Um grande obreiro do edifício da língua portuguesa...

José Pedro Machado

Filólogo, arabista:
1914 - 2005



Quando tudo aconteceu...

1914: Em 8 de Novembro, nasce na freguesia de São Pedro do concelho de Faro, José Pedro Machado, filho de João Santana Machado e de Adelina dos Santos Machado. 1916: Passa a viver com a família em Lisboa, por transferência de seu pai, militar da Marinha de Guerra. 1921/1925: Frequenta o ensino primário na Escola da Tapada, na Calçada do mesmo nome, na zona ocidental de Lisboa. 1926/1933: Frequenta o curso liceal nos liceus Pedro Nunes, D. João de Castro e Passos Manuel, em Lisboa. 1933: Em Outubro, inicia o curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Conhece Raul Machado. 1936: David Lopes apresenta-o a José Leite de Vasconcelos. 1938: Conclui a licenciatura em Filologia Românica. Neste ano e até 1940, fará parte da comissão de redacção do Dicionário da Academia das Ciências. 1939: Apresenta a sua dissertação de licenciatura - Comentários a Alguns Arabismos do Dicionário de Nascentes. Publica Alguns Vocábulos de Origem Arábica. 1940: Casa com Elza Fernandes Paxeco. Editam-se as obras Curiosidades Filológicas e Comentários a Alguns Arabismos do Dicionário de Nascentes. Saem os opúsculos Sintra Muçulmana e Évora Muçulmana. 1941: Exerce docência, como assistente, na Faculdade de Letras de Lisboa. Em 5 de Maio é inaugurada, na rua do Carmo, em Lisboa, a Livraria Portugal, do seu grande amigo Henrique Pinto, empresa de que José Pedro Machado será colaborador até ao seu falecimento e que considera como a sua «segunda casa».. No Rio de Janeiro publica-se o seu trabalho Porque foi escrita a Origem da Língua Portuguesa de Duarte Nunes de Leão. 1942: Publica o Português do Brasil e Breve História da Linguística. 1943: Sai a edição de Elementos Hispânicos do Vocabulário Latino. 1944: Colabora na edição monumental de Descobrimentos Portugueses, dirigida pelo Professor João Martins da Silva Marques. Sai a obra A Língua Arábica do Andaluz, segundo os «Prolegómenos» de Ibne Caldune. 1945: Edita-se Origem da Língua Portuguesa. Sai uma das suas principais obras, o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, em três volumes. Publica ainda Os Estudos Arábicos em Portugal. Colabora com a Comissão Científica da Academia das Ciências de Lisboa na redacção do Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro assinado neste ano. 1946: Publica Bases da Nova Ortografia.1948: Forma-se em Ciências Pedagógicas pela Universidade de Coimbra e atinge a categoria de professor efectivo. Exerce funções docentes em Évora e depois na Escola Afonso Domingues, de Lisboa. 1949: Conta-se entre os fundadores da Sociedade da Língua Portuguesa. Neste ano, de colaboração com sua mulher, a professora universitária Elsa Paxeco, inicia a publicação de Cancioneiro da Biblioteca Nacional, que terminará em 1964. 1951: Publica um comentário ao Cancioneiro de Évora. 1952: Saem a público mais duas obras suas: o Dicionário do Estudante e o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. 1954: É editada a obra Os Estudos Arábicos em Portugal. 1957: Publica comentário a Gramática da Língua Portuguesa de João de Barros. 1958: Colabora com Raul Machado na preparação das Charlas Linguísticas, programa de grande êxito transmitido semanalmente pela Radiotelevisão Portuguesa. A Sociedade da Língua Portuguesa começa a editar o Dicionário da Língua Portuguesa, que virá a ter oito volumes. José Pedro coordena o Boletim Mensal da sociedade, redigindo grande parte do seu conteúdo. 