Eu sou trezentos, 350...

mário de andrade

Escritor modernista:
1893 - 1945



Quando tudo aconteceu...

1893: Nasce Mário Raul de Moraes Andrade, a 9 de outubro, na casa da Rua Aurora, 320, no centro de São Paulo. Segundo filho do casal Maria Lúcia de Almeida Leite Moraes e Carlos Augusto de Andrade, guarda-livros e autor de pequenas peças de teatro. A família vive com o avô paterno, o jurisconsulto Leite Moraes, Presidente da Província de Goiás e autor do Apontamentos de viagem, editado por ele próprio em 1882. Mais tarde o neto, Mário, recupera situações aí relatadas, como mostra Gilda de Mello e Souza. (*)[1].1895: Morre o avô, Leite Moraes, e a família muda-se para um nova casa, construída pelo pai, no largo do Paissandu. Mário vive a infância junto aos tios (e tias), primos e primas. Nasce o irmão Renato. 1900: freqüenta o Grupo Escolar da Alameda do Triunfo. 1904: O primeiro poema – “ Fiori de lá-pa”. 1905: Ingressa no Ginásio Nossa. Senhora do Carmo, dos irmãos maristas. Tem professores franceses e belgas. 1908: é reprovado por apresentar notas baixas em grego. Apaixona-se por Maria da Glória Capote Valente, a primeira das quatro Marias de sua vida. 1909: Forma-se bacharel em Ciências e Letras. Torna-se congregado mariano. Estuda piano em casa com a mãe e a tia. 1910: Entra para a Escola de Comércio Álvaro Penteado, onde permanece por apenas dois meses. Desentende-se com o professor de português. Freqüenta o 1º. Ano da Faculdade de Filosofia e Letras de São Paulo, vinculada à Universidade de Louvain, no Mosteiro de São Bento. Estuda Filosofia e Literatura. Toma contato com a retórica clássica e a literatura mais recente da Europa. Mas ainda não chegou às vanguardas. 1911: Entra no Conservatório Dramático e Musical, cursa o 3º ano de piano. Pretende ser concertista. 1912: É nomeado aluno praticante, o que o habilita a ensinar rudimentos de teoria musical. 1913: Professor no Conservatório; leciona História da Arte e piano. Morre o irmão mais novo, Renato. Recupera-se do profundo abatimento causado por essa perda na Fazenda de Pio Lourenço Correa. Volta poeta. 1914: Escreve os Primeiros contos e poemas. 1915: Primeiro texto na imprensa – crítica musical. Congregado mariano pede autorização para ler as obras constantes do Index, da Igreja Católica. Faz exercícios militares como voluntário. 1917: Morte do pai. Publica o primeiro livro, Há uma gota de sangue em cada poema, ainda com ressonâncias parnasianas. Conhece Oswald de Andrade, que leva artigos seus para o Jornal do Commércio. Exposição de Anita Malfatti o faz despertar para a modernidade. Forma-se professor de piano. 1918: Inicia os estudos de alemão com Else Schöler-Eggebert que o põe em contato com o expressionismo e a música de Wagner. Escreve o artigo A divina preguiça, primeira valorização do ócio criativo que vicejará em Macunaíma e no Rito do Irmão Pequeno. 1919: Viaja a Minas Gerais, descobre a importância do Aleijadinho. Colabora em jornais e revistas. Sai na Cigarra (15 de dez.). São Paulo, o conto O queijo, onde pela primeira vez “desgeografica” o espaço. 1920: Colabora em várias revistas de São Paulo. Recolhe documentos musicais populares, como parlendas, pregões e paródias. Em dezembro escreve os poemas de Paulicêa Desvairada, manifesto modernista. 1921: Muda-se para a casa da Rua Lopes Chaves (Barra Funda) em companhia da mãe e da tia-madrinha, Ana Francisca de Almeida Leite Moraes, citada em Macunaíma por sua habilidade no tricô. Faz parte dos “Avanguardistas” de São Paulo; comparece ao banquete do Trianon, quando Oswald de Andrade oficializa o modernismo. Escreve Mestres do Passado, artigos para o Jornal do Commércio nos quais critica os parnasianos. No Rio de Janeiro encontra-se com Manuel Bandeira, nasce daí grande amizade consolidada nas inúmeras cartas. 1922: Participa da Semana de Arte Moderna. Recita Ode ao burguês de Paulicêa Desvairada e teria apresentado a primeira versão da Escrava que não era Isaura, poética modernista. Com as economias pessoais publica Paulicêa Desvairada. Participa do grupo da revista Klaxon. Escreve os poemas experimen

