Dos nobres agora não vejo os currais mas vejo dos brancos suas construções.

Ruy Alberto Duarte Gomes de Carvalho

Poeta, cineasta, antropólogo e romancista.:
1941 - 2009



Quando tudo aconteceu...

1941: Nasce em Santarém, Portugal a 22 de abril de 1941. Filho de um aventureiro caçador de elefantes passou parte de sua infância na cidade de Moçâmedes, atual Namibe, no sul de Angola. – 1955: Retorna a Santarém. – 1960: Realiza o curso de Regente Agrícola na Escola Superior Agrária. – 1963: Após viver em Moçambique e na Inglaterra, volta para Angola com 22 anos. Trabalha também nos setores de cafeicultura e pecuária. Foi criador de ovelhas. – 1971: Embarca para Lourenço Marques, onde foi chefe de produção de uma fábrica de cerveja. – 1972: Parte para Londres para estudar realização cinematográfica, local de lançamento de seu primeiro livro de poemas, intitulado Chão de oferta. – 1975: Após a independência, produz uma série de filmes documentários para a TPA (Televisão Popular de Angola) – 1976: Lança seu segundo livro intitulado A decisão da idade. – 1977: Lança seu primeiro livro em prosa intitulado Como se o mundo não tivesse leste.– 1982: Obteve o diploma da École des Hautes Études de Sciences Sociales, em Paris com o filme Nesilita. – 1983: Adquire a nacionalidade angolana. – 1986: Doutora-se na École des Hautes Études de Sciences Sociales, em Paris, com uma tese sobre a produção da diferença cultural entre os pescadores da costa de Luanda. – 1989: realiza o longa metragem documentário Moia: o recado das ilhas, sua última obra cinematográfica. – 1989: Ganha o Prêmio Nacional de Literatura, em Angola. – 1999: Lança sua primeira narrativa longa. Vou lá visitar pastores... – 2000: Lança Os papéis do inglês, primeiro livro da trilogia Os filhos de próspero. – 2003: Lança Actas de Maianga, dizer da(s) guerra(s) em Angola. 2005: Lança As paisagens propícias, segundo livro da trilogia Os filhos de próspero, e a antologia de poemas, intitulada Lavra. – 2007: Lança Desmedida, Luanda – São Paulo – São Francisco e volta, obra que ganhou o prêmio literário Casino de Póvoa em 2008. A narrativa se passa nos sertões brasileiros. – 2008: O CCB (Centro Cultural Belém) realiza um ciclo sobre sua vida e obra, a primeira a um autor de língua portuguesa. – 2009: Lança A terceira metade, terceiro livro da trilogia Os filhos de próspero. – 2010: Falece em Swakopmund, na Namíbia, onde residia.

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ANGOLA NO SÉCULO XX: INSTABILIDADE POLÍTICA E INQUIETUDE CULTURAL

Ruy Duarte de Carvalho nasceu em 1941, época de grande instabilidade política nas colônias europeias em África, com os ventos do fim da Segunda Guerra Mundial insuflando os movimentos por independência nos territórios ocupados. Neste processo de luta política, artistas e intelectuais desempenharam papel fundamental, construindo discursos de resistência e identidade, que repercutiram dentro e fora do continente africano.
Um dos momentos marcantes em Angola seria o lançamento da revista literária Mensagem, em 1949, em que orbitaram os escritores da chamada ‘Geração dos Novos Intelectuais’ sob a palavra de ordem Vamos descobrir Angola. Nomes como Agostinho Neto, António Jacinto e Viriato da Cruz compunham uma nova safra de escritores e intelectuais angolanos, que sofreram forte influência do pensamento pan-africanista e dos textos de Aimé Césaire e Léopold Senghor.
Seria a geração seguinte, no entanto, cujo momento instaurador foi o lançamento do jornal Cultura (1957), que alteraria o perfil dos escritores angolanos até aquele momento. O aparecimento de autores dos gêneros do conto e do romance e a ampliação temática na poesia modificaram a forma e o conteúdo da produção literária de Angola, caracterizada, até a década de 1950, pela presença majoritária de poetas.
Em 1958, a atividade panfletária em praças públicas e escolas aumentou consideravelmente. Por toda a parte, particularmente em Luanda, falava-se de revolução armada, tornando imbricados o discurso literário e jornalístico que incitava a população à revolução.
Poucos depois, em 1961, após a prisão de militantes destacados, como Agostinho Neto, inicia-se a resistência armada em Angola. Na década de 1960, a maioria das colônias europeias em solo africano já havia conseguido a independência. Portugal, no entanto,irá endurecer a repressão aos movimentos por autodeterminação que surgiam em suas colônias, cujos objetivos só serão alcançados em 1975, após a Revolução dos Cravos.




