É o tempo o meu receio...

lupe cotrim

Poeta:
1933-01-01 - 1970-01-01



Quando tudo aconteceu...

16 de março de 1933: Nasce Maria José Cotrim Garaude (apelidada Lupe) em São Paulo, filha de Maria de Lourdes Lins Cotrim e Pedro Garaude, médico. 1940: Separação dos pais de Lupe. Mudam-se, mãe e filha, de Araçatuba, interior de São Paulo, para o Rio de Janeiro. 1947: Lupe começa a escrever contos. 1949: Muda-se para São Paulo. 1952: Obtém bacharelado em Biblioteconomia e Cultura Geral pelo Instituto Sedes Sapientiae. 1955: Publica crônicas do jornal Folha da Manhã. 1956: Estreia na poesia com o livro “Monólogos do afeto”. No final do ano, viaja à Europa. Conhece pessoalmente Carlos Drummond de Andrade, que se tornaria seu correspondente até o final da vida. 1957: Tem aulas de canto com o professor Paolo Ansaldi e pensa em fazer carreira como cantora lírica. 1958: Participa com Hilda Hilst na exposição de poemas ilustrados por artistas plásticos no “Clube dos Artistas e Amigos da Arte” em São Paulo. 1959: Lançamento de “Raiz comum”, com a presença de escritores e artistas como Lygia Fagundes Telles, Aldemir Martins, Telê Porto, entre outros. 1961: Lança “Entre a flor e o tempo” em evento prestigiado por Hilda Hilst, Renata Pallottini, Lygia Fagundes Telles e Anna Maria Martins. Começa a produzir e apresentar, juntamente com o jornalista Joaquim Pinto Nazário, o programa cultural “Semana passada a limpo”. 1962: Nasce Lupe Maria, sua filha com Marinho Ribeiro Lima, fazendeiro, de quem se separa no mesmo ano. Em dezembro, publica o bestiário “Cânticos da terra”, seu quarto livro de poemas. 1963: Inicia seu curso de filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. 1964: Lança “O poeta e o mundo”. Casa-se com o professor José Arthur Gianotti e viaja em lua-de-mel para o Chile, onde encontra Thiago de Mello, à época adido cultural na embaixada brasileira, o poeta Pablo Neruda, além de intelectuais amigos exilados após o golpe militar no Brasil. 1966: Nasce Marco, seu filho com José Arthur Gianotti. Conclui o curso de filosofia e é convidada a ministrar a disciplina Fundamentos de Estética e Evoluções dos Estilos Artísticos na Escola de Comunicações Culturais da USP (futura Escola de Comunicações e Artes – ECA). 1967: Publica “Inventos”, com o qual acredita inaugurar uma nova fase em sua poesia. Começa seu doutorado em Francis Ponge, sob orientação de Gilda de Mello e Souza, mulher de Antônio Cândido. No mesmo ano, escreve sua única peça de teatro (inédita), “Amanhã seria diferente”. 1968: É escolhida como representante dos alunos de pós-graduação nas manifestações pela reforma curricular. Tem início a batalha entre grupos direitistas do Mackenzie e os estudantes uspianos da rua Maria Antônia. Lupe colabora com artigos para jornais e revistas acadêmicas e é nomeada professora colaboradora de Estética na USP. Em dezembro, entra em vigor o Ato Institucional nº 5 pela ditadura militar. 1969: Seu livro ainda inédito “Poemas ao Outro” vence os prêmios Governador do Estado de Poesia e Fundação Cultural do Distrito Federal. Gianotti está entre os professores compulsoriamente “aposentados” da USP por motivos políticos. O casal pensa em mudar-se para a França. Após uma cirurgia, Lupe descobre um câncer em estágio avançado. Morre Marinho Ribeiro Lima, antigo companheiro de Lupe e pai de Lupe Maria (apelidada Pupe). 18 de fevereiro de 1970: Falece em Campos de Jordão, menos de um mês antes de completar 37 anos.

