Uma cidade francesa chamada Lisboa...

Eça De Queirós

Escritor:
1845 - 1900



Quando tudo aconteceu...

1845: Em 25 de Novembro, nasce na Póvoa do Varzim José Maria Eça de Queirós. - 1855: Entra como aluno interno no Colégio da Lapa, no Porto. - 1861: Matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. - 1864: Conhece Teófilo Braga. - 1865: Representa no Teatro Académico e conhece Antero de Quental. - 1866: Forma-se em Direito. Instala-se em Lisboa, em casa do pai. Parte para Évora, onde funda e dirige o jornal Distrito de Évora. - 1867: Sai o primeiro número do jornal. Estreia-se no foro. Regressa a Lisboa. -1869: Assiste à inauguração do Canal de Suez. - 1870: É nomeado Administrador do Distrito de Leiria. Com Ramalho Ortigão, escreve O Mistério da Estrada de Sintra. Presta provas para cônsul de 1ª classe, ficando em primeiro lugar. - 1871: Conferências do Casino Lisbonense. - 1872: Cônsul em Havana. - 1873: Visita os Estados Unidos em missão do Ministério dos Negócios Estrangeiros. - 1874: É transferido para Newcastle. - 1876: O Crime do Padre Amaro. - 1878: O Primo Basílio. Escreve A Capital. - 1878: Ocupa o consulado de Bristol. - 1879: Escreve, em França, O Conde de Abranhos. -1880: O Mandarim. - 1883: É eleito sócio correspondente da Academia Real das Ciências. - 1885: Visita em Paris Émile Zola. - 1886: Casa com Emília de Castro Pamplona. - 1887: A Relíquia. - 1888: Cônsul em Paris. Os Maias. - 1889: Assiste ao primeiro jantar dos "Vencidos da Vida". - 1900: A Correspondência de Fradique Mendes. A Ilustre Casa de Ramires. Em 16 de Agosto morre em Paris.

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LISBOA EM AGOSTO

Primeiro de Agosto. Lisboa está transformada num caldo morno. No Rossio, onde paro para beber um fresco capilé, à sombra dos prédios, nos cafés e esplanadas discute-se política, a revolta dos boxers, mas sobretudo o atentado mortal contra o rei Humberto de Itália. Subo o Chiado, lentamente, parando de vez em quando para me abanar com o «palhinhas». Quando entro na redacção da Rua Larga de São Roque, o Neves tem um «ar de caso». Vejo logo que há mouro na costa. O Neves é um major de artilharia na reserva a quem a administração do jornal confiou a chefia da redacção. Coxeia de uma perna, recordação de uma zagaiada em Coolela, voz estentórea, modos bruscos. É para todos um mistério o motivo que levou a administração a escolhê-lo. Dizem uns que é por ser muito sério, outros por ser mação como o dono do jornal. Não sei. Gosto dele, embora à vezes se porte pior do que as cavalgaduras com que até há pouco lidou. Pergunta se já tenho pronto o texto sobre o voo do conde von Zeppelin. Está pendente de uma informação que espero obter ainda hoje. Vou terminá-lo esta noite e trazê-lo amanhã. Abre-me os olhos:

- Veja lá se não se atrasa mais. Aqui nesta casa, enquanto for eu a comandar, pendentes só os tomates!

Depois tosse, faz uma pausa e pergunta-me se conheço Paris. Claro que sim. Acabado o curso, o meu pai pagou-me duas semanas de regabofe na cidade das luzes. Bem, o que ele me disse quando me entregou o cheque sobre o Credit Lyonnais é que era um contributo para completar a minha formação cultural. Nem vocês calculam como aquelas duas semanas ajudaram à minha formação cultural!

Respondo afirmativamente ao Neves. Que depois me pergunta se falo francês.

- Bien sûr, monsieur, respondo-lhe, aprimorando a pronúncia. E sou como o gato maltês, também me ajeito ao piano, acrescento. Mantém o carão fechado. Não tem sentido de humor, mas reconheçamos que a minha réplica não teve lá muita graça. E explica-me no seu linguarejar castrense que o Dr. Seabra Pinto, o director do jornal, quer que vá alguém a Paris entrevistar o Eça de Queirós, pois o Sousa, nosso correspondente local, telegrafou a dizer que o homem regressou da Suíça desiludido pelos médicos, que está por um fio. E que ele, Neves, apesar de tudo, se lembrou de mim. Depois, para que não me sinta muito elogiado, acrescenta que «os melhores jornalistas» estão a banhos e que «quem não tem cão caça mesmo com gato». Finjo não ouvir a última parte.

