Silêncio e sombra, sua morada...

Henriqueta Lisboa

Poeta brasileira:
1901 - 1985



Quando tudo aconteceu...

15 de julho de 1901: Nasce Henriqueta Lisboa em Lambari (Minas Gerais), filha de Maria Rita Vilhena Lisboa, natural de Campanha, Minas Gerais, e João de Almeida Lisboa, farmacêutico e político, natural de Macaé, Rio de Janeiro. 1924: Henriqueta gradua-se no Colégio Sion de Campanha, Minas Gerais, transferindo-se com os pais e os oito irmãos para o Rio de Janeiro devido à eleição de seu pai para deputado federal. 1925: Estreia na poesia com o livro “Fogo-fátuo”. 1929: Publica “Enternecimento”, com o qual vence o Prêmio de poesia Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras. 1935: Retorna com a família para Minas Gerais, sendo nomeada Inspetora Federal do Ensino Secundário. 1936: Lança o livro “Velário”. 1939: Inicia correspondência com Mário de Andrade, que será intensa durante os próximos cinco anos. 1941: Publica “Prisioneira da noite”. 1942: Recebe Gabriela Mistral que, residindo no Brasil desde 1940 como consulesa do Chile, vem a Belo Horizonte para proferir duas conferências, uma delas sobre Henriqueta Lisboa. 1943: Torna-se catedrática de Literatura Hispano-americana e Literatura Brasileira da Faculdade de Ciências e Letras Santa Maria, da Universidade Católica de Minas Gerais. Lança o livro de poesia infantil “O menino poeta”. 1944: Cecília Meireles vai a Belo Horizonte, onde profere uma palestra a convite de Henriqueta. 1945: Morre Mário de Andrade, a quem a autora dedica o livro “A face lívida”, publicado no mesmo ano. Lança também nesse período seu primeiro livro de ensaios “Alphonsus de Guimaraens”. 1947: Morre seu pai. 1949: Lança o livro “A flor da morte”, com o qual vence, no ano seguinte, o Prêmio Othon Bezerra de Mello, da Academia Mineira de Letras. 1952: Publica “Madrinha Lua”, primeiro livro de poesia inteiramente dedicado à temática mineira, com o qual obtém o 1º Prêmio da Câmara Brasileira do Livro (SP). 1955: Publica “Convívio Poético”, sua segunda reunião de ensaios. 1956: Lançamento de “Azul profundo”. 1958: Reúne em “Lírica” a maior parte de sua produção poética a partir de “Enternecimento”. 1959: Publica “Montanha viva: Caraça”, segundo volume de poesia ambientado em Minas Gerais sob forte inspiração religiosa. 1961: Publica seus poemas traduzidos para o público infanto-juvenil em “Antologia poética para a infância e juventude”. 1963: Torna-se membro da Academia Mineira de Letras, sendo a primeira mulher a entrar para essa instituição. Neste mesmo ano, lança “Além da imagem”. 1965: Pronuncia a conferência “O motivo infantil na obra de Guimarães Rosa”, texto incluído no ano seguinte em “Guimarães Rosa”, publicação do Centro de Estudos Mineiros. 1968: Lança “Vigília Poética”, sua terceira coleção de ensaios. 1969: Publicação de “Cantos de Dante”, reunindo dez cantos do “Purgatório” traduzidos por Henriqueta. Sai neste mesmo ano uma coletânea de poemas de Gabriela Mistral também traduzidos pela autora. 1971: Publica “Nova Lírica”, mais uma coletânea de poemas, desta vez excluindo seus dois primeiros livros. Ganha o Prêmio Brasília de Literatura pelo conjunto da obra. 1972: Volta à temática mineira em “Belo Horizonte bem querer”, poema que prepara à guisa de agradecimento pelo título de “Cidadã Honorária de Belo Horizonte” que lhe é concedido três anos antes. 1973: Lança “O alvo humano”. 1976: Vence o Prêmio Poesia 76, da Associação Paulista de Críticos de Arte. No mesmo período, publica “Reverberações”. 1976: Lançamento de “Miradouro e outros poemas”. 1977: Publica “Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra”. 1979: Reunião de poemas selecionados no volume “Casa de pedra: poemas escolhidos”. 1982: Lança “Pousada do ser”, seu último livro. 1984: Recebe o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e o Prêmio Pen Clube pelo livro “Pousada do ser”. 09 de outubro de 1985: No dia do aniversário de Mário de Andrade, Henriqueta falece em sua residência no Bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte, Minas Gerais.