1958/61: Publica Influência Arábica no Vocabulário Português. 1959: Colabora, com Augusto Moreno e Cardoso Júnior, na 10ª edição do Grande Dicionário da Língua Portuguesa., de António de Morais Silva. Orienta a Revista de Portugal. Faz parte da delegação oficial ao IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, que, em Agosto, se realiza em Salvador da Baía. É eleito sócio correspondente da Academia Brasileira de Filologia, do Rio de Janeiro, passando a colaborar no Boletim de Filologia, editado por esta instituição. 1960: Sai nova edição do Dicionário do Estudante. 1961: Publica Os Mais Antigos Arabismos da Língua Portuguesa. 1962: É a vez de Notas de Toponímia Portuguesa 1963: Publica Notas Etimológicas e Elementos Arábicos no Vocabulário Técnico dos «Colóquios» de Garcia de Orta. 1963/1971: Colabora no Dicionário da História de Portugal, dirigido por Joel Serrão. 1965: Nótulas de Sintaxe Portuguesa. 1967: Edição de Cartas Dirigidas a David Lopes (coordenação e notas) e de Topónimos Estrangeiros em Fernão Lopes. 1968: Em colaboração com Elza Paxeco, publica Acerca do Nome Árabe de Lisboa. De parceria com Viriato Campos, publica A Viagem de Vaso da Gama. 1969/72: Sai o volume Dispersos de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos. 1971: Publica-se Dicionário de Dúvidas e Dificuldades da Língua Portuguesa e o ensaio Faro no Tempo dos Mouros. 1978: Sai a sua tradução, directamente feita do árabe, de Alcorão. 1979: Em 12 de Novembro, a Livraria Portugal e a Sociedade da Língua Portuguesa, organizam uma sessão comemorativa dos 40 anos de actividade de José Pedro Machado. Aposenta-se das funções docentes. 1981: Publica-se o Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. 1982: Em 18 de Junho, é votado como Académico Correspondente da Academia Portuguesa da História. Publica Notas Camonianas. 1986: Edita-se o seu Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. 1989: Falece sua esposa, Elza Paxeco. 1991: É editada uma nova edição, muito actualizada e revista, do seu Grande Dicionário da Língua Portuguesa, agora em seis volumes.1994: Edição de Estrangeirismos na Língua Portuguesa. 1995: Saem a público os seus Ensaios Literários e Linguísticos. 1996: Primeira edição de O Grande Livro dos Provérbios. Em 14 de Junho é agraciado com o grau de Grande Oficial da Ordem da Instrução Pública. 1997: Publicam-se os Ensaios Arábico-Portugueses. 1999: Em 10 de Novembro, correspondendo a proposta da Academia Portuguesa da História, é-lhe atribuída pelo Ministério da Cultura a Medalha de Mérito Cultural. 2000: Publicação do seu Grande Vocabulário da Língua Portuguesa. 2004: Em 17 de Novembro, comemorando o seu 90º aniversário, é solenemente homenageado pela Academia Portuguesa da História que o eleva à categoria de Académico de Mérito. A Academia publica na mesma ocasião uma colectânea de Estudos «em Homenagem ao Professor Dr. José Pedro Machado» - Summus Philologus Necnon Verborum Imperator. 2005: Em 27 de Julho, com 90 anos, morre na sua casa de Lisboa, acometido por doença súbita. No dia 29, o seu corpo é cremado no Cemitério do Alto de São João. 2007: Em 10 de Junho, é agraciado a título póstumo com a comenda de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