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AUTO-RETRATO

Este é Mário de Andrade, seu auto-retrato. O intelectual modernista: escritor, poeta, pesquisador, professor de piano, homem público. O intelectual símbolo de uma modernidade desejada e buscada por aqueles que, nas primeiras décadas do século XX, se empenhavam em pensar o Brasil como nação.

“No fundo do mato-virgem nasceu o herói. O silêncio foi tão grande escutando o murmurejo da Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia – Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, o herói da nossa gente.”

Qualquer dessemelhança não será por mera coincidência, porque eu, Mário....
Nasci na cidade de São Paulo, na Rua Aurora, 320.

Na Rua Aurora eu nasci
Na aurora de minha vida
E numa aurora cresci.
No largo do Paiçandu [sic]
Sonhei, foi luta renhida,
Fiquei pobre e me vi nu.

Nesta Rua Lopes Chaves
Envelheço, e envergonhado.
Nem sei quem foi Lopes Chaves.

Mamãe! me dá essa lua,
Ser esquecido e ignorado
Como esses nomes de rua.

(Lira Paulistana, Poesia Completa, p.378).



O nome da rua, onde nasci, deve ter sido um elo na minha amizade posterior com Manuel Bandeira – para o cantor de Pasárgada, a Rua da Aurora, em Recife, era onde se ia fumar escondido. Temos afinidades: esta casa onde nasci também era a casa de meu avô. Um homem importante, Leite de Moraes. Era jurisconsulto renomado e Presidente da Província de Goiás. Sou o segundo filho de Maria Luísa de Almeida Leite Moraes e Carlos Augusto de Andrade, um guarda-livros que escrevia pequenas peças de teatro.

Com a morte de meu avô, mudamo-nos para a casa do Largo do Paissandu, construída por meu pai. Aí vivi a infância, entre tios e primos (e primas!). Aí conheci o primeiro amor e dei meu primeiro beijo:

- Beijei Maria, rapazes! Eu nem sabia beijar, está claro, só beijava mamãe, boca fazendo bulha, contato sem nenhum calor sensual.

Maria era a prima Maria da Glória Capote Valente, a primeira das quatro Marias da minha vida.




NA ESCOLA...

Fui mau aluno. Em 1908 cheguei a repetir o ano, reprovado em grego. Estava no Ginásio Nossa Senhora do Carmo, dos irmãos maristas (fui Congregado mariano, acreditem!). Estava fazendo um ginásio sem gosto, muito arrastado, cheio de revoltas íntimas, detestava estudar! Todos os anos era aquela esperada fatalidade: uma duas bombas! Estudava piano em casa, com mamãe e uma tia. Renato, meu irmão mais novo, estudava no conservatório Dramático e Musical de São Paulo.

Já nessa época era tido como a “tara da família!”, “o perdido”. Havia conseguido, “no reformatório do lar e na larga parentagem” a fama de “louco”.

- “É doido, coitado!”

Só tomei gosto pelo estudo quando terminei o ginásio. Fiquei estudiosíssimo: passei então a ser visto na família como muito inteligente, mas perigoso.

São Paulo! Comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América.

Sou um bicho urbano, sim. Não desprezo o interior, por onde muito andei. Mas sempre volto a esta cidade e à casa da Rua Lopes Chaves (Barra Funda), onde vivo com mamãe, desde 1921. Esta é a minha cidade: São Paulo! Comoção de minha vida...

Parques do Anhangabaú nos fogaréus da aurora...
Oh larguezas dos meus itinerários..

- Mário, põe a máscara!
- Tens razão, minha Loucura, tens razão.

