Talvez a angiografia, não a leucotomia, lhe devesse ter valido o Prémio Nobel...

António Egas Moniz

Médico, investigador, prémio Nobel:
1874 - 1955



Quando tudo aconteceu...

1874: António Egas Moniz nasce, em Avanca, concelho de Estarreja, Beira Litoral. - 1891: Matricula-se na Universidade de Coimbra. - 1899: Forma-se em Medicina. - 1908: na sequência do golpe revolucionário de 29 de Janeiro, é preso. - 1902: Leitor em Coimbra. - 1911: Muda-se para Lisboa, onde passa a ensinar a recente cadeira de Neurologia. - 1903: Eleito membro do Parlamento. - 1916: Nova prisão (motivada pelas suas ideias antiditatoriais). - 1917: Funda o Partido Centrista. Mais tarde, nomeado Embaixador em Madrid por Sidónio Pais. - 1918: Presidente da Delegação Portuguesa à Conferência de Paz de Versalhes. - 1927: A primeira angiografia cerebral bem sucedida, num paciente vivo, é concretizada a 28 de Junho. - 1949: Prémio Nobel da Medicina. - 1950: Publica “A Nossa Casa”, memórias autobiográficas. - 1955: Morre a 13 de Dezembro.

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PRÓLOGO

Olá. Eu sou o Narrador do que estão ler. Deseja o meu Autor que eu seja, simultaneamente, um Narrador participativo (na intriga) e dialogante (com o leitor). Aqui estou, portanto, a falar contigo. Quero dizer-te duas coisas. A primeira é que as opiniões que exprimo são minhas, enquanto Narrador e Personagem, e não correspondem necessariamente às do meu Autor. A Segunda é lembrar-te que o que estás a ler é uma obra de ficção escrita pelo meu Autor e, por conseguinte, o responsável por tudo o que eu digo e penso e faço, é ele.




CICLO FORMATIVO

Que sim, respondo eu, que é óptimo. O Egas Moniz, penso com os meus botões, eis uma oportunidade de falar do cérebro, da mente, da psique, da Segunda Era da Grande Exploração. E um português, como na Primeira, os Descobrimentos, na crista da onda. Tudo muito positivo.

Podemos começar por aí, pois foi mesmo por lá que o Chefe começou. (O que ele amofina quando eu lhe chamo Chefe, o Senhor Director.)

- Um positivista, esclarece-me. Investiga-me bem esse ângulo.

Passeia a mão pela careca. É um sujeito pequeno, mas bem proporcionado. Os óculos encavalitados na ponta do nariz. Calças estreitas em baixo e mais largas nas coxas que lhe dão um ar saído dum filme português dos anos 60 (não os produzidos pelo Cunha Telles, mas os comerciais com o Brum do Canto e o Semedo e o Camilo...). No Inverno, fato completo. No Verão, balalaica, para toda a gente ver que viveu em África. Tem setenta e cinco anos e as mulheres dão-lhe cinquenta bem vividos.

Mas estou a perder-me, íamos no Positivismo do Egas, não era?

Uma vez Marxista, sempre Marxista, penso. E atiro-lhe:

- Muito gostam vocês do Positivismo.

- Não estou a perceber-te – devolve a raposa velha.

- Quando um sujeito não exibe pinga de Marxismo, já não é mau que seja materialista. E se for positivista, melhor ainda, o Comte sempre foi secretário do Saint-Simon, influenciaram-se mutuamente e o rapaz até foi socialista utópico...

- Lá estás tu com as tuas coisas...

O cabelo escasso do meu interlocutor começa a ficar revolto no alto da cabeça. Sinal certo de cólera. Passo a fintar o rumo da conversa:

- Já ouviste falar nuns tipos que são os Misterianos?

- O que é lá isso? – abre muito os olhos cinzentos, o que lhe dá um completo ar de doido.

- São uns tipos, em diversas ciências e ramos da filosofia que, no fundo, acham que um sistema nunca se pode compreender a ele mesmo. Estás a ver, o Princípio de Heisenberg, o teorema de Godel, por aí fora.

- O que tem isso de novo?

- Bem, um sujeito do qual agora me não lembra o nome resolveu agrupar toda essa gente sob o mesmo chapéu e chamou-lhes Misterianos. Depois, traçou a ideia através da história – é sempre bom ter uma árvore genealógica. E a seguir, alguns dos visados passaram a responder pelo nome, isto é, assumiram o epíteto. Eis uma nova corrente do pensamento encontrada.