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UMA POETA EXILADA NO SILÊNCIO

Uma poeta que “fez do silêncio e da sombra sua morada”: assim Henriqueta Lisboa se apresenta, justificando o constrangimento de falar de sua própria obra no XII Encontro Nacional de Escritores, em Brasília, no ano de 1978. À época, com mais de vinte livros publicados, entre poesia, tradução e ensaio, Henriqueta já se vê situada pela crítica como um dos grandes nomes da lírica moderna, ao lado de Cecília Meireles, Alfonsina Storni e Gabriela Mistral. Entre os brasileiros seus contemporâneos, a admiração subentende uma tácita homenagem, a julgar pelos depoimentos de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Mário de Andrade sobre o valor da sua poesia dentro do panorama da literatura nacional.

Para uma voz ausente dos debates literários de seu tempo, igualmente apartada de algumas das principais tendências do modernismo, pode-se dizer que o justo reconhecimento de Henriqueta Lisboa, atípico se consideradas as circunstâncias, é inspirado por uma integridade tanto moral quanto orgânica de sua obra de tripla face: poética, crítica e exegética. Como disse certa vez Mário de Andrade em carta à Henriqueta, se alguns veem com reticência a “elevação, a profundeza e o equilíbrio sereno” de sua poesia, é “porque os fatiga a perfeição”, pelo esforço que exige um refinamento não apenas de ordem estética senão fundamentalmente humano. À parte os que se omitem, críticos e escritores são unânimes quanto à crescente depuração que marca o trabalho da poeta mineira, desde “Fogo-fátuo” e “Enternecimento”, da década de 20, ambos excluídos posteriormente de suas coletâneas, até “Pousada do ser”, de 1982, último livro que a autora publicou em vida.




“A COAÇÃO DO ETERNO DENTRO DO EFÊMERO”

“Sublimidade e subtileza acompanham Henriqueta em sua atitude de vigília diante dos mistérios de Deus, da natureza e do próprio fazer poético. Em um paralelo com a pintura do começo do século, sua delicadeza de meios tons e sua vocação meditativa fazem lembrar as figuras femininas de Marie Laurencin em formas evanescentes, levemente alheadas da cena pictórica, onde o motivo do véu se impõe como salvaguarda do silêncio. Ainda que essa atmosfera etérea e misteriosa possa remeter num primeiro momento a um repertório simbolista, e mesmo a intuição, considerada por Henriqueta a força primeira que rege o poeta, esteja muitas vezes associada ao espírito romântico, um dom de síntese e cristalinidade singulariza sua voz como aquela menos óbvia de uma poesia legitimamente moderna.

A perfeição à qual a obra de Henriqueta aspira tem a ver com uma poética baseada em ideais que, se de algum modo nunca são inteiramente alcançados, por outro lado são ideais invioláveis. Cabe lembrar que a poeta vive uma época de revisão geral de valores, ou, mais do que isso, de rupturas efetivas e de uma adesão cada vez maior ao sentido de “homo faber” nas diversas instâncias do pensamento, aí incluída a arte, mais especificamente a poesia, que sofre com isso um rebaixamento de tudo o que nela sugere o imponderável. Não se deixando levar pelas contingências, antes confrontando-as com seu ideário, Henriqueta entende a cultura como uma “sábia compenetração das cousas do tempo e do espaço”, da qual participam os valores do conhecimento, da experiência e da tradição que a originalidade não deve dispensar. Henriqueta atribui à intuição, primeira força atuante no processo de formação do poeta, a qualidade de um “dom místico” que escapa à lógica, sem por isso ignorar a importância do exercício, do “domínio sobre o sentimento” e do “jogo com a inteligência”. Sua célebre definição de poesia, “a coação do eterno dentro do efémero”, remete à sentença não menos célebre de Maria Zambrano de que “toda forma é um cárcere”.

