O povo é quem mais ordena..

José Afonso

Cantautor:
1929 - 1987



Quando tudo aconteceu...

1929: Em 2 de Agosto nasce em Aveiro José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, filho do juiz José Nepomuceno Afonso e da professora do ensino primário Maria das Dores Dantas Cerqueira. Virá a ser conhecido por José Afonso, por Zeca Afonso ou, ainda apenas por Zeca. 1933: Com três anos e meio, vai para Angola, (os pais tinham ido já em 1930) – o pai fora colocado como Delegado do Ministério Público em Silva Porto. Estará três anos em Angola, ali iniciando a instrução primária. 1936: Regressa a Aveiro. 1937: Vai para Moçambique, para onde seu pai fora transferido. 1938: Regressa a Portugal, ficando em casa de um tio, presidente da Câmara de Belmonte, onde conclui o ensino primário. 1940: Ruma a Coimbra, matriculando-se no Liceu D.João III. 1945: Começa a cantar serenatas.1948: Conclui o curso dos liceus, casando depois com Maria Amália. Viaja em digressões com a Tuna Académica e pratica futebol na Associação Académica. 1949: Matricula-se em Letras, no curso de Ciências Histórico-Filosóficas. Integrado no Orfeão Académico, vai a Angola e a Moçambique. 1953: Nasce José Manuel, seu primeiro filho. São editados os seus dois primeiros discos (em 78 r.p.m.). 1953/55: Cumpre em Mafra dois anos de serviço militar, sendo depois colocado em Coimbra. Em 1954, nasce a sua filha Helena. 1956: É editado o seu primeiro LP – Fados de Coimbra 1957/59: Em 4 de Dezembro de 1957, actua em Paris no Teatro «Champs Elysées». Ainda estudante, dá aulas num colégio de Mangualde e, depois, como professor-provisório da Escola Industrial e Comercial de Lagos. Em 1959, ensinará na Escola Técnica de Faro. Começa a cantar em colectividades. 1959/60: Por alguns dias, ensina num colégio de Aljustrel, sendo depois transferido para a Escola Técnica de Alcobaça onde estará até ao final do ano lectivo. Em 1960 é editado o disco Balada de Outono (Menino de Ouro e Senhor Poeta) 1962: Nos Estados Unidos sai o álbum Coimbra Orfeon of Portugal, que inclui duas baladas de Zeca: Minha Mãe e Balada Aleixo. Participa em digressões pela Suiça, Alemanha e Suécia. 1963: Conclui o curso, com uma tese sobre Sartre. Divorcia-se de Maria Amália, casando depois em Olhão com Zélia. Sai o LP Baladas e Canções (Ronda dos Paisanos, Altos Castelos, Elegias...). É editado o disco Baladas de Coimbra que inclui Os Vampiros e Menino do Bairro Negro. 1964: Sai um novo disco – Coro dos Caídos, Maria, Vila de Olhão, Canção do Mar. Em Maio, actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, à qual dedica Grândola, Vila Morena. É editado o EP Cantares de José Afonso. Sai também a público o álbum Baladas e Canções. Neste ano parte para Lourenço Marques, aqui leccionando e, depois, em 1966 e 1967, na Beira. 1965: Nasce a sua filha Joana. 1967: Regressa a Portugal. É colocado como professor em Setúbal. Adoece e é internado numa clínica. Quando sai, fora expulso do ensino. Mais tarde é readmitido, mas opta por se dedicar à música. É publicado o livro Cantares, que depressa se esgota. Sai uma segunda edição que será apreendida pela polícia política. 1968: É editado o álbum Cantares do Andarilho. Zeca participa na CDE de Setúbal durante a campanha para eleição de deputados à Assembleia Nacional que se segue à morte política de Salazar. 1969: Saem o álbum Contos Velhos, Rumos Novos e o single Menina dos Olhos Tristes e Canta Camarada. Recebe o prémio da Casa da Imprensa para o melhor disco. Nasce o seu filho Pedro. 1970: É lançado o livro Cantar de Novo e editado o álbum Traz Outro Amigo Também. Em Cuba participa num Festival Internacional de Música Popular. Em Dezembro, sai o álbum Cantigas do Maio. 1971: É, pela terceira vez, distinguido com o prémio da Casa da Imprensa. 1972: É eleito por votação dos leitores do Diário de Lisboa, como «Rei da Rádio» e actua no Festival Internacional da Canção Popular do Rio de Janeiro. Grava em Madrid Eu Vou Ser Como a Toupeira. É editado o livro José Afonso. 1973: Em Abril, é detido, pela PIDE/DGS, 20 dias na prisão de Caxias. Em Dezembro sai o álbum Venha

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Que voz é esta?

