Câmara Pestana Haverá algo de mais fecundo, que o estudo do micróbio - estes infinitamente pequenos?

Luiz Da Câmara Pestana

Médico, investigador, pioneiro da bacteriologia em Portugal:
1863 - 1899



Quando tudo aconteceu...

1863 – Nasce a 28 de Outubro no Funchal, freguesia da Sé. 1876 – Matriculado no 1.º ano do Liceu Normal do Funchal. 1979 – Passa a aluno voluntário. 1883 – Faz apenas num ano os estudos preparatórios na Escola Politécnica de Lisboa. 1884 – Matricula-se na Escola Médico Cirúrgica de Lisboa. 1889 – Conclui a sua licenciatura em Medicina, defendendo a tese «O micróbio do carcinoma». Nomeado interinamente cirurgião do Banco do Hospital de S. José. 1890 – Nomeado em 4 de Dezembro, após concurso, cirurgião efectivo do Banco do Hospital de S. José. 1891 – Parte em Janeiro para Paris, em missão oficial de 4 meses, para se familiarizar com as novas vacinas e o desenvolvimento da bacteriologia. Assenta a sua estadia nas lições de Andre Chantemesse, nos trabalhos clínicos de Pierre Charles Édouard Potain, na investigação laboratorial de André-Victor Cornil e aprendendo os processos de vacinação anti-rábica e os avanços sobre as toxinas do tétano no Instituto Pasteur com Isidore Strauss. Em 23 de Junho apresentou uma comunicação na Sociedade de Biologia de Paris, sob o patrocínio de Strauss. 1892 – Realizou em 4 de Julho, na Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa, uma conferência sobre «O tétano. Contribuição para o estudo da etiologia, patogenia e tratamento», em que demonstra o caminho seguido para a descoberta da imunidade passiva e do método terapêutica chamado Soroterapia. Em 21 de Outubro, encarregado de analisar as águas de Lisboa. Em 29 de Dezembro nomeado director do recém criado Laboratório Bacteriológico que se instala em duas dependências do Hospital de S. José. 1893 – Em 21 de Janeiro é vacinado o primeiro doente com a vacina anti-rábica e durante o ano foram vacinados no Instituto Bacteriológico 367 indivíduos. Elabo¬ra, a pedido da Sociedade de Geografia de Lisboa, um programa de inquérito à patologia portuguesa, especialmente destinado à exploração científica dos Açores. 1894 - Publica os tra¬balhos «O bacterium coli e o bacilo de Eberth têm carácteres diferenciais que se opõem à sua identificação», «Etiologia da febre typhoide» e «Relatórios sobre a epidemia de Lisboa». Descreve aquele que ficará conhecido como «Vibrião de Lisboa» e vence a disputa entre ele e a Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. 1895 – Em Maio, transita para o Quadro dos cirurgiões extraordinários do Hospital de S. José. O Laboratório Bacteriológico recebe especial protecção da Rainha e fica responsável pelo ensino da bacteriologia e pela preparação de soros e vacinas. O Instituto passa a ter um Serviço de Difteria e o seu nome passa a Real Instituto. É lançada a primeira pedra e iniciam-se os alicerces, no Campo de Santana, do edifício destinado ao Real Ins¬tituto de Bacteriologia de Lisboa. Publica em colaboração com Aníbal Bettencourt «O tratamento da raiva em Portugal pelo systema Pasteur», «Duas pequenas epidemias de febre typhoide», «Bakteriologische Untersuchungen uber die Lissaboner Epidemie von 1894» e «Uber das Vorkommen feiner Spirillen in den Faeces». 1896 – Realiza um notável estudo da demonstração do bacilo do lepra na medula de um indivíduo morto de seringomielia. Publica «Considerações sobre diagnóstico da difteria», «A peste bubónica», e «A sero¬terapia da difteria». 1897 – Demolida a Igreja de Sant’Anna e grande parte do Convento. 1898 – Em 12 de Maio, após concurso de provas públicas, nomeado lente substituto de Anatomia Patológica e Medicina Legal da Escola Médico Cirúrgica de Lisboa. São iniciadas as obras de construção do Real Instituto de Bacteriologia de Lisboa. 1899 – A Revista ‘Occidente’, noticia em 10 de Novembro a destruição da Igreja de Sant’Anna para ali se construir o Real Instituto de Bacteriologia e lembra a ligação daquela Igreja a Luis Vaz de Camões que ali tinha sido enterrado em 1580. Publica «Contribuição para o estudo do mecanismo da imunidade passiva», «Sarcoma da base do crâneo», «Os progressos da bacteriologia em 1898» e «Hospitalização dos tuberculosos pobres de Lisboa - relatório destinado à Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa». Em finais do ano, nomeado em comissão de serviço público para director do posto de saúde municipal da cidade do Porto para acudir à epidemia de peste bubónica. 1899 – Leva como colaboradores Gomes de Resende e Carlos França e instalam o seu laboratório no Hospital do Bonfim ou Goélas de Pau. Passados pouco meses e sem saber que tinha sido contaminado, desloca-se a Lisboa e agravado o seu estado é internado em isolamento no Hospital de Arroios, onde morre pelas 12 horas de 15 de Novembro. Tinha 36 anos e apenas 10 anos de investigação.