- Isso não interessa nada.

Pronto. Agora sou eu que sinto as orelhas a ficar quentes. Raio do Martins, sempre que se lhe fala duma coisa nova, ou acha que não lhe interessa ou parece não a compreender. Engraçado como houve um tempo em que ele e os camaradas se chamavam progressistas. E eu aqui a tentar não o atacar intelectualmente... Enfim, tenho uma ligação quase filial com o homem. Ajudou-me quando o meu Pai morreu e deu-me emprego no jornal quando todos me davam como um caso perdido de poeta com a cabeça nas nuvens. Estou na secção cultural, claro. O horário é mais leve, pagam-me para ler e ir a espectáculos que compro e vou ver de borla e tenho tempo para os meus poemas mutantes.

Uma das coisas que julgo chatear-me nos Portugueses é o excesso de opiniões. Ainda jovens no exercício dos direitos cívicos (e vai a talho de foice que o bom do Egas, sim senhor, lutou pela Democracia, e encavacou mesmo publicamente o Antigo Regime), os Portugueses julgam que, ao acabar com a censura – abençoado seja, embora pareça que a assombração da bicha ainda ronda por aí – o 25 de Abril lhes deu o direito de emitir qualquer opinião, por mais estapafúrdia. Acreditam em Deus, e se, de chofre, lhes pedirmos uma definição de sacramento não sabem responder. Não é, caro leitor?

Ou então são Materialistas. Exactamente como o Martins, o Senhor Director, o Chefe. Um anti-fascista. Uma vida de martírio pela causa da Liberdade, sempre com a casa às costas, a mulher e os filhos de colónia em colónia, Angola, Moçambique, Timor, as visitas da PIDE, os despedimentos por causa dos conteúdos dos artigos e do excesso de problemas com a censura. Enfim, gira na órbita do Partido Comunista, ao qual chega a pertencer, brevemente, na clandestinidade. Sente-se preso numa camisa de forças.

- E o muro?- perguntei-lhe certa vez.

- Ainda temos muito a aprender com o Marx, menino, ouve o que eu te digo...

Agora, pergunto eu ao leitor, sabe dar-me a definição da Segunda Lei da Termodinâmica, assim de repente? Pois olhe, se eu perguntasse ao Martins, parece-me que ele também não sabia... E diz-se Materialista. Aposto que também falhava o teste do sacramento... E quanto a Positivismo, ele estava a falar de quê? Das ideias iniciais de Comte? Da ideia que teve, depois, duma religião universal? – que falta de Positivismo... Ou dos Positivistas Lógicos, essa raça que via proposições sem significado até nos mais belos poemas? Conseguiria o Martins responder-me? Como é que se pode simultaneamente ser materialista e não conhecer a Segunda Lei da Termodinâmica?

Estão a ver: já não lhe disse que chamara os Misterianos à baila apenas para podermos discutir umas coisas. Independentemente de haver ou não relacionamentos entre as diversas teorias, teoremas, princípios, modelos e hipóteses que juntos constituem o autodenominado Misterianismo, o facto é que o século vinte é todo ele infectado e traumatizado pela revolução do pensamento que a corrente, impulsionou e continua a impulsionar, principalmente na Física. (Baseada nas reflexões e equações de Heysenberg e Schrodinger e Bell e Godel.) Ora, este raciocínio não me parece contestar o Materialismo. Embora o obrigue a ser liberal e não-fundamentalista.

Ora, ouvindo os físicos a falar hoje em dia, parece que estamos a ouvir falar psicólogos ou sábios budistas. Teoremas como o Teorema de Bell parecem provar aquilo que Einstein já intuíra (e o levara a rejeitar a Física Quântica): a telepatia é um modelo adequado para classificar e operar determinados fenómenos. Um bisturi não será, tendo isto em vista, um meio demasiado brutal de tentar equilibrar o Universo? Ou, como diria Teixeira de Pascoaes, “a Natureza odeia a linha recta.”

Claro que já não lhe fiz a pergunta. O Martins, com a idade, às vezes parece confundir sinceridade com desassombro, amar o próximo com ter as quotas do Sindicato em dia, afecto com calduços, ser revolucionário com o complexo de Peter Pan... A malta perdoa-lhe. Afinal de contas ele não dá por ela e como dizia Mark Twain, “o problema com muitos de nós é que sabemos demasiado sobre coisas que afinal não são bem assim”. Eu diria todos nós e humildemente incluo-me nesse grupo, mas sei que me vão achar pedante.