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UMA VIDA TRANQUILA - UM BALANÇO DIFÍCIL

Sobre a vida de José Pedro Machado não haverá acontecimentos muito espectaculares a referir. Pessoa tranquila, cordial, não terá vivido muitas aventuras dignas de menção, nem se lhe conhecem episódios heróicos ou de grande relevância. No seu período de maior actividade profissional, o ensino ocupava-lhe grande parte do dia. Foi um bom estudante, obtendo sempre elevadas notas, e um excelente professor que marcou positivamente a vida de muitos dos seus alunos, quer na Universidade, quer nas escolas do Ensino Secundário onde exerceu docência. Fugindo sempre a preconceitos elitistas, partilhou os seus conhecimentos de uma forma aberta e generosa, colaborando em numerosos jornais – entre outros, no Diário de Lisboa, no Diário de Notícias, em A Capital, e em diversos jornais regionais, mantendo com regularidade os seus «consultórios», colunas de resposta às questões colocadas pelos leitores, esclarecendo, ensinando sempre.

Nos derradeiros anos, dividia as suas horas pelo convívio, na Casa Chinesa da Rua do Ouro, onde bem cedo tomava o pequeno-almoço numa roda de amigos; na Livraria Portugal da Rua do Carmo, onde ia pelas manhãs, cerca das nove, pois ali tinha gabinete próprio, coordenando durante mais de 50 anos o Boletim Mensal; no Restaurante Pardieiro, no Largo da Graça, onde almoçava com frequência; nas reuniões canónicas da Academia Portuguesa da História. Sempre, até ao fim, mesmo quando já se confessava cansado e doente, dedicava muitas horas à construção da sua obra, investigando, escrevendo, revendo provas, pois trazia sempre diversos projectos em execução. Poucos terão sido os que deixou por realizar.

Em suma, um homem sereno e tranquilo, de hábitos metódicos, simples e austeros (frugal na alimentação, não fumava nem bebia álcool), moderado adepto do futebol, embora fosse benfiquista e até tenha durante algum tempo colaborado na secção cultural e no jornal do clube, sempre foi avesso a facciosismos clubistas (tal como o era a fundamentalismos político-partidários). Convivia muito, como já se disse. E nesse convívio, dava sempre mais do que recebia. Os seus amigos, entre os quais se contavam alguns antigos alunos (e a alguns dos quais, apesar da diferença de idades e do muito respeito que lhes inspirava, exigia que o tratassem por tu) aprendiam sempre alguma coisa com ele, pois possuía uma cultura muito vasta, mesmo em domínios que ultrapassavam as fronteiras da sua especialidade.

Agora, num esforço de balanço biográfico, pode dizer-se que o verdadeiramente principal na sua vida é a sua obra, o monumento de saber que construiu em defesa do idioma, herança que nos deixou e que ai está, ao nosso dispor, perpetuando-lhe a existência e permitindo que continuemos a conviver com ele. A comunidade intelectual, salvo raras excepções, como sabemos tantas vezes regida por capelinhas (ou lóbis, se assim preferirmos), nunca lhe atribuiu a importância que verdadeiramente mereceria. Não será caso inédito. Talvez a sua zanga com a Universidade, em 1940, o tenha marcado para sempre. Por outro lado, nem tinha o hábito de se pôr em bicos de pés, nem gostava de pedir favores. Sempre foi uma pessoa muito simples, mas orgulhosa. Talvez este conjunto de factores haja de algum modo contribuído para que não tenha ocupado no Olimpo da cultura portuguesa o lugar a que a sua obra faz jus. Talvez tenha sido isso... Agora que já não está fisicamente entre nós, começa a dar-se mais algum valor ao que fez. O costume. Mas, não nos antecipemos, vamos lá tentar recapitular.





DO ALGARVE PARA LISBOA. A ESCOLA PRIMÁRIA E O LICEU

José Pedro Machado vem com dois anos de idade para Lisboa, acompanhando a transferência para a capital de seu pai, militar da Marinha. Vive com a família na zona de Alcântara: em Santo Amaro, na Rua Bocage, actual Rua Amadeu de Sousa-Cardoso. Habita depois na Lapa, na Rua São Francisco de Borja, fixando-se mais tarde na Graça, na Rua Leite de Vasconcelos (nome de um dos seus mestres dilectos). Frequenta os liceus Pedro Nunes, Passos Manuel e D. João de Castro, tendo como professores algumas pessoas que saberão despertar a sua vocação e curiosidade científicas. Entre estes, destaca-se Marques Braga que, pela primeira vez, lhe fala de um grande mestre: um tal José Leite de Vasconcelos. José Pedro nunca esquecerá este professor liceal e, reconhecidamente, ao longo da vida far-lhe-á referências de estima e de gratidão.

