Fora da poesia não há salvação...

Mario Quintana

Poeta:
1906 - 1994



Quando tudo aconteceu...

1906 - Mario de Miranda Quintana nasce na cidade de Alegrete (Estado do Rio Grande do Sul, Brasil), no dia 30 de Julho de 1906, quarto filho de Celso de Oliveira Quintana, farmacêutico, e de D. Virgínia de Miranda Quintana. 1915 - Em Alegrete, freqüenta a escola do mestre português Antônio Cabral Beirão, onde conclui o curso primário. 1919 - É matriculado no Colégio Militar de Porto Alegre. Seus primeiros trabalhos são publicados na revista Hyloea, órgão da Sociedade Cívica e Literária dos alunos do Colégio. 1924 - Deixa o Colégio Militar. 1925 - Passa a trabalhar na farmácia de seu pai. 1926 - Seu conto, A Sétima Personagem, é premiado em concurso promovido pelo jornal Diário de Notícias, de Porto Alegre. 1927 - A revista Para Todos, do Rio de Janeiro, publica um poema de sua autoria. 1928 – Começa a trabalhar na redação do diário O Estado do Rio Grande do Sul. 1930 - A Revista do Globo e o Correio do Povo publicam seus poemas. Na revolução de Getúlio Vargas, viaja ao Rio de Janeiro como voluntário do Sétimo Batalhão de Caçadores de Porto Alegre. 1931 - Volta à redação de O Estado do Rio Grande. 1934 - Começa a traduzir para a Editora Globo. 1940 - A primeira edição de seu livro A Rua dos Cataventos. 1943 - Começa a publicar o Caderno H, na revista Província de São Pedro. 1946 – Canções é lançado pela Editora Globo. 1948 - Lança Sapato Florido, poesia e prosa. Nesse mesmo ano é publicado O Batalhão de Letras, livro infanto-juvenil. 1950 - O Aprendiz de Feiticeiro. 1951 - Editora Globo publica Espelho Mágico. 1953 – Volta ao Correio do Povo e reinicia a publicação de sua coluna diária Do Caderno H. Publica, também, Inéditos e Esparsos..1966 – É publicada a Antologia Poética, que recebe o Prêmio Fernando Chinaglia como melhor livro do ano. O poeta é saudado na Academia Brasileira de Letras. 1967 - Passa a publicar Do Caderno H no Caderno de Sábado do Correio do Povo. 1973 – Lança o livro Do Caderno H. 1975 – Pé de Pilão, infanto-juvenil. 1976 - Quintanares em edição especial. Governo do Estado concede ao poeta a medalha do Negrinho do Pastoreio — o mais alto galardão estadual. É lançado o livro Apontamentos de História Sobrenatural. 1977 - A Vaca e o Hipogrifo, é publicado em 1977. O autor recebe o Prêmio Pen Club de Poesia Brasileira, por Apontamentos de História Sobrenatural. 1978 - Lançamento de Prosa & Verso, antologia. 1979 - Na Volta da Esquina, coletânea de crônicas. 1980 - Esconderijos do Tempo é publicado. Quintana recebe o Prêmio Machado de Assis conferido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. 1981 – Nova Antologia Poética é publicada pela Editora Codecri. 1982 - Recebe o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 1983 - O prédio do antigo Hotel Majestic (onde o poeta viveu por muitos anos), tombado como patrimônio histórico do Estado em 1982, passa a denominar-se Casa de Cultura Mario Quintana. 1984 – Lançamento de Nariz de Vidro e de O Sapo Amarelo. O Caderno H passa a fazer parte da revista Isto É. 1986 – É publicado Baú de Espantos. 1987 - São publicados Da Preguiça como Método de Trabalho, e Preparativos de Viagem. 1988 – Publicação de Porta Giratória. 1989 - Lançamento de A Cor do Invisível. Recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Campinas (UNICAMP) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 1990 - Velório sem Defunto é lançado. Casa de Cultura Mario Quintana é reinaugurada, após total restauração do edifício. 1994 - Publicação de Sapato Furado. Mario Quintana falece, em Porto Alegre, no dia 5 de maio, próximo de seus 88 anos.