CICLO PRODUTIVO

Ao jantar, conto a um amigo:

- O que é que ando a fazer? Olha, o Director mandou-me preparar mais um daqueles suplementos sobre Grandes Portugueses. Desta vez é o Egas Moniz.

- Boa. Uma coisa de capa e espada sobre fundo nacional.

- Qual quê! O outro.

- O dos cérebros? Ó que pena!

Pasmo. Então o nosso Prémio Nobel, um orgulho científico...

- Pois, mas o que ele fazia era um bocadinho violento, não era?

Bem, a frase do Twain não podia tornar-se mais rapidamente verdadeira, de novo. Desta vez em relação a mim. O que é que eu sei sobre o Egas Moniz? Generalidades, a leucotomia, a angiografia, vá lá e... mais nada.

A verdade é que a minha geração ficou muito impressionada com o “Voando Sobre Um Ninho de Cucos” do Milos Forman (eu fiquei ainda mais impressionado depois com o livro, do Ken Kesey). Eu sei, está bem, são electrochoques. Foi o suficiente para nos pôr a odiar meios intrusivos e lesivos de aceder e manipular o cérebro. Vai daí, realmente nunca tivemos grande orgulho no Egas e, portanto, nada sabemos sobre ele. A típica arrogância do ignorante ou uma intuição acertada?.

Resolvo começar por aí. Tentar perceber primeiro o que é que as pessoas pensam do Egas Moniz. Faço o meu pequeno inquérito. Deixo cair que estou a fazer qualquer coisa sobre o Egas Moniz nos ouvidos de amigos, choferes de táxi, donos e empregados de café e restaurante, balconistas e lojistas, barmen, dj’s e noctívagos. Para meu espanto, é a unanimidade. Todos transmitem uma impressão negativa, às vezes veiculada com algum vernáculo à mistura. Aliás, quanto mais popular o meu interlocutor, mais forte é a reacção. Cortar cérebros, decididamente, não cai no goto dos Portugueses. E nem o Nobel parece poder redimi-lo.

Resolvo passar à fase seguinte: adquirir livros sobre o Egas ou escritos por ele. Nada encontro nas livrarias. O País não parece tê-lo, realmente, em grande apreço. O Martins vai perguntando pelo trabalhinho e eu vou respondendo que sim, mas que também. Por dentro, rogo-lhe pragas. Vais ver o teu positivismo, pá. Até o horóscopo do homem vou escarrapachar, vais ver, até o Chinês. E numerologia, pá, análise do nome e data de nascimento, tudo.

Entretanto, a benevolência de alguns amigos e algumas idas aos alfarrabistas lá me colocam nas mãos alguns livros sobre o Egas Moniz e alguns artigos. Descubro também alguns escritos por ele. Para minha surpresa não são livros científicos, pelo menos todos. “A História das Cartas de jogar”, que deveria ter sido o prefácio a um livro dum amigo sobre Boston. “O Abade de Faria”, a verdadeira história da personagem que Alexandre Dumas desvirtuou no “Conde de Montecristo”, um padre-hipnotizador português e portanto um pioneiro na exploração do cérebro. “A Vida Sexual”, este sim científico, que parece vir dar razão ao Professor Lobo Antunes quando diz que, ao contrário do que afirmam os detractores, Egas estava ao corrente das teorias de Freud e até, apesar de crítico, foi o primeiro a divulgá-las em Portugal.

Ancorado nos meus novos saberes, começo a elaborar a estratégia para o Suplemento.

O Dantas, que é bom nisso, vai escrever a nota biográfica tipo entrada de enciclopédia. Estão a ver o género:

António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz nasce a 29 de Novembro de 1874, 3m Avanca, Beira Litoral. A família pertence à nobreza empobrecida. O padrinho foi o tio, abade da aldeia, com quem vai viver desde os cinco anos até ingressar no Colégio Jesuíta de São Fiel. Recusa ingressar na vida eclesiástica, aparentemente por razões filosóficas (estás contente, ó Martins?). No entanto, aceita o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros no Governo de Sidónio Pais. Retoma as relações diplomáticas com a Santa Sé, que a República interrompera (estás a ver, Martins, a vida não é mesmo a preto e branco...). Forma-se em Coimbra com 16 valores a 31 de Julho de 1899. Tem 25 anos.