Na nota introdutória a Cantares (1ª edição, Tomar, 1967), Manuel Simões interroga-se: «De facto, ao ouvir-se José Afonso pela primeira vez, há uma pergunta que logo nos acode: - ‘Que voz é esta, tão nova e substantiva, que imediatamente se <a href="http://www.replicawatchus.com/rolex-replica/">Cheap Rolex Replica</a> nos torna familiar? ‘. De tal modo se identifica com as nossas aspirações que nos parece tratar-se de <a href="http://www.wesalewatches.co.uk/">cheap replica watches</a> uma voz que sempre nos acompanhou». Escritas estas palavras, ainda antes do Maio de 68, a voz do Zeca iria acompanhar-nos ainda pelos vinte anos que se <a href="http://www.repliquedemontre.org/">Rolex Replique Montre</a> seguiram e durante os quais tantas coisas mudaram nas nossas vidas. Agora, mais de vinte anos após se ter fisicamente silenciado, ela continua a viver dentro de nós, acompanhando-nos como um imperecível eco de expectativas iludidas, de aspirações não realizadas e de persistentes injustiças. Continua sendo a nossa voz.

Infância – «uma larva branca».
Ao evocar o nascimento e a infância, Zeca refere «uma luz láctea; uma luz imanente, uma luz muito vital (...) uma larva branca». Em termos menos poéticos, digamos que nos três primeiros anos de vida, enquanto os pais vão para Angola, por uma questão de saúde, ficará em Aveiro, na casa da Fonte das Cinco Bicas, deixado ao cuidado do tio Chico (republicano e anticlerical) e da tia Gegé. Em 1933, somente com três anos e meio, vai para Angola, para onde seus pais tinham ido já em 1930. Seu pai fora colocado como Delegado do Ministério Público em Silva Porto (actual Menongue). Ficará três anos em Angola, ali iniciando a instrução primária. África surge aos seus olhos de criança como «uma coisa imensa, uma natureza inacessível que não tinha fim» (...) «as grandes trovoadas, os gafanhotos, florestas, travessias de rios em barcaças.» Em 1936 regressa a Aveiro, onde ficará ao cuidado de umas tias «afáveis», usando uma expressão do próprio Zeca. No ano seguinte, já com oito anos, irá para Moçambique: «Pouco tempo ali estou, mas é de novo o paraíso» (...) «Eu sonhava nunca mais abandonar aquela terra». Mas a itinerância continua: em 1938 volta a Portugal, ficando em casa de seu tio Filomeno, presidente da Câmara Municipal de Belmonte. Comandante da Legião e salazarista, homem que gosta muito de dançar a valsa e o tango. Em Belmonte conclui a instrução primária. Segundo o Zeca, este é o pior ano da sua vida.




Coimbra – das serenatas aos primeiros discos

Em 1940 vai para Coimbra ao cuidado de uma tia paterna, a tia Avrilete, matriculando-se no Liceu D.João III. Neste liceu conhecerá António Portugal e Luiz Goes, futuros companheiros de andanças musicais. Entretanto, seguindo novamente a itinerância profissional de seu pai, a família vai de Moçambique para Timor, que em 1942 é invadido e ocupado por forças japonesas. Até 1945, ano em que termina a II Guerra Mundial, Zeca ficará sem notícias dos pais e da irmã Mariazinha (João, seu irmão, viera também para Portugal). Por volta de 1945, começa a cantar serenatas. Gozando do estatuto de «bicho-cantor», não sofre os tormentos praxistas que as trupes reservam aos estudantes liceais. Não sendo demasiado aplicado, é reprovado dois anos e só em 1948, com quase 19, conclui o curso dos liceus. Nesse mesmo ano, casa com Maria Amália de Oliveira. Viaja em digressões com a Tuna Académica e pratica futebol na Associação Académica de Coimbra.