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LEMBRANÇAS E FANTASMAS

Da janela do oitavo andar, Mario Quintana pratica o seu esporte favorito: observar o cotidiano do povo de Porto Alegre. Lá em baixo, a rua da Praia ferve de gente, embora sejam apenas dez da manhã. O olhar de Mario acompanha o movimento, bem devagar, obedecendo ao que seria seu passo de idoso, apoiado na bengala. A rua parece ficar mais agitada à medida que se aproxima da Praça da Alfândega, onde religiosos inflamados disputam ouvidos indiferentes com um cego e sua gaita, com os gritos e risadas de crianças brincando, e com os pregões de vendedores de frutas.

Hoje, a agenda de Mario está cheia: primeiro, aturar outra entrevista e enfrentar aquelas perguntinhas manjadas; depois, a cerimônia da inauguração.

Resignado, Mario acende mais um cigarro e senta-se na poltrona de veludo vermelho, perto da janela. Essas entrevistas! Eles não sabem o horror que tenho das recordações; fazem-me sentir como se estivesse numa sessão espírita.

Entre uma tragada e outra no Marlboro, Mario remexe numa pilha de papéis sobre uma mesinha ao lado da poltrona—procura anotações para um artigo que está escrevendo para a revista Isto É. Seu olhar fixa-se num pedaço de papel com o que parece ser um recado... “Tenta esquecer-me.../ Ser lembrado é como evocar/Um fantasma.../Deixa-me ser o que sou,



O que sempre fui,
um rio que vai fluindo...
Em vão, em minhas margens cantarão as horas
Me recamarei de estrelas como um manto real Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se...
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir...
é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar! (1)





A CASCA DAS HORAS E BOMBONS DE LICOR

Mario recosta-se no capitonê de veludo vermelho. Seu olhar vagueia pelo quarto, fica preso por um instante no quadro com seu mapa astral (Sol em Leão a 6a, ascendente em Peixes a 7a, Lua em Sagitário), liberta-se e perde-se entre os objetos, livros e maços de cigarros sobre a mesa de trabalho até se encontrar com o olhar de Greta Garbo, em perfil de 3/4, no pôster pendurado acima da cabeceira da cama. De súbito, ele vira o rosto, ao se lembrar que ... “os retratos de parede/ Não conseguem ficar longo tempo abstratos./ Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
Porque eles nunca se desumanizaram de todo.
Jamais te voltes para trás de repente.
Não, não olhes agora!
O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim...
Sem fim e sem sentido.
Dessas que a gente inventava para enganar
Solidão dos caminhos sem lua. (2)



Sorri; levanta-se e vai até à mesa de trabalho, pisando e arrastando páginas de jornal espalhadas pelo chão; telefona para a recepção e pede que tragam mais uma garrafa térmica de café, um sanduíche e dois quindins. Minutos depois, alguém bate à porta. É Mauro, o garçom.

—Bom dia, seu Mario—diz o garçom, trazendo uma bandeja com o café, a comida e uma caixa enfeitada com uma vistosa fita e um envelope preso no laçarote.—Feliz aniversário.

—Obrigado, Mauro—diz o poeta abrindo espaço na mesa de trabalho, onde o garçom coloca a bandeja.—Você nunca esquece, não é, rapaz?

—Claro que não, seu Mario. O senhor já é nosso hóspede há tantos anos.

—Esta caixa é presente seu?

—Não, foi uma senhora amiga sua que deixou bem cedinho e pediu para entregá-la só depois das dez.

—Tudo bem, meu amigo. Obrigado—diz Mario, fechando a porta.

Sentado na beira da cama, Mario examina a caixa e começa a abrir o envelope. Tens razão, Mauro...tantos anos. Tantos e nenhuns. Mas, fazer o quê? A vida é assim mesmo...“a vida é uns deveres que trouxemos para fazer em casa/ Quando se vê já são seis horas, há tempo.../ Quando se vê já é sexta-feira... Quando se vê passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
Se me dessem, um dia, outra oportunidade,
Eu nem olhava o relógio,
Seguia sempre, sempre em frente

E iria jogando pelo caminho
A casca dourada e inútil das horas... (3)



No envelope, a mensagem em caligrafia bem desenhada: “Querido Mario, Feliz Aniversário. Tive que me ausentar de Porto Alegre e não vou te ver hoje na inauguração. Mas volto amanhã e passarei por aí para te dar um grande abraço. Parabéns por tudo. Glória”.