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AS ORIGENS

Nasce no Funchal, na freguesia da Sé, a 28 de Outubro de 1863, filho de Jacinto Augusto Pestana, oficial da secretaria do Governo Civil e de Helena Ana da Câmara Pestana, descendente de uma antiga e distinta família.




O ESTUDANTE

Matricula-se no primeiro ano do Li­ceu Normal do Funchal onde foi classificado no fim do ano lectivo nas disciplinas de matemática, dese­nho, português e francês, com 10, 12 e 13 valores, respectivamente.
Nos quatro primeiros anos apenas obteve, além da aprovação simples em alguns exames e um «adiado» em latim do segundo ano, 12 e 13 valores na maioria dos restantes e uma só vez as classificações de 10, 14 e 15.
Em 1979 passa a ser aluno voluntário, porque o orientador da sua educação achou mais con­veniente fazer a sua preparação fora do Liceu, por deficiência do ensino oficial.
Em 1883 parte para Lisboa, onde faz todos os estudos preparatórios na Escola Politécnica de Lisboa, apenas num ano.
Em 1884 matricula-se na Escola Médico Cirúrgica de Lisboa.




O MÉDICO

Em 1889 conclui a sua licenciatura em medicina após a apresentação da sua tese intitulada «O micróbio do carcinoma», baseada nos resultados das experiências efectuadas no labo­ratório Municipal de Lisboa, dirigido pelo seu professor Silva Amado.
Nomeado interinamente cirurgião do Banco do Hospital de S. José. Em 4 de Dezembro de 1890 foi nomeado, após concurso, cirurgião efectivo do Banco do Hospital de S. José.
Em Maio de 1895 transita para o Quadro dos cirurgiões extraordinários do Hospital de S. José.
Preparador de Bacteriologia na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa.




MISSÃO EM PARIS

A década de 70-80 da era pasteuriana, talvez tenha sido a mais brilhante e útil da história da medicina até meados do século XX. Embora Pasteur seja considerado o descobridor dos micróbios, não se pode esquecer por razões de justiça, que mais de 200 anos antes, o lojista holandês Leeuwenhoek, utilizando lentes por si lapidadas, descobrira numa gota de água da chuva estagnada, pequeninos seres até então nunca vistos que se moviam, reproduziam e morriam.
Para além de Pasteur, outro herói desta década heroica foi Robert Koch que, sem o prestígio de Pasteur se antecipou nas descobertas mais importantes e originou uma cerrada luta eles e os seus países de origem.