Para Henriqueta parece menos amargo a inteligência se deixar cegar “nas trevas do mistério” do que “os véus da sensibilidade se romperem de encontro às asperezas do mundo”. Sua busca é pela harmonia, pela justa medida e por uma delicadeza cada vez mais difícil, lembrando que o livro “Velário”, com o qual sua trajetória poética começa a ganhar relevo, surge pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial. Henriqueta se diz a “teimosa do impossível”, ou, mais precisamente, a “teimosa do ideal”. Esta é a tenacidade que, alicerçada em valores incorruptíveis, conduz seus ensaios e poemas às zonas mais profundas da sensibilidade, da cultura e da inteligência.

Na crítica, seu refinamento alcança aquele raro patamar a que se refere Otto Maria Carpeaux: o da compreensão do gosto não somente como “bússola da orientação estética”, mas também como “norma de comportamento humano perante as obras de arte”. Em poucas palavras, Henriqueta é uma verdadeira dama na crítica. Na poesia, o que impera e impressiona é aquele mesmo destemor que a autora reconheceu uma vez em Magdalena Tagliaferro interpretando Beethoven: o destemor do desejo inelutável de “colher a grande flor dos abismos”, “a dignidade no maior desespero”. Todos os indícios de amargura, medo, dor, ironia em seus versos fazem parte de um grande tormento purificador, que reafirma, sobre a tentação das paixões tristes, a blandícia, a paz do azul, a vida serenada no poema para além das efemeridades e da morte. A expressão desta silenciosa perseverança aparece em sua melhor síntese, na fase madura da poeta, no poema “Confronto”, do livro “Miradouro e outros poemas”, de 1976:


Em relâmpago os bárbaros
no espaço.
Passo a passo os tímidos
no tempo.

Sob os pés dos vândalos
as pedras arrasam-se.
Do chão limpo os pacíficos
erguem torres bíblicas.

Os rebeldes, de árbitros,
destroem os ídolos.
Os dóceis, na dúvida,
valorizam as órbitas.

A fibra dos bárbaros
a astúcia dos tímidos.




HERANÇA DE SANGUE E DE FORMAÇÃO

Uma das condições da dignidade humana para Henriqueta, a beleza ocupa no seu pensamento o lugar da possibilidade de renovação do mundo. É esse “horizonte desejado” que a poeta reconhece, maravilhada, ao ler a “Educação Estética do Homem” de Schiller, leitura que tão somente ilumina valores que já lhe pertencem, desde uma herança remota de sangue e de formação. Em carta a Mário de Andrade, a autora escreve:

Sinto que recebi qualquer cousa, não sei se do sangue ou do espírito – que neste caso teria vindo pelo exemplo. Minha mãe é a encarnação exaltada das três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Meu pai é o culto silencioso das quatro cardiais: prudência, justiça, temperança e fortaleza. O que eu deveria ser! Esquisito e incômodo é, para mim, percebê-los tão diferentes dentro em meu ser, pensar como Papai e sentir como Mamãe. Não virá daí a minha determinação de equilíbrio poético? (Carta de 12 de dezembro de 1942)

A essa mistura de virtudes que vêm compor o todo de uma poética, soma-se ainda a herança de formação católica no Colégio Sion de Campanha, em Minas Gerais, onde Henriqueta gradua-se no ano de 1924. Suas atividades como Inspetora Federal do Ensino Secundário a partir de 1935, e, posteriormente, como professora catedrática de Literatura Hispano-Americana e Literatura Brasileira na Universidade Católica de Minas Gerais, a partir de 1943, correm paralelas às atividades de crítica e criadora, cujos ramos se estendem ainda para a poesia infantil e a tradução. Seu livro infantil “O menino poeta”, matéria de uma das conferências que Gabriela Mistral proferiu em 1942, em Belo Horizonte, é fruto deste zelo por uma educação estética, além de ser a própria infância, na visão de Henriqueta, uma “representação do evanescente”. Quanto à experiência de tradução, dela resultam pelo menos duas grandes contribuições: “Poemas escolhidos de Gabriela Mistral” e “Cantos de Dante”.