Para quem não saiba, o Eça é o Zeus do meu Olimpo. Por isso, a notícia de que a sua doença pulmonar, que lhe levou já três irmãos, se agravou ao ponto de se julgar iminente o fim, põe-me um nó na garganta e não sou capaz de continuar a caçoar com o Neves. Agradeço-lhe o ter-se lembrado de mim, apesar de tudo, e digo-lhe que só espero estar à altura da missão. Habituado às minhas larachas, que até nem parecem desagradar-lhe embora nunca me dê troco, fita-me nos olhos, não vá eu estar de novo a mangar. Percebe que não estou. E começa a fornecer-me pormenores sobre a viagem.




NO DEALBAR DO NOVO SÉCULO, OU TALVEZ NÃO

Da Estação do Rossio até ao Entroncamento no comboio ronceiro. Depois apanho o Sud-Express. Durmo e acordo. O calor é infernal. Já em terras de Espanha, lembro-me de uma discussão ao entardecer entre um gordo padre espanhol e um escanzelado comerciante de Lisboa. O comerciante afirma que estamos no século XX. O padre diz que continuamos no século XIX até 31 de Dezembro. Só em 1 de Janeiro de 1901 começa o novo século. Vendo-me acordado, põem-me ao corrente do diferendo. Ambos me querem como aliado. O lisboeta pisca-me um olho, apelando à solidariedade nacional. Não tinha ainda pensado no assunto, digo, e considerava-me já no século XX. Mas vistas bem as coisas (penso em voz alta, com os meus dois companheiros de viagem aguardando o meu veredicto), suponhamos que estamos no começo de uma nova era. Só no dia 1 do ano 1 é que a era começa. O dia 1 do ano 1 é, neste caso, o dia 1 de Janeiro de 1901.

- Por supuesto! - diz triunfante o gorducho.

- Cebolório! - comenta despeitado o magricela.

Eu volto a adormecer.




COMO UM ROMANCE

Já depois de Hendaia, com outros viajantes no compartimento, pela janela do comboio deslizam paisagens e pela minha mente pensamentos. Que sei eu sobre Eça de Queirós, além da leitura atenta e repetida das suas obras? Como num romance camiliano, o seu nascimento esteve mergulhado em mistério. No assento de baptismo reza: «José Maria - filho natural de José Maria d'Almeida de Teixeira de Queirós e de Mãe incógnita». Mãe incógnita? A verdade só mais tarde se saberá: O Dr. José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, jovem delegado do procurador régio em Ponte de Lima, manteve amores clandestinos com Carolina Pereira de Eça, filha do tenente-coronel José António Pereira de Eça, já falecido. Carolina tem dezanove anos e sua mãe opõe-se ao namoro. Por isso, só depois da sua morte, em 1849 e quando o pequeno José Maria tem já quatro anos, os pais casam. Até então ele esteve entregue aos cuidados de uma ama. Quando esta morre é acolhido em casa da avó paterna e quando, em 1855, esta por sua vez falece é internado no Colégio da Lapa, continuando sempre longe dos pais, a sua desolada infância. No colégio, terá como mestre Joaquim da Costa Ramalho, pai de Ramalho Ortigão, seu futuro grande amigo.

Depois, Coimbra, o convívio com Antero, com Teófilo Braga, o despertar para a vida literária... Com um lápis afiado vou anotando num caderno as perguntas que tenciono fazer ao escritor. Oxalá ele esteja em condições de me responder. Oxalá os médicos estejam enganados e a tuberculose não o ceife.




MESMO EM AGOSTO, PARIS É SEMPRE PARIS

Dois anos depois, novamente Paris. Século velho ou século novo, tanto faz. Paris é sempre Paris, mesmo em Agosto. O Sousa, o correspondente do jornal, vai esperar-me à gare e, no trajecto até ao hotel, vai descrevendo as maravilhas da civilização parisiense. Desde Abril, a Exposição Universal, «uma gigantesca mostra que celebra o fim de um século de prodigioso avanço científico e económico, mas que é também o limiar de uma era cuja grandeza é profetizada pelos sábios e pelos filósofos, cujas realidades ultrapassarão sem dúvida os sonhos da nossa imaginação», lê o Sousa num folheto que tira do bolso. Vou tentar, depois de cumprida a minha missão, tirar um dia para visitar a exposição, digo-lhe. Desde Julho, iniciaram-se aqui os II Jogos Olímpicos da Era Moderna. O barão de Coubertin, seu entusiástico restaurador, conseguiu trazê-los à sua cidade natal. Mas sem grande êxito, informa o Sousa. Os Jogos decorrem, mas ninguém parece dar por isso. Também em Julho passado inaugurou-se a primeira linha de comboio subterrâneo entre a Porte Maillot e a Porte de Vincennes. Mais de 10 quilómetros em cerca de meia hora. Aquilo a que chamam o metropolitano. Vamos ver se tenho ocasião de o experimentar, digo-lhe, só para não ficar calado.




