O português não é nada filósofo; a luz do seu olhar alumia mais do que vê (…)

Teixeira de Pascoaes

Poeta:
1877 - 1952



Quando tudo aconteceu...

1877: nasce em Amarante, no seio de uma família aristocrática, o segundo filho (de sete) de João Pereira Teixeira de Vasconcelos, juiz e deputado às Cortes e de Carlota Guedes Monteiro.1883: inicia os estudos primários em Amarante. 1895: redige a sua primeira obra poética (Embriões). 1896: inscreve-se no curso de Direito da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. 1901: licencia-se e estabelece-se como advogado, primeiro em Amarante e, a partir de 1906, no Porto. 1911: é nomeado juiz substituto em Amarante, cargo que exerce durante dois anos. 1913: dá por terminada a sua carreira judicial e dedica-se por inteiro à sua obra poética e cultural. 1915: Publica Arte de Ser Português. 1919: Publica Os Poetas Lusíadas (conjunto de conferências proferidas na Catalunha). 1921: Publica O Bailado. 1924: Publica A Elegia do Amor. 1928: Publica Livro de memórias (autobiografia). 1934: Publica S. Paulo, iniciando uma série de biografias romanceadas: S. Jerónimo e a trovoada (1936), Napoleão (1940), Camilo Castelo Branco o penitente (1942) e Santo Agostinho (1945). 1952: morre aos 75 anos, em Gatão, de bacilose pulmonar, alguns meses depois da morte da sua mãe.

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OBRA

- Belo/ À Minha Alma/ Sempre/ Terra Proibida, “Obras Completas”, I, introd. e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Livraria Bertrand, s.d.
- À Ventura/ Jesus e Pã/ Para a Luz/ Vida Etérea, “Obras Completas”, II, introd. e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Livraria Bertrand, s.d.
- As Sombras/ Senhora da Noite/ Marânus, “Obras Completas”, III, introd. e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Livraria Bertrand, s.d.
- Regresso ao Paraíso/ Elegias/ O Doido e a Morte, “Obras Completas”, IV, introd. e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Livraria Bertrand, s.d.
- Cantos Indecisos/ Londres/ Dom Carlos/ Cânticos/ O Pobre Tolo, “Obras Completas”, V, introd. e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Livraria Bertrand, s.d.
- Painel/ Versos Pobres/ Últimos Versos/ Dispersos/ Outros poetas falam de Pascoaes, “Obras Completas”, VI, introd. e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Livraria Bertrand, s.d.
- Livro de Memórias, “Obras Completas”, VII, introd. e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Livraria Bertrand, s.d.
- O Bailado, “Obras Completas”, VIII, introd. e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Livraria Bertrand, 1973.
- O Pobre Tolo/ versão inédita), “Obras Completas”, IX, introd. e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Livraria Bertrand, 1973.
- A Beira (num relâmpago)/ Duplo Passeio, “Obras Completas”, X, introd. e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Livraria Bertrand, 1975.
- O Empecido, “Obras Completas”, XI, introd. e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Livraria Bertrand, 1975.
- A Velhice do Poeta, Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, UCP/FF, 1973, XXIX/ 2, pp. 123-156.
- Uma Fábula (o Advogado e o Poeta), Porto, Brasilia Editora, 1978.
- Arte de Ser Português, Lisboa, Edições Roger Delraux, 1978.
- São Paulo, apresentação de António Pedro de Vasconcelos, Lisboa, Assírio & Alvim, 1984.
- Napoleão, introd. de Fernando Guimarães, Lisboa, Assírio & Alvim, 1985.
- O Penitente( Camilo Castelo Branco), apresentação de António Pedro de Vasconcelos, Lisboa, Assírio & Alvim, 1985.
- Os Poetas Lusíadas, introduzido por “reflexões sobre Teixeira de Pascoaes” por Joaquim de Carvalho reflectidas por Mário Cesariny, Lisboa, Assírio & Alvim, 1987.
- A Saudade e o Saudosismo (dispersos e opúsculos), compil., introd., fixação do texto e notas de Pinharanda Gomes, Lisboa, Assírio & Alvim, 1988.
- São Jerónimo e a Trovoada, introd. de António M. Feijó, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992.
- O Homem Universal e outros escritos, fixação do texto, pref. e notas de Pinharanda Gomes, Lisboa, Assírio & Alvim, 1993.
- Santo Agostinho (comentários), fixação do texto, introd. e notas de Pinharanda Gomes, Lisboa, Assírio & Alvim, 1995.
- Ensaios de Exegese Literária e vária escrita, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004.
- D. Carlos (drama em verso), pref. de Pinharanda Gomes, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010.
- Pensamentos e Máximas, sel. e apres. de António Cândido Franco, Maia, Cosmorama, 2010.
AA.VV.
- Homenagem a Teixeira de Pascoaes, Coimbra, Associação Académica de Coimbra, 1951.
- In Memoriam de Teixeira de Pascoaes, Lisboa, IN-CM, 1980.
- Nova Renascença (nº dedicado a Teixeira de Pascoaes), Porto, Fund. Eng. António de Almeida, 1997, nº 64/66.
- Encontro com Teixeira de Pascoaes: no cinquentenário da sua morte, org. de Paula Morão e Maria das Graças Moreira de Sá, Lisboa, Colibri/ Dep. de Literaturas Românicas da FLUL, 2004.
- Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (nº dedicado a Teixeira de Pascoaes), Porto, 2004, n. 21.
- Pascoaes, Portugal e a Europa, NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI, nº 4, 2º semestre de 2009.
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- Princípio e Manifestação no Pensamento Português Contemporâneo: Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes (TD-UL, 1999), Lisboa, IN-CM, 2008.
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- Teixeira de Pascoaes e o projecto cultural da “Renascença Portuguesa” (TM-UNL, 1994), Bragança, Instituto Politécnico, 2000.
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- Reflexões sobre Teixeira de Pascoaes, Amarante, Tâmega, 1991.
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- Teixeira de Pascoaes 1887-1952, Gaia, Estratégias Criativas, 2004.
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- Pascoaes: D’’As Sombras’ à ‘Senhora da Noite’, Lisboa, Átrio, 1992.
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Vasconcelos, Maria da Glória Teixeira
- Olhando para trás vejo Pascoais, introd. de António Cândido Franco, Lisboa, Assírio & Alvim, 1996.





