O Zé Povinho espicaça a porca da política, chalaça...

Rafael Bordalo Pinheiro

Desenhador, ceramista:
1846 - 1905



Quando tudo aconteceu...

1846: Nasce em Lisboa. - 1857: Nasce o irmão Columbano. - 1860: Inscreve-se no Conservatório. - 1861: Matricula-se pela 1ª vez na Academia de Belas Artes, Lisboa. - 1863: Amanuense na Câmara dos Pares. - 1866: Casa com Elvira Almeida. - 1867: Nasce o seu filho Manuel Augusto. - 1868: 1ª Exposição no salão da Promotora; é-lhe recusada Bolsa para Roma. - 1870: Publica o Calcanhar de Aquiles. - 1871: Participação na Exposição Internacional de Madrid. - 1875: Cria a figura do “Zé Povinho”. Parte para o Rio de Janeiro. - 1876: Morre a sua Mãe. - 1877: Lança o Psit!!! - 1878: Lança O Besouro. - 1879: Regressa a Lisboa. Lança o António Maria. - 1880: Morre o seu Pai. - 1885: Começa o fabrico da louça artística das Caldas da Rainha. - 1888: Viaja pela Europa. - 1900: Lança A Paródia. - 1905: Morre em Lisboa.

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POIS BONS-DIAS MEUS SENHORES...

Ainda não se deram bem conta da minha existência. E sou personagem importante, o meu nome é Zé Povinho. Lá mais para o fim do século hei-de ser bem representado mas quem me vai dar vida ainda não nasceu.

O país anda às voltas. Parece que não se entendem. Isto do Rei ter fugido para o Brasil veio trazer grandes complicações. Ora uns, ora outros, todos querem o poder.

Como se não bastasse a política, juntou-se-lhe uma guerra de irmãos - D. Pedro (o Liberal) , D. Miguel (o Absolutista). E o poder vai saltando de mãos durante algum tempo até que as coisas se estabilizem.

No meio cá ando eu. Lá vou observando o que se passa. Não sou político, mas vou tirando as minhas conclusões. Não é que elas valham muito agora, mas há-de chegar um dia que todos encherão a boca com o meu nome. Aguento como posso, e quando as coisas me irritam, encho-me de força. Arreda que vai tudo em frente. Não acreditam? Pois bem, eu vos conto.

Lá por volta de 1842, estava tudo mais sereno quando um camponês, vindo da Beira, faz um golpe de direita que o leva ao poder. Não, não é o tal, este chama-se Costa Cabral e é formado em Direito e o outro será em Finanças. Só que às vezes, com homens da mesma laia, a história repete-se...

A ditadura não é do meu agrado. Em 1846 vem a proibição de enterrar os mortos nas igrejas. Mais me faz desconfiar a história dos registos de propriedades. Só me faltava agora virem mandar nas nossas terras, e ao que consta querem vendê-las aos estrangeiros. Eu rebento. Pego nas forquilhas, nas enxadas, e vou em frente. Não é o governo que se vem meter agora nos meus assuntos. A revolta é geral. Depressa se espalha pelo país. Começo lá no Norte e vou descendo por aí abaixo. Chamam-lhe Maria da Fonte. Mas eu acho que sou apenas eu - o povo. Repito: o meu nome é Zé Povinho, pois então!

Tudo se complica, depressa a revolta se transforma em guerra civil - é a Patuleia.




QU'INDA AGORA AQUI CHEGUEI...

Ali para os lados de Alcolena, na casa de Manuel Bordalo Pinheiro a vida vai rolando. Sempre foi uma família que teve o seu canto próprio. Têm gosto pelas artes. Não é que não se preocupem com o reboliço a que assistem. Mas há também outras preocupações. Isto de não se ter mordomias sei eu bem o que é. Ainda para mais quando há bocas a sustentar, não se pode esquecer o trabalho. A filha Maria Augusta é ainda pequena e em Março chega mais um rebento. Rafael, de sua graça.

Que tem a criança a ver comigo? Tende calma que lá iremos, pois então!

Rafael vai sendo criado junto do pai. Já assim houvera sido com a irmã, que cedo ganhou o gosto pelas artes. Do trabalho que se lá faz, Rafael vai conhecendo os segredos. Desenha, brincando. Não é que o rapaz tem piada... Bem humorado e sempre pronto a dizer graças. Destes é que gosto - espertalhão como eu.

Quando chega à idade arranjam-lhe trabalho como amanuense na Câmara dos Pares. Não é coisa que vá durar muito tempo. O rapaz gosta do teatro. Em 1860 inscreve-se no Conservatório. Ao pai não lhe agrada a ideia. Isso é lá futuro para alguém... Mas o rapaz é persistente e faz estreia no Teatro Garrett. Não fará carreira, mas a paixão será para sempre.