Mario sabe qual é o conteúdo da caixa—foi ele quem sugeriu o presente: bombons recheados de licor. Depois de grandes excessos e duas internações, no início da década de 1950, é a única forma de álcool que os médicos lhe permitem beber. Mas para ele, aquilo havia sido apenas um simples porre...que durou vinte e cinco anos.




CONFISSÕES NUMA VÍRGULA

Espero que na entrevista não toquem nesse episódio da bebida. Mas eles são imprevisíveis; é melhor eu tomar a iniciativa, porque “...o maior chato é o chato perguntativo. Prefiro o chato discursivo ou narrativo, que podemos ouvir enquanto pensamos noutra coisa...” Bolas, se quiserem saber de mim, que leiam os meus escritos. “Minha vida está nos meus poemas, eles são eu mesmo; nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão.”

Agora reclinado na cama, Mario acende outro cigarro, escolhe um bombom, saboreia a guloseima, e tenta ensaiar o que dizer durante a entrevista, sem perder o bom humor.

“Olha—diz Mario dirigindo-se a uma cadeira de vime ocupada por um entrevistador fantasma—eu nasci em 30 de julho de 1906, em Alegrete, na região da fronteira com o Uruguai e Argentina, no rigor do inverno, temperatura: 1 grau. E ainda por cima, prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro.” (4 )

Em 1928, vim para Porto Alegre e comecei a trabalhar no jornal O Estado do Rio Grande do Sul. Consegui publicar algumas de minhas poesias no Correio do Povo e na Revista do Globo. Em 1930, fui para o Rio de Janeiro como voluntário na revolução liderada por Getúlio Vargas, mas seis meses depois regressei a Porto Alegre e à redação de O Estado do Rio Grande. Em 1934, comecei a traduzir clássicos franceses e ingleses para a Editora Globo. O Proust, o Balzac, o Voltaire, o Maupassant, e a Virginia Woolf, entre outros, passaram pelas minhas mãos. Ao todo, foram cento e trinta e oito obras traduzidas.

Aí, surge a pergunta: E você não escrevia? Claro que sim. “Eu comecei a escrever desde que comecei a me entender por gente. Mas a minha primeira obra só foi publicada em 1940, quando eu tinha 34 anos. Foi A rua dos cataventos.”

Mario vai até à janela e permanece algum tempo observando o movimento das ruas. Volta-se para o entrevistador imaginado e continua: As más línguas não dão trégua—dizem que eu caço assombrações dentro de mim, caço a mim mesmo, fico desenterrando as ruas de Alegrete na cidade grande. Ora, bolas!

Sempre fui fascinado por ruas e por tudo que acontece nelas. Não é de hoje que... Sinto uma dor infinita/ Das ruas de Porto Alegre/ Onde jamais passarei...

(...) Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(...)
E talvez de meu repouso...” (5)

O telefone toca. Alguém na recepção informa que uma jornalista está subindo. Mário aponta para a cadeira de vime e diz: é você em carne e osso, arruma o robe cinza-azulado e vai abrir a porta.





A POESIA É UMA FORMA DE FALAR SOZINHO

— Oi , como vai? Seja bem-vinda.

Seguem-se as apresentações de praxe.

— Que prazer vê-lo novamente—diz a jornalista.—Nos conhecemos no ano passado durante um simpósio de poesia na Feira do Livro.

— Sim, claro. Você também é poeta, não é mesmo?—diz Mario indicando a cadeira de vime, perto de uma mesinha onde ele já tinha colocado a garrafa térmica e duas xicrinhas.—Fique à vontade.

