Vivi como quem respira...

luís de albuquerque

Matemático e historiador português:
1917 - 1992



Quando tudo aconteceu...

1917: Em 6 de Março nasce em Lisboa Luís Guilherme Mendonça de Albuquerque, filho de Eduardo Castilho de Albuquerque e de D. Emília Sá Furtado de Mendonça. 1929: Matricula-se no Colégio Militar onde completará o Curso dos Liceus. 1939: Licencia-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Lisboa. 1940: Obtém a licenciatura em Engenharia Geográfica. 1941: É admitido como assistente de Análise e Geometria na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. 1947: Começa a colaborar na revista Vértice, de Coimbra, colaboração que manterá durante muitos anos, publicando sobretudo artigos científicos, mas também textos sobre outros temas, inclusive de crítica literária. 1948: Publica em separata da Vértice o estudo As ciências exactas na reforma pombalina do ensino superior. 1949: É aprovado por unanimidade no concurso para Professor de cadeiras e cursos anexos de Desenho na Faculdade de Ciências de Coimbra. 1959: Obtém 19 valores no exame de doutoramento em Matemática, na Universidade de Coimbra. A sua dissertação doutoral versa Sobre a Teoria da Aproximação Funcional.1959/60: Com uma bolsa do Instituto de Alta Cultura, estuda na Universidade de Göttingen, na então Alemanha Federal (Métodos Estocásticos). 1960: No seu regresso da Alemanha ocupa na Faculdade de Ciências de Coimbra a cadeira de Álgebra. Será o impulsionador da Escola Portuguesa de Álgebra Linear, que atingirá enorme prestígio internacional. 1961: Colabora na Série de Separatas do Agrupamento de Estudos de Cartografia da antiga JIU (Junta de Investigações do Ultramar com o estudo Os Almanaques Portugueses de Madrid. 1963: É aprovado no concurso para Professor Extraordinário da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. Apresenta a dissertação Matrizes de elementos não negativos. Matrizes estocásticas. É nomeado Professor Agregado. Publica O Livro de Marinharia de André Pires. É admitido como membro da Académie Internationale d’Histoire de Sciences. 1965: É nomeado membro da Academia Internacional de Cultura Portuguesa. Publica Os Guias Náuticos de Lisboa e Évora, com introdução de Armando Cortesão. 1966: Em 9 de Julho é aprovado no concurso para Professor Catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra.1967: Publica, em co-autoria com José Lopes Tavares, Algumas observações sobre o planisfério ‘Cantino’. Publica-se também A determinação de declinação solar na náutica dos descobrimentos. 1968: Organiza a I Reunião Internacional de História da Náutica, que se reúne em Coimbra. 1968/70: Em 25 e Abril, no regime de comissão de serviço, é nomeado Professor Catedrático da Universidade de Lourenço Marques (Estudos Gerais Universitários de Moçambique). 1969: É nomeado sócio correspondente da Academia Portuguesa da História. É co-fundador do Grupo de Estudos de História da Marinha, do qual virá a ser presidente da secção de História Marítima entre 1979 e 1992. Com uma nota introdutória sua e com a colaboração de Maria Catarina Madeira Santos e Maria Armanda Ramos, prepara a edição de Atlas de Fernão Vaz Dourado. Reprodução do códice iluminado 171 da BN. Sai a edição de Arte de Navegar de Manuel Pimentel, edição comentada e anotada por Armando Cortesão, Fernanda Aleixo e Luís de Albuquerque. 1970: Publica Contribuição das navegações do século XVI para o conhecimento do magnetismo terrestre. Sai também Duas obras inéditas do Padre Francisco da Costa. 1970/71: Publicação de Curso de História da Náutica e da Cartografia. Para estudantes e pós-graduados (de colaboração com Armando Cortesão). 1971: É nomeado membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. 1970/72: Retoma as suas funções na Universidade de Coimbra, exercendo as funções de Secretário da Faculdade de Ciências. 1972: Integra o Comité Executivo da International Comission on the History of Mathematics. Publica ‘Aula de Esfera’ do colégio de Santo Antão no Século XVII. 1974: De Maio a Setembro, assume a presidência do Conselho Directivo da Faculdade de Ciências. Em Setembro é nomea