No ano seguinte será a Academia de Belas Artes. Os desenhos lá vão surgindo, mas nem sempre nos sítios mais próprios.

Não querem vocês saber que nas paredes dos claustros do edifício onde dá aulas o Professor Jaime Moniz apareceram agora, desenhados a ponta de charuto, as caricaturas dos mestres. E bem feitas que elas estão. Já lhe conhecem o jeito, e ali no Martinho da Arcada já se trocam os desenhos.

Vejam lá bem que neste mesmo ano vai o Rafael casar. Elvira Ferreira de Almeida é o nome de sua mulher. Não é o casamento que o acalma. Afinal aos vinte anos, a paródia não é coisa que se largue assim...

Durante a lua de mel aproveita para fazer as caricaturas de diversas figuras. Guarda-as, pois alguns podem não gostar. Parece bruxo o moço. Não é que o Castilho, quando sabe da sua intenção de as publicar, faz valer os seus direitos da amizade com pai... É das poucas cedências que faz na vida. Mas Castilho acaba por mudar de opinião. Se bem que não ache que seja arte aquilo que Rafael faz, acaba por lhe dar autorização para publicar a caricatura. Isto de amizades verdadeiras é bem bonito de se ver. Não é como o resto. Passo a explicar.

Em 1868, Rafael tenta obter uma bolsa de estudo que lhe permitisse ir a Roma. Pois não lha dão. Justificações também não. Entretanto vai publicando as caricatura de alguns políticos . Alguém mais atento decide então lembrar-se de lhe oferecer a tal bolsa. Sempre o calava por uns tempos. Ai valha-me Deus que não sabem com quem lidam! Como se agora a fosse aceitar. Decide partir. Não para Roma, mas para o Brasil.





D'ABALADA P'RÓ BRASIL

Ai senhores que grande ano este... Que gosto me deu o rapaz... Eu cá sabia que nos havíamos de encontrar. Não é que o malandro me fez o retrato? Não acreditam? Pois vejam A Lanterna Mágica. Lá estou eu. E que bem que me apanhou. Baixo, um pouco forte, bigode, chapéu. Bonacheirão, sem deixar de fazer críticas. Mas que ternura meus senhores, não é que me chama Zé Povinho? É isso mesmo que eu sou - um Zé do povo. Mas agora com retrato. Nunca alguém mo tinha feito. Como é que possa largar este rapaz?

Não é que agora todos falam em abalar o Brasil? Talvez seja aquela mania que temos de ser marinheiros. E depois sempre se pode ter a vontade do regresso. Até a nossa terra fica mais bonita.

O meu amigo também quer ir. Oferta de trabalho já tem. E que rico pagamento, 50 libras! Não se pode deitar fora uma coisa destas. Ainda para mais que tantos colegas seus também vão neste ano de 1875. Olha, lá vai o paquete que os leva .....

Mas “qu’é” do Rafael? Onde anda? Deixa que o hei-de o encontrar, já lhe conheço os segredos.

Corre por aí que o Rafael é supersticioso e não quis embarcar no paquete em que segue um corcunda - dizem que dá azar!! Histórias, que eu cá não vou nelas. Os motivos são outros... Pois sim senhor, eu vos digo, mas chiu, que é segredo.

Ouvi-o falar com amigos. Todos lhe dizem que é melhor levar carta de recomendação. Sempre se safará melhor nas Terras de Vera Cruz. Não vos preocupeis que sabe onde bater.

Há um grupo de gente, com tradições e segredos, que têm membros por todo o mundo - chamam-lhes maçons. Ajudam os seus companheiros, e lá darão uma carta a Rafael. Mas para isso é preciso que seja membro, e quando entrou já o paquete dos seus amigos tinha partido. Como é que eu sei? Mas não houvera eu de ler o documento, com data de 16 de Agosto? Não me perguntem como, que eu não sou homem de traições.

Mas deixai-me ir depressa, que se não fosse o jornal ainda lhe perdia o rasto:

Parte hoje para o Brasil, Rafael Bordalo Pinheiro, afasta-se de nós um artista notável, talento originalíssimo e fecundo, de quem a nossa folha saudou os primeiros trabalhos, e indicou ao público o merecimento, e que tanta influência tem tido no desenvolvimento das publicações ilustradas. Que ele seja feliz e que volte à Pátria, com fartos produtos do seu trabalho, é o nosso voto de amigo sincero.

Pois chegamos ao Brasil, que eu agora não o ia deixar sozinho. Ainda para mais que deixou mulher e filhos em Portugal.

Trabalho já cá tem. N’ O Mosquito. Não se ficará por aí, pois até ao regresso ainda irá publicar o Psit!!! e O Besouro.

