Quando os lobos julgam, a justiça uiva...

Aquilino Ribeiro

Escritor:
1885 - 1963



Quando tudo aconteceu...

1885: 13 de Setembro: Carregal de Tabosa, concelho de Sernacelhe - nasce Aquilino Gomes Ribeiro, filho de Joaquim Francisco Ribeiro e de Mariana do Rosário Gomes. 1895: A 10 de Julho, entra no Colégio da Senhora da Lapa, onde em Agosto fará o exame de instrução primária. 1900: 5 de Outubro: é admitido no Colégio Roseira, em Lamego. 1902: 16 de Junho - vai para Viseu estudar Filosofia; 16 de Outubro: transfere-se para o Seminário de Beja, onde frequentará o curso de Teologia, vindo durante o segundo ano lectivo a ser expulso por insubordinação. 1906: Passa a viver na capital iniciando a sua vida de escritor e jornalista. 1907: Adere à Carbonária. Violenta explosão no quarto da Rua do Carrião durante a manipulação de cargas de TNT. É preso. 1908: 12 de Janeiro: evade-se da prisão. Em Maio, refugia-se em Paris. 1910: Proclamada a República, no final do ano vem a Portugal, regressando depois a França para continuar os estudos. 1912: Durante alguns meses reside na Alemanha. 1913: Neste país, casa com uma colega da Sorbonne, Grete Tiedmann, e, com ela, regressa a Paris. Publica o livro de contos Jardim das Tormentas. 1914: Eclode a I Grande Guerra: em Agosto, regressa a Portugal com a mulher e o filho que nascera em Fevereiro. 1915: Irá, durante três anos, dar aulas no Liceu Camões, em Lisboa. 1918: É publicado o romance A Via Sinuosa. 1919: Convidado por Raul Proença, entra como bibliotecário na Biblioteca Nacional. Sai o romance Terras do Demo. 1920: Publica as novelas Filhas da Babilónia. 1921: No ABC, publica em Outubro a novela Valeroso Milagre. Sai a novela A Traição. 1922: É publicada a sua tradução (e prefácio) de Recreação Periódica, (Amusement Périodique), de Cavaleiro de Oliveira. É editada a colectânea Estrada de Santiago. 1924: Edição do livro infantil Romance da Raposa. 1926: É a vez do romance Andam Faunos pelos Bosques. 1927: Envolve-se numa conspiração política e, perseguido, refugia-se de novo em Paris. Morre sua esposa Grete. Regresso a Portugal. 1928: Adere ao movimento militar do Regimento de Pinhel. Abortado este, é preso e internado no presídio do Fontelo, em Viseu de onde se evade. Novo refúgio em Paris. 1929: Em Junho casa em Paris, com Jerónima Dantas Machado. Em Portugal, é julgado e condenado à revelia. 1930: É editado o romance O Homem que Matou o Diabo. 1931: Publica o romance Batalha Sem Fim. Passa a residir com a família na Galiza. 1932: É amnistiado e instala-se na Cruz Quebrada. Publica o livro de novelas As Três Mulheres de Sansão, pelo qual lhe é atribuído em 1933 o Prémio Ricardo Malheiros. Ainda em 1933, publica o romance Maria Benigna.1934: Publica as obras É a Guerra e Alemanha Ensanguentada. 1935: É eleito sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. São editados o livro de contos Quando ao Gavião Cai a Pena e a obra para crianças Arca de Noé, III Classe. 1936: Publica os livros Aventura Maravilhosa de D. Sebastião, Rei de Portugal, depois da batalha com o Miramolim, O Galante Século XVIII e Anastácio da Cunha, o Lente Penitenciado. 1937: Sai o romance S. Banaboião, Anacoreta e Mártir. 1938: Traduz e prefacia a obra de Xenofonte, A Retirada dos Dez Mil. 1939: Publicam-se o romance Mónica e o livro de ensaios Por Obra e Graça. 