MANHÃ DE SOL

Na manhã seguinte, sob um sol magnífico, num fiacre de praça chegamos ao palacete de Neully onde vive Eça de Queirós. Quando me apeio e enquanto o Sousa paga ao cocheiro, ouço gargalhadas de crianças. Venho depois a saber que, na casa ao lado, funciona um Orfanato. É a hora do recreio.

Uma criada abre-nos a porta. D. Emília, a esposa de Eça, vem-nos receber e apesar de sorridente o seu rosto não esconde as sombras de uma viva preocupação. Depois da troca de amabilidades de circunstância, diz-nos que o Dr. Melo Viana, que com o Dr. Bouchard, tem acompanhado a evolução da doença de Eça não acredita já na cura. Havia alguma esperança em que os ares de Glion, perto de Genebra, lhe fossem favoráveis. Ramalho Ortigão, de passagem em Paris, oferecera-se para o acompanhar à Suíça. Porém, ao cabo de duas semanas regressara a Paris, pior do que partira. O médico francês ministrou hoje pela manhã um soro especial vindo do Instituto Pasteur e o doente está melhor, mas teme-se que sejam falsas melhoras. Ontem, a esposa e os médicos interrogavam-se sobre a oportunidade da entrevista, mas Eça, com ouvido apurado, percebeu o que diziam e insistiu em nos receber:

- Ora, digam aos moços que venham. Mal não me pode fazer. Até me vai distrair.

Por isso, nessa manhã recebi no hotel o telefonema a confirmar a entrevista.

Acompanhados por D. Emília e por uma prima sua, carinhosa enfermeira do doente, entramos no quarto iluminado pelo sol da manhã. Muito magro, muito branco, de olhos encovados, Eça espera-nos, sorridente, sentado num divã, vestindo uma leve «cabaia». Oferta do conde de Arnoso que a trouxe da China, como nos disse depois, durante a conversa. «Pareço um mandarim», comenta.

- Vêm colher dados para o necrológio? - pergunta, ironicamente, após as apresentações. Dizemos que não, nem pensar. Estamos, explico, a publicar aos domingos entrevistas com vultos da cultura portuguesa. E ele não podia faltar na galeria. Finge acreditar. Pede-me que comece. As senhoras, desculpam-se com afazeres. Saem do quarto. Ficamos os três. Puxo pelo caderno de apontamentos.




COIMBRA - IN ILLO TEMPORE

- Falemos dos seus tempos de Coimbra. Foi em 1861 que ali chegou. Eram tempos de grande efervescência intelectual. Como foi esse seu primeiro contacto com a vida da universidade?

- Naqueles tempos, segundo a fórmula do Evangelho, o romantismo estava nas nossas almas. Fazíamos devotamente oração diante do busto de Shakespeare. Lembro-me do quarto da Rua do Forno, creio eu, no último andar, quase nas confidências humorísticas das estrelas. O busto de Shakespeare, que era o nosso calvário da arte, estava ali, ao pé de uma medalha de Dante, e da Inocência de Greuze! Lembra-me também uma gravura do Juízo Final e dois esboços holandeses. Sobre a estante, por cima de Voltaire, de Diderot, de Rousseau, de Mirabeau e de alguns volumes da Enciclopédia - num quadro a figura de Napoleão, sobre uns rochedos enfáticos via os prantos do mar e o voo das gaivotas. Havia também uma colecção de minerais e duas caveiras polidas e lavadas que riam serenamente. Na parede havia pintada a carvão uma grande cruz. Em redor, estavam escritos versículos da Bíblia e dísticos da Imitação. Mas, como eu andasse nesse tempo constipado, um pagão fez raspar toda aquela decoração ascética, dizendo que o misticismo, proibindo o sol, o calor, os banhos tépidos, as flanelas, todos os cuidados corporais, me era nocivo, e que o ateísmo era para mim uma necessidade higiénica. Outro aconselhou então que se forrassem as paredes com pele humana; um outro achou ostentosa a pele humana, e disse, beatificamente que, como mais modesta e duradoira, lhe parecia preferível a pele catedrática. Outro instou para que se forrasse o quarto com as folhas dos compêndios; eu opus-me asperamente a isso, dando as mesmas dolorosas razões que daria um preso, se lhe quisessem forrar as paredes da enxovia com um tecido feito dos seus próprios remorsos! Tirou-se à sorte. Destinou a sorte que se forrassem as paredes com pele humana. Dispersámo-nos, lentos e tristes, para ir assassinar gente!

- Seu pai, quando estudava em Coimbra foi um dos fundadores do Teatro Académico. O senhor foi ali actor. Sabendo-se que é uma pessoa sensível, mas tímida, como conseguiu compatibilizar a timidez com a actividade teatral? Que dificuldades encontrou?