Quem não ficou contente foi o italiano que foi forçado a ceder-lhe o lugar n’ O Mosquito. Cá para mim isto ainda vai dar problemas. Cheira-me, e não me costumo enganar...

Ao fim de um ano no Brasil é tempo de vir a mulher e a filha. O filho, o Manuel Augusto ficou em Lisboa, pois já tem estudos para fazer.

Podia ficar rico aqui, mas que não é homem de se vender já eu vos disse. Então não é que alguém lhe ofereceu um cheque em branco para lá pôr o que quisesse. Basta que se cale com aquela história do ministro conservador estar metido com os contrabandistas. Olha lá, era só o que faltava!

Como se não bastassem os políticos, aquele italiano também lhe anda a dar que fazer. Eu não vos disse ? Cá o Zé pode ser do povo mas não é parvo. Eu logo vi que aquele Angelo Agostini de anjo não tinha nada. Há três anos que não larga a perna do meu rapaz. E caramba, um homem também se enche.

As coisas começaram a azedar, e nada melhor que umas intrigas para fazer romance. Andam por aí umas histórias que as divergências tiveram origem por ocasião da exibição de duas óperas Guarany - italiana e Eurico - portuguesa. Mas aqui para nós sabemos bem que o motivo foi outro.

Depressa, o italiano começa a atacar Rafael. Como armas o desenho, as publicações. Rafael vai aguentando até onde pode, mas já não pode muito mais:

“.... não estamos filiados em nenhum partido; se o estivéssemos, não seríamos decerto conservadores nem liberais. A nossa bandeira é a VERDADE. Não recebemos inspirações de quem quer que seja e se alguém se serve do nosso nome para oferecer serviços, que só prestamos à nossa consciência e ao nosso dever, - esse alguém é um infame impostor que mente.”
( O Besouro, 1878)

“Verdade” e “consciência”! “Infame impostor”! Ora agora é que a arranjaste bonita Rafael. E nem sonhas com quem te metes. Não te esqueças que o italiano não está sozinho. Ou não tivesse saído ele d’O Mosquito por causa dos compadrios políticos. Tu tem cuidado homem. Não me ouves dizer tantas vezes “quem te avisa teu amigo é”?

E pronto, aconteceu. Primeiro foi um que tentou apunhalá-lo. Depois safou-o o vizinho que denunciou o homem que o esperava perto de casa para lhe bater na cabeça. Quem lhe pagou para desempenhar a tarefa não se sabe ao certo. Mas as ameaças continuam.

D. Elvira, a mulher de Rafael, já há muito que lhe pede para regressarem a Portugal. E agora com estas ameaças é mais fácil tomar decisões. Pois regressemos que se faz tarde, e lá também há que fazer.




...E UM DIA REGRESSEI...

Cá pelo país está tudo diferente e tudo na mesma. As lutas pelo poder continuam. Os partidos sucedem-se. Ainda há algum tempo em conversa com Rafael falámos sobre isso. E que a política é como uma “grande porca”, ambos concordamos. É na política que todos mamam. E como não chega para todos, parecem bacorinhos que se empurram para ver o que consegue apanhar uma teta.

Ao saberem do nosso regresso já vieram oferecer-lhe novamente o lugar de amanuense na Câmara dos Pares. Rafael tem outros projectos. Não é agora que vai largar as publicações. Ainda para mais já há um capitalista para o ajudar no projecto. Vamos ao trabalho que o primeiro número de António Maria ainda tem que sair este ano.

Ainda é mais cedo do que pensávamos. Pouco barulho que o Rafael já está a fazer a apresentação do jornal:

“Fará todas as diligências para ter razão, empregando ao mesmo tempo esforços titânicos para, de quando em quando ter graça. Possuído destas duas ambições, claro está que o António Maria não tem outro remédio, na maioria dos casos, senão ser oposição declarada e franca aos governos e oposição aberta e sistemática às oposições ...”

Os colaboradores dos jornal são gente conhecida, entre eles estão Ramalho, Guilherme Azevedo, Junqueiro e eu, claro! Sim, porque agora nunca nos separamos. Ás vezes parecemos um só. Partilhamos opiniões e vamos tecendo comentários. Ainda para mais temos os mesmo ideais políticos - uma república. É isso que queremos para o nosso país. Que é difícil já o sabemos, pois parece que este país teima em avançar a passo de caracol. Pudera, da forma que as coisas estão... Os políticos discursam sem nada dizer. A Igreja vai vivendo dos rendimentos, e bem bons que eles são. E cá o Zé vai continuando ora com “albarda” às costas, ora a apertar o cinto.

O jornal começa a incomodar. O capitalista que o financia decide cortar as verbas como represália contra o facto de se terem metido com o seu partido. Mas amigos é coisa que não nos falta. Todos juntos conseguem reunir o dinheiro necessário para as despesas. Não é agora que vamos perder a independência.