Tenho os pés chagados nos espinhos das calçadas...
Higienópolis! As Babilônias de meus deuses baixos...

Minha Londres de neblinas finas...

Arlequinal!...




1922 – A FÚRIA MODERNISTA – A SEMANA DE ARTE MODERNA

A Semana de Arte Moderna (São Paulo, fevereiro de 1922) foi um evento demolidor de antigos valores estéticos, um happening que reuniu jovens intelectuais, sedentos de renovação, influenciados pelos movimentos da Vanguarda Européia – o Futurismo, o Cubismo, o Expressionismo e o Surrealismo, principalmente.

Um grupo constituído de escritores, poetas (Menotti del Picchia, Manuel Bandeira, e Mário entre eles), artistas plásticos (Anita Malfati, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Lasar Segall),o escultor Brecheret, músicos (Villa-Lobos) se reuniu no Teatro Municipal de São Paulo, onde exibe obras concebidas segundo a nova estética, anti-acadêmica e vanguardista, radicalizando a dessacralização do conceito de obra de arte, pelo humor, pela paródia e pela ironia.

Mário é um dos principais participantes desse grupo radical, é mesmo uma liderança indiscutível. Durante o evento declama o poema “Ode ao Burguês” da Paulicêa Desvairada, uma gritante provocação à sociedade burguesa paulistana:

“Eu insulto o burguês”! O burguês níquel,
O burguês-burguês.
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem curvas! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
É sempre um cauteloso pouco a pouco!
( .............................................................)

Grita imprecatoriamente contra as aristocracias cautelosas, os donos da tradição, os donos do dinheiro, os donos do poder:

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
Cheirando a religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

Paulicêa desvairada, Poesias completas, 1987, p.87-88)

“Quem teve a idéia da Semana de Arte Moderna? Por mim não sei quem foi, nunca sube [sic], só posso garantir que não fui eu.”
Ainda durante o evento teria apresentado a primeira versão de A Escrava que não é Isaura, um projeto teórico modernista.




MAS COMO A FAMÍLIA VIA ESSAS “LOUCURAS” DE MÁRIO?

“Si minha mãe e irmãos não se amolavam com as minhas “loucuras”, o resto da família me retalhava sem piedade.” Eu era um “perdido”, a briga era braba, e si não me abatia nada, me deixava em ódio, mesmo ódio.

Foi quando Brecheret me ofereceu um bronze, uma “Cabeça de Cristo”. Fiquei sensualissimamente feliz. A notícia correu num átimo e a parentada, que morava pegado, invadiu a casa para ver. E para brigar... Berravam, berravam. Aquilo era até pecado mortal! Onde se viu Cristo de trancinha? era feio! medonho! Maria Luiza, vosso filho é um perdido mesmo.

Fiquei alucinado, palavra de honra! (...). Depois subi para o meu quarto (...). me lembro de chegar à sacada, olhando sem ver o meu largo. Ruídos, luzes, falas abertas subindo dos choferes de aluguel. Eu estava aparentemente calmo, como que indestinado. Não sei o que me deu. Fui até a escrivaninha, abri um caderno, escrevi o título em que jamais pensara, “Paulicêa Desvairada”. (PC, p 243)

O ano de 1922 foi fecundo para o escritor. Publica Paulicêa Desvairada, com recursos próprios, fruto de suas economias. Participa do grupo da revista
Modernista Klaxon e ainda escreve Losango Cáqui, poesia experimental, dedicado à pintora Anita Malfati :

São Paulo! comoção de minha vida...!
Os meus amores são flores feitas de original!...

Mário escreve e, ao mesmo tempo, faz a crítica de seus escritos:

“Me resolvo a publicar este livro assim como foi composto em 1922. É um diário de três meses a que ajuntei uns poucos trechos de outras épocas (...) sensações, idéias, alucinações, brincadeiras, liricamente anotadas (...)

Aliás, é o que mais me perturba nesta feição artística a que me levaram minhas opiniões estéticas é que todo lirismo realizado conforma tal orientação se torna poema-de-circunstância. (...)