1940: Traduz o texto latino de António Gouveia Em prol de Aristóteles. Edita-se o livro de novelas O Servo de Deus e a Casa Roubada; publica uma monografia dedicada a Oeiras. 1942: Publica e prefacia a obra biográfica Brito Camacho. 1943: Regressando à temática histórica, publica Os Avós dos nossos Avós. 1944: Publica o romance Volfrâmio. 1945: Saem a público O Livro do Menino Deus e o romance Lápides Partidas. 1946: Sai o opúsculo Camões e o Frade na Ilha dos Amores; publica a obra etnográfica Aldeia - Terra, Gente e Bichos. 1947: Publicação dos livros Caminhos Errados e Constantino de Bragança, VII Vizo-Rei da Índia e do romance O Arcanjo Negro. 1948: Saem os romances Cinco Réis de Gente e Uma Luz ao Longe. 1949: São publicados os textos de crítica literária Camões, Camilo, Eça e Alguns Mais; publica em separata o comentário à Editio Princeps de Os Lusíadas. É ainda publicada uma edição de luxo de O Malhadinhas. Colabora na propaganda da candidatura do general Norton de Matos à Presidência da República. 1950: Luís de Camões, Fabuloso e Verdadeiro, um ensaio em dois volumes. 1951: Saem os livros Portugueses das Sete Partidas e Geografia Sentimental. 1952: Entre Março e Junho, vai de visita ao Brasil, onde é homenageado. Acaba a tradução de O Príncipe Perfeito; publica Leal da Câmara; sai uma edição ilustrada da tradução de a Retirada dos Dez Mil. 1953: Publica Príncipes de Portugal e Arcas Encoiradas. 1954: Humildade Gloriosa, um romance sobre a vida de Santo António, e O Homem da Nave, são os livros publicados por Aquilino este ano. 1955: Sai a obra Abóboras no Telhado e a biografia crítica O Romance de Camilo. 1956: Publica o conto Sonho duma Noite de Natal e sai também Soldado que foi à Guerra É fundada em Lisboa a Sociedade Portuguesa de Escritores, sendo Aquilino eleito como seu presidente. 1957: A Bertrand inicia a colecção Obras Completas de Aquilino Ribeiro. Sai a crónica romanceada A Casa Grande de Romarigães e edita-se a sua tradução do D. Quixote de la Mancha, de Cervantes. 1958: É publicada a sua tradução das Novelas Exemplares, de Cervantes; é eleito sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa. Publica o romance Quando Os Lobos Uivam, obra que viria a ser proibida pela censura. É membro da Comissão de Candidatura do general Humberto Delgado. 1959: Publica D. Frei Bartolomeu dos Mártires; prefacia a tradução do romance de Pasternak, Dr. Jivago. 1960: São publicados os livros No Cavalo de Pau de Sancho Pança (uma biografia de Cervantes) e De Meca a Freixo de Espada à Cinta, colectânea de ensaios dispersos. No Brasil, sai o livro Quando Os Lobos Julgam, a Justiça Uiva. 1961: Para ser submetido a tratamento, vai a Londres. 1962: Publica O Livro de Marianinha. Escreve Um Escritor Confessa-se, em que conta a sua vida até 1908, e que sairá apenas em 1974. 1963: É publicado Tombo no Inferno. A Sociedade Portuguesa de Autores, promove uma homenagem a propósito do 50º aniversário da publicação de Jardim das Tormentas. 27 de Maio: no Hospital da CUF, em Lisboa, morre Aquilino. 1985: Nas comemorações do centenário do nascimento, realiza-se na Biblioteca Nacional um ciclo de conferências sobre a sua obra, sendo também inaugurada uma exposição biobibliográfica. Na casa onde nasceu é descerrada uma lápide. 1986: É criado em Viseu o Centro de Estudos Aquilino Ribeiro. 2007: É oficialmente decidida a trasladação dos restos mortais de Aquilino para o Panteão Nacional de Santa Engrácia (o que ocorrerá em 19 de Setembro).