Em 1885 as coisas complicam-se ainda mais. O governo estabelece medidas censórias. Chamam-lhe a “Lei da Rolha”. Não será esta a única que vez que a instituem.

Aqui os rapazes decidem expressar o seu descontentamento. Rafael sugere que todas as publicações se suspendam por oito dias como medida de protesto. Para alguns a ideia é aceite. Outros não perdem a oportunidade de criticar o meu rapaz: “Ó Bordalo, a ti não te faz diferença. O António Maria só sai uma vez por semana....”

Ora bolas! Ele há coisas que nos ofendem! Pois sim senhor! Para que não haja dúvidas quanto ao que pensamos o António Maria deixará de ser publicado, mas umas palavrinhas terão que ser ditas:

Eu não pertenço ao ajuntamento dos jornalistas, por isso que estou sozinho e não há ajuntamentos só de uma pessoa; eu não pertenço ao grupo monárquico, porque este me chama de revolucionário; eu não pertenço ao partido republicano, porque este me alcunha de vendido. Nestes termos, não podendo ser nem político, nem jornalista vou fazer-me simplesmente operário, o que talvez venha a ser alguma coisa.




BOAS NOITES MEUS SENHORES, VOU-ME EMBORA POIS ENTÃO

Se o disse há que fazê-lo. Rafael vai ser operário. Já há algum tempo que a cerâmica lhe desperta o interesse.

Nas Caldas da Rainha existe uma antiga tradição na cerâmica, embora as coisas estejam agora um pouco paradas. Ora aqui está mais um desafio. Bom sítio para Rafael fundar uma fábrica.

As peças que cria são inovadoras, embora de inspiração naturalista. Já sei, até parece que o Rafael se acalmou. Mas vocês acham que era agora que isso ia acontecer.... nem pensem. A cerâmica vai também servir para aparecerem tipos característicos da nossa sociedade. E eu, claro que também estou no meio, e exprimindo o que faço com um gesto bem simbólico: o manguito (à portuguesa), a banana (à brasileira). Muitos não me conhecerão de outra forma. É mesmo um brincalhão o meu rapaz. Nem com a idade lhe toma o jeito. Não perde a oportunidade de fazer uma brincadeira.

Ainda noutro dia ao saber que um médico, que em tempos não lhe cobrara consulta apreciava um peça sua, decidiu enviar-lhe um cão de cerâmica. No bilhete escreveu: “Preguei-lhe o cão!”

Mas se pensam que foi agora que deixou as publicações estão muito enganados. Tinham passado três meses do encerramento do António Maria quando apareceu Os pontos nos ii. Rafael vai estando com um pé nas Caldas, outro em Lisboa. De qualquer forma sempre tem o filho Manuel Augusto no jornal. Este já lhe segue as pisadas.

Olha que esta agora!! Não é que a Inglaterra decidiu meter-se nos nossos assuntos? Diz que temos de tirar as tropas do centro de África - um ultimato!!! É no que dá a história das “velhas amizades”. O que eles querem é acabar com o nosso sonho de criar um grande império. Aqui já não há partidos, que somos todos patriotas... Anda daí Rafael, que temos que estar mais tempo em Lisboa.

Que governo que temos... tanto barulho que se fez e acabaram por ceder aos ingleses. Isto de monárquicos é o que dá. Ai que lá vou eu outra vez.

Lá no Porto, a 31 de Janeiro de 1891 a coisas azedaram. Mas a tentativa falhou. Não que não se tivesse lutado. De qualquer forma ganhamos mais força. Não podemos ficar indiferentes. Fialho de Almeida escreve o artigo “A Glória dos Vencidos” n’Os Pontos nos ii. Pronto! Lá se acaba outro jornal que a censura não é para brincadeiras. Pois que renasça o António Maria por mais alguns anos.

Rafael continua a desenvolver a sua fábrica. Ao lado de peças de cerâmica elaboradas surgem também figuras de costumes.

Chegamos a 1900. Rafael lança agora A Paródia. “A caricatura ao serviço da tristeza pública “ diz ele. Será que eu sou um Povo triste?

Mas não desanimemos que o Rafael continua a trabalhar. Olha lá vai ele para o Porto. Desta vez tem a seu cargo a decoração dos Fenianos para os festejos de Carnaval.

Não o largo desde que chegou. Não lhe fizeram bem os ares do Norte. Não sei o que tem. Desde o dia 29 de Janeiro de 1905 que adormeceu. Descansa amigo que eu cá vou continuando. Daqui a cinco anos vem a República. Um dia irei contar-te. Essa e outras histórias que me ensinaste a viver.

Tá na hora de partir
pois não posso cá ficar.
Quando de mim precisarem
estou em qualquer lugar.