Rodrigues Lapa e Carvalho Calero, um português e um galego, velha amizade...

ricardo carvalho calero

Autor da História da Literatura Galega Contem:
1910 - 1990



Quando tudo aconteceu...

1910: Em 30 de Outubro, nasce no bairro de Ferro-Velho, Ferrol - na Galiza, Ricardo Leopoldo Ángel José Gerardo Carballo Calero, filho de Gabriel Ricardo Carballo Naya e de María Dolores Carballo Calero Beltrán, que viria a ser conhecido como Ricardo Carvalho Calero. 1919: Morre sua mãe. 1920: Seu pai casa pela segunda vez com uma familiar da primeira esposa a qual, por sua vez, morrerá um ano depois de parto. 1921-24: Estuda no colégio do Sagrado Coração de Jesus. 1926: Termina com dezasseis anos o curso dos Liceus e matricula-se na Universidade de Santiago de Compostela no curso de Filosofia e Letras. 1927: Integra-se no SEG (Seminário de Estudos Galegos). 1928: Publica a sua primeira colectânea, Trinitarias, que reúne poemas em castelhano, escritos entre os 14 e os 16 anos e o texto de uma conferência. 1931: Sai a público o seu primeiro livro de poemas em galego, Vieiros. É um dos fundadores do Partido Galeguista. 1932: Em Agosto, homenagem prestada em Lugo a Alfonso Castelão (1886-1950). 1933: Sai de Santiago, obtendo por concurso um lugar de funcionário do Concelho de Ferrol. Casa com María Inácia Ramos. 1934/35: Colabora em diversas publicações ao mesmo tempo que escreve duas peças teatrais: 1936: Conclui a licenciatura em Filosofia e Letras. O Partido Galeguista reforça-se. O Estatuto de Autonomia é amplamente aprovado no Referendo realizado em Junho. No mês seguinte, a invasão do território da República pelo exército de África, desencadeia a Guerra Civil. Carvalho está em Madrid, preparando o concurso para catedrático. Alista-se no Exército da República. É promovido a oficial e colocado em Valência. Depois é transferido para a Andaluzia, onde é aprisionado pelos nacionalistas. 1939: Termina a guerra e Ricardo é julgado e condenado a prisão perpétua, acusado dos crimes de ser «separatista» e «oficial do exército republicano». 1941: É posto em liberdade condicional e regressa a Ferrol. Impedido de ensinar nas escolas do Estado, ganha a vida no ensino particular. Estes anos dramáticos, reflectem-se no seu livro Scórpio, bem como na poesia que produz.. Escreve três peças de teatro e o seu primeiro romance.1950: Vai para Lugo, onde ensina no Colégio Fingói do qual virá a ser director. É fundada a Editorial Galáxia que terá um papel central na publicação das obras de Carvalho Calero e no desenvolvimento da cultura galega. 1951: Escreve Gente da Barreira, o primeiro romance publicado em galego no pós-guerra. 1952: Saem os seus Poemas pendurados de un cabelo. 1954: Com a dissertação Aportaciones fundamentales a la literatura gallega contemporánea, obtém o grau de doutor na Universidade de Madrid. 1958: Em 17 de Maio é admitido na Real Academia Gallega com o discurso Contribuiçom ao estudo das fontes literárias de Rosalía. 1963: Publica a sua monumental “História da Literatura Galega Contemporânea”. 1964/65: É admitido como professor interino de Língua e Literatura Galegas na Universidade de Compostela. 1966:. Sai a primeira edição da sua “Gramática elemental del gallego común”.1970: Preenche por concurso a vaga para catedrático de Linguística e Literatura Galega na Universidade de Compostela.1971: Publica Sobre língua e literatura galega. Saem também A Sombra de Orfeu, Farsa das Zocas, A Árbore e o Auto do Prisioneiro, 1977: Morre Sebastiám Martínez Risco, presidente da Real Academia Galega. Ricardo Carvalho Calero é o académico indigitado para o substituir. Não aceita. 1979: São publicados os seus Estudos Rosalianos: aspectos da vida e obra de Rosalía de Castro; sai também Libros e Autores Galegos. Integra a Comissão Linguística da Junta Pré-Autonómica, a qual elabora as Normas Ortográficas do Idioma Galego.1980: Passa à situação de Professor jubilado, abandonando a docência, mas mantendo a actividade criativa. 1981: Lançamento em Santiago de Compostela da edição portuguesa do seu livro Problemas da Língua Galega. 1982: O governo da Alianza Popular do governo autónomo, anula as Normas Ortográficas. Ricardo mantém uma pos