Porém, ouçamos o próprio José Pedro falar sobre o seu percurso escolar: «Por volta de 1920 as crianças só podiam frequentar a Instrução Primária a partir dos sete anos de idade. Meus pais, evidentemente, não procuraram qualquer excepção para mim. Daí matricularem-me em Novembro de 1921 pois nasci em Novembro de 1914: Residia em Santo Amaro, aqui em Lisboa, onde havia algumas escolas daquele nível: a Promotora (no Largo do Calvário), a Voz do Operário (num rés-do-chão de prédio na esquina das ruas Filinto Elísio e Gil Vicente) e a «da Câmara», esta na Calçada da Tapada quase defronte da Rua Leão de Oliveira, sua perpendicular» (...) «Fui discípulo, na primeira classe, da D. Mercedes, pessoa direita no físico como no trato.» (...) na segunda classe, a D. Maria do Carmo falava mais e com alguns gritos mantinha o respeito mas ensinava com facilidade; a D. Paquita regeu o meu curso nas terceiras e quarta classes» (...) impunha-se pela severidade, auxiliada pelos seus ares masculinos e o fácil discurso (calma ou zangada) e pela eficiência da reguada, mas ensinava bem, pacientemente. Várias vezes deu provas de generosidade, compreensão e coragem.»1 Vejamos agora o que ele nos conta sobre o curso liceal: «Frequentara o Pedro Nunes, onde iniciei aquele curso em 1926-1927. Ali conseguira obter aprovação nos 1.º, 2.º e 3.º anos. Quando tentava inscrever-me no seguinte comunicaram-me que não me admitiam, o mesmo acontecendo com numeroso grupo de companheiros: saíra a lei das residências. Segundo ela, cada liceu abrangia determinada área de Lisboa e competia-lhe só aceitar a matrícula de quem morasse na que lhe era legalmente atribuída» (…) Eu então vivia em Santo Amaro pelo que, disseram-me, tinha de ir para o D. João de Castro, criado uns dois anos antes ali para o Rego. Protestámos, mas logo nos tranquilizaram: houvera mudança desse liceu para o bairro de Belém.» Assim, «No ano lectivo de 1929-1930 eu frequentava o Liceu de D. João de Castro, no arruinado edifício da Quinta da Praia, onde hoje está o até há pouco tão (mal) falado Centro Cultural de Belém. Aproveitava os intervalos das aulas para percorrer o areal que havia pouco ali se fizera roubando terrenos ao Tejo, hoje ocupados pelo espaço entre a linha do comboio para Cascais e a muralha.» (...) dei-me bem na nova casa de estudo» (...) Lá obtive os 4.º e 5.º anos, mas não havia o então chamado curso complementar, isto é, os 6.º e 7.º anos. Para estes, procurei voltar ao Pedro Nunes, mas a tal lei também me fechou essa mudança. Teria de optar pelo Passos Manuel.» E assim foi, José Pedro completa o curso liceal no velho edifício do Convento de Jesus. É aí que, em 1931, no 6.º ano, tem Marques Braga como professor de Literatura Portuguesa. Um mestre que nunca mais esquecerá. Seguir-se-á a Faculdade de Letras.




A UNIVERSIDADE. BONS MESTRES.