MACUNAÍMA E OUTROS LIVROS

1926 – A leitura de Von Roroima zum Orinoco de Theodor Koch-Grünberg leva-o ao encontro do lendário deus Makunaíma, entidade mítica do alto Peru. Esboça neste mesmo livro os traços da rapsódia. Colhe dados brasileiros, reunindo notas para a edição daquela que seria a narrativa mais singular e simbólica do Modernismo brasileiro.

Redige a primeira versão de Macunaíma durante as férias na “chara” de Tio Pio, a Chácara da Sapucaia, em Araraquara, interior de São Paulo (entre 16 e 23 de dezembro). Ao todo dezassete capítulos, seguidos de epílogo. Elabora
o primeiro prefácio, que ficará inédito.

Neste mesmo ano publica Losango cáqui.

Sucedem-se novas redações de Macunaíma durante o ano de 1927. Troca de cartas com Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, quando discute sobre o livro em composição. Experiências com a fotografia.

Realiza ainda neste ano a primeira viagem do Turista Aprendiz. Percorre grande parte da Amazônia, chegando a Iquitos no Peru e à fronteira da Bolívia. O diário dessa viagem repercute na feitura de Macunaíma. No dia 12 de junho Mário contempla o “céu do Equador, domínio da Ursa Maior, o grande Saci...” que deve tê-lo inspirado para a conclusão da rapsódia.

“(...) Dizem que um professor, naturalmente alemão, andou falando por aí por causa da perna só da Ursa Maior que ela é o saci... Não é não! (...) A Ursa-Maior é Macunaíma. É mesmo o herói capenga que de tanto penar na terra sem saúde e com muita saúva, se aborreceu de tudo, foi-se embora e banza solitário no campo vasto do céu.”

Amar, verbo intransitivo (contos) e Clã do Jabuti (poesia) são publicados às custas do autor, que ainda projeta as capas dos livros, padrão que será respeitado pelas edições da Livraria Martins, na década de 40. Clã do Jabuti reúne poemas que falam do Brasil, do brasileiro, da brasilidade, de acordo com o projeto modernista de (re) descoberta ou, melhor, da (re) invenção do país:


Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da Rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido.
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não é que me lembrei lá do norte, meu Deus! muito longe de mim,
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro de cabelo escorrendo nos olhos
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu... (PC, 203)

O intelectual, debruçado sobre o livro, tem de repente um surto epifânico que o transporta às remotas paragens do norte amazônico, quando descobre o sentimento de igualdade para com os irmãos mais humildes e desconhecidos... Ultrapassa as diferenças e reconhece: “Esse homem é brasileiro que nem eu...”

1928 - Em 16 de julho, Macunaíma está nas livrarias: 800 exemplares a 7 mil-réis. Muitas edições se sucedem até o presente: hoje, em 2006, o livro encontra-se na sua 33ª. edição.

Em carta ao filólogo Souza da Silveira (26-04-1935), Mário fala sobre o livro:

“Um poema herói-cômico, caçoando do ser psicológico brasileiro, fiado numa página de lenda, à maneira mística dos poemas tradicionais. O real e o fantástico fundidos num plano. O símbolo, a sátira e a fantasia livre fundidos. Ausência de regionalismo pela fusão das características regionais. Um Brasil só e um herói só.” (Bosi, A. Situação de Macunaíma. Ed. Crítica, 1988.).

Em lugar do romance, uma rapsódia para a qual convergem os muitos saberes e diversificadas histórias pesquisadas pelo autor, estruturada segundo o processo acumulativo da suíte e a forma estilística da variação, como ensina Gilda Mello e Souza. Uma narrativa oralizada em torno dos feitos do “herói sem nenhum caráter”, o “herói da nossa gente”, estruturada por diferentes modos discursivos, o pastiche, o paródico, o popular, o culto, o acadêmico.