Em 1949, dispensa no exame de aptidão à Universidade, matriculando-se na Faculdade de Letras, no primeiro ano do curso de Ciências Histórico-Filosóficas. Integrado no Orfeão Académico, vai a Angola e a Moçambique. Na Universidade convive com os cantores Augusto Camacho, Fernando Machado Soares e Napoleão, com o guitarrista António Brojo e com os seus companheiros do liceu Luiz Goes e António Portugal. Contacta também duas figuras cimeiras do fado coimbrão – os guitarristas Artur Paredes (pai do grande Carlos Paredes, que virá a conhecer em Grândola, na memorável sessão da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, em Maio de 1964) e Flávio Rodrigues, o famoso «guitarrista-barbeiro». Em 1953, nasce José Manuel, seu primeiro filho. Para sobreviver, dá explicações e faz a revisão ortográfica do Diário de Coimbra. São editados os seus dois primeiros discos (em 78 r.p.m.).




Militar «sem aprumo» e professor «indisciplinador» – cantautor genial

Começa a cumprir em Mafra, no C.O.M., dois anos de serviço militar obrigatório. Mobilizado para Macau, salva-se desta viagem por motivos de saúde, vindo depois a ser colocado num quartel em Coimbra. «Fui o menos classificado de todo o curso por falta de aprumo militar». Em 1954, nasce a sua filha Helena, e Zeca tem grandes dificuldades em sustentar a família. Em 1958, dadas essas dificuldades económicas, envia os dois filhos para junto dos avós, então de novo em Moçambique. Em 1956 é editado o seu primeiro LP – Fados de Coimbra. Em 4 de Dezembro de 1957, actua em Paris no Teatro «Champs Elysées», acompanhado por Fernando Rolim, pelas guitarras de António Portugal e de David Coimbra e pelas violas de Sousa Rafael e David Leandro. Ainda estudante, dá aulas num colégio particular de Mangualde e, depois, como professor-provisório da Escola Industrial e Comercial de Lagos. Em 1959, leccionará na Escola Industrial e Comercial de Faro: «A minha acção como professor era mais de carácter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes um espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais». Um «indisciplinador de alunos», é como Zeca se auto classifica e sintetiza a sua acção docente. É também neste ano que começa a cantar em colectividades populares. Em Faro convive com o casal de poetas Luísa Neto Jorge e António Barahona da Fonseca e ainda com António Ramos Rosa. É, em 1960, colocado por alguns dias num colégio de Aljustrel, sendo posteriormente transferido para a Escola Comercial e Industrial de Alcobaça onde permanecerá até ao final do ano lectivo. Em 1960 é editado o disco Balada de Outono (Menino de Ouro e Senhor Poeta)., o quarto na discografia de Zeca. Sobre a Balada, diz: «Dominada ainda pelo velho espírito coimbrão, é o produto de um estado perpétuo de enamoramento» (...) uma espécie de revivescência tardia da juventude».




Os Vampiros e Menino do Bairro Negro

Em 1962, nos Estados Unidos, é editado o álbum Coimbra Orfeon of Portugal, que inclui duas baladas de Zeca: Minha Mãe e Balada Aleixo, «Homenagem a António Aleixo, poeta cauteleiro, natural de Loulé.» Nestas duas composições é acompanhado à viola por José Niza e por Durval Moreirinhas. Participa em digressões pela Suiça, Alemanha e Suécia. Em 1963 conclui o curso, com uma tese sobre Jean-Paul Sartre – Implicações substancialistas na filosofia sartriana. Divorcia-se de Maria Amália, casando depois em Olhão com Zélia. Sai o LP Baladas e Canções (Ronda dos Paisanos, Altos Castelos, Elegias...). Diz Zeca sobre a Ronda, que depressa será entoada de boca em boca – em reuniões de estudantes, em fábricas, em serões pequeno-burgueses e até nos cárceres políticos: «A música ocorreu-me no WC do rápido, Faro-Lisboa, depois da estação da Funcheira» (...) «Em Lisboa inteirei-me dos postos do exército, que são muitos e soantes. Rimados às parelhas dariam uma canção popular, capaz de ser entendida por soldados e generais.» E foi.