Logo no segundo ano do curso universitário, José Pedro Machado tem como professor de árabe David de Melo Lopes, o grande arabista, autor de obras como Expansão da Língua Portuguesa no Oriente nos Séculos XVI, XVII e XVIII (1936). Por essa altura, é convidado a trabalhar no Centro de Estudos Filológicos, vindo grande parte da investigação aí feita a ser posteriormente publicada. Em 1939, concluída a licenciatura, David Lopes e José Leite de Vasconcelos recomendam-no para o lugar de leitor de português na Universidade de Argel. Chega mesmo a ser nomeado. Teria sido uma grande oportunidade para José Pedro aprofundar o seu conhecimento da língua e da cultura árabe. Porém, nesse mesmo ano eclode a Segunda Guerra Mundial e essa interessante hipótese esfuma-se. Ainda a convite do professor David Lopes, integra a Comissão do Dicionário que a Academia das Ciências de Lisboa projecta para 1940 (e que só virá a ser editado mais de 60 anos depois, em 2001 pela Editorial Verbo e sob o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian).

Além do incentivo de David Lopes, aprende e é estimulado pelos elogios de outros mestres: Leite de Vasconcelos, João Martins da Silva Marques, de brasileiros como Antenor de Veras Nascentes, Serafim Silva Neto e Lima Coutinho, do sueco Gunnar Tilander, do grande filólogo galego Ramón Menéndez Pidal... Nunca esquecendo Marques Braga, o seu professor do liceu. É assim que, num texto de 1991, José Pedro recorda os seus mestres: «Quando iniciei o curso da Faculdade de Letras» (...)«Leite de Vasconcelos já estava aposentado, desde 1929. Mas o seu nome não me era desconhecido. Marques Braga citava-o nas aulas de Português dos 6.º e 7,º anos do Liceu e em Agosto de 1930 eu comprara um exemplar, usado, das Lições de Filologia Portuguesa. Lera-as cheio de interesse e, graças a isso, fizera figura nas aulas daquele Professor, a quem me ligou tanta amizade» (...)» Na Faculdade encontrei os estudos filológicos já em decadência. Dos professores que tanto a prestigiaram nesse campo apenas restava David Lopes de quem fui aluno de Árabe. Manda a justiça afirmar que lá conheci outro Mestre» (...) Refiro-me a João Martins da Silva Marques. Competentíssimo na matéria que ensinava, sabia criar discípulos e também me transmitiu admiração por Leite de Vasconcelos:» Conta depois como David Lopes lhe apresentou Leite de Vasconcelos: «Sentado numa poltrona da sala, com aspecto cansado, estava o senhor que eu há pouco vira entrar. Era Leite de Vasconcelos. Após os cumprimentos da praxe, ficou aprazada a minha comparência em sua casa às quartas-feiras pelas 3 da tarde. E, logo na seguinte, apresentei-me no n.º 40 da rua D. Carlos de Mascarenhas, a Campolide»2 .

A colaboração entre José Pedro e o Mestre só iria terminar em 1941, com a morte deste último. Aliás, referindo-se ao desaparecimento dos seus professores e amigos, diz num texto de 1992: «Não posso esquecer uma comemoração triste: podermos (e devermos) iniciar o cinquentenário daquele espaço de cerca de um ano durante o qual perdemos três Grandes Mestres: em 17 de Janeiro de 1941, Leite de Vasconcelos; em 20 de Janeiro de 1942, José Maria Rodrigues e, pouco depois, em 3 de Fevereiro, David Lopes. Todos sabemos o quanto a Cultura Portuguesa deve a cada um deles e qual o prestígio internacional conseguido pelos três.»3

José Pedro Machado viria a concluir a licenciatura em 1938, apresentando no ano seguinte a respectiva dissertação – Comentários a Alguns Arabismos do Dicionário de Nascentes. Para quem possa não saber, Antenor de Veras Nascentes é um distinto professor e filólogo brasileiro, autor de uma obra importante, onde avultam um Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (1932-1952), as Bases para a Elaboração do Atlas Linguístico do Brasil (1958) e um Dicionário da Língua Portuguesa (1961-1967). Como recorda o Professor Joaquim Veríssimo Serrão no texto de abertura da colectânea de homenagem publicada pela Academia Portuguesa da História em 2004, ao falar da viagem que fez com José Pedro Machado, ambos integrados na delegação portuguesa ao IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, realizado no Brasil em 1959: «Como não hei-de, pois, recordar a fidelidade do primeiro encontro que então tivemos? Como não evocar o eminente filólogo Doutor Antenor Nascentes (1886-1972) que, à chegada do avião à Cidade do Salvador, o veio receber com a calorosa saudação: “José Pedro, seja bem-vindo a esta sua terra”.»4