CORRESPONDÊNCIA ENTRE MÁRIO DE ANDRADE E HENRIQUETA

A influência da formação de Henriqueta como professora católica em seu fazer poético é razão para algumas das mais severas admoestações de Mário de Andrade quanto ao perigo do didatismo, da eloquência e da retórica. Do final do ano de 1939 ao início de 1945, Mário e Henriqueta se correspondem intensamente, compartilhando afinidades de preocupação moral em um aprendizado não apenas determinante para o aprimoramento da criação de Henriqueta como também revelador das angústias do autor de “A Meditação sobre o Tietê”, que encontra nesta amizade a oportunidade de inclinar-se para o Bem num sentido profundo.

Henriqueta tem em Mário um mestre, a quem sabe ouvir e compreender, acatando a maioria das sugestões de mudança que o amigo propõe ao comentar seus originais, o que não a impede, porém, de mostrar-se firme quando reprovada em seu pendor para visões universalizantes e num certo modo de pensar que Mário associa aos “escravocratas consolos conformistas da religião”. A essas ressalvas, Henriqueta responde com o mesmo equilíbrio íntimo que caracteriza sua poesia como um todo: “O desejo que demonstrei de continuar a ser quem sou é um desejo de harmonia que teima dentro de mim” (carta de 12 de abril de 1944); “Os meus problemas são até muito humanos, são meus como de todos aqueles que apelam para as forças morais em face da esfinge, quando não logram decifrá-la. Sinto-me criatura de Deus antes de tudo, muito antes de ser brasileira”. (carta de 20 de fevereiro de 1944).

Além da importância que teve para os seus autores, essa correspondência, apenas interrompida com o falecimento de Mário em 1945, serve como lição de sensibilidade poética para a crítica de todos os tempos, pois o papel que ambos exercem no âmbito da crítica brasileira encontra nessas cartas um canal aberto para expressar-se informalmente. Como diz Henriqueta, “Por mim, posso me sentir mais vaidosa mas não me sinto mais orgulhosa da minha arte do que de ter chegado a compreender a arte alheia. A caminhada me parece mais árdua neste sentido pois não há alimentação de egoísmo. Veja se as suas melhores conquistas morais não vieram antes da crítica do que da criação”. (carta de 24 de julho de 1943)

Assim, criticamente, Mário acompanha a produção poética de Henriqueta desde os poemas de “Velário” e “Prisioneira da noite”, até os inéditos de “O menino poeta” e “A face lívida”, este último, lançado meses após a morte do amigo, para quem a poeta dedica o livro. Interessante comparar as primeiras impressões de leitura de “Prisioneira da noite”, em que é frequente a reprovação de Mário a certos indícios de oratória e didatismo nos poemas, até as novas impressões, agora sobre “O menino poeta”, em que Mário reconhece uma poesia lúcida, de “perfeição clássica de forma” e um “ritmo rijo. Não duro nem áspero: rijo como um ritmo de La Fontaine, do grande Góngora, de muito Bocage e todo o Virgílio”. Quantos aos originais de “A face lívida”, o escritor considera que a poeta atinge aí finalmente a plenitude como “estado de poesia, concisão, densidade lírica, interioridade, riqueza de simbologia, vocabulário pessoal”, além de uma plenitude em termos técnicos. É justamente neste livro que Henriqueta, segundo suas próprias palavras, se vê diante de “um trabalho de acabamento, purificação e transfiguração do real”.