Para nos situarmos no tempo do biografado, não esqueçamos que Koch tinha 34 anos e um nome prestigiado, quando Câmara Pestana tinha 12 e frequentava o primeiro ano do Li­ceu do Funchal.
Embora nos pareça estranho naquele tempo de comunicação limitada, o facto é que as noticias das descobertas que se iam fazendo eram rapidamente transmitidas a todo o mundo pelo telégrafo. A sede de saber levava médicos de todo o mundo a quererem aprender a técnica bacteriológica. Também os doentes se deslocavam onde era preciso irem, para encontrarem o tratamento que precisavam.

A descoberta da vacina contra a raiva levou aos serviços de Pasteur centenas de mordidos por cães hidrófobos, o que custava aos governos muito dinheiro. E esta foi a mais imediata razão por que o governo português enviou a Paris dois médicos – Eduardo de Abreu e Eduardo Burnay, para acompanharem doentes, aprenderem as técnicas de Pasteur e se familiarizarem com a vacinação anti-rábica.

Ao contrário do que se esperaria, no seu regresso a Lisboa e depois de ter deixado morrer o coelho que Pasteur lhe oferecera para iniciar a produção das vacinas, Eduardo Abreu afirmou a inutilidade da vacina e disse não ter visto grandes resultados dessas vacinações.
Estabelece-se discussão entre os médicos e Miguel Bombarda reafirma a necessidade de «estabelecer em Lisboa um Instituto de Bacteriologia com um laboratório anexo para vacinações anti-rábicas».

Sabia-se que o Governo gastara, em sete anos, a elevada soma de 17 contos de reis com o envio dos mordidos a Paris, para serem tratados por Pasteur. Naturalmente, Miguel Bombarda pensou que haver em Portugal um Ins­tituto que pudesse evitar estas despesas e trazer ainda prestígio à medicina portuguesa, seria uma ideia a defender na Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. Foi o que fez, propondo que esta Sociedade intercedesse junto do Conselho de Ministros para que se enviasse uma nova Comissão para estudar «o método de vacinação anti-rábica».
Para além disso havia a descoberta recente de Roberto Koch da vacina anti-tuberculínica, razão imperiosa para deslocar um médico português a Paris e Berlim.

Por indicação do Enfermeiro Mor do Hospital de S. José, foi Câmara Pestana o escolhido, tendo sido autorizada a sua ida pela Portaria de 7 de Janeiro de 1891.

Quando Pasteur soube o que Eduardo de Abreu tinha dito a seu respeito e das suas descobertas, jurou que nunca mais nenhum português entraria no seu laboratório, razão porque Câmara Pestana não fez qualquer diligência nesse sentido e optou por fazer a sua aprendizagem de forma diversificada com outras figuras notáveis dessa época.

A sua aprendizagem fez-se com cientistas como o professor Isidore Strauss (no laboratório de Patologia Experimental da Faculdade de Medicina de Paris), estudando o bacilo do tétano, no laborató­rio de André-Victor Cornil para aperfeiçoar-se na técnica histo-patológica (apenas teórica em Lisboa), com André Chantemesse e ainda com Pierre-Charles Édouard Potain (frequentando as suas aulas e os progressos da cardiologia) e com Pierre Paul Emile Roux, sobre a difteria.
Em 23 de Junho apresentou uma comunicação na Société de Biologie de Paris, com o resultado dos estudos sobre o tétano, efectuados no laboratório de Strauss, que apresentou o trabalho, em nome de Câmara Pestana.





O INSTITUTO BACTERIOLÓGICO DE LISBOA

Em Outubro de 1892 aparece em Lisboa uma epidemia aparentemente causada pelas águas de Lisboa, o que levou à publicação da Portaria de 21 de Outubro de 1892, que encarrega Câmara Pestana, já regressado de Paris, a proceder à análise das águas de Lisboa.
Com a urgência que se impunha, resolveu utilizar-se a dependência no Hospital de S. José onde se pensava instalar o laboratório de bacteriologia e com o empenhamento e a ajuda da sociedade civil foi possível finalizar esses trabalhos no tempo recorde de quinze dias.