UMA CARREIRA BRILHANTE

É também na Faculdade de Letras que virá a conhecer Elza Paxeco, a primeira mulher a doutorar-se em Letras pela Universidade de Lisboa (em 1938). Com ela viria a casar em 1940. Do casamento resultam três filhos e a colaboração de ambos em numerosos e importantes projectos comuns, como, por exemplo, a edição comentada do Cancioneiro da Biblioteca Nacional, (antigo Colocci- Brancuti), publicada em oito volumes entre 1949 e 1964. Abre-se aqui um breve parêntesis para recordar a importância de Elza Fernandes Paxeco Machado. Nascida em 1912 em São Luís do Maranhão, no Brasil, frequentou as Universidades de Gales, Londres e Lisboa, tendo cursado Filologia Românica e Germânica, bem como Literatura Inglesa. Foi, como já dissemos, a primeira mulher a doutorar-se em Letras pela Universidade de Lisboa, onde leccionou entre 1940 e 1948. Viria neste último ano a sair da Universidade. Falece em Lisboa em 1989.

Em Outubro de 1933, José Pedro conhece também o padre Raul Machado de quem viria a ser grande amigo e colaborador. Travam conhecimento nos claustros do antigo edifício da Faculdade de Letras. O sacerdote, mais velho nove anos e já portador de numerosos diplomas universitários, frequenta então o curso de Filologia Clássica. Porém, tendo ambos diversas cadeiras comuns. Uma grande amizade e uma profícua colaboração que só terminaria com o falecimento de Raul Machado, em 1962. As Charlas Linguísticas transmitidas pela RTP, durante cerca de três anos, a partir de Janeiro de 1958 e o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, editado também a partir de 1958 em fascículos integrados no Boletim da Sociedade da Língua Portuguesa, são apenas dois dos frutos dessa amizade de trinta anos.

Mas voltemos a José Pedro. Na Faculdade de Letras, onde lecciona como assistente a partir de 1940, depara-se-lhe um ambiente de intriga e competição que não se coaduna com a sua maneira de ser. Perante essa circunstância, assume uma posição que, sendo a mais honesta, não é a mais «conveniente», vindo no ano seguinte, por imperativosmdeontológicos, a apresentar a demissão e regressando ao seu lugar de professor efectivo do Ensino Técnico Profissional, como professor efectivo da Escola Industrial de Afonso Domingues, em Lisboa, da qual chega a ser director interino. Faz parte de júris de admissão aos Institutos Industrial e Comercial de Lisboa e também aos estágios para professores efectivos do Ensino Técnico Profissional. A sua actividade como filólogo é intensa: escreve e publica estudos em revistas e jornais portugueses e estrangeiros (revistas Vitória e Brotéria, boletins de instituições especializadas, etc., etc.), Trabalhos seus são publicados em prestigiadas revistas – Bulletin Hispanique, Revista Lusitana, Romanitas, do Rio de Janeiro, Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, Boletim de Filologia, Ocidente, Revista de Portugal, Boletim Bibliográfico da Livraria Portugal, Anais da Câmara Municipal de Faro, etc., etc,, etc.. Dá conferências, vai a colóquios e congressos internacionais, escreve artigos para jornais e conforme já dissemos mantém colunas semanais de «consultório linguístico», esclarecendo dúvidas a leitores e levantando pertinentes questões referentes ao idioma que compartilhamos com mais sete países... Uma bibliografia com mais de uma centena de títulos - estudos, ensaios, comentários críticos, prefácios, anotações e, sobretudo, obras infra-estruturais do nosso idioma, reunidos em cerca de cinquenta edições, algumas delas de grande fôlego, como é o caso do Dicionário Etimológico, do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, do Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, do Grande Vocabulário da Língua Portuguesa...