Em 1963 surge então o disco Baladas de Coimbra que inclui Os Vampiros, Menino do Bairro Negro, Canção Vai… e Vem… e Pombas. O título da capa não reflecte a realidade, pois este disco marca uma ruptura com a elitista tradição da balada e do fado coimbrões. A voz do Zeca passa os muros da velha cidade universitária e, como um rio caudaloso e de irresistível força, salta para os lábios de milhões de portugueses – torna-se impossível não associar os seus vampiros aos ávidos barões do regime salazarista: Eles comem tudo/ eles comem tudo/eles comem tudo/e não deixam nada... O Zeca explica: «Numa viagem que fiz a Coimbra apercebi-me da inutilidade de se cantar o cor-de-rosa e o bonitinho» (...) «Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja actualidade poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair.» Como nota de humor, refira-se que uma então famosa marca de pudins quis comprar os direitos do refrão de Os Vampiros para servir de música de fundo a um spot publicitário. Obviamente, Zeca recusa. Em Menino do Bairro Negro, inspirada na vida dos meninos de um bairro degradado – o Barredo, no Porto – essa intenção de «molestar consciências» torna-se ainda mais evidente. A emigração forçada pela miséria e pela guerra colonial, bem como o aparecimento, nas periferias das grandes cidades, de bairros de lata (fruto do começo da desertificação do interior), eram, no começo dos anos 60, realidades inseridas a fogo no quotidiano dos Portugueses.




Subitamente, Grândola

Em 1964 é editado um novo disco – Coro dos Caídos, Maria, Vila de Olhão, Canção do Mar. Na noite de 17 de Maio desse ano, actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, a «Música Velha», como a colectividade é designada pelas gentes da terra. Aqui se inspira para a criação de Grândola, Vila Morena (que dedica à colectividade), canção que viria a estrear num récita que realizará em Maio de 1972, em Santiago de Compostela. Aliás, essa noite de Maio de 1964, pode dizer-se, muda a sua vida. Canta perante uma assistência constituída maioritariamente por gente pobre, mas faminta de cultura – trabalhadores da indústria corticeira, amadores de música, ceifeiras, alguns clandestinos ligados ao Partido Comunista... José Saramago, então um escritor quase desconhecido, está também entre a assistência. Mais tarde, após a morte de Zeca, Saramago interroga-se sobre o que José Afonso sentiria se pudesse observar o rumo social e político do Portugal dos nossos dias – «Creio que estaria, pelo menos, tão desanimado como eu», conclui o Nobel. Nesta sessão conhece Carlos Paredes, o prodigioso guitarrista – «o que esse bicho faz com a guitarra!», exclama Zeca numa carta aos pais. Compra uma pequena parcela de terreno em Grândola, com uma modesta casa, onde gosta de passar os seus tempos livres. Grândola cativara-o definitivamente pelo ambiente fraterno que envolvia as suas gentes. Pedro Martins da Costa, militante do PCP e, a partir de 1974, vice-presidente do município durante mais de 25 anos, presente no famoso concerto de 1964, diz que ao Zeca agradou sobretudo a igualdade que ali existia antes e depois da Revolução de Abril – continuaram a ser «tão igualitários que nem se sabia quem era o presidente». A letra da canção não constitui, portanto, um conjunto de simples metáforas... Durante anos, na placa toponímica da vila, fechando o círculo de interacções entre a «cidade» e o seu cantor, lia-se. Grândola, Vila Morena – Grândola mudou a vida de Zeca e Zeca alterou a vida e a história da vila (actualmente, a placa foi retirada – decisão política?) Como se diz numa reportagem de Miguel Mora publicada no El País (9 de Agosto de 2007): «Hoje, em pleno centro de Grândola, a Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, continua de pé, sóbria e austera. Resiste, embora tenha estado durante algum tempo fechada e rodeada de tapumes para reconstrução. O tijolo, a construção civil, foram substituindo a pouco e pouco a cortiça, o arroz como fonte de riqueza do concelho». No interior vazio da Música Velha, subsistem, pelo menos no imaginário dos que amam a liberdade, os ecos nostálgicos do que ali ocorreu naquela noite mágica de Maio de 1964.