PENSAMENTO

Teixeira de Pascoaes foi, de longe, o poeta de eleição dos nossos filósofos, em particular de José Marinho. Eis, desde logo, o que podemos atestar lendo a sua dissertação de Licenciatura, Ensaio sobre a Obra de Teixeira de Pascoaes, onde escreveu, em jeito de conclusão, que “ele é depois de Camões o maior poeta de Portugal e um dos grandes poetas modernos sendo que, segundo nos parece, realizou com o Regresso [ao Paraíso] a obra mais afirmativa que se fez após o Fausto”.
Eis, ainda, o que podemos atestar lendo o conjunto de textos que redigiu, entre a década de quarenta e os primeiros anos da de cinquenta, para um projectado livro sobre Teixeira de Pascoaes, intitulado Pascoaes e a poesia do etéreo, onde o afirma como “o primeiro poeta português”, como um dos “raros sobreviventes de uma maravilhosa raça de homens ou de semi-deuses”, como um representante da “mais pura sabedoria do ocidente e do oriente”, cuja poesia “se situa no extremo processo agónico do cristianismo e anuncia entre sombras e contrastes a nova idade do ser e da vida sempre adiada, sempre presente”.
E, por isso, qualificou-o Marinho, em outros textos seus, como “o mais glorioso e irredutível dos nossos heterodoxos”, como “o novo arauto da velha heresia”, como “o mais genial vidente da nossa poesia, e sem dúvida dos mais geniais videntes que o nosso Ocidente viu”, escrevendo ainda, por ocasião da sua morte, as seguintes palavras: “Poesia prodigiosa e imensa, devemos-lhe uma parte da iniciação no sentido daquela difícil sabedoria de que os poetas visionários e os pensadores afins são, na Europa, os últimos representantes visíveis.”.
A esse respeito, Marinho não poderia, com efeito, ter encontrado melhor Mestre. Em Pascoaes, o Absoluto é, simultaneamente, o mais distante – o para além de toda a relação – e o mais próximo – o verdadeiro ser de todo o ser. E por isso, como o próprio Marinho reiteradamente referiu, foi, de facto, Pascoaes um “poeta da natureza”, um “poeta cósmico”, “de mais amplo e abissal sentido cósmico”, um poeta “panteísta”, sendo o seu panteísmo “produto duma comunhão íntima com os seres” – nessa medida, um poeta “profundamente terrestre sem pertencer à terra”, um “poeta materialista no sentido mais fundo do termo”, dado que vê em toda a matéria a presença do “espírito”, do próprio “ser absoluto ou Deus”. Daí, aliás, ainda nas palavras de Marinho, todo o Enigma: “Sob um aspecto, Natureza e homem são intrínsecos a Deus. Mas este Deus que tudo abrange e que a tudo quanto existe confere o ser próprio e perfeito, esse não podemos nós ver.”. Daí, mais do que isso, todo o Mistério… Mas isso foi algo que o próprio Marinho só veio depois a descobrir, ainda e sempre iluminado por Pascoaes – nas suas palavras: “Ao contrário dos anos juvenis, sabemos hoje que o mistério tem de permanecer imaculado ao penetrar-se.”




EXCERTOS

“O génio lusíada é mais emotivo do que intelectual. Afirma e não discute (…)./ O português não é nada filósofo; a luz do seu olhar alumia mais do que vê (…)./ O português não quer interpretar o mundo nem a vida, contentando-se em vivê-la exteriormente; e tem, por isso, um verdadeiro horror à Filosofia, imaginando encontrá-la em tudo o que não entende.”
- “O fim da Renascença Lusitana é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas, para que a alma desta bela Raça ressurja com as qualidades que lhe pertencem por nascimento, as quais, na Idade Média, lhe revelaram os segredos dos mares, de novas constelações e novas terras, e, de futuro, lhe deverão desvendar os mistérios dessa nova vida social mais bela, mais justa e mais perfeita.”