- A maior dificuldade era a dicção. Havia uma palavra que eu não conseguia pronunciar bem: era - solidariedade. Na noite da representação tomei o partido de a cantar, separando as sílabas como notas de música. Era na casa dos adereços do teatro que nós discutíamos a superioridade da arte grega. A pregar uma cortina, arredando bastidores, proclamávamos o Moisés e o Pensieroso com grave detrimento da Vénus de Milo - a grande Afrodite. Depois das representações, havia ceias semelhantes às bodas de Gamacho!. Uma noite saíamos todos, de mantos, com coroas de loiro, simbolizando a geração dos Petrarcas, e cantando um coro lacrimoso. Na rua, havia uma reunião de famílias. Dispersavam com gritos de aves assustadas, ao ver aquela multidão de fantasmas coroados, que recitavam um soneto amoroso, oferecido a Deus em nome dos discípulos de Petrarca!

- Foi, por certo uma época muito interessante.

- Não tenha dúvida. Aquela época foi uma pequena Restauração, tanta era a vida, a seiva espiritual, a vaga convulsão melodiosa da alma. Adorávamos o teatro. O teatro era a paixão, a luta, a dor, o coração arrancado, e gemendo, sangrando, rolando sobre uma cena resplandecente. O nosso teatro - era Shakespeare e Hugo, e os cómicos espanhóis, sombrios e magníficos, do século XVI.

- Que papéis desempenhava?

- A minha versatilidade não foi grande. Era pai nobre. Durante três anos, como pai nobre, ora grave, opulento, de suíças grisalhas, ora aldeão trémulo, apoiado ao meu cajado, eu representei entre as palmas ardentes dos académicos, toda a sorte de papéis de comédias, de dramas - tudo traduzido do francês. Por vezes tentávamos produzir alguma coisa de mais original, de menos visto que a Dama das Camélias, ou o Chapéu de Palha de Itália: reunimo-nos com papel e tinta; e entre aqueles moços, nascidos em pequenas vilórias de província, novos, frescos, em todo o brilho da imaginação, uma só ideia surgia: traduzir alguma coisa do francês. Um dia, porém, Teófilo Braga, farto da França, escreveu uma drama conciso e violento, que se chamava Garção. Era a história e a desgraça do poeta Garção. Eu representei o Garção, com calções e cabeleira, e foi sublime; mas o Garção foi acolhido com indiferença e secura. E só um grito ressoou nos bastidores: «Ora aí têm... um fracasso! Pudera! Peças portuguesas!...»

- Mas além do teatro, teve certamente outros interesses intelectuais.

- Claro. E não apenas intelectuais. O Teatro, pouco a pouco, pusera-me em contacto com a literatura. Encontrei, organizada, completa, uma larga sociedade literária, a que em parte presidiu o homem, entre todos excelente e grande, que é mais que uma glória do século.

- Refere-se a Antero de Quental?

- A quem havia de ser?

- Deve tê-lo conhecido por alturas da célebre «Questão Coimbrã». Como viveu esse problema?

- Sabe, quando ocorreu a questão Bom-Senso e Bom-Gosto eu estava no último ano do curso de Direito. Era um estudante típico, ou seja, preocupava-me mais em vagabundear pelas ruas da cidade Alta nas noites de luar do que com as aulas ou com os problemas literários. Só vagamente me apercebi da transcendência dessa luta que fez tremer os alicerces da vida intelectual do país. Por outro lado, meu jovem amigo, já não é fácil, depois de tantos séculos, relembrar os motivos dogmáticos por que se esgadanharam as duas literaturas rivais, de Coimbra e de Lisboa. No entanto, julgo que o velho Castilho, contra quem se ergueram então tantas lanças e tantos folhetos, não se petrificara realmente numa forma literária que pusesse estorvo à delgada corrente do espírito novo. O protesto de Antero foi portanto moral, não literário. A sua faiscante carta Bom Senso e Bom Gosto continuava, nos domínios do pensamento, a guerra por ele encetada contra todos os tiranetes, e pedagogos, e reitores obsoletos e gendarmes espirituais, com quem topava, ao penetrar, homem livre, num mundo que queria livre.

- Mas não chegou a dizer como conheceu Antero.