O melhor exemplo dessa miscelânea de falares encontra-se na “Carta pras Icamiabas” (Cap.XI), carta que o herói escreve para as índias do “mato virgem”, numa linguagem rebuscada e livresca, “um latinório expandido em muitas páginas”, como argumenta Maria Augusta Fonseca(1988):

“O herói está mesmo propenso a se amparar nos mitos e a se subjugar aos monstros da “civilização” recém adotada. (...) O primeiro monstro sagrado que aparece nomeado ostensivamente é Camões, através de uma citação extraída dos Lusíadas (capítulo V, estrofe 37), que aparece no 3º. parágrafo da Carta: Nem cinco sóis eram passados que de vós nos (Macunaíma,1988,p.73)

O texto paródico, num português classicizante, tem a clara intenção de ironizar o falar acadêmico, o falar dos mestres canônicos da língua portuguesa, acentua o distanciamento entre aquele que fala, o herói, e o destinatário, as índias icamiabas, na sua tribo distante, que desconhecem não só o português erudito mas também a linguagem falada coloquial.




MÁRIO, INTELECTUAL PARTICIPANTE

Mário não está exagerando quando afirma ser trezentos, trezentos e cinqüenta. O autor se multiplica mesmo em mil e uma atividades. Escreve, viaja, pesquisa, publica suas obras, corresponde-se com Deus e o mundo e trabalha em instituições públicas. Em 1935 é nomeado chefe do Departamento de Cultura da Municipalidade de São Paulo, onde permanece até 1938. Democratiza a cultura. Deixa a direção do Departamento e em julho assume a diretoria do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, onde ministra curso de Filosofia e História da Arte.

Em 1941 está de volta à rua Lopes Chaves. Retoma a atividade de professor de piano no Conservatório e trabalha no SPHAN (Secretaria do Patrimônio Histórico Nacional)

No ano seguinte prepara o plano das Obras Completas para a Livraria Martins Editora.

No Rio de Janeiro faz a conferência “O movimento modernista”, na Casa do Estudante. Aproveita a oportunidade para explicar e reavaliar o movimento, fazendo o seu mea culpa por excessos cometidos no calor da hora. Principalmente extrai a síntese do que caracterizou a chamada revolução modernista:

“O modernismo no Brasil foi uma ruptura, foi um abandono dos princípios e das técnicas conseqüentes, foi uma revolta contra o que era a Inteligência nacional. (...)”.

Impunha uma nova realidade estética sustentada na fusão de três princípios fundamentais:

“o direito permanente à pesquisa estética; a atualização da inteligência artística; e a estabilização da consciência (sic) criadora nacional”

No entanto o estandarte mais colorido da radicalização do nacional foi a pesquisa da “língua brasileira” que levou os participantes do movimento a privilegiar usos lingüísticos coloquiais populares oralizados e a adotar uma grafia segundo a emissão fonética das palavras, transgredindo as normas da escrita formal. O próprio poeta inventou uma gramatiquinha brasileira como comprovam os escritos dessa época.:

“O espírito modernista reconheceu que (...) carecia reverificar nosso instrumento de trabalho para que nos expressássemos com identidade.”

Mário repudia, contudo, aqueles que, “do dia pra noite” inventaram a “fabulosíssima língua brasileira”, assim como rechaça o mito de “escrever naturalmente”, revelando aguda percepção da realidade lingüística: “O problema principal não é acintosamente vocabular, é sintáxico.” Em outras palavras, o que torna ilegítima a idéia de uma “língua brasileira” é o desconhecimento de que há um sistema lingüístico português sustentado na estrutura sintática da língua. Na conferência de 1942, o escritor reconhece os excessos cometidos por ele e por sues companheiros: “Si os praticou foi na intenção de pôr em angústia aguda uma pesquisa que julgava fundamental.” Entre as idiossincrasias ortográficas e sintáticas do criador de Macunaíma estão as formas : “pra”,”si”, “milhor”,“há-de” e suas flexões, a junção dos substantivos compostos,como “pontapé”,“arranhacéu”,e outros mais, abundantemente empregadas no livro-rapsódia .