Ainda vale mencionar o diálogo entre os amigos no cenário público da crítica: Mário com seu artigo “Coração Magoado”, sobre a poesia de Henriqueta, no Diário de Notícias do Rio de Janeiro, em julho de 1941 (texto postumamente incluído no livro “O empalhador de passarinhos”, de 1946), Henriqueta com seu ensaio “Mário de Andrade poeta”, no livro “Vigília Poética”, de 1968. Sobre esse ensaio, pode-se dizer que raros estudos literários alcançaram ver tão fundo as contradições de Mário de Andrade em sua combatividade interior de alma lírica aliada a um exercício de crítica estética. Quanto ao artigo de Mário sobre Henriqueta, trata-se de uma interpretação da “noturnidade” dos poemas de “Prisioneira da noite” a partir de uma “psicologia lírica” que deduz de uma “doçura natural do ser” e de uma “altivez de pensamento” esse estado poético de um coração magoado, cuja emoção e cuja beleza realizam-se “num dizer simples mas clássico, firme e marmóreo, que atinge a força estilística de Gabriela Mistral”. Henriqueta comenta posteriormente em uma carta ao amigo que a verdade enunciada nesse artigo é toda a verdade da sua poesia. Os versos finais de “Repouso”, citados no texto, merecem ser reproduzidos aqui:


Hora simples, hora feliz.
Nada de novo para nós.
Na transparência da luz,
como um lago em placidez,
talvez deslize o anjo da paz.




“EU QUERO A PAZ, A GRANDE PAZ”

A figura do anjo é recorrente na poesia de Henriqueta. Não por acaso este anjo que “talvez deslize” na luz abandona o mundo dos homens no poema “Ausência do Anjo”, também no livro “A prisioneira da noite”. Em “A face lívida”, o mesmo reaparece no poema “Pérola” para logo desaparecer em “O anjo da paz”. Entre o exílio e o regresso, o desalento e a promessa, Henriqueta elabora um tênue equilíbrio entre dois mundos apenas separados por um véu. Como diz a própria autora, sua busca a partir de 1943 se concentra em “fundir, por um sentimento de presença com simplicidade e pureza, o perene e o transitório”. Importante relembrar que “Prisioneira da noite”, “O menino poeta” e “A face lívida” são livros escritos em plena Segunda Guerra Mundial, portanto, esse ideal de harmonia feito perseverança poética diante da destruição em larga escala, diante do menoscabo da beleza e da quebra da esperança, segreda um pacto com a vida para além de toda e qualquer circunstância. Reside aí a admirável lucidez de Henriqueta ao enfrentar a descrença evidente que a História dissemina com o perene que, em meio ao horror, “ninguém vê”, tal como o anjo que passa. Sua voz de “claro vidro/ com revérberos de sol” é uma voz que se quer pura, existindo além da morte, sem escamotear nesse desejo de paz os influxos da dor, ao contrário, aceitando-os poética e humanamente como um dos trabalhos da alma.

“Eu quero a paz, a grande paz / da lua sozinha no céu. / (...) / A paz que precedeu às sombras, / a que antes das tréguas nasceu. / A que nos tempos não se encontra, / a que foi desejo de Deus. / (...) / Porém eu quero a paz acima / de qualquer sopro humano – ou mácula. / Com delicadezas de vime / guardada de todo contacto”. A poeta cumpre assim um caminho que se aproxima, sem exagero, de uma via mística, pois ainda que saiba da “penúria da palavra diante do sobrenatural”, como diz Mário de Andrade, seus versos não permitem sonegar o amor à beleza nem recaem no abstencionismo diante da ameaça de atrofia das faculdades espirituais no tempo em que vive. Seu compromisso consiste naquela “aposta” sobre a qual fala a poeta malaguenha Maria Victoria Atencia: “Quando subitamente te abandonem as formas, / de vazio se encha a tua plenitude de vácuo / e sintas sua proposta de abandono a espreitar-te, / aposta pela vida, junta à sua grandeza / ao menos a leveza de um junquilho de março” (“A Aposta”, 1997). A poesia de Henriqueta contempla esse engajamento na vida e essa leveza, malgrado o peso de sua época e seu estado de “coração magoado”. Isto se lê nos célebres versos que abrem “O Mistério”, poema do livro “A flor da morte”, de 1949: “Na morte, não. Na vida. / Está na vida o mistério.”