- Pois foi. Caí num alçapão e perdi-me. Olhe, deixe-me ver, foi aí por volta de 1862 ou 63, numa noite macia de Abril ou Maio. Atravessando lentamente, com as sebentas na algibeira, o Largo da Feira, avistei sobre as escadarias da Sé Nova, romanticamente batidas pela lua, que nesses tempos ainda era romântica, um homem de pé, que improvisava. A sua face, a grenha densa e loira com lampejos fulvos, a barba de um ruivo mais escuro, frisada e aguada, à maneira siríaca, reluziam aureoladas. Parei, seduzido, com a impressão que não era aquele um repentista picaresco ou amavioso, como os vates do antiquíssimo século XVIII - mas um Bardo, um Bardo dos tempos novos, despertando almas, anunciando verdades. O Homem com efeito cantava o Céu, o Infinito, os mundos que rolam carregados de humanidades, a luz suprema habitada pela ideia pura... Deslumbrado, toquei o cotovelo dum camarada, que murmurou, por entre os lábios abertos de gosto e pasmo: «É o Antero!». Então, perante este Céu onde os escravos eram mais gloriosamente acolhidos que os doutores, destracei a capa, também me sentei num degrau, quase aos pés de Antero que improvisava, a escutar, num enlevo, como um discípulo.




UMA CIDADE FRANCESA CHAMADA LISBOA

- Já pudemos ver como Coimbra foi importante no despertar da sua vida intelectual. Lisboa pode considerar-se a segunda grande etapa dessa evolução. Que papel desempenhou a capital na sua obra?

- Eu lhe conto. Com a minha carta de bacharel num canudo, trepei enfim um dia para o alto da diligência, dizendo adeus às veigas do Mondego. Justamente nesse mesmo tejadilho ia um francês, um commis-voyageur. Era um colosso, de lunetas, duro e brusco, com um queixo maciço de cavalo, que à maneira que o coche rolava ia lançando através dos vidros defumados um olhar às terras de lavoura, aos vinhedos, aos pomares, como se os sopesasse e lhes calculasse o valor, torrão a torrão. Não sei porquê, deu-me a impressão de um agiota, estudando as terras dum morgado arruinado. Conversei com este animal; ele pareceu-me surpreendido da minha facilidade no francês, do meu conhecimento do francês, da política de França, da literatura de França. E ainda recordo o tom de alta protecção, com que me disse, batendo-me no ombro: «Vous avez raison, il faut aimer la France... Il n'y a que ça! Et puis, vous savez, il faut que nous vous fassions des choses, des chemins de fer, des docks, des choses... Mais il faut nous donner votre argent...

- A França e a sua cultura influenciavam fortemente os políticos e os intelectuais portugueses. Aliás, é sua a fórmula: Portugal é um país traduzido do francês em vernáculo. Passados tempos, alterou essa formulação: Portugal é um país traduzido do francês em calão.

- É verdade. E se a primeira fórmula, mais subtil e exacta, colando-se à realidade como uma pelica, foi acolhida com secura e impaciência, a segunda foi recebida com rebuliço, e rolou de mão em mão como uma moeda de ouro bem cunhada e rutilante. Já a encontrei brilhando num almanaque, numa comédia do Príncipe Real e num sermão.

- A que atribui essa diferença de acolhimento?

- Quem sabe? Talvez porque a ideia da vernaculidade desagradava, lembrando pedantismo, caturrice, a Academia das Ciências, o pingo de rapé, outras coisas antipáticas. Enquanto a ideia do calão nos sugere, sobretudo a nós lisboetas, chalaça alegre, bacalhau de cebolada, Chiado, Grémio, pescada frita nas hortas, em tarde de sol e poeira, e outras delícias, de que eu, ai de mim, estou aqui privado!

- Mas voltemos a Lisboa. Esse francesismo era já notório quando ali chegou?

- Sim e de que maneira. Quando cheguei à capital, lembro-me que a primeira coisa que me impressionou foi ver a uma esquina um grande cartaz, anunciando a representação de Cançonetas francesas, no Casino, a brilhante Mlle. Blanche. Era outra vez a França, sempre a França. Eu deixara-a dominando em Coimbra, sob a forma filosófica; vinha encontrá-la conquistando Lisboa, de perna no ar, sob a forma do can-can... Começou então a minha carreira social em Lisboa. Mas era realmente como se eu habitasse Marselha. Nos teatros - só comédias francesas; nos homens - só livros franceses; nas lojas - só vestidos franceses; nos hotéis - só comidas francesas... Se na capital do Reino, resumo de toda a vida portuguesa, um patriota quisesse aplaudir uma comédia de Garrett ou comer arroz no forno, ou comprar uma vara de briche - não podia.

- E a vida política?

- A particular coscuvilhice política, que é tão peculiar a Lisboa como o nevoeiro a Londres, forçou-me, a meu pesar, a embrenhar-me também na política.

- ...?