Dois meses depois, o Decreto Lei de 29 de Dezembro de 1892, cria o Instituto Bacteriológico de Lisboa, conjuntamente com o serviço anti-rábico.

Incluía no seu quadro, um médico director (Luis da Câmara Pestana), um médico auxiliar (Aníbal de Bettencourt), um praticante (estudante de medicina com exames do 3.º ano já feitos) e um servente. Auferiam os vencimentos de 500$000, 300$000, 18$000 e 15$000, respectivamente.

O laboratório de S. José era independente e ocupava duas salas contíguas à Enfermaria de S. Onofre. Uma maior, onde se encontravam todos os aparelhos e outra menor, para trabalhos demorados e que requeressem serenidade.

O material escolhido tinha sido encomendado com urgência e foi chegando à medida dos fornecimentos. Embora muito limitado para aquilo que se pretendia, contava como uma estufa de Roux, 3 modelos de estufa de Arsonval, um forno de Pasteur, um autoclave de Chamberlain, um microscópio e um aparelho de microfotografia de Francotte, uma estufa geleira e uma trompa pneumática.

As estufas de Jacques-Arsène d’Arsonval (médico, físico e inventor 1851-1940), eram compostas por dois vasos cilindro-cónicos concêntricos, limitando duas cavidades; uma central destinada a conter os líquidos de cultura mantidos a temperatura constante e a outra anular circunscrevendo a primeira, cheia de água que submetida a acção de foco calorífico distribuía regularmente o calor em redor da parte central e impedia que esta sofresse variações bruscas de temperatura. A parte externa era constituída por tubuladura que levava ao espaço anular o aquecimento por gás, controlado por membrana de borracha; quando a temperatura da água subia, a membrana movia-se e fechava a entrada de gás e o contrário quando a temperatura descia. Esta ideia viria a ser desenvolvida industrialmente, de forma simplificada e para todo o mundo, como a universal garrafa-termo.
Em 21 de Janeiro de 1893 foi vacinado o primeiro doente com a vacina anti-rábica e durante o ano foram vacinados no Instituto Bacteriológico 367 indivíduos.
Em 1895 foi criado o serviço de difteria e o Instituto Bacteriológico de Lisboa, passa a chamar-se Real Instituto Bacteriológico de Lisboa.
Em 1898, Câmara Pestana coordena os preparativos para o projecto do novo Instituto a construir no Campo de Santana, que obrigaram à demolição da Igreja de Sant’Anna, que pertencia ao Convento de Sant'Ana, em cujos jardins fora enterrado Luis Vaz de Camões e, quinze anos mais tarde, transferido para debaixo do coro da igreja. Em 1880, por ocasião do terceiro centenário da sua morte, os restos mortais foram trasladados para o Mosteiro dos Jerónimos. Tal facto é assinalado por uma lápide numa esquina do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana.
O novo Instituto foi bem planeado e incluía pavilhão da raiva (50 doentes), pavilhão da difteria, edifício para habitação dos médicos, um pavilhão com laboratórios, canil, cavalariça.

Possuía seis laboratórios personalizados – director, subdirector, chefes de serviço, veterinário, alunos e geral.

Menos de 15 meses depois da morte de Câmara Pestana, a 6 de Fevereiro de 1901, a Rainha D. Amélia visita o novo Instituto, tendo sido recebida pelo director Aníbal Bettencourt e pelos chefes de serviço, Carlos França e Gomes de Resende, que Pestana tivera o cuidado de recomendar à Rainha, antes de morrer.

Por Decreto Lei de 10 de Abril de 1902, passa a chamar-se Real Instituto Bacteriológico Câmara Pestana e após a República passa a Instituto Bacteriológico Câmara Pestana.