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PRIMEIROS ANOS - VIA SINUOSA NO JARDIM DAS TORMENTAS

Em 1885, nasce Aquilino Ribeiro na aldeia de Carregal de Tabosa, concelho de Sernacelhe. É baptizado na igreja matriz da freguesia de Alhais, concelho de Vila Nova de Paiva. No ano em que Aquilino chega ao mundo, Émile Zola escreve Germinal, Mark Twain publica Huckleberry Finn, Guy de Maupassant, Belami. Por cá, Guerra Junqueiro dá à estampa A Velhice do Padre Eterno, Oliveira Martins publica a sua História da República Romana e Ramalho Ortigão A Holanda. Nascem outros grandes escritores: Sinclair Lewis, D. H. Lawrence, Jules Romain, Ezra Pound... Morre o grande Victor Hugo. Louis Pasteur inocula pela primeira vez o soro contra a raiva. Circula o primeiro automóvel – um ano normal.
Em 11 de Março de 1895, passa a residir com os pais, em Soutosa, freguesia da Nave, concelho de Moimenta da Beira. Em 10 de Julho desse mesmo ano, ingressa no colégio jesuíta de Nossa Senhora da Lapa, onde em Agosto faz exame de instrução primária. Em Cinco Réis de Gente e em Uma Luz ao Longe, romanceia reminiscências da sua infância e pré-adolescência. Em 5 de Outubro de 1899, entra no Colégio Roseira (ou do Padre Alfredo), em Lamego. O objectivo é enveredar pela vida sacerdotal (seu pai fora padre). Por isso, em 16 de Junho de 1902 vai para Viseu, para fazer a cadeira de Filosofia, que o habilite à admissão no Seminário de Beja, onde entra em 16 de Outubro desse ano com a intenção de frequentar o Curso de Teologia: «Quando cheguei de Lamego, com os preparatórios feitos, afora filosofia, declarei peremptoriamente em casa que não sentia bossa nenhuma para a carreira eclesiástica. Tinha eu dezasseis anos.» 1 Com estas palavras inicia Aquilino o seu livro de memórias Um Escritor Confessa-se. «Eu entrara crente, crente absoluto, para o Seminário, e sentia, malgré moi, a favor das exuberâncias da minha natureza, que estava a despir a carapaça religiosa, pode dizer-se, com que se nasce e nos tolhe na idade da razão de dar tombo para o desespero e pessimismo», diz mais adiante na mesma obra. De facto, o seu percurso no seminário de Beja, onde frequenta o Curso de Teologia, nem é longo nem termina da melhor maneira - completa o primeiro ano e faz ainda uma parte do segundo. Porém, vai pondo em causa dogmas, descobre as corrupções dos irmãos Ançã, vice-reitor e prefeito que dominam a instituição, discorda da disciplina rígida do Seminário, insubordina-se – acaba por ser expulso.
Consciente da sua completa falta de vocação para a carreira eclesiástica, resolve-se, em meados de 1904, a regressar à Soutosa, enfrentando a ira, a zangada desilusão dos pais, que sonhavam já vê-lo ser ordenado, a receber a prima tonsura e a celebrar missa... Este conturbado período da sua adolescência será transformado em matéria ficcional, em alguns dos contos de Jardim das Tormentas e, principalmente, no romance A Via Sinuosa. É com essas recordações que dá início ao seu livro de memórias.