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QUANDO TUDO ACONTECEU UMA PERGUNTA, PARA COMEÇAR

O Dia das Letras Galegas que, desde 1963, se celebra todos os anos em 17 de Maio, celebrando a edição de “Cantares Galegos”, de Rosalía de Castro, nesse dia, em 1863, é, cada ano, dedicado a um vulto da literatura galega que preencha os requisitos de ter uma obra literária relevante escrita em galego, de ter falecido pelo menos há dez anos e de ter o apoio de, no mínimo, três membros da Real Academia Galega. A Real Academia Galega tem rejeitado desde 2001 o nome de Ricardo Carvalho Calero. O que volta a acontecer em 2010 apesar de se celebrar o seu centenário. Porquê? Ricardo Carvalho Calero é, na opinião de muitos, a figura intelectual mais importante da Galiza no século XX, tem uma vasta obra extremamente relevante, faleceu há vinte anos… mas não há na Real Academia Galega três membros que apoiem a sua candidatura.

Porquê?




INFÂNCIA E JUVENTUDE

“Cinco duros pagávamos de aluguer (cinco duros, correspondiam a vinte e cinco pesetas.) /Era um terceiro andar, bem folgado./Pela parte detrás dava para o Campinho,/e por diante para a Rua de Sam Francisco.” Foi neste terceiro andar do número 51 da Rua de São Francisco em Ferrol - Velho que Ricardo Carvalho Calero nasceu e aí viveu os seus primeiros anos. Referindo-se a este edifício, a escritora María Xosé Queizán em recente artigo no “Nosa Terra” lamenta o estado ruinoso em que o prédio se encontra, demonstrativo, como diz, do desleixo das autoridades políticas e culturais galegas no que se refere a preservar a memória de uma figura exemplar do pensamento e da cultura da Galiza. Mas, passemos então em revista os dados essenciais de biografia deste homem. Ricardo é o primeiro dos cinco filhos que nascerão do casamento de Gabriel Carvalho e de María Dolores Carvalho. É precisamente sua mãe que lhe ensina as primeiras letras e lhe incute o gosto pela leitura. Sua mãe, que morre quando ele tem apenas nove anos. Jaime Quintanilha, uma das figuras de maior prestígio entre a intelectualidade de Ferrol na época, é quem o estimula a escrever. Com 11 anos, entra no colégio do Sagrado Coração de Jesus, dirigido pelo Professor Manuel Comellas Coimbra, dramaturgo e escritor regionalista, que o inicia no estudo da literatura clássica. Na revista de Ferrol Maruxa, publica poemas sob pseudónimo. Mais tarde publicará na revista Vida Gallega e no jornal local, El Correo Gallego. Com 16 anos conclui os estudos secundários e matricula-se no curso de Filosofia e Letras da Universidade de Santiago de Compostela. Frequenta também o preparatório de Direito. Estamos em 1926.

Anos antes, em Setembro de 1923, o Capitão - General da Catalunha, Miguel Primo de Rivera, sublevara-se contra o Governo e, apoiado por numerosas unidades militares, dera um golpe de Estado, instaurando uma ditadura militar que iria durar até Janeiro de 1930. Constituindo uma tentativa de regenerar, quer uma caótica situação, quer uma economia depauperada, a Ditadura agravou a crise política e económica e contribuiu para desgastar ainda mais o poder real, incapaz de solucionar o desfasamento entre a ânsia de industrialização e de modernização manifestada por vastos sectores da burguesia e o conservadorismo do binómio monarquia – igreja Católica, bem como as crispações nacionalistas, e precipitou a queda de Afonso XIII e o advento da II República. É neste quadro sócio – político que decorre a juventude de Ricardo, que adere a movimentos de contestação estudantil, e participa na intensa acção política daqueles tempos «Lembro as cargas da Guarda Civil a cavalo, no Campo de Dom Mendo, que ocupava o espaço onde hoje se situa o Campus universitário», contará ele num debate em 1986.

É eleito presidente da FUE (Federação Universitária Escolar). Em 1927, indiciando o seu apego à cultura galega, integra-se no SEG (Seminário de Estudos Galegos), onde além da leitura de poemas e da actividade como seccionista chega ao cargo de secretário-geral. Relaciona-se com Figueira Valverde, Sebastiám Gonçález, Ramom Martínez Lôpez e outros. O ideal galeguista começa a despontar. Porém, isso não impede que os seus guias continuem a ser grandes poetas de língua castelhana, gente da chamada «Geração de 27» - García Lorca, sobretudo. O Seminário de Estudos Galegos desencadeia entusiasmo, provocando acalorados debates em que intervêm, entre outros, elementos destacados do grupo «Nós», tais como Alfonso Castelão, Otero Pedrayo, Vicente Risco… É um convívio agitado e enriquecedor de que Carvalho Calero guardará gratas recordações.