Participa dessa mesma aposta o interesse de Henriqueta pela arte em seus poemas, a arte em suas diversas manifestações – teatro, música, dança, artes plásticas –, sobretudo no livro “Azul profundo”, de 1956. A poeta aí saúda o espírito de Ariel, que dança “para o tempo, à margem / da eternidade. E que precária / cousa, a eternidade, / para a alegria pura de Ariel!”. Se a paz e a pureza apenas com a morte se dão completamente, a arte, do lado da vida, seduz pelo mistério e por sua incompletude mesma, que inspira uma contínua busca, pondo à prova a temperança, a justiça e a fé num desafio cotidiano. Saudando a arte, inevitavelmente Henriqueta faz da poesia seu assunto, vendo no poeta alguém de força telúrica, remotíssima, que “acaso simplesmente prolonga / o ato criador de um deus”. Esta imagem do poeta, de pensamento no alto, alegria ao vento e força entranhada na terra regressa mais tarde no livro “Além da imagem”, numa árvore que, tal como observa a Prof.ª Blanca Lobo Filho, é “majestática e transcendental”. Mas já no livro anterior “Montanha viva: Caraça”, de 1959, essa força transcendental se enraíza na terra com a construção de um templo na serra do Caraça. Nesse livro, Henriqueta se coloca “à sombra de Dante” para louvar Virgílio. Pois é justamente sob a guarida de Dante que a autora desempenha uma das mais altas expressões da verdade da sua poesia, no estudo e na tradução do “Purgatório”.




HENRIQUETA E O PURGATÓRIO DE DANTE

O encanto pela simetria da estrutura da “Divina Comédia” é o que desperta, num primeiro momento, o interesse de Henriqueta pelos cantos de Dante a partir de uma tradução de Machado de Assis. O maravilhoso encontro acontece mais tarde, com a leitura de uma tradução integral de Bartolomeu Mitre para o espanhol. É quando a poeta “se enamora do ‘Purgatório’”, reconhecendo ali “o clímax da ‘Divina Comédia’”. Tem-se aí a origem de um profundo convívio poético, o mais emblemático de todos, que se estende por anos e frutifica na tradução de dez cantos do “Purgatório”, publicados em 1969. Cabe lembrar que também nos anos 60, a poeta portuguesa Sophia de Mello Andresen publica em luxuosa edição seus cantos traduzidos do “Purgatório”. O breve texto introdutório que Henriqueta escreve para os seus “Cantos de Dante” confirma, ainda mais do que em seus ensaios autoexegéticos, o alento da sua poesia, a dimensão de onde nasce sua palavra e para onde se destina, o compromisso de um vivência de natureza extraliterária que põe em diálogo religioso as vozes de Dante e de Henriqueta. Vale a pena citar partes desse texto:

O Purgatório é a casa do poeta. Sei que também o Inferno, com seus embates de paixão. E o Paraíso também, com seus êxtases. Mas diz e repete meu coração que o Purgatório é a casa natural do Poeta. E aqui mora e demora o poeta nas pegadas do Irmão Maior, com seu coração sofrido porém não desamoroso. Aqui se restauram suas forças, daqui parte para novos degraus de purificação e mansuetude. Nestas plagas encontra velhos amores sempre verdes, mortos amigos sempre vivos, confidentes repletos de complacência, mestres de amor. Aqui discorre do que adora com os artistas, conversa de ternura com os cândidos, comove-se com os que guardam no peito o antigo relógio, alegra-se com o ruflar das asas do anjo sobre cabelos revoltos. No Purgatório se concebe, em névoas, além do longe, a transcendência das coisas que se passam mas não se perdem. (...) O Purgatório é o reino do fazer, não mais o do agir, nem ainda o do contemplar. E o fazer condiciona a dignidade do homem, segundo seus postulados. (...) Aqui se reza a mais bela oração, a que foi ministrada pelo filho de Deus. Aqui se consagra e se coroa o Poeta dos poetas, em nome da liberdade de criar. Por isso aqui permaneço com minha lâmpada acesa, meus dedos tateantes ao longo das rochas, minha frágil voz seguidora da voz primeira, para melhor sentir em mim mesma, na língua materna, o segredo da beleza e da arte – essa água inefável sempre a fluir e a fugir do manancial.