LISBOA ATÉ AO REGICÍDIO - UM ESCRITOR CONFESSA-SE

Em 1906 muda-se para Lisboa, morando primeiro numa pensão da Rua do Crucifixo, depois na Rua das Pedras Negras e, finalmente, num quarto alugado na Rua do Carrião. Em Um Escritor Confessa-se, relata, com a mestria que caracteriza toda a sua obra, as peripécias por que passa um jovem provinciano na Lisboa do princípio do século XX. Tentando sustentar-se com o trabalho de escrita, começa a publicar os primeiros artigos em A Vanguarda, publicação dirigida por Sebastião de Magalhães Lima. Traduz Il Santo, de Fogazzaro, livro editado por José Bastos. Conhece Alfredo Luís da Costa, que virá a ser um dos regicidas, fundador de uma pequena editora (a Social Editora) que publicará A Filha do Jardineiro, romance a sair em «fascículos semanais de 30 réis», que Aquilino começa a escrever de parceria com José Augusto Ferreira da Silva. Este, que virá a ser ministro das Obras Públicas durante a I República, na transposição para a obra literária de Aquilino, dá corpo à personagem de Tomé da Silveira, do romance Lápides Partidas. O tal «romance histórico contemporâneo», que pretendia relatar a alegada sedução pelo rei D. Carlos, na sua juventude, da filha de um pobre jardineiro da Tapada da Ajuda, nunca passará do terceiro fascículo. Já em 1907, Aquilino é abordado no Rossio nem mais nem menos do que pelo fundador da Carbonária – Artur Augusto Duarte Luz de Almeida - Liga-se assim à Carbonária, braço armado da Maçonaria, Guarda no seu quarto da Rua do Carrião dois caixotes com cargas de TNT. Gonçalves Lopes, um professor do Liceu do Carmo e Belmonte de Lemos, um adelo da Rua dos Fanqueiros, ao manipularem os explosivos no quarto de Aquilino, provocam uma terrível explosão que vitima ambos. Aquilino sai ileso, mas é detido e levado para a esquadra do Caminho Novo, o cárcere mais severo do regime franquista. Em 12 de Janeiro de 1908, logra evadir-se da prisão, episódio que conta com magistral ironia e comicidade em Um Escritor Confessa-se. Segundo aí conta, vive escondido numas águas-furtadas da Rua Nova do Almada. Em 1 de Fevereiro, dá-se o Regicídio que vitima o rei D. Carlos e Luís Filipe, o príncipe-herdeiro. Aquilino é por muitos apontado como um dos elementos do grupo que atentou contra a família real, coisa que sempre negará. Em Maio vai até ao Entroncamento, onde toma o Sud-Express, viajando clandestinamente para Paris, onde irá viver durante seis anos.

«Todo o livro é percorrido por sinais que antecipam a visão de Cesário acerca
da antinomia cidade/campo. De um modo geral, é o campo que sai exaltado no processo discursivo que organiza o material do discurso. É claro que a recusa da «civilização» citadina corresponde, algumas vezes, aos mecanismos republicanos que recusam servir o rei.» [...] «É inegável, porém, uma antipatia visceral pelo espaço urbano(«a cidade dormia o sono dos devassos», XXII), reiterada com insistência no poema XXIX:

Eis a velha cidade! a cortesã devassa,

a velha imperatriz da inércia e da cobiça,

não sendo arbitrária a permanência na estrofe seguinte dos significantes «lama» e «preguiça».»3




PARIS E ALEMANHA

Conseguindo obter a equiparação aos seus estudos portugueses, frequenta durante três anos a Faculdade de Letras da Sorbonne. Convive com numerosos artistas, filósofos, escritores. Pelo meio, no final de 1910, já proclamada a República, vem a Portugal. Mas logo regressa aos estudos na Sorbonne. Aí conhece uma colega, Grete Tiedemann, uma alemã de Meclemburg, que virá a ser a sua primeira mulher. Em 1912, reside alguns meses na Alemanha, em Berlim e em Parchin. Ainda na Alemanha, casa em 1913 com Grete. O casal regressa a Paris, onde reside primeiro na rue Hallen e depois na rue Dareau. Este é o seu ano de estreia como novelista – publica Jardim das Tormentas, obra que dedica a Grete. O livro é editado por Júlio Monteiro Aillaud e prefaciado por Carlos Malheiro Dias. Em 26 de Fevereiro de 1914, nasce o primeiro filho do casal - Aníbal Aquilino Fritz Tiedemann Ribeiro. Em Agosto, eclode a I Grande Guerra. Aquilino e Grete vêm para Portugal. Aqui Bernardino Machado preside a um governo de «Conciliação Republicana». Bernardino Machado... Mais adiante veremos como os destinos do escritor e do tribuno republicano se irão cruzar.