A jornalista coloca um gravador sobre a mesa e informa que a entrevista será apresentada na Rádio FM Cultura logo mais. Depois arruma um caderno de notas e um livro, Mario Quintana, Nova Antologia Poética, ao lado da garrafa térmica. Acomodando-se na cadeira, ela comenta sobre um evento poético que está acontecendo na cidade, uma espécie de maratona de 24 horas de poesia, em que poetas sobem ao palco para dizer poemas seus, uns dos outros e de muitos outros, incluindo poemas de Mario.

—Vários poemas seus foram apresentados e comentados—diz a jornalista mostrando a Mario uma cópia do programa do evento.—Logo no início alguém apresentou um que fala de poesia. Posso dizê-lo para os nossos ouvintes?

—Claro. Ainda bem que você usou “dizê-lo”. Detesto declamações.

A jornalista, lendo:


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde
e pousam no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti... (6 )
— Eu não fui ao evento. Estava cansado. É bom saber que existe essa profusão de poetas.

—Recordo-me de um comentário seu: “A poesia e a fotografia têm uma coisa em comum: eternizam o momento que passa”.

O que mais é a poesia para você?

—“A poesia é uma forma de falar sozinho, é uma loucura lúcida, porque há assuntos que não posso meter em conversa ou vão pensar que estou maluco. Coisas que me impressionam, como uma nuança no muro; o reflexo dos lampiões, de noite, nas poças d’água; uma nuvenzinha que fica parada lá no céu perdida das outras... Esse é o assunto dos meus poemas.”

—Em que outra profissão consegue se imaginar?

—“Poeta não é profissão. É um estado de espírito, ou de coma. Eu queria ser um pajem medieval...Mas isso não é nada. Pois hoje eu queria ser uma coisa mais louca: eu queria ser eu mesmo.”

—A julgar pela sua obra, dizem que há vários Quintanas. Afinal, quantos Quintanas existem?

—Bem, há o Quintana poeta, coisa que acontece quando ele está fazendo poemas. Por isso, quando me perguntam “O senhor é o Mario Quintana? Eu respondo: Às vezes!” Há também o humorista, o brincalhão, o lírico, o solitário, e, talvez, outros. Cheguei a ser chamado de poeta suave e até de anjo poeta. Um exagero.

—Falando de exagero, por que você não usa acento no nome Mario?

—Talvez por preguiça—responde Mario, coçando a cabeça.—"A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda”.

—Que conselho tem para nossos ouvintes sobre poesia?

—Olha, eu posso alertá-los para o avesso do poema que você acabou de ler. Recomendo um poema que pode ser usado pelos ouvintes como ponto de partida:

Sábias agudezas... refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a
morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras. (7 )





VEM! VAMOS CAIR NA MULTIDÃO!

—O seu livro A rua dos cataventos já foi descrito como uma espécie de filme de cenas compostas por sonetos. Concorda?

Mario acende um cigarro e serve um cafezinho para a jornalista.

—Sim, claro. A poesia não é uma associação de idéias, é uma associação de imagens.

—O livro foi publicado na época do modernismo em que o soneto era tido como coisa do passado. Por quê escolheu o soneto?

—Pois é. Para os narizes empinados da crítica no eixo Rio/S. Paulo, era poesia arcaica cheia dos resquícios de um Simbolismo já morto e enterrado. Veja só. Eles nem desconfiavam que “pertencer a uma escola poética é o mesmo que ser condenado à prisão perpétua. Nada mais natural que eles façam propaganda de uma poesia coletiva: os rebanhos desconhecem a primeira pessoa do singular.”

—Mas o livro foi um enorme sucesso, não foi?

—Foi. Sabe por quê? Porque falava de coisas simples, coisas miúdas da vida e eu só queria uma maneira nova de olhar o mundo e surpreender a realidade.

—Ou ser surpreendido por ela? Como no poema:

Não sei o que querem de mim
essas árvores, essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas
só de as olhar um momento...(8)

—As surpresas são muitas, de parte a parte. É por isso que já fiz todos os gêneros poéticos.

—Segundo os críticos, houve uma evolução na sua poesia desde A rua dos cataventos. Que evolução foi essa?