O CORRESPONDENTE CONTUMAZ

Segundo Telê Ancona Porto, sua mais fiel e completa pesquisadora, a correspondência de Mário chega a 7688 documentos, hoje arquivada no conjunto documental Correspondência, arquivo do escritor no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. A correspondência passiva chega a 1.400 correspondentes. Mário manteve um diálogo epistolar com os nomes mais significativos do mundo intelectual brasileiro nas décadas de 20, 30 e 40: escritores, artistas plásticos, músicos, jornalistas, e pensadores. E com estrangeiros como Blaise Cendrars, Iwan Goll, Cocteau, Dunah Lévi Strauss, Roger Bastide. Entre os nacionais encontram-se os nomes de Manuel Bandeira, (interlocutor de fôlego equivalente), Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Paulo Prado, Prudente de Morais, Sérgio Milliet, Rosário Fusco, o então jovem Fernando Sabino, Murilo Rubião, Henriqueta Lisboa, Câmara Cascudo, Moacir Werneck de Castro, Carlos Lacerda e Murilo Miranda; entre os artistas plásticos, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Brecheret, Portinari, Lasar Segall, Pentoruti; os compositores Villa-Lobos, Gallet, Lorenzo Fernandes, Mignone e Guarnieri. Entre as personalidades ligadas a projetos culturais, Gustavo Capanema e Rodrigo Melo Franco de Andrade.

Entre os milhares de cartas que constituem a Correspondência de Mário de Andrade, Eneida Maria de Souza destaca uma correspondente especial: A poetisa mineira Henriqueta Lisboa. Mário e Henriqueta mantêm uma amizade mais epistolar do que de convivência, marcada de certa idealização que a distância favorecia:

“Quando penso que você é um dos maiores dos que pensam no Brasil, quando me lembro que nos víamos apenas três vezes! Depois de tidas essas cartas sinceras, “sans arrière pensée”, creio que vou sentir-me perfeitamente provinciana ao encontrá-lo em pessoa. E isto não tardará. Dentro de alguns dias aí estarei. O Rio sempre me interessou muito. [...] Há também o meu livro que desejo mandar editar (Prisioneiro da noite como título, acha que fica bom? Sem princesa e sem menestrel...) Além de tudo há você agora no Rio.”

O escritor, mesmo envolvido nas suas mil-e-uma atividades, não deixa de responder:

“Vou lhe escrever uma cartinha rápida, conversaremos mais quando você estiver aqui. Mas se você chegar logo como diz na sua carta de ontem, não sei como será para nos vermos muitas vezes como quero. Por todo este mês devo procurar apartamento novo ou casa, e talvez encaixotar a metade do que tenho aqui e mandar para São Paulo, pois pretendo ir pra pouso menor.”

Eneida Maria de Souza então arremata: “Tanto a figura feminina quanto a masculina se incorporam, no universo das cartas, à pessoa ausente, a qual se presentifica pela comunicação escrita e através dela transforma-se num encontro imaginário, reativado pela força da memória.” (SOUZA, 2000:301).




MÁRIO E A MÚSICA: SOU UM TUPI TANGENDO UM ALAÚDE

Mário amava a Música, vivia a Música. E como se dava por inteiro às coisas que amava, estudou-a até o fim de sua vida. Durante muito tempo foi professor de piano no Conservatório de Música de São Paulo. Escreveu uma Pequena História da Música (Livraria Martins Editora, 1980, 8ª. Edição) Fala, com autoridade de quem entende do assunto, do gregoriano, da música atonal, dos clássicos, dos modernos, da música popular. Foi verdadeiro pesquisador da música popular brasileira, folclórica e urbana. Tinha centenas de discos e fichários para efeito de estudos escritos. Também possuía a “discoteca”, para a reprodução ao vivo dos modos de cantar do homem do povo. Sua bibliografia comprova o forte interesse pela pesquisa musical. Deixou vários ensaios sobre o assunto: Ensaio sobre a Música Brasileira, A Música e a canção populares no Brasil, Música, Doce Música, A Expressão Musical nos Estados Unidos, Terapêutica musical, e os livros Aspectos da Música Brasileira e Pequena História da Música. Acresce o fato de que a música está presente na estrutura rítmica de seus poemas e escritos.