PORTUGAL DE NOVO; PARIS OUTRA VEZ

Embora não tenha terminado a licenciatura na Sorbonne, dá, a partir de 1915, aulas como professor supranumerário no Liceu Camões. Vive com Grete e o filho no Campo Grande. Este período da sua vida é experiência mais tarde utilizada na novela Domingo de Lázaro (incluída na versão definitiva de Estrada de Santiago). Em 1918 publica o romance A Via Sinuosa, dedicado a seu pai, onde, como atrás dissemos, se projectam algumas experiências autobiográficas da adolescência, nomeadamente a sua tormentosa passagem pelo Seminário de Beja. No ano seguinte, a convite de Raul Proença, ingressa como bibliotecário nos quadros da Biblioteca Nacional. Aí convive com Jaime Cortesão, Raul Brandão, Gualdino Gomes, Azeredo Perdigão, António Sérgio, Câmara Reis, com o próprio Raul Proença e outros; desse convívio e das acaloradas discussões que, começando ao fim da tarde, se prolongavam noite adentro, nasce a Seara Nova, revista «de doutrina e crítica» de cujo primeiro corpo directivo Aquilino fará parte. Publica ainda o romance de raiz marcadamente telúrica, regionalista, Terras do Demo que, segundo disse depois, elaborou ao mesmo tempo que escrevia A Via Sinuosa. Em 1920, publica a colectânea de novelas As Filhas da Babilónia, páginas que reflectem as suas vivências parisienses.

«Alcança quem não cansa», dita o ex-libris de mestre Aquilino. Na realidade, a sua infatigável pena vai produzindo livros a um ritmo alucinante. Irá legar-nos uma obra de setenta volumes. Por aqueles anos da sua juventude e maturidade, alcança a justa fama de ser um dos maiores prosadores da língua portuguesa. Isto, ao mesmo tempo que vive intensamente - a sua vida, como vemos, é o inesgotável alfobre onde sempre vai buscar matéria ficcional. Só escreve sobre o que conhece bem. Assim, em Outubro de 1921 publica no suplemento literário do ABC, semanário ilustrado fundado em 1920 por Mimon Anahory e por Rocha Martins, a novela Valeroso Milagre, na colecção Leitura de Hoje, sai a novela A Traição. Em 1922, publica na Imprensa da Biblioteca Nacional, uma tradução e prefácio do livro de Cavaleiro de Oliveira, Recreação Periódica (Amusement Périodique), obra de que existem raríssimos exemplares. O prefácio irá dar lugar à brochura O Cavaleiro de Oliveira e depois a O Galante Século XVIII. No mesmo ano, sai o livro de contos Estrada de Santiago, onde se inclui pela primeira vez a novela O Malhadinhas – uma das suas obras de maior fulgor e que virá posteriormente a merecer publicação autónoma. Também a conferência sobre Anatole France que ainda neste ano proferirá, será mais tarde integrada no volume de ensaios Por Obra e Graça.

Entretanto, o País prossegue o seu rumo direito ao abismo. Depois das aparições de Fátima, do messiânico golpe militar de Sidónio e do magnicídio que o vitima, dá-se a «Noite Sangrenta» em que António Granjo, Machado Santos e Carlos da Maia, são barbaramente assassinados. A República tece a sua mortalha e aconchega as palhinhas para o presépio da ditadura. Em Itália, Mussolini e os seus «camisas negras» marcham sobre Roma. Hitler escreve Mein Kampf; na Turquia, Ataturk proclama a República, em Espanha dá-se o golpe de Estado de Primo de Rivera, Estaline ascende à chefia do Partido Comunista Soviético, morre Lenine, o Partido Fascista vence as eleições italianas. Por cá, Teixeira Gomes renuncia à presidência. Bernardino Machado substitui-o... Como podemos ver, 1922, 1923, 1924, 1925, 1926, são anos muito normais.