—Isso é o que eles dizem hoje. Mas, olhe, “pior, muito pior do que as lágrimas de crocodilo são os sorrisos do crocodilo. Eu nunca evolui, sempre fui eu mesmo”.

—Você diria que recusou o isolamento da torre de marfim das escolas e escolheu a rua? Isso parece claro no Soneto IV—diz a jornalista, abrindo e folheando o caderno de notas.—Os nossos ouvintes, na certa, vão gostar de ouvi-lo:

Minha rua está cheia de pregões.
Parece que estou vendo com os ouvidos: “Couves! Abacaxis! Cáquis! Melões!”
Eu vou sair pro Carnaval dos ruídos,

Mas vem, Anjo da Guarda... Por que pões
Horrorizado as mãos em teus ouvidos?Anda: escutemos esses palavrões
Que trocam dois gavroches atrevidos!

Pra que viver assim num outro plano?Entremos no bulício quotidiano...
O ritmo da rua nos convida.

Vem! Vamos cair na multidão!
Não é poesia socialista... Não,
Meu pobre Anjo... É...simplesmente...a Vida!... (9)



Mario permanece calado, absorto nas transparências onduladas que surgem da ponta do cigarro.
—Sua sobrinha , Elena, disse numa entrevista recente que você é irreverente e tem dificuldade de se enquadrar em formalidades. Esse soneto não é prova disso?
—Olha, não adianta interpretar um poema; ele já é uma interpretação.
—Mas não é essa irreverência através do humor que faz tanto sucesso nas crônicas e aforismos do seu Caderno H, publicado nos jornais?
—Pode ser—diz Mario soltando uma sonora gargalhada.—O humor torna mágica a banalidade do nosso dia-a-dia. Sabe por quê? Porque o cotidiano está cheio de mistérios e surpresas.
—E de perdas e golpes como você tão bem descreve no Soneto XVII—diz a jornalista, abrindo a antologia e começando a ler:


Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha... (10)

—Mas, olhe, no final das contas “vale a pena estar vivo—nem que seja para dizer que não vale a pena”.




EPIGRAMAS E POEMINHAS

—Muitos de seus poemas em prosa caíram na boca do povo. Os nossos ouvintes conhecem epigramas como “A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe”; “O canibalismo é a maneira exagerada de apreciar o seu semelhante.” Esse contato direto e bem-humorado com o público ajuda na divulgação da sua obra ou atrapalha?

—Olha, prefiro que você cite a opinião dos outros sobre mim e sobre meu trabalho.

A jornalista dá uma olhada no caderno de anotações.

—Alguns críticos dizem que o Caderno H ajuda porque apresenta uma escrita lírica e acessível e, por isso, conquistou uma multidão de leitores. Quem não se deixaria conquistar por algo tão singelo como: “Quando duas pessoas fazem amor...estão dando corda ao relógio do mundo”.

—Eu gosto de escrever o máximo usando o mínimo de palavras.

—Esses críticos dizem também que a simplicidade acaba sendo uma armadilha que torna a sua poesia popularesca, não muito séria.

—Pois é. Para os nossos escoliastas ser acessível é um enorme pecado—diz Mario, após um profundo suspiro.

—Por outro lado, essa consagração do público já levou muitos críticos a reavaliar a sua obra, dizendo que você pertence à segunda geração do modernismo brasileiro. Os que não concordam continuam sendo alvo do seu “Poeminha do contra”, não é mesmo?


Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...Eu passarinho (11)
Mario não responde; apenas sorri. O sorriso torna-se mais largo quando a jornalista acrescenta:
—E há aquele outro poeminha:


Não te irrites, por mais que te fizerem
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio... (12)
—O bom humor nem sempre é valorizado em certos ambientes, como os acadêmicos—diz Mario.
—Li em algum lugar que os círculos oficiais também não aceitaram o humor no seu livro infantil O Batalhão das Letras. O que aconteceu?
—Esse foi o meu primeiro livro infantil. Foi em 1948, na época da ditadura. A Secretaria de Educação não gostou de uma quadrinha que fiz em referência à letra “x”: “Com o x se escreve xícara, com x se escreve xixi, não faça xixi na xícara, o que irão dizer de ti”. A secretaria aconselhou os colégios a não adotar o livro.
—Houve algum problema com os outros livros infantis?
—Os círculos oficiais amadureceram. Quando publiquei Pé de Pilão, Lili inventa o mundo, Sapo amarelo, Nariz de vidro, não tive nenhum problema.