- Em que política? Boa pergunta! Na francesa! Lisboa estava dividida entre ferozes adeptos de Rochefort e de Gambetta, e defensores do imperador. O que eu conspirei! O meu desejo era filiar-me na Internacional. Lembro-me que uma noite, a propósito de não sei que novo escândalo do Império, achando-nos uns poucos no Martinho, em torno de um café, exclamámos, pálidos de furor, cerrando os punhos: «Isto não pode ser! Já sofremos bastante. É necessário barricadas, é necessário descer à rua!» Descer à rua, era a ameaça terrível. E descemos o degrau do Martinho! Depois, na rua, sob o quente luar de Julho, ouvindo foguetes para os lados do Passeio Público, voltámos para lá os passos frementes - porque um de nós, o mais exaltado, encontrava lá uma certa senhora em noites de fogo preso...





A MATURIDAE

- Todos os que amamos a sua obra, sabemos que nesses anos iria dar início a uma fulgurante carreira literária. A passagem pelo jornalismo com a fundação de O Distrito de Évora, a colaboração na Gazeta de Portugal, a criação do Cenáculo, com Batalha Reis e Antero de Quental. Seguimos através dos seus belos artigos do Diário de Notícias a sua viagem pelo Oriente. Lemos os seus livros, artigos e folhetins. Sabemos das suas andanças na carreira consular por Havana, Newcastle e Bristol. Até que, em plena maturidade, resolve casar. A história do casamento é menos conhecida. Importa-se de a revelar?

- Olhe, o meu casamento não tem história. Quando eu e Emília estávamos juntos, durante a longa intimidade de três meses, falávamos de livros, de cozinha, do que dizia o Ilustrado, um pouco de religião, muito das senhoras da Granja, de arte, de cães, da cultura da beterraba e uma ou outra vez do Fontes. E foi quando nos separámos que, de repente, batendo cada um por seu lado na testa, exclamámos a toda esta distância: - «É verdade, esqueceu-nos de dizer que devíamos unir os nossos destinos!». É este o único lado pitoresco. O resto é um pouco terre-à-terre, não vale de modo nenhum o esplendor lírico do Romeo and Juliet e não poderia ser posto em árias pelo lânguido Gounod. É apenas a história de duas pessoas que têm um coração sério e que reciprocamente o colocam no refúgio muito seguro duma estima muito profunda.





OS VENCIDOS DA VIDA

- E Os Vencidos da Vida, como foi que surgiu a ideia de formar o grupo?

- Uma vez, a uma mesa do restaurante Tavares, reunimo-nos alguns amigos: o conde de Ficalho, o Ramalho Ortigão, o Oliveira Martins, o António Cândido, o Carlos Lobo de Ávila e eu. Lembrámo-nos de criar uma sociedade, como muitas que havia já noutros países da Europa. Um lugar onde pudéssemos conversar, debater problemas intelectuais ... enquanto se comia. O Ramalho foi quem lançou a ideia e Oliveira Martins quem sugeriu o título, inspirado num comentário de La vie à Paris, de Jules Claretie sobre os grupos jantantes que aqui existiam. Dizia Claretie que esses jantares eram reuniões em que se encontravam os intelectuais «attristés souvent, bien changés, les uns glorieux, les autres battus de la vie». E Oliveira Martins disse: «Battus de la vie! Eis o que nós somos também - Vencidos da Vida. Propusemo-nos dar ao país «Vida Nova» e somos afinal de contas uns Vencidos da Vida». E o nome pegou. O grupo inicial cresceu. Uma noite bonita, calma, quase de luar, em vinte e seis de Março de 1889, na sala grande do Hotel Bragança todos nos reunimos. Todos excepto Guerra Junqueiro que não pudera chegar a tempo de Viana do Castelo. A meio do jantar chegou-nos um telegrama do Junqueiro, onde em versos de um grande talento e espírito nos saudava. A partir daí passou a haver um jantar semanal. Quando vou a Lisboa não falto.

- Que importância têm os Vencidos da Vida para a sociedade portuguesa? Há até quem vos aponte ambições políticas, que vai haver um governo vencidista...

- Tretas, meu amigo. Os Vencidos ofereceram o mais alto exemplo moral e social de que se pode orgulhar este país. Onze sujeitos que, desde há seis anos, formaram um grupo, sem nunca terem partido a cara uns aos outros; sem se dividirem em grupos de direita e de esquerda; sem terem nomeado entre si um presidente e um secretário perpétuo; sem arranjarem estatutos aprovados no Governo Civil; sem emitirem acções; sem possuírem hino nem bandeira bordada por um grupo de senhoras 'tão anónimas quanto dedicadas'; sem serem elogiados no Diário de Notícias, estes homens constituem uma tal maravilha social que certamente, para o futuro, na ordem das coisas morais se falará dos onze do Bragança como na ordem das coisas heróicas se fala nos onze de Inglaterra.





BALANÇO

Eça está visivelmente cansado. Sem embargo da lucidez com que continua a responder, interrompe-se frequentemente para respirar, para tossir. À porta surge a D. Emília fazendo-me sinais para que termine.