Em 1924 o nosso Aquilino publica o livro infantil O Romance da Raposa, com belíssimas ilustrações de Benjamin Rabier. Em 1926, é a vez do romance Andam Faunos pelos Bosques, com uma bela capa executada pelo pintor Abel Manta. O arsenal teológico do escritor estende-se sobre o fundo rústico comum à sua obra, dando lugar a uma fábula de sabor mitológico. A partir de 1927 vive em Santo Amaro de Oeiras. Envolve-se numa conspiração contra a Ditadura Militar instalada em 28 de Maio do ano anterior (com revoltas no Porto e em Lisboa, em 3 e 7 de Fevereiro, respectivamente); demitido da Biblioteca Nacional, foge à perseguição policial indo clandestinamente para Paris. Regressa depois a Portugal, refugiando-se na Soutosa. Morre Grete Tiedemann. Em 1928 envolve-se no movimento insurreccional do Regimento de Pinhel. Com o Dr. António Gomes Mota, é preso em Contenças, ficando ambos detidos no presídio do Fontelo, em Viseu. Em circunstâncias rocambolescas, conseguem evadir-se. Nova fuga para Paris. Em 1929, no mês de Junho, casa pela segunda vez, agora com D. Jerónima Dantas Machado, filha de um ilustre exilado – o ex-Presidente Bernardino Machado. O consórcio tem lugar na mairie de Montrouge e os noivos seguem depois para o Sul de França – Ustaritz e Bayonne. É nesta última cidade que, em Abril de 1930, nasce o seu filho Aquilino Ribeiro Machado. Entretanto, em Portugal, é julgado e condenado à revelia pelo Tribunal da Ditadura Militar que governa o País. Ainda em 1930, publica O Homem Que Matou o Diabo, um romance que dedica a sua mulher. No ano de 1931 passa a residir com a família na Galiza, primeiro em Vigo e depois em Tui. Publica Batalha Sem Fim.




PORTUGAL DEFINITIVAMENTE

Em 1932 entra clandestinamente em Portugal e vive algum tempo em Abravezes, Viseu. Entretanto é amnistiado e fixa-se na Cruz Quebrada. Em 1933, o ano em que se instala o «Estado Novo» de Salazar, pela sua obra As Três Mulheres de Sansão (publicado em 1932), é-lhe atribuído o prestigioso prémio Ricardo Malheiros. Sai o romance Maria Benigna, onde narra o encontro romanesco entre uma lisboeta e um beirão. Em 1934 publica as obras É a Guerra (Diário) e Alemanha Ensanguentada – Cadernos de Um Viajante, livros que reflectem a posição do escritor face à tragédia da Primeira Grande Guerra. Por estes anos, estabelece amizade com o médico e professor universitário Francisco Pulido Valente. No consultório deste, reunir-se-á a tertúlia que Abel Manta fixou na tela – temas preferidos – a recorrente crise política do País e do mundo, e a efervescente cultura daqueles tempos.

Em 20 de Fevereiro de 1935 é eleito sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. Neste ano sai o seu livro de contos Quando ao Gavião Cai a Pena e ainda o livro para crianças Arca de Noé, III Classe, com ilustrações de Matos Chaves. 1936 é mais um ano de grande produção, com predomínio da temática histórica - sai Aventura Maravilhosa de D. Sebastião, Rei de Portugal, depois da batalha com o Miramolim, o ensaio O Galante Século XVIII e Anastácio da Cunha, o Lente Penitenciado (Vida e Obra). No ano seguinte, publica o romance S. Banaboião, Anacoreta e Mártir, com capa de Clementina Carneiro de Moura. Contesta com a sua subtil ironia, o modelo hagiográfico tradicional. Em 1938, socorrendo-se da sua vasta cultura clássica, faz a tradução e escreve o prefácio de A Retirada dos Dez Mil, de Xenofonte. A capa é de Eduardo Faria. Em 1939 publica o romance Mónica, baseado na burguesia lisboeta dos anos vinte, e a colectânea de estudos Por Obra e Graça. Entretanto, em 1936 começara a Guerra Civil de Espanha, e em 1939 eclode a 2ª Guerra Mundial.

