadã de Alhandra, que também contribuiu com outros elementos para este trabalho.

Processo 757/47, 1º volume, da PIDE/DGS. Torre do Tombo, Lisboa. Tem na capa o nome de Lucinda Mendes Saboga. Na folha 259 vem explicado o papel de Soeiro Pereira Gomes na organização do Partido Comunista Português.

Lisboa Revolucionária. Roteiro dos confrontos armados no século XX. Fernando Rosas. Lisboa, 2007. Edições Tinta-da-China.

Nova História de Portugal. Portugal e o Estado Novo (1930-1960). Coordenação de Fernando Rosas. Editorial Presença. Lisboa. 1992.


Agradecimentos

Este trabalho só foi possível com a colaboração de:

Museu do Neo-Realismo, de Vila Franca de Xira.

Casa-Museu Sousa Martins, de Alhandra.

Maria Helena Carvalho Vicente, cidadã de Alhandra, amiga pessoal de Joaquim Soeiro Pereira Gomes.