- Uma última pergunta. Ao cabo destes anos de luta pela língua e pela literatura portuguesas, sente-se devidamente recompensado?

- Sabe, se eu tivesse nascido em França e dado romances ao Petit Journal, possuiria talvez 60 000 francos de renda.

- Sente-se então arrependido.

- De certo modo... a guerra da literatura é uma luta bem vã quando se empreende com uma pena na mão, em língua portuguesa. Todo o meu erro foi, quando era moço e forte como você, não estabelecer uma mercearia para o que aliás tenho jeito e gosto. Estava agora gordo e sossegado, com o toucinho que cobriria o meu balcão e, se você por lá aparecesse, eu diria com delicada superioridade: «Ó Sr. jornalista, temos aqui um queijinho que é de se lhe arrebitar a orelha. E seria o céu aberto! Mas enfim, agora é tarde para chorarmos sobre carreiras erradas...

- Arrependido?

- Não, meu amigo. Chalaceava apenas. E quando, há dois anos, cheguei à minha janela do Rossio para ver o cortejo cívico do Centenário de Camões e a multidão me aplaudiu, senti que, afinal, nem tudo tem sido em vão.

Da porta, D. Emília com sinais mais incisivos, exige-nos que terminemos. Muita coisa falta ainda perguntar a Eça. Porém, o seu ar fatigado, a tosse, a voz que enfraquece, não aconselham a que continuemos. Agradeço a afabilidade com que nos recebera e se prestara a responder ás nossas perguntas. Confessa-nos que sempre teve paixão pelos jornais e que, na realidade, me considera um camarada de profissão, pois também ele na juventude fez jornalismo. Agradecemos, despedimo-nos, desejamos melhoras. Julgo ter conseguido disfarçar a enorme tristeza que a visão da ruína física de um espírito tão brilhante em mim provoca.




SÉCULO XIX OU SÉCULO XXIII

De regresso ao centro de Paris, o Sousa lá me convence a sacudir a angústia que a visão de um Eça moribundo me causara e a dar uma volta pela Exposição. Uma vasta área, entre a Concórdia e o Campo de Marte, com pavilhões e palácios fantásticos. Uma viagem reproduzindo o caminho-de-ferro Transiberiano, entre Moscovo e Pequim, um cruzeiro pelo Mediterrâneo, a projecção num ecrã com quase trinta metros de largura dos filmes de Louis Lumière, etc.. etc. À noite, a «fada Electricidade» que preside à Exposição, surge sob a forma de dezenas de milhares de lâmpadas num espectáculo feérico, inesquecível . Durante a conversa, Eça dissera:

- Paris já não é aquela cidade ligeira e luminosa. Agora está muito grosseira de aspectos, de modos e de ideias - e completamente negra! - Dizem os entendidos que é por causa do imenso número de fábricas - e porque Paris se vai tornando uma cidade cada dia menos intelectual e mais fabril. Já parece o século XXIII! Deus nos dê paciência para aturar a civilização!




LISBOA NOVAMENTE

Novamente em Lisboa, que agora me parece ainda mais provinciana, dado que a vejo um pouco através dos olhos implacáveis de Eça. Desde que cheguei, o major Neves todos os dias me pede os linguados com a entrevista. Não me arrisco a dizer que estão pendentes seja do que for. Prometo levar-lhos impreterivelmente hoje à tarde. Impreterivelmente é uma das expressões típicas do Neves. Na realidade, trouxe um aluvião de apontamentos com as respostas do mestre e tenho estado a organizá-los, de maneira a dar uma forma coerente ao texto. No meu quarto da Rua dos Fanqueiros vejo a cidade sob um manto de calor. Os ruídos dos choras, dos vendedores ambulantes, chegam difusamente à minha água-furtada. Continuo a escrever. O Neves terá hoje à tarde a sua entrevista e talvez ainda a possa meter na edição de amanhã.




DE SÚBITO, UM TELEGRAMA

Olho o telegrama que o boletineiro me acaba de entregar à porta. Sousa é lacónico: «Eça de Queirós morreu ontem entardecer. No Orfanato vizinho crianças cantavam Miserere».

Saio para ir à redacção entregar a entrevista ao Neves. Amanhã a minha prosa terá, pela primeira vez, honras de primeira página. O dia está bonito, quente e luminoso. Os choras e os americanos percorrem as ruas tilintando. Na Rua dos Douradores há carroças, cheiro à urina e aos excrementos dos cavalos. Dois galegos de corda ao ombro estão à esquina da Rua da Assunção conversando. Desço a Rua de Santa Justa. Da porta do Café Patinhas, fumando um charuto, o Lopes, um rapaz que estudou comigo em Coimbra, grita-me uma tontice qualquer. A Rua Augusta, a Rua do Ouro são percorridas por carruagens e trens de praça. Começo a subir as escadas do elevador, rumo à Rua do Carmo. Tudo está na mesma. Lisboa, o país e o mundo estão completamente indiferentes à morte de Eça. Os navios fazem-se ao mar, nos bancos as letras são descontadas, as fábricas laboram, o comércio vende... tudo segue o seu rumo. Como se não estivéssemos hoje muito mais pobres do que ontem!