Em 1940 traduz o texto latino de António Gouveia Em Prol de Aristóteles. Publica ainda as novelas de O Servo de Deus e a Casa Roubada, e uma monografia sobre Oeiras, onde residiu durante alguns anos. Lá fora, a guerra continua. Em 7 de Dezembro de 1941, os japoneses atacam Pearl Harbor e arrastam os Estados Unidos para a fogueira. Em 1942, publica, em parceria com o «seareiro» Matias Boleto Ferreira de Mira, Brito Camacho. Ferreira de Mira ocupa-se do «homem político» e Aquilino, que também escreve o prefácio, do «homem de letras. Em 1943, regressa aos temas históricos, com Os Avós dos nossos Avós. Em Itália, cai Mussolini. Em 1944, o Mestre faz uma primeira incursão nos temas da actualidade - publica o romance Volfrâmio. 1945 é mais um ano normal: os Estados Unidos lançam bombas nucleares sobre Hiroxima e Nagasáqui e acaba a 2ª Guerra Mundial com a vitória dos Aliados sobre as potências do Eixo. Aquilino publica a edição ilustrada de O Livro do Menino de Deus e um romance-sequela de A Via Sinuosa - Lápides Partidas. O pano de fundo da acção romanesca é a Lisboa dos últimos anos da Monarquia, nomeadamente do episódio do Regicídio. Em 1946, publica nos Cadernos Históricos, dirigidos por Rocha Martins, o opúsculo Camões e o Frade na Ilha dos Amores (o frade é Frei Bartolomeu Ferreira). Sai ainda o estudo de cariz etnográfico Aldeia - Terra, Gente e Bichos. 1947 é o ano do livro de novelas Caminhos Errados (onde se inclui a narrativa Chumbo) e do romance O Arcanjo Negro (continuação de Mónica), onde se aproveita como matéria ficcionística os agitados anos da instauração da ditadura em Portugal. Publica ainda uma obra ilustrada - Constantino de Bragança, VII Vizo-Rei da Índia. Em 1948, volta aos temas autobiográficos com os romances Cinco Réis de Gente e Uma Luz ao Longe, baseados na sua infância e adolescência. Em 1949 publica os estudos Camões, Camilo, Eça e Alguns Mais. Causam grande polémica no meio intelectual. A visão de Aquilino sobre estes génios da nossa literatura é aguda e brilhante, mas está longe de ser consensual. O ensaio de crítica bibliográfica e literária Editio Princeps de Os Lusíadas, surge em separata do Boletim da Junta da Província da Estremadura. É neste ano que a edição de luxo de O Malhadinhas, ilustrada por Bernardo Marques, sai a público. É membro activo da Comissão de Candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República. Em 1950 publica o ensaio em dois volumes Luís de Camões, Fabuloso e Verdadeiro. Nova celeuma na comunidade intelectual - Aquilino, como sempre, tem uma visão brilhante, mas pouco ortodoxa sobre um tema tão sedimentado na matriz cultural indígena. Em 1951 publica Portugueses das Sete Partidas (Viajantes, aventureiros e troca-tintas) e, na mesma linha de raiz etnográfica de Aldeia, Geografia Sentimental.




APOTEOSE NO BRASIL

Entre os meses de Março e de Junho de 1952, vai de visita ao Brasil. Ali recebe homenagens de instituições, escritores e figuras públicas do país irmão. Visita Salvador, onde é eleito sócio da Academia de Letras da Baía, São Paulo, Mato Grosso e Rio de Janeiro. Nesta cidade, é-lhe oferecido um banquete onde estão presentes grandes intelectuais brasileiros e destacados elementos da colónia portuguesa. Em 22 de Julho, é condecorado pelo Governo brasileiro, pelas mãos do ministro das Relações Exteriores, João Mendes Fontoura, com a comenda do Cruzeiro do Sul. Em 1953, o seu livro Príncipes de Portugal (suas grandezas e misérias), provoca indignação nos meios afectos ao regime salazarista, sendo mesmo objecto de ataques na chamada Assembleia Nacional; publica ainda Arcas Encoiradas (Estudos, opiniões, fantasias). 1954 é o ano de um romance sobre a vida de Santo António - Humildade Gloriosa. Edita também O Homem da Nave (Serranos, caçadores e fauna vária), mais uma obra do foro da antropologia e da etnografia. O saber do Mestre não conhece fronteiras. Em 1955 sai a obra Abóboras no Telhado (Crónica e polémica) e o estudo biográfico e de crítica literária O Romance de Camilo, ilustrado por diversos artistas plásticos, entre os quais Júlio Pomar. Em 1956, com ilustrações de Bernardo Marques, edita o conto Sonho duma Noite de Natal. Na colecção Novela, sai o conto Soldado Que Foi à Guerra, extraído de Caminhos Errados (sob o título Chumbo) . Neste ano é fundada a Sociedade Portuguesa de Escritores (actual Associação Portuguesa de Escritores). Aquilino é eleito como primeiro presidente. 1957 é o ano de publicação de uma das suas principais obras - a crónica romanceada A Casa Grande de Romarigães. Sai ainda a sua tradução de D. Quixote de la Mancha, a imortal obra de Cervantes. São dois volumes ilustrados por Lima de Freitas. A Bertrand inicia a publicação das Obras Completas de Aquilino Ribeiro.