O QUE É O HUMOR?

—A sua poesia parece ser fácil—diz a jornalista—mas , na realidade, é profunda e complexa. O humor é um disfarce?

—O humor é um tipo de filtro. “Acontece que tenho horror ao sentimentalismo verbal. Daí certos toques de humor nos meus poemas. Um toque de impureza, digamos”. Acho que posso rir do espetáculo do mundo sem zombar dele.

—Mesmo abordando alguns dos temas mais difíceis? Como a morte, o sobrenatural, a passagem do tempo, Deus, os conflitos entre a essência e a aparência?

—Claro, porque na vida as coisas se entrelaçam. Veja no meu poema:

O tempo é uma invenção da morte
não o conhece a vida - a verdadeira
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são... (13)
—E qual seria a sua mensagem?

—“A minha mensagem? Nenhuma. Não sou moço de recados.”

—Mas a sua obra está repleta de referências religiosas.

—Sim, mas note que “eu sou um herege de todas as religiões. É por isso que não consigo compreender os que deixam uma religião e se convertem a outra. Para que mudar de dúvidas?”

—No Caderno H você diz: "A teologia é o caminho mais longo para chegar a Deus." A poesia encurta esse caminho?

—O homem, mesmo sem saber, assim o quis. Veja bem: “O bicho quando quer fugir dos outros, faz um buraco na terra; o homem, para fugir de si, fez um buraco no céu”.

—E a poesia passa por aí?

—Sim, claro. Fora da poesia não há salvação.

Mario aponta para o livro da jornalista e diz:

—Por favor, veja aí nessa antologia o poema Se eu fosse um padre. Seus ouvintes vão fazer uma melhor idéia.

A jornalista localiza o poema e lê:



Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,
não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...

Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,
Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!Porque a poesia purifica a alma
... e um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
sempre coloca o Poeta face a face com Deus! (14)

—“A falar a verdade—diz Mario—não importa se a gente acredita ou não em Deus, mas se Deus acredita na gente. Da minha parte só acredito na segunda Pessoa da Santíssima Trindade, pois temos testemunho histórico de que Jesus Cristo viveu entre nós. Santo da minha devoção? São Jorge, com seu cavalo e seu dragão. Sou devoto dos três”.

Mario é interrompido pelo toque do telefone.

—Oi, Elena. Tudo bem?...Sim... Estou no meio de uma entrevista para a FM Cultura... Não sei ... Não estou certo... A gente se vê lá.





MINHA VIDA NÃO FOI UM ROMANCE

Enquanto Mario fala com a sobrinha, a jornalista anota os graus no mapa astral. Pega em flagrante, ela explica que é fã de astrologia.

—O seu ascendente é Peixes, o mais plástico dos signos porque...

—Porque a vida começou no mar—diz Mario.—É lá que tudo começa de novo...sempre.

—É por isso que é tão comum sentirmos a presença da esperança na sua obra? Lembro-me daquele poema em que você diz:

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas! (15)

—Eu falo muito da esperança.

—E sobre o amor? O poema “Bilhete” foi endereçado a alguma de suas famosas musas, entre elas a Greta Garbo? —pergunta a jornalista, que em seguida lê o poema:

Se tu me amas,
ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.

Se me queres, enfim,
tem de ser bem devagarinho, amada,
que a vida é breve,
e o amor mais breve ainda. (16)

Mario escuta, permanece calado quando ela termina. Levanta-se, vai até à janela, onde fica por alguns minutos em silêncio. O olhar, perdido no espaço, nem percebe o movimento na rua da Praia.