Bom, tem de ser na ordem cronologicamente correcta. Mas estás a perceber a ideia, não é, leitor? O Queiroz, que é mais dado à literatice, escreve as caixas. Pequenas histórias tiradas da vida do grande homem:

Os terrores nocturnos. As partidas de garoto. As inglórias partidas do Pai e do irmão para Moçambique (onde morrem na pobreza). O ambiente de Coimbra. Sidónio Pais, Augusto Gil e Afonso Lopes Vieira como colegas e os dois últimos como amigos. O Ultimato. As prisões e o medo da deportação. A primeira arteriografia cerebral. A primeira leucotomia. A Casa-Museu Egas Moniz que é a antiga casa da família, a “Casa do Marinheiro”.


O puto Miguel, que gosta de investigar, vai fazer o retrato político do homem.

No tempo da Monarquia é várias vezes eleito deputado. Até à morte, em 1916, pertence ao grupo político e é amigo de José de Alpoim. Aparentemente nada tem a ver com o regicídio, mas participa na abortada Revolução contra o ditador João Franco. Adere à República. O seu êxito político é quase nulo. Funda o Partido Centrista com dissidentes do Unionista, mas a experiência acaba com o Sidónio. Aí é sucessivamente Ministro dos Negócios Estrangeiros, embaixador em Madrid e delegado à Conferência de Paz em Versalhes em 1918.

A partir desse ano, dedica-se por inteiro à ciência. Por inteiro, excepto às sextas-feiras: ao serão, hábito que terá trazido da província, joga Boston num círculo de habitués. Talvez não fosse mau chamar o especialista em jogos do Jornal e pedir-lhe um artigo sobre o Boston e um comentário ao livro do Egas.

Para falar da temática propriamente médica, tem de haver um ou mais especialistas. Para já, quero um glossário dos termos. O que é angiografia? (Grosso modo, é a visualização, por métodos radiológicos, dos vasos sanguíneos.) O que é leucotomia? E artigos de fundo a comentar esse método de diagnóstico e esse tipo de intervenção cirúrgica. E talvez recorrer a um sociólogo ou a um antropólogo, para outros artigos mais abrangentes.

Como era a investigação científica em Portugal entre os anos 20 e o princípio dos 60. Um retrato do país, do isolacionismo, do “orgulhosamente sós” que leva os nossos cientistas a desconheceram as pesquisas que simultaneamente se fazem no estrangeiro. Apesar de tudo, Egas estuda com Babinsky e Sicard, entre outros, em França, contactos que vêem a revelar-se fundamentais no seu desenvolvimento pessoal e científico.
Vejamos um bom exemplo: pode-se inferir, aparentemente, da autobiografia de Egas Moniz que, enquanto desenvolvia os seus trabalhos sobre o que viria a ser a angiografia cerebral, não estava ao corrente do trabalho prévio, feito na Europa, relacionado com a opacificação em cadáveres dos vasos dos membros superiores e inferiores. E no entanto, as potencialidades do método que inventa são tais que a angiografia, com o passar dos anos, deixa de ser apenas cerebral e generaliza-se como método de diagnóstico. Talvez a angiografia lhe devesse ter valido o Nobel...

Quanto à leucotomia pré-frontal – e à cirurgia psiquiátrica em geral – os primeiros tempos foram a sua Idade do Ouro. Os êxitos parecem retumbantes. O Professor João Lobo Antunes profere números triunfais: “O primeiro psicotrópico só surgiu em 1954 e, entre 1942 e 1954, foram operados 11 mil pacientes no Reino Unido e 18 600 nos EUA, o que permitiu uma redução de 25% na população dos hospitais psiquiátricos. As condições nos hospitais eram terríveis e a disseminação da tuberculose entre os doentes psiquiátricos era extremamente elevada”. Mas o objectivo era reduzir a população psiquiátrica? Com que razões? Económicas? Ora aí está: tenho de entrevistá-lo. E quero confrontá-lo com outra afirmação sua: “tenho estudado a vida e o trabalho de Egas Moniz e sempre me irritou um pouco a forma como as pessoas olham a leucotomia cerebral, sem a colocarem na perspectiva histórica correcta”. Qual é a perspectiva histórica? As coisas más podem passar a ser boas quando bem enquadradas historicamente?

Por outro lado, dizer (como a inteligentzia psiquiátrica portuguesa) que a leucotomia é um método mais humano que os electrochoques remete-me para o uso que os militares dão hoje ao termo humano (armas humanas, balas humanas) ou para a humanidade do Dr. Guillotin. Gostava de dar voz a um debate sério sobre isto, sem os especialistas se esconderem atrás do jargão e sem orgulhos nacionalistas bacocos.