A OBRA DE EÇA DE QUEIRÓS

1866/67 - Eça de Queirós estreia-se como escritor com a publicação na Gazeta de Portugal de textos que, após a sua morte, viriam a ser parcialmente compilados no volume Prosas Bárbaras (1903). Em edições posteriores, incluíram-se textos que não tinham sido seleccionados para a primeira edição. De Janeiro a Outubro de 1867, Eça esteve quase exclusivamente ocupado com a redacção do jornal Distrito de Évora. Aqui publicou algumas narrativas, tais como O Réu Tadeu e Farsas.

1869 - Publica na Revolução de Setembro e em O Primeiro de Janeiro algumas poesias atribuídas a um poeta imaginário - Carlos Fradique Mendes.

1869/70 - O escritor realiza uma viagem ao Próximo Oriente para assistir à inauguração do canal de Suez. No Diário de Notícias publica a reportagem De Porto Said a Suez que no volume póstumo O Egipto viria a ser completada com Notas de Viagem e com Folhas Soltas, apenas editadas em 1966. Em 1870 a Revolução de Setembro publica uma série de nove capítulos (que viria a ficar incompleta) sobre a Morte de Jesus e que seria também integrada no final de Prosas Bárbaras. Nestes textos podemos encontrar esboços quer de o Suave Milagre quer de A Relíquia. Ainda em 1870, de colaboração com Ramalho Ortigão, publica em folhetins no Diário de Notícias uma imaginária reportagem jornalística, O Mistério da Estrada de Sintra.

1871 - Da produção deste ano destaca-se a sua conferência no Casino Lisbonense sobre O Realismo como Expressão de Arte. Também com Ramalho Ortigão, inicia a sua colaboração em As Farpas. Pertence-lhe, aliás, o texto inicial dessa série de comentários críticos e satíricos O Estado Social de Portugal. Sai a 1.ª edição em volume de O Mistério da Estrada de Sintra.

1875 - O primeiro romance de Eça, O Crime do Padre Amaro, sai em folhetins na Revista Ocidental. Virá a ser publicado em volume no ano seguinte, com muitas alterações. Na edição de 1880, considerada definitiva, sofrerá uma revisão ainda maior.

1878 - É publicado o segundo romance, O Primo Basílio, primeiro grande êxito literário do escritor.

1879 - Escreve O Conde de Abranhos, que só virá a ser publicado postumamente.

1880 - Publica O Mandarim.

1883 - Escreve a novela Alves & Ca. que só em 1925 será publicada.

1884 - É publicada a 2.ª edição, refundida, de O Mistério da Estrada de Sintra.

1887 - Publicação de A Relíquia.

1888 - Publica Os Maias, magistral romance que constitui a consequência de textos que deixa sem redacção definitiva: A Capital e A Tragédia da Rua das Flores. Em O Repórter, publica os primeiros textos que, após posterior revisão de Júlio Brandão, virão a ser reunidos em A Correspondência de Fradique Mendes (1925).

1900 - Já após o falecimento do escritor, sai a público o primeiro volume de A Ilustre Casa de Ramires. Esta obra tinha tido já uma versão incompleta na Revista Moderna (1877-99).

1901 - É publicado o romance A Cidade e as Serras, com texto revisto por Ramalho Ortigão e Luís Magalhães.

1902 - Saem os Contos.

1903 - Prosas Bárbaras.

1905 - Cartas de Inglaterra e Ecos de Paris.

1907 - Cartas Familiares e Bilhetes de Paris.

1909 - Notas Contemporâneas.

1912 - Últimas Páginas.

1925 - A Capital, O Conde d’Abranhos, Correspondência, Alves & Ca.

1926 - O Egipto.

1929 - Cartas Inéditas de Fradique Mendes e mais Páginas Esquecidas.

1940 - Cartas de Londres.

1944 - Cartas de Lisboa e Crónicas de Londres.

1949 - Eça de Queirós entre os seus (Cartas Íntimas).

1961 - Cartas de Eça de Queirós aos seus editores.

1980 - A Tragédia da Rua das Flores.

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Nesta entrevista imaginária, todas as respostas de Eça foram organizadas com recurso a diversos textos do escritor. E embora em alguns casos se tenham introduzido pequeníssimas alterações de forma e de pormenor, procurámos sempre respeitar o conteúdo e a substância das afirmações queirosianas.