No ano seguinte publica a sua primeira colectânea, Trinitarias, que reúne poemas em castelhano, escritos entre os 14 e os 16 anos e o texto de uma conferência En torno a las ideas comunistas de Platón. Em 1931, conclui os estudos de Direito e sai a público o seu primeiro livro de poemas em galego, Vieiros, editado pela «Nós», de Ângelo Casal. Neste mesmo ano, com Alfonso Castelão, Paz Andrade, Lugris Freire, Alexandre Bóveda e outros, funda o Partido Galeguista. Com Luis Tobio, concebe um Anteprojecto do Estatuto de Autonomia para a Galiza. Começava, no seu Artigo 1º, com a seguinte formulação: “A Galiza é un Estado libre dentro da República Federal Española.”

Em Agosto de 1932, durante a homenagem prestada em Lugo a Alfonso Castelão (1886-1950), é apresentado ao filólogo português Manuel Rodrigues Lapa. Em 1933 é forçado a abandonar Santiago, obtendo por concurso um lugar de funcionário do Concelho de Ferrol. É neste ano que casa com María Inácia Ramos,. Em 1934 publica a colectânea poética O Silêncio axionllado. Em 1935, colabora em diversas publicações ao mesmo tempo que escreve duas peças teatrais: O Filho e Isabel (Isabel só será concluída depois de terminada a guerra. As peças são concebidas para ser editadas pela Nós. Esta editora definira em 1919 uma linha de defesa do idioma, considerando-o apto para qualquer uso, como qualquer outra língua. No entanto, a partir de 1923, este propósito entrou em rota de colisão com a política oficial da ditadura, segundo a qual o galego era um dialecto rural, de pescadores e lavradores, enquanto o castelhano era a língua de cultura, das pessoas ilustradas. De uma forma geral, a burguesia deixou-se convencer por esta disparatada hierarquia. Curiosamente, a mesma orientação que o franquismo viria a definir na aculturação sistemática a que sujeitou as nações submetidas.




A GUERRA CIVIL

No ano de 1936, Ricardo conclui a licenciatura em Filosofia e Letras que frequentara como aluno voluntário. O Partido Galeguista reforça-se. O Estatuto de Autonomia é amplamente aprovado no Referendo realizado em Junho. No mês seguinte, a invasão do território da República pelo exército de África, desencadeia a Guerra Civil. Dispensamo-nos de descrever o que foi essa guerra, dramática como todas as guerras, com a particularidade de os alemães e os italianos a terem usado como campo de ensaio para as suas máquinas de morte e de com ela terem testado e explorado as indecisões e contradições, das chamadas democracias e da União Soviética. Se a França, a Grã-Bretanha, os Estados Unidos e a Rússia tivessem actuado de forma mais enérgica, talvez a catástrofe que meses depois provocou milhões de mortos, pudesse ter sido evitada. Mas voltemos a Ricardo.

Quando a guerra começa, Carvalho está em Madrid, preparando o concurso para professor catedrático. Alista-se como miliciano no Exército da República. É promovido a oficial e colocado em Valência. Depois é transferido para a Andaluzia, onde vem a ser aprisionado pelos nacionalistas. Quando, em 1939, termina a guerra com a vitória franquista, Ricardo é julgado e condenado a prisão perpétua, acusado dos crimes de ser «separatista» e «oficial do exército republicano». Porém, o ter vivido a guerra fora da Galiza, significa a sua salvação, pois os filiados no Partido Galeguista, bem como os aderentes à Frente Popular são ali, de uma forma geral, passados pelas armas. É evidente a intenção de decapitar a nação galega (bem como a Catalunha e o País Basco), eliminando a sua intelectualidade.




LIBERDADE CONDICIONAL

No entanto, em 1941 é posto em liberdade condicional e regressa a Ferrol. Impedido de ensinar nas escolas do Estado, ganha a vida no ensino particular. Estes anos difíceis, dramáticos, reflectem-se no seu livro Scórpio, bem como na poesia que produz. Colabora no jornal La Noche, sob o pseudónimo de Fernando Cadaval. Escreve três peças de teatro e o seu primeiro romance. No ano de 1950 vai para Lugo, onde ensina no Colégio Fingói do qual virá a ser director. Ostracizado, vigiado pela polícia política, Ricardo refugia-se na escrita. Os anos que se seguem, serão de uma grande produtividade criativa. Afortunadamente, é fundada a Editorial Galáxia que não só terá um papel central na publicação das obras de Carvalho Calero, como será um motor do desenvolvimento da cultura galega.