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VIDA BREVE, LONGO INVENTO DO AMOR

Um jovem poeta a caminho da cela da fome, em Auschwitz, fala o seu poema enquanto é levado por um SS: “Curvo-me sobre o que foi rosto. Oval em branco. / Pálpebra remota. / Boca disciplinada para o canto. O braço longo. / Asa de ombro. / (...) Teve mãos desmedidas e o grito exacerbado foi o verso. Amou. Amou”. O poema desse personagem criado por Hilda Hilst em sua peça “As aves da noite”, de 1968, reaparece discretamente modificado, em 1970, na homenagem que Hilda faz à sua companheira de geração Lupe Cotrim Garaude.

Lupe Cotrim tem 36 anos, dois filhos, seis livros publicados, é professora de Estética na Universidade de São Paulo e acaba de vencer o prêmio Governador do Estado em poesia, pelo livro ainda inédito “Poemas ao Outro”, quando morre em Campos de Jordão, em fevereiro de 1970, depois de uma rápida, mas sofrida luta contra o câncer. Os escritores seus amigos e correspondentes, como Hilda, Lygia Fagundes Telles, Renata Pallottini, Carlos Drummond de Andrade e Caio Fernando de Abreu, prestam-lhe homenagens. Seus colegas, tanto de graduação como de docência, sentem a perda de uma figura intelectual importante dentro da universidade.

José Arthur Gianotti, então professor de filosofia da USP e marido de Lupe, acompanha a seleção e revisão que a autora faz dos seus poemas pouco antes de morrer, um material que daria origem à antologia poética “Obra consentida”, de 1973. Essa última revisão de Lupe fecha, precipitadamente, um trabalho de aperfeiçoamento que começa dez anos antes, quando ingressa na faculdade de filosofia, já com quatro livros publicados, na intenção de aprimorar sua poesia e encontrar-lhe um novo rumo, uma espécie de objetividade, “a necessidade de um método”, segundo Gianotti, para “organizar sua inspiração lírica”.




ESTREIA DE LUPE: VERDOR E LIRISMO

“Monólogos do afeto”, reunião de poemas escritos ao longo de quatro anos, marca a entrada de Lupe Cotrim na poesia em 1956, mesmo ano em que Lélia Coelho Frota estreia com “Quinze Poemas” e Mário Faustino inaugura sua página “Poesia-Experiência” no suplemento cultural do Jornal do Brasil. Surgem ainda neste ano “Azul profundo”, de Henriqueta Lisboa, e “O monólogo vivo”, de Renata Pallottini. Em sua viagem ao Rio de Janeiro para o lançamento de “Monólogos”, Lupe encontra Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Cassiano Ricardo, Paulo Mendes Campos. Inicia-se também neste período sua correspondência com Carlos Drummond de Andrade, uma amizade epistolar que duraria quase 15 anos. Sempre firme em sua visão crítica, interessada no lado humano e se dizendo essencialmente lírica, Lupe desde cedo é incluída pela crítica na “boa safra de poesia feminina”, ao lado de Renata Pallottini e Hilda Hilst. Como lembra Leila V. B. Gouvêa em sua biografia sobre a autora, as três poetas, nessa época, comungam na predileção pelos temas clássicos do amor, da solidão e da morte, reverberando muitas vezes uma voz lírica indistinguível.

Associada, neste início, a uma poesia confessional e intimista, Lupe não deixa de mostrar indícios de seu viés existencialista, o que irá aproximá-la mais tarde dos chamados poetas filósofos. Curiosamente, embora todo o processo de objetivação consciente que a autora busca para a sua poesia a partir de 1963, aproximando-se da filosofia, é no fervor de uma experiência catártica que seus poemas se mostram mais poderosos. Os oito poemas de “Monólogos do afeto” selecionados para constar em sua antologia expõem justamente sua desconfiança em relação à objetividade, ao comedimento, às certezas que são impostas sobre tudo o que possa parecer indefinível, insubordinável à razão, enigmático. “Manhã clara” é um poema exemplar nesse sentido:

Hoje a manhã transparente
contorna todas as coisas
com sua límpida e clara
função de esclarecer
(...)

sem saber nada ocultar,
deixando-me só e precisa
nas coisas irresolvidas
- devassada em nitidez.