"Minha vida não foi um romance.../Nunca tive até hoje um segredo./Se me amas, não digas, que morro/
De surpresa...de encanto...de medo...(...)
Minha vida não foi um romance...
Ai de mim...já se ia acabar !
Pobre vida que toda depende
De um sorriso...de um gesto...de um olhar... (17)

Quando Mario volta a sentar-se, a jornalista pergunta:

—Você sempre viveu sozinho em hotéis e pensões. Para você existe solidão?

Mario brinca com o isqueiro em cima da mesa e acende um cigarro antes de responder.

—“O único problema da solidão consiste em conservá-la. E depois, eu preciso da solidão porque sou um lobisomem da poesia. Escrevo de meia-noite em diante, até às três ou quatro horas. À noite, a gente só é visitado por fantasmas e eles são silenciosos.... Isso é muito bom, porque a solidão do poeta se comunica com outras solidões e assim estabelece o fluxo da poesia”.

—Então, a sua percepção poética fica mais aguçada durante a noite. Foi assim que você escreveu sobre a formiguinha? “Uma formiguinha atravessa, em diagonal, a página ainda em branco. Mas o poeta, naquela noite, não escreveu nada. Para quê? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida..." (18)
—Pois é—diz Mario.—A noite me encanta com os seus mistérios.




QUEM TEM MEDO DO HUMOR DE QUINTANA?

—Os críticos ainda hoje falam de outro mistério. O seu nome foi apresentado como candidato à Academia Brasileira de Letras, mas foi rejeitado. Por quê a rejeição?

—Não uma, nem duas, mas três vezes—esclarece Mario, sorrindo.—Isso foi em 1981 e 1982.

—Mas, em 1966, a Academia prestou-lhe uma homenagem e, em 1980, você recebeu dela o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Então, por que eles votaram contra?

—Sei lá! Talvez tenham pensado que eu começaria por ridicularizar um símbolo deles, o próprio fardão. Ou que eu acabaria quebrando as xícaras de porcelana do famoso chá das cinco.

—Ou que eles poderiam ser objeto da sua ironia? Como no poema:

Era um grande nome – ora que dúvida!
Uma verdadeira glória.
Um dia adoeceu, morreu, virou rua...
E continuaram a pisar em cima dele”.(19)

—Não, não, longe de mim!—diz Mario.—Afinal, eles são... imortais.

A jornalista disfarça um sorriso e continua:

—Na primeira homenagem da Academia você foi saudado pelo poeta Manuel Bandeira com um poema que consagrou a palavra “quintanares” criada por você em “Canção de barco e de olvido”.

—Sim, esses são os meus poemas em prosa. Gostei muito do poema do Bandeira:

(...)

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares...
Insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!


—Hoje, qual é a sua relação com a Academia?

—“Eu sempre me dei com gente de lá. Não estou dizendo que ‘as uvas estão verdes’, mas, na verdade, eu nunca quis pertencer à Academia”.

—Houve um tempo em que você ficou sem ter onde morar quando o expulsaram do hotel Majestic, no centro de Porto Alegre. Foi nessa ocasião que você escreveu: “a bomba abriu um enorme buraco no telhado por onde o céu azul sorri aos sobreviventes”?

—Fui despejado, porque o proprietário, o Correio do Povo, tinha ido à falência. O hotel seria desativado para virar uma agência bancária.

—Mas isso gerou uma campanha popular e o edifício foi tombado e transformado na “Casa de Cultura Mario Quintana” que vai ser inaugurada hoje. Irônico, não acha?

—Para mim, é uma grande honra.

—Além das homenagens da Academia e do Estado, quantas universidades já lhe concederam o título de Doutor Honoris Causa?

—Umas três ou quatro, além de muitas outras homenagens—diz Mario, em voz mais baixa sem a força e timbre anteriores.—Todas elas um pouco cansativas.

Ele pega no isqueiro e no maço de cigarros e pergunta:

—A que horas vão irradiar a entrevista?

—Às 18 horas—responde a jornalista, que logo depois encerra com os agradecimentos de praxe.

Ao despedir-se, Mario acompanha a jornalista até à porta, dá-lhe um beijo no rosto e diz que adorou a visita.