Dentro dessa dimensão do Purgatório se vê melhor o porquê de um “coração magoado”, vê-se mais a fundo, neste reino intermédio do fazer, que é também um tempo de lenta maturação do cântico, o porquê de ser desta prisioneira da noite entregue à vigília, fazendo coro aos versos de Cecília Meireles em “Solombra”: “Tudo é no espaço – desprendido de lugares, / Tudo é no tempo – separado de ponteiros, / E a boca é apenas instrumento de segredos”. Por isso a voz tão próxima do murmúrio, da sutileza, que em sua mais pungente confissão atinge o que há de universal no sofrimento humano e em sua dignidade. Compreende-se também aí por que Henriqueta, já nos anos 40, em carta ao seu amigo Mário, vê com reservas a proposta de restauração da poesia em Cristo lançada por Jorge de Lima e Murilo Mendes, julgando antes necessário restaurar “a vida em Cristo”.

Esta ilha em que a poeta se encontra exilada, sentinela como um de seus anjos, faz do seu pensamento “uma lâmpada acesa / a incendiar a noite”, onde se pode ler a noite dos tempos, uma noite iluminada por um pequeno mas incorruptível foco de resistência espiritual. Os degraus que Henriqueta pouco a pouco vai galgando seguem o destino de um coração expectante, ávido de paz, que sente no silêncio o prenúncio de quando pulsará “uníssono / de encontro ao vivo coração do Criador”. Nessa poesia que se hospeda humanamente entre o céu e a terra existe aquele reino que, quanto mais vivido, mais se clarifica na palavra.

É também na dimensão do Purgatório que se veem Cruz e Souza, Vicente de Carvalho, Alphonsus de Guimaraens, Cecília Meireles, Alfonsina Storni, Gabriela Mistral, Vicente Huidobro, Mário de Sá-Carneiro, Giuseppe Ungaretti, Jorge Guillén, mestres de amor vivos e mortos com os quais Henriqueta convive poeticamente e dialoga em seus ensaios, sem esquecer a atividade da tradução como exercício de uma correspondência mais profunda, que permite à autora realizar aquele seu nobre desígnio de “compreender a arte alheia”.




MINEIRIDADE E SOBRENATURALIDADE EM HENRIQUETA

Importante mencionar ainda o papel que a mineiridade de Henriqueta desempenha em sua trajetória. “Madrinha lua”, de 1952, “Montanha viva: Caraça”, de 1959 e “Belo Horizonte bem querer”, de 1972, concentram essa temática de raízes que, no entanto, perpassa toda a obra da autora, da poesia ao ensaio. Como bem aponta a estudiosa Ângela Vaz Leão, “em Henriqueta, a mineiridade não é apenas vínculo de nascença, mas é também estado de espírito”, o que remete àquela árvore firmemente enraizada na terra, mas cujo mistério transcende a natureza. Tiradentes, Aleijadinho, Chico Rei, Bárbara Heliodora, entre outros personagens emblemáticos da cultura mineira, figuram em “Madrinha lua” num romanceiro que dialoga com o de Cecília Meireles. Em “Vida, paixão e morte de Tiradentes”, a poeta encarna a voz do sonhador da liberdade para anunciar seu destino crístico.