A TRANSIÇÃO POR DIFERENTES LINGUAGENS

Um dos traços mais marcantes na obra de Ruy Duarte de Carvalho é a utilização de diferentes linguagens. Sua obra é o lugar onde convergem diferentes influências estéticas: o cinema, a poesia e a oralidade, a narrativa e a antropologia.
Como a maioria dos escritores angolanos do período, Ruy Duarte de Carvalho inicia-se na poesia com Chão de oferta (1972), lançado em Londres, três anos antes do fim da guerra colonial. Lançaria, ainda na década de 1970, mais um livro de poesias e uma obra de narrativas curtas intitulada Como se o mundo não tivesse leste (1976).
Além dessa produção literária e ensaística, Ruy Duarte de Carvalho dirigiu, até o ano de 1989, uma série de documentários, tendo, inclusive, apresentado um filme, Nesilita (197O', p/b, 16 mm – 1982) como requisito para obtenção do diploma da École des Hautes Études de Sciences Sociales de Paris, onde em 1986 doutorou-se em antropologia. Sua obra cinematográfica é composta, em sua maioria, de documentários dirigidos para a TPA – Televisão Pública de Angola, na qual Luandino Vieira atuava como diretor.
Sobre esse trajeto que se inicia na poesia, passa pelo cinema e integra-se na antropologia, diz o autor:
[...] se foi a poesia, passando pela ponte do cinema, que me transportou à antropologia, à apreensão fundamentada no conhecimento dito objetivo disponível sobre a substancia humana com que a vida me implicou , foi de facto a antropologia – embora sem programa prévio mas sempre como via, também, de expressão e de intervenção – que me transportou à ficção... (CARVALHO, 2008, p.22).

É a antropologia, como via de expressão e intervenção, que o leva à ficção, e é a poesia que o faz passar pelo cinema. O autor designa à experiência cinematográfica a fusão de sua expressão escrita aos recursos, às expressões e aos registros da oralidade com os quais convivia e cujo universo sempre frequentou.

As duas primeiras formas artísticas adotadas por Ruy Duarte de Carvalho – a poesia e o cinema - têm presença marcante da oralidade como matriz de inspiração e como objeto de pesquisa. Nas décadas de 1980 e 1990, essas formas cedem espaço aos ensaios e narrativas. Seu último livro de poesia – Observação directa - data do ano 2000, exceção feita à Lavra, compilação de sua obra poética lançada no ano de 2005.

Após Observação directa, seguir-se-á uma década de intensa produção literária, com o lançamento de cinco narrativas longas e um ensaio, até o ano de sua morte, em 2010. Nesta década, a narrativa passa definitivamente a ocupar o espaço antes ocupado pela poesia. Entretanto, a poesia não desaparece da obra do autor, pelo contrário, integra-se ao texto em prosa, sem perda estética para ambas as expressões.


É essa escrita atravessada pela oralidade, pela poesia ocidental, pelo cinema e pela etnografia que o autor vai desenvolver entre os anos de 2000 e 2010. Ruy Duarte de Carvalho encontra na narrativa ficcional a forma ideal onde convergem todas as suas influências, todas as linguagens que utilizara, até então, como forma de expressão. Conforme observou o autor em sua antologia poética, “[...] acho que de 98 para cá, talvez, passei a creditar a outras vazões de escrita os fluxos poéticos que se me foram atravessando...” (CARVALHO, 2005, p. 09).