Contra a violência dessa “nitidez solitária”, Lupe esboça já no primeiro livro seu desejo de diálogo, de encontro com o outro, de um prolongamento vivo e orgânico desde o fundo da terra. Essa busca prenuncia “Raiz comum”, livro que virá em 1959. Fundamental e reincidente na poesia de Lupe, a natureza aparece numa profusão de elementos simbólicos, como o verdor, um verdor de folha, de fôlego, de âmago, mistério, fecundidade e persistência: é a força irreprimível da vida que impregna seus versos, uma força que alimenta, além do lirismo, seu gradativo engajamento nas questões sociais, políticas e filosóficas da época. Essa mesma força, que tem a poesia em seu lugar central, expande-se para experiências intelectuais várias, emocionais, artísticas e cotidianas, como o estudo de línguas, a psicanálise, o canto lírico, a formação em biblioteconomia, viagens à Itália, França e Alemanha.




SÍNTESE DE CORAÇÃO E PENSAMENTO

Em novembro de 1958, Drummond entrevista Lupe para o jornal “Correio da Manhã” e disso resulta uma espirituosa série de perguntas e respostas que vale a pena citar:

Drummond - Que é melhor: dia ou noite?
Lupe – Noite. A gente pode imaginar mais coisas do que na claridade.
(...)
D. – Que é inferno?
L. – É não poder mais amar.
(...)
D. – Proibida de escrever, que faria?
L. – Cantava.
D. – E de cantar?
L. – Olhava.
D. – E de olhar?
L. – Pegava.
D. – E de pegar?
L. – Desistia de viver.
(...)
D. – Poeta e filósofo se completam?
L. – Creio no poeta e desconfio do filósofo: ele apenas sistematiza o que o poeta descobriu.

Pouco tempo depois dessa conversa entre poetas, Lupe autografa seu livro “Raiz comum” em um lançamento prestigiado por artistas e escritores, entre eles, Lygia Fagundes Telles, que reconhece nos novos poemas um parentesco com “os sonetos de Vinicius, graves e contidos, embora ternos”. O lirismo e a preocupação formal são dominantes. O tempo, o amor e a morte são seus motivos poéticos, agora já aliados ao tema do fazer artístico, à consciência de si e a uma beleza que contempla, depois das sensações, o pensamento: “Compreendo, porque sinto / e depois penso: - Não corrijo as sensações - / apenas as configuro e lhes dou sentido”. Além de encarnar a raiz dos encontros, a natureza, para Lupe, tem na pedra o signo perfeito do seu “destino mineral”, que diz respeito a um destino ao mesmo tempo humano e literário, pelo que a poeta anuncia: “hei de surgir um dia em cristal puro”. Depurada, portanto, e lúcida, numa síntese de coração e pensamento.

Em 1960 é publicada em Lisboa a antologia “A nova poesia brasileira”, de Alberto Costa e Silva, com poemas de Lupe. Surge no ano seguinte “Entre a flor e o tempo”, pelo qual a autora recebe menção honrosa do prêmio Pen Clube de São Paulo. No texto de orelha do livro, Cassiano Ricardo propõe uma conversa imaginária entre a poeta e seu leitor, engendrada a partir de versos de Lupe. “Bastará ser lúcido para ser poeta?”, pergunta o leitor, ao que a poeta responde: “Trata-se não de uma simples lucidez, mas de uma ‘lucidez encantada’ ”. Entre a defesa do amor contra o vazio (“Que o amor assim perdido se conforme / e renasça na forma de outro amor) e um olhar crítico sobre a poesia de seu tempo (“Isoladas, as palavras são mudas. / (...) / Falam, / quando entranhadas / na carne vivida de nossa vida.”), a autora já expressa nos poemas de “Entre a flor e o tempo” sua necessidade de realização como poeta “na medida de sua concepção de mundo”. Começa aí, ou talvez antes, seu interesse pela filosofia, da qual, no entanto, Lupe não deixará de desconfiar, mesmo com sua entrada no mundo acadêmico a partir de 1963.

Em junho de 1962, nasce sua filha Lupe Maria Ribeiro Lima, do relacionamento com Marinho Ribeiro Lima, de quem se separa pouco tempo depois. Num redescobrimento de si mesma, a poeta explora em seus versos o sentimento da maternidade. Em dezembro do mesmo ano vem seu livro “Cânticos da terra”, um precioso bestiário com ilustrações de Aldemir Martins editado por Massao Ohno. Os poemas, inspirados no contato sempre próximo de Lupe com a natureza, são recebidos com entusiasmo, ao lado de “Sete cantos do poeta para o anjo”, de Hilda Hilst, também lançado em 1962.