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Figura ímpar de cidadão e de intelectual

Pela primeira vez, ao escrever um texto desta natureza depara-se-nos uma insólita dificuldade: não foi possível, no «Quando Tudo Aconteceu» fazer uma lista exaustiva da bibliografia de Luís de Albuquerque – são 900 obras, entre trabalhos originais e obras prefaciadas e anotadas, entre livros e artigos científicos! Se os quiséssemos nomear a todos, não ficaríamos com espaço para dizer mais nada, pois só os títulos mobilizariam muitos mais caracteres do que os da maioria das biografias de «Vidas Lusófonas». Limitámo-nos, por isso, a referir apenas os trabalhos que considerámos mais importantes e sem nomear os editores. Portanto, a obra é vasta e valiosa. E o Homem?
Antes de mais – se fosse preciso justificar a presença do Professor Luís de Albuquerque nesta extensa galeria de luso-falantes e de luso-personalidades, diríamos apenas que dificilmente existirá alguma tão eminentemente lusófona, pois o nosso biografado espalhou o seu imenso saber, não só por diversas universidades portuguesas, como por quase todos os cantos do mundo onde se fala o nosso idioma – Brasil, Moçambique, Cabo Verde… Para além da sua dimensão intelectual, importa ainda salientar a sua ímpar figura de democrata. Antifascista de longa data, assumindo posições públicas em defesa da democracia, sofreu perseguições políticas na sua vida privada e no próprio meio académico. Teve de repetir por duas vezes as provas de doutoramento, ele que, por certo era mais sabedor do que os arguentes. Veio o 25 de Abril e ficou numa posição vantajosa perante quem o tinha perseguido e prejudicado: nomeado em 1974 Governador Civil de Coimbra e em 1982 Vice-Reitor da Universidade, podia ter pago na mesma moeda. Pois não foi o que fez. Defendeu quem, sendo de direita tinha valor intelectual, evitou saneamentos selvagens. Para todos, mesmo para alguns que pouco antes o perseguiam e prejudicavam, teve palavras amigas e, sobretudo protegeu-os da fúria revanchista. Quantos homens nas mesmas circunstâncias se portariam como Luís de Albuquerque?
A obra é muito vasta e valiosa, mas o Homem foi ainda maior.




Percurso de uma vida feliz. Coimbra

Tendo nascido em Lisboa, foi aquilo a que se pode chamar «um homem de Coimbra». Depois de ter frequentado o Colégio Militar na capital e de ali ter completado o Curso Geral dos Liceus, licencia-se em Matemáticas na Universidade de Lisboa. Completado o curso, ruma à cidade do Mondego, onde ocupa o lugar de assistente na Faculdade de Ciências. Posteriormente, defenderá a tese doutoral em Matemáticas, sendo aprovado com 19 valores. Casa com D. Maria Benedita Lares Morais de Albuquerque. Faz parte activa do grupo fundador da revista Vértice. Será, pelos anos seguintes fora, um activo colaborador da revista. Publica nas páginas daquela revista, tão intimamente ligada ao advento do neo-realismo, valiosos textos , tais como «O Reino da Estupidez» e a Reforma Pombalina, que em 1975 sairá em livro.
Falar de Coimbra, da sua vida boémia, da vida académica, das tertúlias e até dos tipos populares da cidade (como o «famoso» Caganeta), era um dos temas de conversa da sua preferência. Numa dessas tertúlias de café, contava, projectou-se numa noite de tédio, a criação de um romance colectivo – estabeleceu-se uma ordem e cada um escrevia uma página e passava ao seguinte. Porém, o romance, que se passava em Marrocos num quartel da Legião Estrangeira, ficou bloqueado. Um dos protagonistas, numa noite de luar, chegou à porta da caserna e «colocou o cofió na cabeça»… Nenhum dos «romancistas» conseguiu passar do cofió, pois o termo, aliás inadequado, pois os legionários da força colonial francesa não usavam um barrete típico dos fulas da Guiné e das tropas indígenas portuguesas; usavam, sim, os soldados marroquinos da Legião, um fez. O termo cofió, desencadeava o riso e nenhum conseguiu ultrapassar esse promontório. Luís de Albuquerque divertia-se contando estes episódios, ria-se muito e de uma forma contagiante ao rememorá-los.
A sua vida decorreu de forma equilibrada, trabalhando, aprendendo e ensinando, ensinando sempre. Os grandes acontecimentos, os marcos da sua vida foram os de carácter cultural. Por isso, optámos por discorrer, sem as habituais preocupações cronológicas, sobre Luís de Albuquerque, deixando os pormenores biográficos apurados, bem como os cargos, honrarias e homenagens para o Quando Tudo Aconteceu.