A VACINA ANTI-RÁBICA

Câmara Pestana descreveu assim o modo de preparar as medulas para obter as vacinas:
Cuidados prévios - «Oficiei a todos os governadores civis do reino e ilhas adjacentes, participando-lhes a abertura do serviço anti-rábico anexo ao Instituto de Bacteriologia de Lisboa e pedindo-lhes que juntamente com os indivíduos mordidos me remetessem os cadáveres dos animais agressores ou o seu bulbo recolhido assepticamente e conservado em glicerina neutra a 30 graus de densidade».

Preparação da vacina - «As medullas d’estes coelhos foram colocadas em frascos, com duas tubuladuras, contendo potassa caustica, e a uma temperatura de 23º, ao mesmo tempo aproveitava o bulbo para inocular outros, de modo a ter todos os dias medullas novas, e ter sempre completa a serie de medullas (14) necessarias para o tratamento pasteuriano’. Para a emulsão usava depois 2 a 5 mm de medula seca, diluídos em 3 centímetros cúbicos duma solução de peptona, de cloro de sódio ou água esterilizada».

Resultados - «Todos os vacinados têm suportado perfeitamente o tratamento. Da injecção das medulas mais virulentas resulta geralmente uma reacção local mais ou menos acentuada havendo às vezes uma pequena reacção geral».




O VIBRIÃO DE LISBOA

Uma epidemia aparecida na primavera de 1894, sem gravidade aparente, mas com grande difusão, levou à nomeação de uma comissão constituída por Miguel Bombarda, Carlos Tavares e Câmara Pestana, que urgentemente deveria esclarecer a natureza da epidemia. Foi a Sociedade das Sciencias Médicas de Lisboa, entidade respeitada por todos e a quem o Governo recorria quando necessitava de indicações sanitárias a tomar, quem indicou estes médicos para procederem a esse estudo, encarregando-os respectivamente de se pronunciarem sob os pontos de vista epidemiológico, clínico e bacteriológico.

Após os estudos iniciais estabeleceu-se controvérsia entre os membros da comissão, a Sociedade de Ciências Médicas e Câmara Pestana, ficando este isolado em relação aos outros intervenientes.
Enquanto Miguel Bombarda, Carlos Tavares e a Sociedade de Ciências Médicas afirmavam que a epidemia era provocada pelo vibrião da cólera, Pestana afirmava que observara nas fezes dos doentes um vibrião suspeito, mas que exigia um estudo mais demorado, antes de se pronunciar.
Pestana verifica então que a bactéria isolada não dava rigorosamente as reacções do vibrião de Koch e afirma-o em documento oficial enviado à Sociedade de Ciências Médicas, que o ignora.
As sessões então realizadas naquela Sociedade, ficaram memoráveis nos seus Anais, porque a elas assistiam muitos médicos, estudantes e até leigos. Pestana era um excelente bacteriologista, mas não era orador que arrebatasse, ao contrário de Sousa Martins, que, conjuntamente com Carlos Tavares, persistiam em afirmar que se tratava de cólera.

Pestana continuou os seus trabalhos de laboratório e ao cabo de vinte dias de estudo afirmou definitivamente que o vibrião encontrado não era o agente da cólera.

Pouco tempo depois a epidemia extinguia-se, sem mortalidade ou quase.

Câmara Pestana não era grande orador, mas era um homem prevenido, pelo que teve o cuidado de enviar culturas do vibrião de Lisboa aos mais insignes bacteriologistas europeus, nomeadamente a Heinrich Hermann Robert Koch e a Richard Johann Pfeiffer, que acabara de descobrir a reacção de imunidade que recebeu o seu nome e que continua a ser o método mais seguro para a identificação do koma­-bacilo (B. da Cólera). Todos, sem excepção, confirmaram os resultados obtidos pelo bacteriologista português.