Leila V. B. Gouvêa percebe em “Cânticos da terra” um exercício de “apreensão do real concreto” que distancia a autora do tom intimista de seus livros anteriores. De fato, vai desaparecendo a subjetividade daquela que escreve, no entanto, esse desaparecimento se dá no interior da subjetividade do seu mundo, donde a íntima relação sensível entre a poeta e a natureza, tão bem simbolizada na “síntese do centauro”, que Lupe deduz da imagem de um homem a cavalo.

Em seu poema epílogo “Entre arma e torre”, elogiado por Drummond, delineiam-se os caminhos de um humanismo que será frequentemente abordado na leitura de sua obra pela crítica: “Não fratura da palavra / na forma indecisa / que joga e não fala. / (...) / Não procura da mensagem / a ser arma guerreira / no gesto da coragem. / (...) / Antes / olhar o homem para o homem / dentro da natureza, / linguagem secreta no eterno / presente do que vale. / E permanece. / Assim ser poeta”. Aqui Lupe faz o elogio da mesma concepção poética de tempos atrás (pois em sua obra não há rupturas, senão aprimoramento e progressiva realização de sua potência): “gosto de viver sentindo e com consciência”.




POESIA E FILOSOFIA

O ano de 1963 é prolífico e gratificante para Lupe. É quando inicia seu curso de filosofia na USP, frequenta grupos de estudos e suas leituras avolumam-se, seguindo o remoinho político e social da época. As reflexões sobre a linguagem aprofundam-se, bem como o interesse pela fenomenologia, cujo raro expoente na poesia brasileira, para Lupe, é João Cabral de Melo Neto. Dividida entre a faculdade, a psicanálise, o emprego e os cuidados com a filha, a poeta leva para a escrita seu engajamento, sem, no entanto, perder de vista seu lirismo, buscando sempre realizar o que é sua definição mesma de poesia: um “milagre de síntese entre o sensível e o racional”.

Em junho de 1964, dois meses após o golpe militar, em meio às acaloradas discussões dentro da universidade, acontece o lançamento de seu quinto livro, “O poeta e o mundo”. Embora muitos se refiram a uma crescente mudança na dicção da autora, que pouco a pouco se aproxima da crítica social e de um rigor cabralino, é reconhecível nesse novo livro aquela mesma voz inspirada que continua a fazer dos seus motes poéticos o amor, o tempo, a palavra humana, encarnada na vida, e a infância, agora recapturada como “corpo de semente” na existência de um filho.

A poesia de Lupe renova-se, “poema no poema, / tempo no tempo / sem temer conceito e sentimento”. E prova nesses versos de “O poeta e o mundo” o frescor de um antigo soneto de “Raiz comum”, seu segundo livro: “Que a nossa lucidez não nos devore. / E não perturbe em nós uma aparência / e o amor mais seja aquele a quem se adore”. Renova-se um desejo de beleza, esse desejo que em “Cânticos da terra” faz da borboleta “o sonho da rosa, querendo ser um voo na paisagem”. Dentro do tempo e do poema, Lupe encarna este sonho, sobrevoando, agora, a “paisagem de uma aula de filosofia”, um poema que fala da pedra, da raiz, da flor e do animal para falar do medo, do amor, da morte e do infinito.

Entre 1964 e 1965, Lupe viaja com José Arthur Gianotti para o Chile em lua-de-mel. Lá encontram Thiago de Mello, que prepara seu livro “Faz escuro mas eu canto” e por intermédio de quem visitam Pablo Neruda. A viagem, por sua razão primeira de ser para Lupe, e também por seus encontros humanos e suas paisagens naturais, alimenta alguns dos seus mais belos poemas, que vêm à luz em 1967, com o livro “Inventos”, um ano depois do término de sua graduação e do nascimento de Marco, seu segundo filho.