ANOS DE GRANDE PRODUÇÃO LITERÁRIA

Em 1951 escreve Gente da Barreira, o primeiro romance publicado em galego no pós-guerra e logo no ano seguintes saem os seus Poemas pendurados de un cabelo. No ano de 1954, com a dissertação Aportaciones fundamentales a la literatura gallega contemporánea, obtém o grau de doutor na Universidade de Madrid. Em 17 de Maio de 1958 é admitido na Real Academia Gallega com o discurso Contribuiçom ao estudo das fontes literárias de Rosalía. Em 1963: publica a sua monumental “História da Literatura Galega Contemporânea”, uma obra infra-estrutural da cultura galega contemporânea. No ano seguinte,: deixa a direcção do Colégio Fingói, sendo admitido em 1965 como professor interino de Língua e Literatura Galegas na Universidade de Compostela. Preenche também (em 1966) uma vaga de professor efectivo no Liceu Feminino Rosalía de Castro, de Santiago de Compostela. A sua vida docente e a sua situação económica é agora equilibrada. Ainda em 1966 é publicada a primeira edição da sua “Gramática elemental del gallego común”, outra obra-chave para a recuperação da dignidade linguística do galego. No ano de 1970 preenche por concurso a vaga para catedrático de Linguística e Literatura Galega na Universidade de Compostela e logo no ano seguinte publica Sobre língua e literatura galega. Saem também A Sombra de Orfeu, Farsa das Zocas, A Árbore e o Auto do Prisioneiro. Quando, em 1977, morre Sebastiám Martínez Risco, presidente da Real Academia Galega. Ricardo Carvalho Calero é o académico indigitado para o substituir.

Não aceita.




O IDIOMA CONSOLIDA-SE, GRAÇAS AO ESFORÇO DE RICARDO

Em 1979 são publicados os seus Estudos Rosalianos: aspectos da vida e obra de Rosalía de Castro; sai também Libros e Autores Galegos. Integra a Comissão Linguística da Junta Pré-Autonómica, a qual elabora as Normas Ortográficas do Idioma Galego. Em 1980 passa à situação de Professor jubilado, abandonando a docência, mas mantendo a sua grande actividade criativa. Quando em 1981 se faz o lançamento, em Santiago de Compostela da edição portuguesa do seu livro Problemas da Língua Galega, o seu velho amigo Manuel Rodrigues Lapa, vem expressamente de Lisboa para estar presente nesse acto.

Em 1982 um desaire – pelo chamado decreto Filgueira, o governo da Alianza Popular do governo autónomo, anula as Normas Ortográficas que haviam sido aprovadas por consenso em 1979. Ricardo mantém uma posição de grande dignidade perante esta prepotência dos servidores do centralismo. Talvez como compensação, em 1984, é convidado por Filgueira Valverde, seu antigo colega de estudos e membro do governo autónomo (autor do decreto), para integrar o Conselho de Cultura Galega. Mas também acontecem coisas boas - publica finalmente, em 1987, Scórpio, por muitos considerado o melhor romance escrito em língua galega. É admitido como membro ordinário da Academia das Ciências de Lisboa e também considerado membro de honra da Academia Galega da Língua (AGAL), da Associação de Escritores em Língua Galega e das Irmandades da Fala.

Esta girândola de actividades e homenagens tem um preço – fatigado e doente, regressa em Janeiro de 1990 ao seu Ferrol natal, vindo a morrer em 25 de Março desse mesmo ano em Santiago de Compostela. Em 1996, o Parlamento da Galiza declara-o por unanimidade “Filho Ilustre da Galiza”. A sua biblioteca pessoal é instalada em lugar próprio, no edifício do Parlamento.




A PERGUNTA MANTÉM-SE – PORQUÊ?

Na realidade para quem, como eu, está analisando a questão de fora, tendo apenas os dados disponíveis a toda a gente, torna-se incompreensível que a um homem como Ricardo Carvalho Calero que, inclusivamente, foi indigitado como presidente da Real Academia Galega, seja negada a homenagem que desde há dez anos lhe é proposta. Porquê? Será que a Real Academia é real e académica, mas se esquece de ser Galega? Como pode negar dez vezes, ano após ano, a um dos filhos mais ilustres da sua nação uma honra que obviamente mereceria? Será que a Real Academia Galega defende o castrapo e não, como Ricardo Carvalho Calero sempre fez, o galego puro, genuíno e provindo das mais profundas raízes da história do seu povo? Peço perdão se estou a ser injusto, sou um estrangeiro, não tenho talvez o direito de fazer a pergunta nestes termos. Quando e se me for dada uma resposta convincente, saberei pedir as devidas desculpas. Até lá, perguntarei, uma, mil, um milhão de vezes – Porquê?