QUANDO OS LOBOS JULGAM, A JUSTIÇA UIVA

Em 1958 acontecem muitas coisas: é eleito sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa, proferindo no acto um Discurso de recepção na Academia, mais tarde publicado no Boletim da instituição. Publica o romance Quando Os Lobos Uivam.. Em Março de 1959 é-lhe instaurado um processo pela publicação de Quando Os Lobos Uivam 2. Em Outubro, é pronunciado como arguido no crime de abuso de liberdade de imprensa, sendo emitido em seu nome um mandado de captura. Evita a prisão mediante pagamento de caução. Em 1960, o Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, Francisco Vieira de Almeida, propõe Aquilino como candidato ao Prémio Nobel da Literatura. Mais de uma centena de intelectuais e figuras públicas, subscrevem a proposta. Como consequência, o processo instaurado pela publicação de Quando Os Lobos Uivam é arquivado, abrangido por uma amnistia - forma de o regime salvar a face e evitar um escândalo que ultrapassava já as fronteiras. Neste mesmo ano, no Brasil é publicado Quando Os Lobos Julgam, a Justiça Uiva (texto integral da acusação e defesa no processo movido pelas autoridades salazaristas contra o seu romance, com prefácio de Adolfo Casais Monteiro). Ainda em 1958 sai D. Frei Bartolomeu dos Mártires, escrevendo ainda o prefácio para a tradução do romance de Boris Pasternak Dr. Jivago. Este é o ano da candidatura de Humberto Delgado. Apesar dos seus 74 anos, Aquilino vai à luta - é um dos promotores da campanha eleitoral do «general sem medo».

Em 1961, vai tratar-se a Londres e, no regresso, passa por Paris, a sua cidade-refúgio. Em 1962, filha de Aquilino Ribeiro Machado, nasce a sua primeira neta – Mariana, a Marianinha de um livro que escreverá nesse mesmo ano - O Livro de Marianinha: (Quando o meu tio veio de Paris, /trouxe-me de lá um cavalo gris, /com arreio de couro e selim. /Apenas lhe faltava, para grão rocim, /saber despedir uma parelha, /e enxotar moscas detrás da orelha.)

Em 1963, publica Tombo no Inferno. A Sociedade Portuguesa de Escritores, agora presidida por Ferreira de Castro, nomeia uma comissão para comemorar o 50º aniversário da publicação da primeira obra de Aquilino – Jardim das Tormentas. É também homenageado pela Casa das Beiras. Durante essas homenagens, Aquilino é acometido por doença súbita – morre às 12,30 do dia 27 de Maio no Hospital da CUF, em Lisboa com 77 anos.

Como diz Jorge Reis, «Aquilino Ribeiro - toda a sua obra o prova - não gostava de falar de si - e quando o fez, foi quase sempre para recordar os amigos, confundir-se com eles.» 3 Mestre Aquilino é um dos maiores escritores portugueses de sempre. Falemos nós dele, nós, os seus leitores e amigos. Principalmente, não deixemos que a sua magnífica obra possa cair no olvido.

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1 - Aquilino Ribeiro, Um Escritor Confessa-se (memórias), Lisboa, 1974.

2 - Fernando Correia da Silva, escritor português exilado no Brasil, consegue que a editora paulista
ANHAMBI publique, ainda em 1959, Quando Os Lobos Uivam: eis a edição brasileira do romance de Aquilino com prefácio de Adolfo Casais Monteiro e capa de Fernando Lemos, dois outros portugueses exilados no Brasil.

3 - Jorge Reis, Aquilino em Paris, Lisboa, s/d.