Registe-se que este vibrião de Câmara Pestana vem citado no Dictionaire des bactéries pathogénes, com o nome de Vibrião de Lisboa, 1894, ganhando assim lugar na História da Medicina.




A SOROTERAPIA

Esta sua descoberta foi a base da sua tese de concurso a professor de Anatomia patológica e Higiene da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Nela faz a condensação de todas as suas pesquisas sobre as toxinas diftérica e tetânica, a imunidade passiva, o estudo crítico sobre a tuberculina que Koch revelara em 1882 e as reacções celulares nos fenómenos da imunidade.

Dizia Câmara Pestana que «Encon­trar uma substância que no organismo pudesse destruir ou neutralizar a toxina seria o único tratamento eficaz. Mas como procurar esse antidoto sem nada que nos guiasse? Por felicidade, um mero acaso veio-nos abrir um novo campo de investigação onde deveria encontrar o antitóxico tão desejado, o supremo desideratum de todos os meus trabalhos».

O método consistia em «injectar em coelhos doses sucessivamente crescentes e espaçadas das suas toxinas, as quais adquiriam assim resistência à mesma, devido à formação de substâncias antitoxinas, e em seguida sangrá-los, aproveitando o soro sanguíneo para injectar em animais com o tétano experimental».

Estava descoberta a imunidade passiva e o método terapêutica chamado Soroterapia.
Este relato teve lugar a 4 de Julho de 1882.

No mesmo ano, um trabalho de Emil Adolf von Behring expôs as mesmas ideias, técnicas e resultados, o que, claramente, mostra que ambos tinham tido a mesma ideia e os mesmos resultados.

Mas só o nome de Behring ficou associado a esta descoberta e em 1901, Emil Adolf von Behring recebeu o primeiro Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina, recém criado, pela descoberta do soro anti-diftérico.

Câmara Pestana publicou o seu trabalho em português e em Portugal. Behring publicou-o numa língua e num país cujas revistas científicas corriam mundo e onde acorriam multidões para aprenderem a técnica bacteriológica. Por isso o nome de Pestana ficou esquecido na literatura médica universal, quando na verdade lhe competia figurar ao lado de Behring neste capítulo da história da ciência.





A EPIDEMIA DA PESTE BUBÓNICA NA CIDADE DO PORTO

Com a vinda de Ricardo Jorge para Lisboa, por desinteligências entre ele e a população do Porto, que chegou a ameaçá-lo de morte, por discordarem das medidas por ele tomadas em relação aos procedimentos contra a peste bubónica que grassava naquela cidade e que ele diagnosticara e confirmara, foi Câmara Pestana encarregado de seguir para o Porto no Verão de 1899, com as funções de Director do Posto de Saúde Municipal da cidade do Porto.

Acompanharam-no Gomes de Resende e Carlos França, para estudarem e lutarem contra aquele flagelo. Instalaram o seu laboratório no Hospital do Bonfim, conhecido pelo povo como Goélas de Pau.

Foi muito curta a sua missão pois foi apanhado pela epidemia sem disso se aperceber e deslocando-se em serviço a Lisboa só aí foi feito o diagnóstico, sendo internado em isolamento no Hospital de Arroios, onde virá a falecer.

O seu colaborador Carlos França foi também contaminado pela peste, mas conseguiu salvar-se, usando a vacina preparada por Câmara Pestana.




SOCIEDADES A QUE PERTENCEU

- Sócio fundador (n.º 12), da Associação dos Médicos Portugueses (1898 a 1938) que precedeu a Ordem dos Médicos que hoje existe.
- Sociedade das Sciencias Médicas de Lisboa.
- Sociedade de Geografia de Lisboa.
- Fundador e redactor da «Medicina Contemporânea».
- Fundador da «Revista de Medicina e Cirurgia» (1894-1895) e dos «Archivos de Medicina»(1897-1898).