A POESIA E A ORALIDADE

A oralidade é uma característica das culturas africanas, e as narrativas, mesmo após a sua caracterização como palavra escrita, permanecem marcadas pela tradição oral. Muitos pesquisadores apontam para o fato de a poesia ser tão marcante em solo africano por ser esta a forma literária que mais se aproxima da oralidade marcada na história do continente. Mesmo em contos e romances é possível detectar essa influência e este caráter oral.

A obra poética de Ruy Duarte de Carvalho reúne 10 títulos publicados entre os anos de 1972 e 2000, quando passa a dedicar-se à produção de narrativas e romances. Sua poesia está ligada à expressão poética da tradição oral de duas formas: como tradução, adaptação e reconversão de textos já estabelecidos; e pelo fato de sua produção se projetar em um universo temático e mesmo formal que remete às sonoridades e ao imaginário que normalmente identificam o tom da expressão oral tida como original. Para o autor, é na relação entre o novo e o antigo que se reconhece a viabilidade do exercício poético. Um exemplo dessa relação é o poema Profecia de Nakulenga – Origem Kwanyama:

PROFECIA DE NAKULENGA – ORIGEM KWANYAMA
Algo de estranho se agita nas águas
algo de estranho se arrasta na terra.
Era longe, ficou perto, agora é cá.
E o povo já foge.
Talvez até caia
um pau de omuhama

na estrada a indicar que para o rei
a morte vai chegar
a vida é breve.

Eles vêm de um país muito distante
e trazem para dizer coisas diferentes
que é preciso avaliar com atenção.
Cruzava o país e dos nobres eu via
os ricos currais.

Renovo a viagem
e que vejo agora?
Dos nobres agora não vejo os currais
mas vejo dos brancos
suas construções.

(1982, Ondula, savana branca)


Obra poética:
1972 Chão de Oferta,Luanda, Culturang (prémio Motta Veiga de Poesia, Luanda, Angola, 1972 )
1976 A Decisão da Idade, Luanda/ Lisboa, UEA/ Sá da Costa Editora
1978 Exercícios de Crueldade,Lisboa, “e Etc.”
1980 Sinais Misteriosos… Já se Vê…, Luanda/ Lisboa, UEA/ Edições 70, (menção honrosa, Exposição dos Livros Mais Belos do Mundo, Leipzig)
1982 Ondula, Savana Branca, Luanda/ Lisboa, UEA, Sá da Costa Editora
1987 Lavra Paralela, Luanda, UEA
1988 Hábito da Terra, Luanda, UEA (prémio Nacional de Literatura, 1989)
1992 Memória de Tanta Guerra, Lisboa, Editora Vega
1997 Ordem de Esquecimento, Lisboa, Quetzal Editores
2000 Lavra Reiterada, Luanda, Edições Nzila
2000 Observação Directa, Lisboa, Edições Cotovia
2005 Lavra, poesia reunida 1970-2000, Lisboa, Edições Cotovia





O CINEMA DE URGÊNCIA - PARA ALÉM DO FILME ETNOGRÁFICO.

A obra cinematográfica de Ruy Duarte de Carvalho foi produzida entre os anos de 1976 e 1989. Foram 20 filmes, entre curtas, médias e longas-metragens, a maioria produzidos entre 1976 e 1979 para a TPA – Televisão Pública de Angola, dirigida por Luandino Vieira, após a conquista da independência. Essa produção cinematográfica será um importante instrumento para o conhecimento do autor acerca da diversidade étnica de Angola.

Ao longo dos 300 km percorridos desde Luanda até ao interior do deserto do Namibe, havíamos atravessado quatro das nove áreas lingüísticas do país e nada menos que quinze populações etnicamente diferenciáveis. Desta viagem resultaria uma série de documentários cuja estruturação e montagem nos impuseram uma reflexão que muito rapidamente nos conduziria para além do domínio do cinema.(CARVALHO, 2008, p.389)

O resultado dessa viagem será a primeira série de documentários intitulada É a vez da voz do povo. Para Ruy Duarte de Carvalho, a esta cinematografia angolana estaria ligada uma característica predominante: a da urgência.
Urgentes também se revelavam para nós, em fevereiro de 76, a necessidade e a vontade de mergulhar, atrás das tropas angolanas que retomavam o território aos Sul-Africanos, num país que iríamos redescobrir, então, destruído, paralisado, mas no entanto, fremente de excitação: era a independência, era o começo de uma nova era, lindamente aguardada. (CARVALHO, 2008, p. 389)