“MAIS LÍRICA DO QUE NUNCA”

“Mais lírica do que nunca”, define-se a autora em uma carta a Drummond, pouco antes de concluir seu curso de filosofia. Com essa revelação apaixonada, mostra que não se deixa encamisar por conceitos, teorias ou métodos em seu processo de criação. Sua série de “Monólogos”, no entreato “De amor” desse novo livro de 1967, já remete, pelo título, àquele lirismo original de sua estreia. “Monólogo IV” é um dos antológicos dessa série, citado por Lygia Fagundes Telles, num bilhete à poeta, para falar da maturidade conquistada, da prevalência da beleza e da harmonia:

É o tempo meu receio, não o amor,
que este perdura. Por novos desígnios
refaz em outro aquilo que não for
mais seu momento: trama outro domínio.
Esta brisa entre nós, este sossego
agudo de desejo, esta presença
alerta, esta carne toda apego
certo se apagam: tempo algum sustenta
ou seduz uma solta intensidade.
É a hora que me assusta: o amanhã
do íntimo ser neutro, e a unidade
uma palavra a mais na posse vã.
O futuro só nasce de um invento:
nós dois, amor, nós somos este tempo.

Impressiona este vago, mas constante pressentimento que Lupe tem da fugacidade da vida, apressando-se em inventar seu tempo, por ameaça de que amanhã já seja tarde. Pupe e Marco, seus filhos, são também criações desse futuro, concreta e poeticamente. Impressiona que a poeta escreva para o filho ainda pequeno versos que soam premonitórios: “O nosso reencontro se dará / no ventre de vários cruzamentos / que nos defrontam / enquanto construímos nosso rumo / intimamente unidos e separados / para que o mundo continue a nos caber / por nossa própria conta”. Esses versos, do poema “Primeiro marco”, que integram o livro “Poemas ao outro”, será lançado somente após a morte de Lupe, em 1970. E, de fato, este reencontro que a autora prevê acontece em livro em 1983, numa antologia dos poemas de Lupe intitulada “Encontro”, cujo prefácio é assinado por Marco, então com 17 anos.




INVENTOS E DIÁLOGOS

A “presença excessiva de Cabral” que a escritora Nélida Piñon vê nos poemas de “Inventos”, aliada a “soluções rigorosamente originais”, é também um modo de ver este invento de dois que representa para Lupe o amor como uma forma de arte. Considerado pela autora seu livro predileto, estas longas séries de poemas sobre o mar e o amor têm como invento fazer que se encontrem, numa experiência inédita, a essência lírica da poeta com um rigor fenomenológico. Esse “invento” irá se renovar mais tarde no livro “Poemas ao outro”, sendo emblemáticas as epígrafes dos livros desta última fase de Lupe, intensamente envolvida com a universidade: Heidegger, Merleau-Ponty e Lévi-Strauss.

Ainda em 1967, Lupe inicia seu doutorado, colabora como articulista em jornais e revistas acadêmicas e passa a ministrar o curso de Estética na USP ao lado de Sábato Magaldi, Paulo Emilio Salles Gomes e Jean-Claude Bernardet. Escreve também nessa época sua única peça de teatro, de cunho político e social, “Amanhã seria diferente”. Em ritmo de insaciável criação, na qual se inclui sua atividade como docente, o que mais interessa é o convívio com o outro, o exercício da crítica inteligente e, par a par com um aprimoramento, uma libertação, na poesia, de todo “ranço filosófico”. São nesses poemas finais, escritos em plena ditadura militar, que Lupe se mostra mais engajada. Suas experiências de viagem a Valparaíso, Brasília e Salvador querem tocar a realidade sensível da miséria sem prejuízo da beleza; diálogos poéticos com Neruda, Lorca e Rilke refletem sobre o poder de criação para além do verso, como um poder da vida (“O vivo é antes do verso”). Mas importa lembrar, como observa Leila V. B. Gouvêa, que, apesar da busca de Lupe por uma objetividade poética, e das ressonâncias de João Cabral que muitos veem em seus versos, “as coisas concretas” estão praticamente ausentes de sua poesia.