Mas o exemplo que melhor sintetiza este afeto de Henriqueta por suas origens, fundindo os primórdios da história de Minas Gerais com sua pertença religiosa, está em “Montanha viva – Caraça”, que resgata e celebra o legado cultural e místico da Serra do Caraça, local de peregrinação desde a edificação da primeira igreja pelos portugueses, ainda no séc. XVIII, e a fundação oficial do Colégio, um século depois. Resulta de uma fecunda repercussão da leitura desse livro sua tradução para o latim pelo Padre Pedro Sarneel, professor do Caraça no início do séc. XX, e o Professor José Lourenço de Oliveira, ex-aluno do Colégio.

A edição bilíngue “Montanha viva – Caraça / Mons vivus seu Mons Caracensis”, publicada em 1977, constitui uma pequena relíquia poética dentro da obra de Henriqueta, suscitando interessantes reflexões sobre a questão da tradução. Ao dar início ao trabalho, Padre Sarneel se depara com o problema de latinizar uma “composição literária de estrutura moderníssima”, sem perder de vista o dever de “retratar o mais exatamente possível a personalidade moral e literária do autor original, a profundeza e elevação de seus conceitos e imagens, o colorido e a música do seu estilo”. Assim, pensando e repensando os versos de Henriqueta, o tradutor abandona a ideia de seguir uma métrica virgiliana, optando pela métrica dos poetas cristãos da Idade Média. José Lourenço de Oliveira, reforçando essa opção pela “intensidade pós-românica do metro”, segue a orientação de Tomás de Aquino de encontrar, na língua em que traduz, o modo de expressão dos versos. O estudo comparado de Ângela Vaz Leão no livro “Henriqueta Lisboa: o mistério da criação poética” revela a riqueza dessa tradução, em que brilham as “virtudes do sintetismo latino”.




“PÉTALA A MENOS CALIDEZ A MAIS”

Na verdade, há na própria obra de Henriqueta o germe de novos sintetismos, novas analogias. De fato, dentro de “Azul profundo”, de 1956, já se elaboravam aqueles dísticos de surpreendente densidade que surgiriam quase vinte anos depois, em “Reverberações”. De “Azul profundo” a “Reverberações” ou de “Velário” a “Pousada do ser”, uma crescente depuração existe dentro de um todo harmonioso, de alma única, em que modernidade e elevação de pensamento se conjugam não como opção estética senão como cristalina expressão de uma integridade interior. Essa integridade é também o que coloca Henriqueta num lugar à parte das tendências literárias de sua época, mostrando ser possível a sobriedade, a harmonia, a sutileza, a distinção entre valor e êxito. Como diz o poeta Jorge de Sena em carta à autora:

O seu caminho de contenção e austeridade de expressão e sentimento, a sua lúcida visão de um mundo lírico que se recusa ao gracioso e ao fácil (sem que isto implique, evidentemente, uma secura, mas sim uma exigência), a busca de uma essencialidade poética que não é obstrução (pois os elementos concretos são, quer na presença que têm nos seus versos, quer na própria estrutura destes, elementos de sua criação), tudo isso faz que, onde se abram os seus livros, se encontre, menos que uma elegância post-simbolista, uma personalidade firme de poeta moderno. (carta de 1º de março de 1961)

“Síntese” é um poema exemplar dessa personalidade firme, do livro “Miradouro e outros poemas”, de 1976:

Apanhei-te em flagrante
ó lógica selvagem.
Tenho-te em mãos pela raiz.
De tuas cores ofuscantes
fiz uma corola nítida
pétala a menos calidez a mais.


Numa releitura menos óbvia da literatura moderna brasileira, a obra de Henriqueta se coloca como tarefa para esta nova compreensão de síntese, que vem, como diz Drummond, de “um estado de consciência profunda”.
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BIBLIOGRAFIA


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. “Vivência Poética”, Belo Horizonte: São Vicente, 1979.
. “Cantos de Dante”, São Paulo: Instituto Ítalo-Brasileiro, 1969.

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