Filmes - 1976
Uma Festa para Viver, 40’, p/b, 16mm, TPA

Angola 76, É a Vez da Voz do Povo (série):

Sacode o Pó da Batalha, 4O’, p/b, TPA
Está Tudo Sentado no Chão, 4O’, p/b, 16mm, TPA
Como Foi Como Não Foi, 2O’, p/b, 16mm, TPA
Faz Lá Coragem, Camarada, 12O’, p/b, 16 mm, TPA
O Deserto e os Mucubais, 2O’, p/b, 16mm, TPA


Em 1979, uma segunda viagem, orientada para o levantamento dos problemas das populações ao sul do país, resultaria na série Presente Angolano, Tempo Mumuíla. Estes filmes seriam apresentados precedidos do seguinte texto:
O trabalho completo totaliza cerca de seis horas de cinema, repartidas em 10 filmes cuja duração varia entre 20 e 60 minutos, e constitui uma abordagem preliminar e global ao presente da população mumuíla, do grupo étnico-linguístico Nyaneka-Humbe, sudoeste de Angola.(CARVALHO, 2008, p. 390)

Filmes - 1979

Presente Angolano, Tempo Mumuíla (série)

A Huíla e os Mumuílas, 2O’, p/b, 16 mm, TPA
Lua da Seca Menor, 6O’, p/b, 16mm, TAP
Pedra Sozinha Não Sustém Panela, 4O’, p/b, 16 mm, TPA
Hayndongo, O Valor de um Homem, 4O’, p/b, 16 mm, TPA
Makumukas, 3O’, p/b, 16 mm, TPA
O Kimbanda Kambia, 4O’, p/b, 16 mm, TPA
Kimbanda, 2O’, cor, 16 mm, TPA
Ekwenge, 2O’, p/b, 16 mm, TPA
Ondyelwa, 4O’, cor, 16 mm, TPA
Ofícios, 3O’, p/b, 16 mm, TPA

Toda a série foi selecionada para a Semana dos Cahiers du Cinèma (1980), em Paris; e para o Fórum do Jovem Cinema, no Festival de Cinema de Berlim (1981).

Em 1982, o autor lançaria mais dois filmes, dessa vez sem o apoio da TPA: O Balanço do Tempo na Cena de Angola, que receberia o prêmio para a melhor média metragem no Festival de Aveiro (1984) e Nesilita, que lhe daria o diploma da École des Hautes Études de Sciences Sociales de Paris, e também receberia prêmios em diversos festivais internacionais, como o Prémio especial do júri no Festival de Cartago (1983), o Prémio Cidade de Amiens (1983), e o prémio para a melhor ficção, no Festival de Aveiro, dentre outros. Em 1989 lançaria seu último filme, Moia: o recado das ilhas.

Filmes – anos 1980

1982 - O Balanço do Tempo na Cena de Angola, 45’, cor, 16 mm, IAC
- Nelisita, 7O’, p/b, 16 mm, IAC

1989 - Moia: o recado das ilhas, 90’ cor





NARRATIVAS EM PROSA

A partir de 1999, a narrativa em prosa passa a ocupar lugar central na produção de Ruy Duarte de Carvalho. Nos dez anos seguintes, o autor lançaria seis títulos entre narrativas, ensaios, crônicas e romances: Vou lá visitar pastores (1999); Actas da Maianga (2003); Desmedida, Luanda – São Paulo – São Francisco e Volta, Crónicas do Brasil (2007); e a trilogia composta por Os papéis do inglês (2000), As paisagens propícias (2005) e A terceira metade (2009).
Há muitas implicações nestes títulos que remetem para a convergência e para o diálogo entre as obras. Logo no início de Os papéis do inglês, o narrador pergunta:
Voltaste a pegar nos Pastores...? Prometeste fazê-lo enquanto eu agora andasse por aqui. Vê onde diz que o Paulino é um Ganguela dos que vivem há muito tempo no Namibe e me acompanha, como assistente, ajudante... (CARVALHO, 2007, p.13).