A teoria do sigilo. Mascarenhas Barreto. A polémica

Pessoa extremamente cordata, Luís de Albuquerque sabia defender com grande convicção aquilo em que acreditava. Uma tese sua que contrariava a de figuras como Armando Cortesão, era a da inexistência de uma «política de sigilo» no reinado de D.João II (tal como negava a existência da «tão famosa, quanto falsa» Escola de Sagres). Mascarenhas Barreto publicou em 1989, como se sabe, um livro intitulado «Cristóvão Colombo, agente de D.João II». Luís de Albuquerque rebateu a credibilidade dos pressupostos do livro. Ressabiado, Mascarenhas Barreto contra-atacou de forma agressiva, pondo em causa o saber de Luís de Albuquerque. O qual ripostou, rebatendo com argumentação científica as congeminações romanescas de Barreto e, finalmente, transcrevendo dedicatórias louvaminheiras de Barreto à sua pessoa. «Num momento, a minha «sapiência» transformou-se em ignorância; a «ímpar erudição» que possuía teve mutação para simples maledicência desprezível e a minha honestidade passou a um comportamento de traidor.», diz encerrando o assunto. Os pormenores da polémica estão documentados em Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses.




Aventura no Brasil. O câmbio de moeda no banco

Viajou muito, participando em congressos, dando seminários em universidades estrangeiras, fazendo palestras, percorreu todos os continentes. Pouco antes da doença cardíaca súbita que o acometeu em 1991 e cujas sequelas acabariam por lhe roubar a vida, esteve no Brasil. Circulava, salvo erro, o cruzado novo como moeda e o professor foi a um banco, no Rio de Janeiro, para trocar dólares por cruzados novos ao câmbio oficial. O empregado bancário que o atendeu não queria acreditar, ficou banzado e chamou os colegas apontando-lhes o professor. Uns riam-se outros faziam um ar espantado. Incomodado, até porque nunca mais lhe cambiavam o dinheiro, perguntou o que se passava. O empregado explicou – ninguém cambiava dinheiro nos bancos. No mercado negro a moeda brasileira valia menos de metade do que o câmbio oficial fixava. O empregado queria devolver-lhe o dinheiro. Luís de Albuquerque não deixou, insistiu para que o dinheiro lhe fosse cambiado de forma regular. Nenhuma desonestidade lhe convinha.




Ouçamos alguns testemunhos sobre o nosso biografado: Testemunho de um editor:

Às quartas-feiras trabalhávamos na organização do »Portugal no Mundo» e da colecção «Biblioteca da Expansão Portuguesa». Foram três anos de reuniões semanais, entre 1987 e 1990. Sempre que ele estava disponível, almoçávamos juntos, em geral em restaurantes perto da editora. Num desses princípios de tarde, salvo erro no Verão de 1989, o Professor perguntou-me: «-Tem o carro por aqui perto?» Respondi-lhe que sim, e ele dispara-me: «Hoje convido eu! – Vamos ao Tavares!». Entrámos no carro e preparava-me para rumar à Rua da Misericórdia, quando, com o seu ar brincalhão, esclareceu: «Ouça, não vamos ao Tavares Rico, nem ao Tavares Pobre; vamos ao Tavares Paupérrimo. E, seguindo as suas indicações, lá fomos até à Rua dos Jerónimos, onde almoçámos num tasquinho delicioso, servidos pelo senhor Tavares: umas belas sardinhas, com salada e regadas por um tinto especial que o proprietário mandava vir da sua terra, no Norte. Foi um almoço inesquecível. O restaurante do senhor Tavares, o «Tavares Paupérrimo» já não existe.