Cantares

Ainda em 64, é editado o EP Cantares de José Afonso. Sai também a público o álbum Baladas e Canções (reeditado em CD em 1996). Neste ano parte para Lourenço Marques, dando aulas, primeiro nesta cidade e, depois, em 1966 e 1967, na Beira. Nesta cidade, compõe a música para a peça de Brecht A Excepção e a Regra. Trabalha também no Centro Associativo dos Negros, dirigido pelo Dr. Luís Arouca. Em 1965 nasce a sua filha Joana e em 1967 regressa a Portugal. É colocado como professor em Setúbal. Devido a uma grave crise de saúde, é internado numa clínica. Quando sai, 20 dias depois, fora expulso do ensino oficial. Estamos em 1968. Embora mais tarde venha a ser readmitido, opta por se dedicar exclusivamente à música. A Nova Realidade, uma pequena editora de Tomar, publica o livro Cantares de José Afonso, com um prefácio de Manuel Simões. O livro, que contém as letras das canções e notas do autor, esgota-se em poucos dias. Sai uma segunda edição que acaba por ser apreendida pela polícia política. Em 1992, com a chancela da Fora do Texto, uma cooperativa editorial de Coimbra, sairá a 3ª edição que, além do prefácio de Manuel Simões, terá também novos textos introdutórios deste e de Rui Mendes, Ainda em 1968 é editado o álbum Cantares do Andarilho. Zeca participa activamente na CDE de Setúbal durante a campanha para eleição de deputados à Assembleia Nacional que se segue à «queda da cadeira». Em 1969 saem o álbum Contos Velhos, Rumos Novos e o single Menina dos Olhos Tristes e Canta Camarada, canções em que é acompanhado à viola por Rui Pato. É distinguido com o prémio da Casa da Imprensa para o melhor disco. Nasce o seu filho Pedro. Em 1970, a Nova Realidade lança o livro Cantar de Novo, com uma introdução do poeta António Cabral (1931-2007). É editado o álbum Traz Outro Amigo Também, gravado num estúdio de Londres. Desta vez, Rui Pato não o poderá acompanhar, pois a polícia política não autoriza a sua saída do País. Ganha novamente o prémio da Casa da Imprensa. Vai a Cuba participar num Festival Internacional de Música Popular.




Catarina Eufémia

Em Dezembro de 1971 é lançado o álbum Cantigas do Maio, gravado em França, num estúdio situado numa quinta dos arredores de Paris. José Mário Branco, também ele grande cantautor da Resistência antifascista, que, como participante, estava presente na gravação, conta que, a certa altura, lhe disse: «`Vamos a isto Zeca´ `Não tens nada para ir metendo?´, respondeu. Não estava ainda pronto; a alma do Zeca, apercebi-me depois estava toda no Alentejo, nos olhos de Catarina Eufémia. Como tantas vezes lhe acontecia, andava pelo estúdio, de cá para lá, como um jovem leão na sua jaula. Até que, já ao fim da tarde, disse: `Vou lá fora ver as vacas´» (...) «Desapareceu durante uma ou duas horas. Quando voltou já era quase noite: `Vamos gravar a Catarina´. Zeca em metade do estúdio, só e às escuras cantou. Uma só vez. E é essa que está no disco. Nós, privilegiados espectadores, estávamos na central técnica todos a chorar, incluindo o técnico francês. `Acham melhor que cante isto outra vez?´ `Não, Zeca, não. Está muito bem assim».

Acrescente-se que Cantar Alentejano, dedicado à ceifeira do Baleizão, Catarina Eufémia, morta a tiro, em 1959, pelo tenente Carrajola (da GNR), é outra das composições de Zeca que rapidamente se difundem entre a população. Hoje, muitas mulheres portuguesas com mais de 30 anos têm o nome de Catarina e algumas delas talvez nem saibam que assim se chamam por que seus pais ou padrinhos quiseram homenagear Zeca e a ceifeira assassinada.