Os ‘Pastores’ é uma referência à obra Vou lá visitar pastores..., narrativa acerca de uma viagem realizada na província do Namibe, sudoeste de Angola, em 1997, em que manteve contato com alguns pastores Kuvale. É importante notar como Ruy Duarte de Carvalho parte da oralidade marcante no território angolano para chegar à sua expressão escrita. O livro é uma transcrição de fitas-cassetes gravadas pelo autor com vias a entregá-la a um amigo repórter da BBC, que iria encontrá-lo nessa viagem. Como o próprio Ruy Duarte de Carvalho afirma, apesar dos sistemas de representação orais africanos atravessarem sua obra e, mesmo, interpenetrarem-na, o transporte desses sistemas de representação para a escrita em língua portuguesa resulta numa tradução da “africanidade” e da “angolanidade”, segundo as evoluções estéticas, discursivas e observacionais do próprio autor. E conclui:

[...] é por aí que se tem processado essa integração, na consciência e nas experiências do cidadão angolano que sou, do pensamento, das lógicas, da visão e da expressão de concidadãos meus que são também para mim, culturalmente e como não podia deixar de ser, o “outro” (e para quem da mesma forma, eu não poderei deixar de ser o “outro”). O meu próprio fenótipo não admite duvidas a tal respeito, a minha língua materna é o português e a minha via de expressão é sobretudo a escrita. E tenho procurado nunca perder isso de vista e situar aí, precisamente, o terreno das minhas preocupações operativas. (CARVALHO, 2008, p.50-51).


O autor lançaria ainda mais duas narrativas, Actas de Maianga, dizer da(s) guerra(s), em Angola, lançada em 2003, em que utiliza notas, excertos de crônicas e de diários para avaliar a guerra nas suas implicações políticas globais, bem como a imagem de Angola produzida e retida no exterior; e Desmedida (2007), narrativa de viagem pelo sertão brasileiro em que a experiência da travessia será partilhada em diálogo com relatos de viajantes como Blaise Cendrars e Richard Burton, dentre outros. Ruy Duarte de Carvalho se soma a uma tradição de relatos de viajantes estrangeiros em território brasileiro. Desde a chegada dos europeus que os relatos se proliferam, normalmente exaltando a beleza natural e o elemento indígena.

O que há de novo no relato de Ruy Duarte de Carvalho é a sua condição (sempre frisada) de africano, do interior de Angola. Ou seja, o relato estrangeiro não parte do norte - imperial, mas do sul - colonial. É desse lugar de origem –“de África, de Angola”– que surge uma diferença significativa. Mas o centro da obra é o diálogo com escritores brasileiros, especialmente os que retrataram o sertão, como Euclides da Cunha e Guimarães Rosa.

A influência de Guimarães Rosa sobre o autor é notável nas citações contidas no livro, e explicitada em palestra realizada em Coimbra por conta do lançamento de As paisagens propícias, em 2005:

Defrontei-me então muito arduamente com as primeiras páginas do Grande Sertão e deixei-me depois entrar naquilo para passar a ser, a partir de então e até agora, um leitor permanente e perpétuo de Guimarães Rosa. Que aliás me atingiu e envolveu de muitas e variadas maneiras.
Em primeiro lugar, talvez, eu estava a encontrar ali, finalmente, um tipo de escrita e de ficção adequado à geografia e à sua substância humana que eu andava então, regente agrícola da Junta do Café, a freqüentar e a fazer-me delas por Angola fora. [...] E nas paisagens que G.R me descrevia eu estava a reconhecer aquelas que me eram familiares................. já porque de natureza a mesma que muitas das paisagens de Angola – e em algumas das paisagens de Angola eu reconhecia aquelas, enquanto o lia – já porque a gente que ele tratava, gente de matos e de grotas, de roças e capinzais, era também, em Angola, aquela com quem durante muitos anos andei a lidar pela via do ofício e do viver. (CARVALHO, 2008, p.13)


Narrativas:

1999 Vou lá visitar pastores, Lisboa, Livros Cotovia [Rio de Janeiro, Griffo, 2000]
2003 Actas da Maianga, Lisboa, Livros Cotovia
2007 Desmedida, Luanda – São Paulo – São Francisco e Volta, Crónicas do Brasil, Lisboa, Livros Cotovia (prémio Casino da Póvoa, Póvoa de Varzim, 2008)