7 de Outubro de 1992 - O testemunho de Vasco Graça Moura

«Pouco depois ele partia para casa. De novo houve pessoas alarmadas, com Maria João Rivotti à frente, que vieram dizer-me pelas oito da noite que o «Senhor Professor tinha seguido para casa, mas não parecia nada bem». O Francisco Faria Paulino e eu saltámos para um automóvel. Lá fomos a casa dele. Não sabíamos qual era o andar. O porteiro, desconfiado acompanhou-nos no elevador e, depois, até à porta do apartamento. Tocámos e respirámos fundo no corredor, quando ele abriu a porta, assomando meio despenteado, enquanto lhe dizíamos da nossa preocupação. Foi-nos respondendo que já estava a dormir, e comentou com ar malicioso: -«Estejam descansados que eu, quando morrer, aviso antes!». Na manhã seguinte, o Professor Luís de Albuquerque lá estava outra vez no seu gabinete da Casa dos bicos. Pediu-me que o mandasse levar de automóvel a Coimbra, onde tinha coisas a tratar. E foi pouco depois, nessa manhã, que o seu estado teve um agravamento súbito. Resolvi pedir auxílio clínico de emergência, através do Gabinete de Estado-Maior da Armada. Depois fui ter com o Professor Luís de Albuquerque e disse-lhe que achava melhor que ele fosse visto por um médico antes de abalar para a cidade do Mondego. Acabou por concordar comigo. Quando o médico, Dr. Maldonado, chegou, deixou-se convencer em poucos minutos a baixar ao Hospital da Armada para fazer uns exames. Vim com ele até à ambulância. Tinha sido o seu último dia de trabalho.




«Palestras» no Hospital da Marinha.

Um dos médicos que o assistiu quando do primeiro acidente cardiovascular em Outubro de 1992, conta que numa das primeiras noites de internamento, quando entrou no quarto do professor, foi dar com ele rodeado de médicos, enfermeiros, auxiliares, todos rindo. Sentado na cama, Luís de Albuquerque contava as suas histórias e ria-se com gosto. O médico ficou alarmado, ralhou com os colegas que eram jovens, mandou sair todo o pessoal. Acabou com a palestra.




Opiniões diversas sobre o cidadão e o intelectual Luís de Albuquerque[1]