“NÃO SOU UM SUJEITO FISICAMENTE SÃO”

Mário vinha convivendo há tempos com doenças várias (gripes reincidentes, bronquites, nefrites, que o fragilizavam, como relata aos amigos Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Ascenso Ferreira, em suas cartas: (1932) “... depois de um ano inconcebível de violências (...) o corpo deu de si, corpo e espírito, parece que eu tinha doença antiga mal curada, veio uma inflamação interna muito grande, inda por cima o médico tratou mal, provocou doença nova...” Desde 1913, com a morte do irmão mais moço, começa a sofrer de uma depressão nervosa que viria cercear uma possível carreira de pianista, como observa Oneyda Alvarenga, uma de suas mais fiéis correspondentes. As cartas que se sucedem, a partir de então, dirigidas aos vários amigos, falam sempre da doença (“ Estou triste porque estou doente. Não sei ser doente. A doença cansa-me. Reagir contra ela cansa-me ainda mais – A Manuel Bandeira, 1922). Seria Mário um hipocondríaco?

1945 – Morre de enfarte, como seu pai ou, de anginapectoris, como então se dizia. Gilda Mello e Souza, sobrinha do escritor, observa que Mário previu a sua morte e teria se preparado para quando ela chegasse:

“Mário de Andrade morreu de repente, mas é sabido que, apesar disso, previu com grande antecedência a época em que deveria morrer, tendo declarado numerosas vezes aos amigos mais íntimos que isso ocorreria entre os 50 ou 52 anos. De fato quando faleceu em 1945, tinha 51 anos e 4 meses.”

Poucos dias antes de morrer termina o poema A Meditação sobre o Tietê, um longo poema que, por muitos aspectos, vale por um testamento poético:

Água do meu Tietê,
Onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra

(...)
É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,
Onde me queres levar?... (Poesia Completa, p.386)

Com a morte de seu autor Macunaíma ficou banzando inutilmente como astro solitário nos percursos da ficção mitopoética brasileira... até que quarenta e tantos anos depois o tropicalismo o contemplou de novo, transpondo-o com entusiasmo para o cinema e o teatro no espírito contracultural de 68. Em 1976 serve de argumento para o samba-enredo da Escola de Samba da Portela. (Bosi)




MÁRIO POR MÁRIO

Não tenho a mínima reserva em afirmar que toda a minha obra representa uma dedicação feliz a problemas do meu tempo e minha terra. Ajudei coisas, maquinei coisas, fiz coisas, muitas coisas! E no entanto me sobra agora a sentença de que fiz muito pouco, porque todos os meus feitos derivaram duma ilusão vasta. (...) Tudo o que fizemos... Tudo o que eu fiz foi especialmente uma cilada da minha felicidade pessoal e da festa em que vivemos.(...) Nós éramos os filhos de uma civilização que se acabou.(...)

Mas eis que chego a este paradoxo irrespirável: Tendo deformado toda a minha obra por um anti-individualismo dirigido e voluntarioso, toda a minha obra não é mais que um hiperindividualismo implacável!(...) – (O Movimento Modernista, Conferência proferida na Casa do Estudante, no Rio de Janeiro, em 1942.).




Obras de Mário de Andrade

Resumo das obras mais significativas
ANDRADE, Mário. Poesias completas. Ed.crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1987.

IDEM __ . Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Edição crítica de Telê Porto Ancona Lopez. Rio de Janeiro, Livros Técnicos e Científicos; São Paulo, SCCT, 1978. Principal referência para esta biografia.

IDEM __. O Turista Aprendiz. Estabelecimento de texto, introdução e notas de Telê Porto Ancona Lopez. São Paulo, Duas Cidades _ SCCT, 1976.

IDEM __ O empalhador de passarinhos. São Paulo, Martins; Brasília,INL,1972

IDEM ___ Aspectos da Literatura Brasileira (Ensaios literários). São Paulo: Martins; Brasília,INL,1972.

IDEM ___ Pequena História da Música. São Paulo:Liv.Martins Editora,1980.

ANDRADE. Carlos Drummond. A Lição do Amigo. Cartas de MA a CDA. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982. Anotadas pelo destinatário.

BANDEIRA, Manuel, org. Cartas a Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Simões, 1968. Anotadas pelo destinatário.