Neste ano de 1971 é, pela terceira vez consecutiva, distinguido com o prémio da Casa da Imprensa. Em 1972, no meio de grande polémica, é eleito por votação dos leitores do Diário de Lisboa, como «Rei da Rádio». Intelectualmente, o concurso estava mais do que desprestigiado, pois a eleição contemplara nos anos anteriores cantores ligados ao chamado «nacional-cançonetismo». Por isso, participa no Festival Internacional da Canção Popular do Rio de Janeiro. Grava em Madrid, com a colaboração do cantor galego Benedicto e dos Aguaviva de Manolo Díaz, Eu Vou Ser Como a Toupeira. É publicado pela editora Paisagem o livro José Afonso. Em Abril de 1973 é detido pela PIDE/DGS: «Bateram à porta» (...) o meu filho Zé Manel foi abrir. O inspector apresentou-lhe o «crachat» da polícia e ele voltou-se displicentemente para a sala a dizer ‘oh pai é a prestimosa’. Fica 20 dias encarcerado na prisão de Caxias. Aproveita, na solidão da cela, para escrever Era Um Redondo Vocábulo. Em Dezembro sai o álbum Venham Mais Cinco, que grava em Paris, sempre com a colaboração de José Mário Branco.




Grândola – senha para o arranque da Revolução

Em 29 de Março de 1974, quase duas semanas após o «golpe das Caldas» e a menos de um mês da «Revolução dos Cravos», realiza-se no Coliseu dos Recreios um «Canto Livre» organizado pela Casa da Imprensa onde, além de Zeca, participam José Barata Moura, José Jorge Letria, Vitorino, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, entre outros. A censura avisa a organização de que algumas canções não devem ser interpretadas. Entre elas, algumas do Zeca – Menina dos Olhos Tristes, Venham Mais Cinco e A Morte Saiu à Rua, dedicada ao escultor e pintor José Dias Coelho, assassinado a tiro por um agente da PIDE, em 1961, numa rua de Alcântara, em Lisboa. Acabam o espectáculo cantando em coro Grândola, Vila Morena, que, estranhamente, não fora proibida pela Censura. Oficiais do MFA que assistem ao espectáculo, escolhem nesta altura a senha para o arranque do levantamento militar. Diz o Zeca: «Vivi o 25 de Abril numa espécie de deslumbramento» (...) «Fui para o Carmo, andei por ali... Estava tão entusiasmado com o fenómeno político que nem me apercebi bem, ou não dei importância a isso da Grândola. Só mais tarde (...) quando recomeçaram os ataques fascistas e a Grândola se cantava nos momentos de maior perigo ou entusiasmo, me apercebi de tudo o que significava e, naturalmente, senti uma certa satisfação». Ainda em 74, gravado em Londres, é editado o álbum Coro dos Tribunais. Após o 25 de Abril, Zeca entra numa fase frenética de intervenção em festivais, sessões de esclarecimento... Apoia o M.F.A. na operação Maio-Nordeste, um esforço de esclarecimento das populações isoladas do Nordeste transmontano. É indubitavelmente a voz da Revolução. O período agitado que se segue à Revolução de Abril, constitui uma época de grande envolvimento de Zeca na vida do País – canta em quartéis, em fábricas, em escolas em colectividades, em serões de solidariedade internacional; apoia o MFA na animação cultural junto da emigração e na recolha de fundos para a Reforma Agrária... Após os Acordos de Alvor, actua em diversas cidades de Angola. Em Itália, organizações políticas como a Lotta Continua, Il Manifesto e Avanguardia Operaia, editam o álbum República, gravado em Roma. A receita é destinada a apoiar os trabalhadores do vespertino República e uma cooperativa agrícola. Francisco Fanhais e músicos italianos colaboram na gravação. Em 1976, apoia a candidatura de Otelo Saraiva de Carvalho à presidência da República. Edita o álbum Com as Minhas Tamanquinhas. Pelo seu álbum Cantigas do Maio, é distinguido com o Prémio Alemão do Disco, outorgado pela Academia Fonográfica Alemã. Em 1978, com a colaboração de Fausto, grava e edita o álbum Enquanto Há Força. No ano seguinte sai o álbum Fura Fura, com a colaboração dos Trovante e de Júlio Pereira. Em Bruxelas, canta no Festival da Contra-Eurovisão. Em 1981 Grava Fados de Coimbra e Outras Canções. Realiza um espectáculo no Théatre de la Ville, em Paris