Aliás, o tema dos electrochoques pode muito bem servir para introduzir o Dr. John Lilly, uma vez que este médico concebeu métodos não lesivos de propagação de ondas eléctricas no cérebro com o fim de estudá-lo. E pode ser um bom termo de comparação com o Egas Moniz. E uma introdução a um panorama actual do cérebro. Como progride a sua cartografia. Quais são os novos desenvolvimentos? Porque é que, timidamente, a psicocirurgia parece estar de volta?

Ao longo da sua vida, Lilly, um dos primeiros cartógrafos do cérebro, foi sempre abandonando os métodos de intervenção e diagnóstico mais lesivos em prol de métodos cada vez mais inofensivos, quer para os animais de laboratório quer para os pacientes. Escreve ele: “Qualquer intervenção feita ao crânio e ao cérebro provoca lesões cerebrais, por vezes lesões microscópicas, mas outras vezes lesões enormes.” E afirma, ainda, “a natureza essencialmente frágil do cérebro dos mamíferos”. Claro, se formos pela perspectiva histórica correcta, Lilly é mais novo, etc. e tal. E no entanto, uma vez que foi com 61 anos que Egas Moniz inventou a leucotomia – na sequência dos trabalhos (que ele conhecia? Suponho que não) de Adolf Meyer, o psiquiatra americano que cunhou o termo de psicocirurgia e de Gottlieb Burkhardt, o primeiro pioneiro – os dois investigadores não estão assim tão separados no tempo.

O que me parece separá-los verdadeiramente não é de natureza científica, mas ética e resume-se à reformulação por Lily do Critério Sobre o Ego proposto por Bazett-Haldane:

“Não devemos executar experiências em outros seres humanos antes de nos encontrarmos dispostos a submetermo-nos a elas nós mesmos”. (Só para dar um exemplo da aplicação prática deste critério, Walter Reed submeteu-se ao agente patogénico infeccioso da febre amarela, para testar a sua solução para o problema...) Será que a aplicação deste critério teria deixado Egas Moniz prosseguir com as suas investigações?

Não me compete dar respostas. Sei quais são as regras do jornal e estou de acordo com elas. Somos neutros. Apresentamos factos. Os leitores que tirem as conclusões.




CICLO DA COLHEITA

Parece que tenho o suplemento a começar a tomar forma. Ainda me falta arranjar maneira de introduzir o organicismo científico versus o romantismo naturalista e bucólico que Egas Moniz exprimia em Arte. Quer como consumidor, quer no seu labor de escritor. ”A nossa casa”, aliás é uma obra que tem o valor de nos dar uma visão pessoal da sua vida mas literariamente não parece grande coisa. E enfim, encontrar forma de falar do gastrónomo, do homem de sociedade, das festas que oferecia e onde juntava os filhos dos seus muitos amigos (ele não os tinha, apesar de casado), da Biblioteca em dois pisos que possuía no Palacete que habitava na Avenida Luís Bívar, onde hoje é a Nunciatura, do consultório frente à estátua de Eça de Queiroz na rua do Alecrim. E daquilo que mais me impressiona: Egas Moniz era inveterado jogador de cartas, ganhou um Nobel da Medicina por descobrir um novo tratamento cirúrgico e, como sofria de gota artrítica, era Almeida Lima, fiel colaborador e amigo, quem se prestava a ser as suas mãos.

Mas, amigo leitor, vou acabar com aquilo que me parece mais curioso. O imaginário popular condenou Egas Moniz à morte. Quero eu dizer que, toda a gente com que falei – e eu mesmo, até esta incumbência – afirma que o médico foi morto por um paciente. Não é verdade. Foi Miguel Bombarda que foi morto por um paciente. Egas Moniz foi só alvejado (oito tiros), em 38 e sobreviveu. Havendo inconsciente colectivo haverá também lapsus linguae colectivo?

Três dias antes do acidente quase fatal, a mulher, personagem bem apagada nesta história, visita-o no consultório. Proclama ao marido, sobre o homem que este acabara de consultar:

- Este homem que saiu daqui há pouco é mau e perigoso, não o recebas mais. Mete-me medo.

Claro que o cientista não ligou à intuição.

Bang.

Deus não sabe como se chama.
Teixeira de Pascoaes



* * * * *



Nota do coordenador de VIDAS LUSÓFONAS:

Esta biografia é provocadora, quanto baste, para abrir a inflamada (ou serena) discussão.

Bem hajas João Sodré por facilitares, neste “sítio”, a abertura de uma nova secção: DEBATES.

FCS