ENTRE PRÓSPERO E CALIBAN

A obra ficcional inicia-se em 1976, com a reunião de narrativas curtas intitulada Como se o mundo não tivesse leste. Na primeira década do século XXI o flerte com a ficção romanesca irá assumir contornos mais sofisticados e elaborados na trilogia Os filhos de Próspero, composta por Os papéis do inglês (2000), As paisagens propícias (2005) e A terceira metade (2009).
Uma das características marcantes dessa produção é a tensão entre os limites discursivos de disciplinas diversas e a problematização de acontecimentos históricos. Misturando fatos reais com ficção, a trilogia é uma obra de difícil classificação, pela convergência de discursos literários – prosa, poesia, diário – e não literários – registros etnográficos, ensaios antropológicos e narrativas orais.
Na obra estão representados as complexas relações coloniais Europa-Africa, a saber: o colonizador português (Henrique Galvão), o espectro inglês (Archibald Perkins, e sua ingerência sobre o português), o colonizado africano –angolano (Trindade), o branco-mulato da Namíbia (Severo), dentre outros. Em cada um deles, o discurso éproblematizado e relativizado. Épossível verificar, na ficção de Ruy Duarte de Carvalho, a desmontagem sistemática das estruturas e hierarquias de poder e saber, a interrogação das versões oficiais sobre o colonialismo e sobre as culturas autóctones, e a representação de sintomas sociais enraizados nesses processos.
Trata-se de um universo em que todas as fontes de informação ocupam lugar semelhante no que concerne à legitimidade. Sejam os escritos do colonizador, sejam os relatos orais ou os documentos históricos registrados em cartórios de Angola, tudo é passível em igual medida, para o autor, aos processos de subjetivação do indivíduo.
Vale destacar que o narrador se confunde com o próprio autor– Ruy Duarte de Carvalho. Embora não seja nomeado pelos demais personagens, há diversas passagens na obra em que de modo indireto o autor é referido.
É possível detectar também certa crítica ao modelo de Estado-Nação adotado no período pós-independência. Para Ruy Duarte de Carvalho, esse “Estado-Nação” pós-colonial é elemento essencial a essa organização que impõe a ideologia do progresso ocidental. Segundo o autor, “os poderes atuais herdaram dos poderes coloniais não só o lugar de decisão, mas também o ângulo de visão”. E isso aconteceu porque o poder foi passado para as elites mais ocidentalizadas, que utilizam-se dos mesmo processos cognitivos em sua concepção de mundo. “Como se o ocidente tivesse estendido um espelho à África no qual os africanos são hoje obrigados a ver-se”. (CARVALHO, 2008, p.43).

Nas palavras do próprio Ruy Duarte de Carvalho, há de chegar o tempo em que “reabilitação da cultura nacional seja feita não por meio da percepção do folclore como expressão do povo, mas ‘como expressão da configuração social, política e ‘cultural’ que o produz’.” (CARVALHO, 2008, p.233).

Ficção:
1977 Como se o Mundo não Tivesse Leste, contos, Luanda/ Porto, UEA/ Limiar 2
2000 Os Papéis do Inglês, Lisboa, Edições Cotovia
2005 As Paisagens Propícias, Lisboa, Edições Cotovia
2009 A Terceira Metade, Lisboa, Edições Cotovia


Além da produção poética, cinematográfica e literária, Ruy Duarte de Carvalho também produziu ensaios etnográficos e atuou como professor, lecionando em Luanda, Coimbra, São Paulo, Paris e Berkeley.


Ensaios:
1980 O Camarada e a Câmara, cinema e antropologia para além do filme
etnográfico.Luanda, INALD.
1989Ana a Manda - os Filhos da Rede.Lisboa, IICT.
1997 Aviso à Navegação - olhar sucinto e preliminar sobre os pastores Kuvale….Luanda, INALD.
2002 Os Kuvale na História, nas Guerras e nas Crises.Luanda, N´Zila
2008 A câmara, a escrita e a coisa dita.Lisboa, Livros Cotovia.