TRABALHOS PUBLICADOS

- «O micróbio do carcinoma» 1989, tese de dissertação.
- «De la diffusion du poison du tétenos dans l’organisme» 1891, baseado nos estudos sobre o tétano, realizados por Câmara Pestana, no laboratório do Prof. Strauss, em Paris e apresentado por este à Société de Biologie de Paris», em 27 de Junho, em nome de Câmara Pestana.
- «O tétano. Contribuição para o estudo da etiologia, patogenia e tratamento» 1892.
- «Programa de inquérito à patologia portuguesa, especialmente destinado à exploração científica dos Açores», a pedido da Sociedade de Geografia de Lisboa, 1893.
- «O bacterium coli e o bacilo de Eberth têm carácteres diferenciais que se opõem à sua identificação» 1894.
- «Etiologia da febre typhoide» 1894.
- «Relatórios sobre a epidemia de Lisboa» 1894.
- «O tratamento da raiva em Portugal pelo systema Pasteur» 1895.
- «Duas pequenas epidemias de febre typhoide» 1895.
- «Bakteriologische Untersuchungen uber die Lissaboner Epidemie von 1894» 1895.
- «Uber das Vorkommen feiner Spirillen in den Faeces» 1895.
- «Considerações sobre diagnóstico da difteria», 1896.
- «Demonstração do bacilo do lepra na medula de um indivíduo morto de seringomielia», 1896.
- «A peste bubónica» 1896.
- «A sero­terapia da difteria» 1896.
- «Soroterápia» 1898, tese de concurso a professor da Escola Médico-Cirúrgica.
- «Contribuição para o estudo do mecanismo da imunidade passiva» 1899.
- «Sarcoma da base do crâneo» 1899.
- «Os progressos da bacteriologia em 1898» 1899.
- «Hospitalização dos tuberculosos pobres de Lisboa - relatório destinado à Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa» 1899.




O PROFESSOR

Com a morte de Sousa Martins em Agosto de 1897, fica uma vaga no corpo docente da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, pelo que em 1898, Câmara Pestana prestou provas para professor de Higiene, Medicina Legal e Anatomia Patológica daquela Escola, onde exerceu essas funções por pouco mais de um ano, dada a sua prematura morte em 1899.




O PERSONAGEM NA PRIMEIRA PESSOA

- «O micróbio. Haverá nada de mais fecundo, de maior alcance, do que o estudo d'estes infinitamente pequenos?».

«Quando comparamos a cirurgia d' hoje, à cirurgia d' hontem, quando vemos o poder da hygiene e da prophilaxia, é que comprehendemos o altissimo valor dos trabalhos modernos». «É através das angústias, das dores, dos gritos de desespero, dos habitantes das salas de cirurgia de há vinte annos, que a huma­nidade deve contemplar o poderoso génio de Pasteur».

«Encon­trar uma substância que no organismo pudesse destruir ou neutralizar a toxina seria o único tratamento eficaz. Mas como procurar esse antidoto sem nada que nos guiasse? Por felicidade, um mero acaso veio-nos abrir um novo campo de investigação onde deveria encontrar o antitóxico tão desejado, o supremo desideratum de todos os meus trabalhos».

Conta-se que antes de falecer no Hospital de Arroios, Câmara «Há casos, meus caros amigos, nos quais os meios empregados pelos padres, indus ou árabes, ou os métodos da ciência moderna, dão o mesmo resultado. É o meu caso, podem ver» - terá dito Pestana aos colegas que o visitavam.




O PERSONAGEM NA TERCEIRA PESSOA

José António Serrano, seu mestre e amigo, à beira da sua campa humilde e rasteira - «Compleição amorável, simples, desataviada de toda a casta de adorno que no moral ou physico parecesse superficialidade, modesto por vezes até à timidez, estava longe de ser um carácter brando, de tíbia vontade, moldável e acomodatício. Muito pelo contrário, sob o perene sorriso, mas de um tom melancólico, havia o querer firme, não impulsivo mas lento e gélido, das organizações tenazes que a despeito de estorvos, resistências e perigos, prosseguem imperturbáveis no caminho traçado».