“Poemas ao Outro”, que receberia em 1971 o prêmio Jabuti, é um livro carregado do sentimento do mundo, com forte apelo humanista. Esse outro a quem a autora dá o nome de João, que percorre todo o livro, encarna tanto o homem do povo – “Não sei, João / se és ou serias / meu irmão. / (...) / Não tens essência / ou natureza humana / que te designe / a permanência / mas neste tempo / teu rosto é comum / e familiar: / por muitos homens / vejo-te passar” – como uma sutil interlocução com o poeta de “Morte e vida severina”. Lupe, que se diz “pós-drummondiana”, acredita ter finalmente alcançado maior concisão e simplicidade. Quando recebe a notícia de que é a vencedora do Prêmio Governador do Estado, ao qual concorriam, entre outros, Hilda Hilst, Neide Archanjo e Modesto Carone, a poeta, mal se recuperando de uma cirurgia, está lidando com outra recente notícia: a descoberta de um câncer já transformado em metástase.





“PAIXÃO. SÓ DELA CRESCE O FÔLEGO DE UM RUMO.”

Entre o final do ano de 1969 e o começo de 1970, sem interromper seus projetos, Lupe enfrenta meses dificílimos de tratamento contra a doença, e, paralelamente às atividades universitárias, organiza, graças ao estímulo de Gianotti, a seleção de seus poemas para uma futura antologia. A mesma sede de vida a mantém atuante e criativa até poucos dias antes de sua morte, quando, no sítio de um amigo, na Serra da Mantiqueira, escreve seu derradeiro poema, “Diante do vale, atrás do mar”:

De repente
um vento mais forte:
o verde se eriça
e gera seu próprio mar
em ondas que se identificam
pela cor – no musgo
de memórias azuis, no
verde desenho
dos pinheiros que têm
seu tom nos relevos,
no teto das montanhas
a ser sua própria noite.
(...)
Nesta paisagem
é o músculo do olhar
que conta, é o saber
enrolar-se de nervuras
e contemplar, é nascer a mais
neste silêncio.
Atrás do mar criador
outro horizonte
se prepara:
dentro do vale
curvas estáveis reclamam permanências
- não ir – fundir, semear
a vida reclamando um sentido
explícito, a nitidez de um perfil.
E o ver desses verdes
é armadilha
- do lado da fonte e da paz.

Numa comovente e tácita despedida (“a morte é o que não falo”), predomina aquele verdor do qual toda a obra de Lupe está impregnada, signo da vida em sua potência criadora. Mais do que uma despedida, na realidade, a poeta prepara o seu renascimento, a sua permanência para além do verso, “fazendo parte / da paisagem”. Não se trata mais de uma busca consciente senão da realização final de uma “poesia fenomenológica” cujo alcance lhe é dado pela própria vida. Belos e emocionantes esses últimos versos porque, de uma verdade que ultrapassa o programático, o teórico, o metodicamente construído, vêm de uma antiga fonte de lirismo, o que bem se percebe no encarte de “Inéditos” que integra a antologia “Obra consentida”, de 1973.
A partida de Lupe durante os anos sombrios de repressão, censura, prisão e violência contra estudantes e artistas no Brasil não por acaso leva Hilda Hilst a extrair da fala do seu personagem condenado, “cúmplice de aflitos”, da peça “Aves da noite”, o poema com que homenageia Lupe. Em 1980, Hilda volta a homenagear a amiga, citando-a em uma das epígrafes de seu livro de ficção “Tu não te moves de ti”. Desta vez, são versos extraídos de um dos inéditos da antologia “Obra consentida”: “Paixão. Só dela cresce / o fôlego de um rumo”. Nenhuma síntese melhor para a poesia de Lupe e sua vida.

BIBLIOGRAFIA

GARAUDE, Lupe Cotrim. “Obra Consentida”, Brasiliense, São Paulo, 1973.
_______________. “Raiz comum”, Civilização Brasileira, São Paulo, 1959.
______________. “Entre a flor e o tempo”, José Olympio, Rio de Janeiro, 1961.
_______________. “Poemas ao Outro”, Conselho Estadual de Cultura, São Paulo 1970.
____________________. “Encontro”, Brasiliense, São Paulo, 1984.
GOUVÊA, Leila V. B. “Estrela Breve”, Imprensa Oficial, São Paulo, 2011.
HILST, Hilda. “Teatro Completo”, Globo, São Paulo, 2011.