Não me arrependo de nada do que fiz

Em 1982 revelam-se os primeiros sintomas da doença degenerativa que o virá a vitimar. Em Janeiro de 1983 actua no Coliseu dos Recreios, num espectáculo em que colaboram, entre outros, Fausto, Júlio Pereira, Janita Salomé... Durante esta actuação, é já visível a dificuldade de Zeca em exibir plenamente os seus dotes de grande executante. Em Dezembro, sai o álbum Como Se Fora Seu Filho, em que colaboram Fausto, José Mário Branco, Janita Salomé e Júlio Pereira. Em Abril de 1984 presta um depoimento à revista Questões e Alternativas: «Penso que, após o 25 de Abril, devia ter havido uma prática pedagógica de exercício da democracia. As populações deveriam experimentar, directamente, quais são as possibilidades de inserção na realidade, de a transformar. Essa, para mim, é a forma mais sã de exercer a democracia. O voto de quando em quando, após 50 anos de obscurantismo, é uma coisa para especialistas em demagogia. Até porque os deputados não estão na Assembleia para resolver os problemas mais imediatos do povo, mas para cumprir desideratos políticos.»

Em 1985 Sai o álbum Galinhas do Mato. Já muito doente, apoia a campanha presidencial de Maria de Lourdes Pintasilgo em 1986. Em 1987, às três da madrugada de 23 de Fevereiro, no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, José Afonso morre, vítima da esclerose lateral amiotrófica diagnosticada cinco anos antes. No funeral, realizado no dia seguinte, um longo cortejo de 30 mil pessoas, trabalhadores na sua maioria, segue-o até ao cemitério da Senhora da Piedade, em Setúbal. Após a sua morte, o seu nome é dado a numerosas artérias por cidades, vilas e aldeias do País. Em Novembro, é criada a Associação José Afonso, que desde então promove sessões e iniciativas de divulgação da obra do grande músico, cantor e poeta. No ano de 1994, o Presidente da República, Mário Soares, procura condecorar postumamente José Afonso com a Ordem da Liberdade. Tal como Zeca fizera a igual proposta de Ramalho Eanes, sua esposa Zélia recusa a condecoração. Em 23 de Fevereiro de 1997, é inaugurado na Baixa da Banheira um monumento a José Afonso, da autoria do escultor Lagoa Henriques. Em Grândola, nas comemorações do 25º aniversário da Revolução, em 1999, foi também construído um monumento em sua homenagem da autoria do escultor António Trindade. Também nos anos 90, um outro monumento, este da autoria de Francisco Simões, foi edificado no Parque Central da cidade da Amadora. Este município instituiu um Prémio José Afonso da Música Popular, atribuído anualmente.

«Não me arrependo de nada do que fiz», escreve José Afonso, acrescentando «Mais, sou aquilo que fiz. Embora com reservas, acreditava suficientemente no que estava fazendo, e isso é que fica. Quando a gente pára, há uma espécie de pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político, como no campo estético e cultural. E, às vezes, o inimigo é nós mesmos, a nossa própria consciência e as desculpas de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta».
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Nota
Na execução deste texto utilizei, além de notas de José Afonso, nomeadamente as de carácter autobiográfico e as que insere em Cantares, excertos do prefácio de Manuel Simões a este livro, do depoimento que Zeca deu aos cadernos Questões e Alternativas, e, finalmente, do texto de Miguel Mora, publicado no diário El País (edição de 9 de Agosto de 2007 - Grândola - faro del 25 de Abril). Em 1967, fui, com Manuel Simões e Júlio Estudante, um dos promotores das duas primeiras edições de Cantares, embora só depois do 25 de Abril tenhamos encetado uma relação pessoal de amizade. Sei que o Zeca detestaria que sobre ele se escrevessem textos demasiado formais, que se usasse a tal «prosa de notário» de que fala o editor deste site, Fernando Correia da Silva. Por isso, dispensei o recurso às habituais notas de pé de página – as tais que Umberto Eco diz serem boas «para pagar dívidas». Com esta única nota, tento pagar a dívida de gratidão para com o Zeca e para com os autores aqui referidos.