Na homenagem que, em 2004, a Academia Portuguesa da História lhe presta por ocasião do seu 90º aniversário, conferindo-lhe a dignidade de Académico de Mérito, salienta-se a publicação de uma colectânea de estudos, onde se reúnem textos do presidente da instituição, o professor e historiador Joaquim Veríssimo Serrão, de Justino Mendes de Almeida, de Aires do Nascimento e de muitos outros ilustres académicos.




RECONHECIMENTO TARDIO (MAIS VALE TARDE DO QUE NUNCA).

Membro da Academia Portuguesa da História, da Academia Brasileira de Filologia, da Academia Real Sueca de Belas Artes, História e Antiguidade, da Real Academia de la Historia, de Madrid, da Academia de Marinha, de Lisboa, da Sociedade Euclides da Cunha, do Paraná, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, da Academia Nacional de la Historia, de Caracas, da Sociedade da Língua Portuguesa, da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, José Pedro Machado realizou conferências em diversos países (França, Suíça, Espanha, Itália, Brasil, a convite de academias e instituições universitárias. Reconhecido internacionalmente como grande lexicógrafo, só em 10 de Junho de 2007, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, dois anos após a sua morte, receberia a merecida condecoração - a comenda de Grande Oficial da Ordem do Infante D.- Henrique. Como disse a propósito o jornalista Nuno Pacheco, «Pouco importa, que a lata não pesa. Pesa, sim, o que ele deixou feito.» (...) «metam a medalha na gaveta e tirem-no de lá a ele. E leiam-lhe os livros, onde continua vivo.»5




UMA DÍVIDA POR PAGAR.

Porém, apesar das homenagens e da comenda, fica ainda uma importante dívida por pagar – Para quando em Faro, sua terra natal que nunca esqueceu, e em Lisboa, sua cidade de adopção onde viveu a quase totalidade da sua vida, as ruas com o nome de José Pedro Machado? Esperemos, pois, que em breve as últimas linhas deste texto possam ser apagadas pela existência de tão merecidas placas toponímicas nas duas cidades. José Pedro era um profundo conhecedor da toponímia ulissiponense, tendo dedicado ao tema diversos artigos. E, precisamente, sobre a justiça feita pelo município de Lisboa à memória de três grandes mestres da língua portuguesa – Leite de Vasconcelos, José Maria Rodrigues e David Lopes, diz José Pedro num texto de 1992: «O Município de Lisboa, felizmente, não se esqueceu deles. Os seus nomes denominam três ruas lisboetas, talvez não muito importantes (o acaso até quis que eu resida numa delas), decerto afastadas umas das outras (ao contrário da camaradagem e da amizade que os unia), mas lá estão os nomes dos Mestres, bem à vista e no uso do quotidiano de muitos lisboetas, que, assim, pelo menos, sabem da sua existência.»6 Não esqueçamos, algarvios, lisboetas, portugueses, o nome de José Pedro Machado, homem que tanto trabalhou em prol do idioma que nos une, a mais de 200 milhões de falantes espalhados por oito nações e por numerosas colónias de emigrantes, no vasto universo cultural da lusofonia.
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1 - José Pedro Machado, Factos, Pessoas e Livros (vol.V), Lisboa, 2006.
2 - José Pedro Machado - op. cit.
3 - José Pedro Machado - op. cit.
4 - Joaquim Veríssimo Serrão - Ao Professor Dr. José Pedro Machado: Um Joalheiro da Língua Portuguesa, Lisboa, 2004.
5 - Nuno Pacheco, jornal Público, edição de 11 de Junho de 2007.
6 - José Pedro Machado, Factos, Pessoas e Livros, Lisboa, 2006.