Cândido de Oliveira, assistente do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana desde 1936 e seu director de 1966 a 1969, numa homenagem a Câmara Pestana disse - «o saber, o método, a ideia nova, traços da fisionomia espiritual de Pestana, fize­ram dele o Mestre que faltava à Medicina Portuguesa», acrescentando em relação à sua actividade profissional - «Implantação da doutrina microbiana, descoberta de serologia, introdução do método experimental, criação da medicina como ciência, investiga­ção pessoal sobre ideias próprias, fundação dum instituto de pesquisas médicas, organização do trabalho de equipa, tal é a herança que nos legou Câmara Pestana».




MORTE

Morre às 12.00 horas do dia 15 de Novembro de 1899, no Hospital de Arroios, em Lisboa.




HOMENAGENS PÓSTUMAS

Há que ter presente que Câmara Pestana viveu apenas 36 anos e que investigou apenas durante 10 anos, aqueles que mediaram entre a sua licenciatura em Medicina em 1889 e a sua inesperada e prematura morte em 1899.

Apesar deste curto espaço de investigador, Câmara Pestana viveu de forma tão intensa e interessada a investigação a que se dedicou, que ainda hoje é recordado como o pai da bacteriologia portuguesa, com o seu nome ligado para sempre a este ramo da ciência, que nasceu quando ele era adolescente e tinha apenas uma dezena de anos e que ele ajudou a desenvolver apenas durante uma década.

Em 10 de Agosto de 1902 foi dado, por decreto, o nome de Real Instituto Bacteriológico Câmara Pestana ao chamado Real Instituto Bacteriológico de Lisboa, que após a República passou a chamar-se Instituto Bacteriológico Câmara Pestana. Foi inaugurado um busto em bronze, de Câmara Pestana, sob plinto em pedra, da autoria do escultor Leopoldo de Almeida.

Foi dado o seu nome a várias ruas de Portugal, especialmente em Lisboa, Porto, Coimbra, Sintra, Odivelas, Barreiro, Amora e Funchal.

A Associação dos Médicos Portugueses, mandou pintar um quadro a óleo de Luiz da Câmara Pestana, um dos seus sócios fundadores em 1898, que foi descerrado na sua sede. Passou em 1938 a fazer parte da Ordem dos Médicos e hoje encontra-se em local de destaque numa das paredes da Biblioteca Médica da Ordem dos Médicos.


No Funchal, o seu nome foi também dado ao Manicómio Câmara Pestana, depois Lazareto, cuja fundação foi devida à iniciativa da sociedade civil madeirense. Actualmente Casa de Saude Câmara Pestana, das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, na rua do Lazareto.

No jardim em frente do edifício onde funcionou, encontra-se sobre uma coluna de mármore, o busto em bronze de Câmara Pestana.

Em 15 de Novembro de 1913, foi colocada uma lápide de mármore, onde se lê - Casa onde nasceu em XXVIII de Outubro de MDCCCLXIII o insigne bacteriologista português, Dr. Luiz da Câmara Pestana, falecido em Lisboa aos XV dias de Novembro de MDCCCXCIX, vítima da peste bubónica que infestou a cidade do Porto, e a cujos estudos se dedicou com a maior abnegação e altruísmo humanitário. Homenagem da classe médica da Madeira. 1913.

Em 1939, foi criado o Prémio Câmara Pestana para galardoar, anualmente, o trabalho científico que mais se destaque no campo da microbiologia, podendo ser atribuído em nome pessoal, de equipes de trabalho ou instituições nacionais ou internacionais, tal é o seu prestígio.

Foram criados selos postais com a imagem e o nome de Câmara Pestana.