Mário Soares (em 1993, quando era presidente da República): O seu temperamento aberto , a contagiante alegria do seu trato, a diversidade dos seus interesses, a sua ampla cultura, fizeram dele uma personalidade fascinante.
Joaquim Veríssimo Serrão, presidente da Academia Portuguesa da História: Não se guarde do Professor Luís de Albuquerque a imagem seca do pedagogo que obriga os discípulos a obedecer às regras que ele próprio criou. Sempre e apenas pretendeu ser o guia e vigilante, orientador atento que franqueava caminhos à indagação dos ouvintes, mas sem nunca os forçar a qualquer tipo de servidão intelectual.
Alcino Rocha, motorista: Vou contar uma das muitas coisas que me impressionaram muito no Senhor Professor Luís de Albuquerque. Depois do seu trabalho terminado, normalmente era convidado a tomar a sua refeição com outras individualidades. Pois dava a desculpa de que ia almoçar já na estrada, e depois almoçava junto de mim(…) o Professor Luís de Albuquerque era um homem fantástico. Passava todos os limites da bondade.
Max Justo Guedes, almirante da Marinha Brasileira e especialista em História naval e em Cartografia: Os múltiplos congressos e comissões internacionais de que participámos, a cada dia faziam crescer nossa já fraterna amizade e acrescentar a admiração imensa que sentia por Luís.
Carlos Loures, responsável de editora: Todas as quartas-feiras reuníamos no meu gabinete às sete da manhã, onde ficávamos a trabalhar até às 11, se o Professor tinha de ir para o palácio Vale Flor (o motorista vinha buscá-lo), ou até à hora do almoço, caso em que almoçávamos juntos. Porém, eu chegava sempre dez ou quinze minutos antes das sete. Invariavelmente, o professor já estava à porta à minha espera. Dizia-me alegremente: «Seu valdevinos! Isto é que são horas de chegar?» E descrevia-me as tarefas que àquela hora já tinha desenvolvido – acabar um texto, ir comprar o pão (morava nas Avenidas Novas)…
Orlando de Carvalho, do Instituto de Coimbra: Quando em 1943 aportei a Coimbra já Luís de Albuquerque era assistente de Matemática. E já constituía sem exageros, um emblema da Academia. Todos falavam do jovem docente que tratava por tu todos os seus alunos e que todos respeitavam e acarinhavam sem excepção.
Manuel Ferreira, tipógrafo: Todo o pessoal da Imprensa de Coimbra ficava admirado porque sendo o Professor Luís de Albuquerque um homem de uma alta envergadura científica, sabia descer até nós, simples operários gráficos, e por isso tínhamos por ele a maior consideração e respeito.
Lucília Santos, funcionária pública: O Senhor Doutor Albuquerque era muito boa pessoa (…)foi perseguido devido às suas posições políticas (…) Só depois de uma dúzia de anos, ao fim de três tentativas, é que o deixaram fazer o doutoramento. O motivo era o facto de ele ser um homem de esquerda e na Faculdade mandavam então os de direita.
Aníbal Pinto de Castro, director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra: Na travessia da selva universitária que os desmandos subsequentes ao movimento de 25 de Abril de 1974, tantos de nós tivemos de fazer, a sua palavra foi sempre para mim de serena confiança e de esperançoso optimismo…
Margarida Santos, recepcionista de casa editora: O Professor Luís de Albuquerque era uma pessoa extraordinária. Quando entrava, dizia sempre qualquer coisa engraçada, mas importante. À saída, quando querida ajudá-lo a vestir o sobretudo ou a gabardina, dizia-me. «Muito obrigado, mas não me ajude. Esta é a única ginástica que faço.
Rui Alarcão, reitor da Universidade de Coimbra: De uma pessoa assim guarda-se uma recordação imperecível. Porque, a mais da saudade do Mestre e do Amigo, fica a lembrança do Homem.

[1] - Estas opiniões sobre a personalidade de Luís de Albuquerque foram colhidas em diversas fontes. Grande parte delas, no volume Luís de Albuquerque – O Homem e a Obra, edição dos Serviços Culturais da Câmara Municipal da Figueira da Foz, 1993. Outras, resultam de testemunhos pessoais e directos




O testemunho do historiador Alfredo Pinheiro Marques

«No manuscrito do seu livro de memórias Registo do Tempo, Luís de Albuquerque escreveu: Estou a entrar na sombra da vida com a serenidade e a certeza (…) Logo depois, na versão dactilografada, riscou e emendou: Estou a entrar na sombra da vida com a serenidade e a convicção (..).
Talvez isto diga tudo.
Luís de Albuquerque não terá sido certamente um homem que teve certezas (quem as tem? Quem as pode ter, sobretudo se for inteligente?) Mas foi sem dúvida um homem que teve convicções.




O testemunho de Luís de Albuquerque: Vivi como quem respira

«Vivi como quem respira (disse-o há dias a um amigo, e creio ter-lhe dado com isso uma ajuda), sem nunca dramatizar as dificuldades que me puseram no caminho. Tudo o que fiz, mesmo quando sem dúvidas vi depois ter sido inútil, foi feito com gosto, ou, talvez de preferência, com a enorme alegria de quem nunca deseja forçar a vida, e tudo o que não me deixaram fazer, vejo hoje com transparente lucidez (deixem-me ao menos a ilusão dela!) que talvez não valesse ou pouquíssimo valesse a pena ser feito (…)
(…) Quando eu morrer não tenham pena de mim: vivi muito bem a minha vida.
Que mais podemos nós dizer?