—Pena que não vou estar em casa a essa hora.





O MELHOR PRESENTE

Certa vez, Mario escreveu que o grande presente que gostaria de ganhar era ver a Casa de Cultura concluída. O sonho concretizou-se. Agora, ele apronta-se para participar da inauguração—escolhe a sua roupa favorita, um terno azul marinho e uma camisa de seda branca. Os versos que escreveu há tanto tempo, não lhe saem da cabeça:

A gente sempre deve sair à rua
como quem foge de casa
Como se estivessem abertos diante de nós
todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos,
as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe,
de alma aberta e o coração cantando! (20)


O palanque para os convidados está armado na Travessa dos Cataventos. Mario aproxima-se da multidão de milhares de pessoas, que, ao vê-lo, abre um corredor e começa a gritar o seu nome e a jogar papel picado. Mal escondendo a emoção, ele segue com seu passo trôpego amparado pela bengala até o palanque. Já estão todos lá, o governador, o prefeito, e outras autoridades, para a abertura oficial do maior centro cultural de Porto Alegre com sua programação de literatura, cinema, teatro, música, e distribuição de material didático e de pesquisa sobre o poeta. Enquanto aguarda sua vez de dizer algumas palavras, Mario tenta escutar os enfadonhos elogios anunciados pelas autoridades, mas é vencido pela vontade de isolar-se e ficar falando sozinho:

Meu bonde passa pelo Mercado
Mas o que há de bom mesmo não está à venda,
O que há de bom não custa nada.
Este momento de euforia é a flor da eternidade.
E essa minha alegria inclui também
minha tristeza...
De súbito, Mario é trazido de volta ao convívio do palanque quando um dos oradores pronuncia seu nome com mais veemência. Mario olha para o orador e acrescenta, por trás de um sorriso:

- a nossa tristeza...
Tu não sabias, meu companheiro de viagem?
Todos os bondes vão para o infinito! (21)





UM GRANDE OLHAR AZUL POUSADO EM MIM...

Mario sabe que os deveres que trazia para fazer em casa estão quase terminados; em breve, não terá deveres nenhuns. Agora, deitado na cama do Hospital Moinho dos Ventos, ele sorri ao pensar que “a morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”. Seu olhar vagueia lentamente pelo teto e paredes até se concentrar no pedaço de céu que penetra pela janela. E, assim, ele continua falando sozinho, fazendo poesia, embora só lhe reste falar sobre “este quarto de enfermo, tão deserto/ de tudo, pois nem livros eu já leio/ e a própria vida eu a deixei no meio/ como um romance que ficasse aberto...

Eu olho é o céu, imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

Pois o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.

A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim... (22)





30/ 07/1906 05/ 05/1994

[Na mesma pedra se encontram / Conforme o povo traduz
Quando se nasce - uma estrela / Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...E a luz da estrela no fim!]

Inscrição para um portão de cemitério

em A cor do invisível


(1) Tenta esquecer-me em Nova Antologia Poética, Ed. Globo, S. Paulo, 1998.

(2) Os retratos de parede em Esconderijos do tempo

(3) Seiscentos e sessenta e seis em Esconderijos do tempo

(4) Texto escrito pelo poeta para a revista Isto É, de 14/11/1984

(5) O mapa em Apontamentos de história sobrenatural

(6) Os poemas em Esconderijos do tempo

(7) Projeto de prefácio em Baú de espantos

(8) Soneto IV em A rua dos cataventos

(9) Poeminha do contra em Prosa e Verso

(10) Da observação em Espelho mágico

(11) Ah, os relógios em A cor do invisível

(12) Se eu fosse um padre em Nova Antologia Poética

(13) Das utopias em Espelho mágico

(14) Bilhete em Esconderijos do tempo

(15) Canção para uma valsa lenta em Canções

(16) Extraído do Caderno H

(17) A verdadeira arte de viajar em Preparativos de viagem

(18) Meu bonde passa pelo mercado em Baú de espantos

(19) Este quarto em Apontamentos de história sobrenatural

Obs: Alguns diálogos refletem comentários do poeta expressados em várias entrevistas.