O caçador de esmeraldas...

Fernão Dias Pais Leme

Descobridor, bandeirante:
1608-01-01 - 1681-01-01



Quando tudo aconteceu...

1608: Nasce em São Paulo, Brasil - 1626: Assume seu primeiro posto de trabalho como fiscal de vendas da Câmara Municipal - 1638: Participa na Bandeira de Raposo Tavares no Sul do Brasil - 1640: Fernão Dias defende a expulsão dos jesuítas - 1644 a 1646: Parte em nova Bandeira, desta vez no sertão. - 1650: Empenha-se na construção do Mosteiro de São Bento, em São Paulo - 1651: É eleito juiz ordinário - 1653: Promove a reconciliação entre paulistas e jesuítas - 1661: Volta ao sertão em busca de índios, para depois vendê-los - 1665: Retorna a São Paulo com mais de 4 mil índios; não conseguindo vendê-los, passa a administrá-los numa aldeia às margens do Rio Tietê. - 1671: Recebe recomendação do governado para descobrir esmeraldas. - 1672: Começa os preparativos da sua expedição. - 1674: Parte com 674 homens à caça de ouro e esmeraldas. - 1681: Entre cascalho descobre o primeiro lote de pedras verdes. Morre de febre no meio da mata.

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ENCONTRO COM O DESTINO

Um punhado de esmeraldas apertadas contra o peito... Mãos trêmulas, rosto imóvel, respiração cortada, ansiedade. Embriagado pela descoberta, Fernão primeiro contempla e logo ensaia tatear suas pedras. Hesita, fascinado pelo verde de seu tesouro.

Sempre uma fera em busca da fortuna, quando finalmente lhe deita mão, esmorece. Aos cambaleios deixa a lagoa de Vupabuçu rumo ao arraial do Sumidouro. Percorre a região como que a despedir-se da vida. Arde de febre e dá por acabada a sua luta. Lança um último olhar sobre os anos vividos no sertão. Começa a recordar suas conquistas, como tudo começara: os medos contidos, a ambição, a violência, todo o passado revisto num lampejo. Delírio de uma consciência nem sempre tranquila...




NA TERRA ESQUECIDA

Nesta viagem por tempos idos, o primeiro lugar onde aporta é São Paulo, vilarejo entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, choupanas a pique e casarões de taipa rompendo a monotonia das matas, ruelas.

Na vila, praticamente entregue ao abandono, aparecem apenas os homens de negócios e de política, enquanto a maioria dos paulistas não arreda pé de suas fazendas.

Os dias correm entre plantações de trigo, marmelo, algodão, cana-de-açúcar e vinhas.

É rudimentar o modo como vivem os dois mil habitantes do planalto, cerca de 400 famílias; o mercado baseia-se na troca de bens. Do que produzem, apenas o trigo e a marmelada cativam definitivamente o paladar dos vizinhos. É com tais produtos que atravessam com maior frequência as fronteiras. Ainda é um sonho a expansão da economia local. Por causa da geografia fica difícil ultrapassar a agricultura de subsistência. Isolados pela Serra do Mar, os paulistas são por isso ignorados pelo poder da metrópole. Esquecidos, gozam de autonomia, um valor que aprendem a defender desde cedo.

O medo de perder a liberdade de que gozam, chegará a levar os paulistas à audácia de articular um movimento de separação da Coroa. Quando Portugal restaurar a independência e D. João IV subir ao trono, irão aclamar o rico Amador Bueno como rei de São Paulo. Mas os paulistas de poder e prestígio terão a necessária sensatez. Bueno não embarcará nesta onda de entusiasmo e, ao lado de Fernão Dias e outros notáveis do Planalto, dará vivas a el-Rei Dom João IV.

É neste ambiente que nasce e cresce Fernão. O prestígio do nome reserva-lhe os papéis mais cobiçados. Ninguém se atreve a negar o respeito que impõe sua linhagem: o bisavô, João do Prado, chegara ao Brasil com Martim Afonso de Sousa; além do mais é ainda parente, embora distante, de Pedro Álvares Cabral.

Aos 18 anos assume o cargo de almotacé: fiscaliza mercadorias postas à venda, sua primeira experiência na vida pública. Toma gosto pela política e sobe aos saltos na carreira. Com o trabalho na Câmara Municipal e investindo em terras, não tarda a alcançar riqueza.




FIGURA DE PROA

1640. Turbulências no planalto. A disputa pelo poder entre as famílias Pires e Camargo lança os paulistas no cenário de uma guerra civil, homens tombados e mortos pelas ruas, casas destruídas e plantações incendiadas, os negócios em ruína. Fernão intervém. Prega a conciliação em nome do progresso de São Paulo e consegue uma trégua temporária entre os rivais. Ganha o respeito de seu povo. Figura que se faz importante, é eleito juiz ordinário. Quer ir ainda mais longe.

Mestre na arte de remover obstáculos, vai aceitando desafios cada vez maiores. Chega a hora em que se vê obrigado a participar da campanha para a expulsão dos jesuítas, os protetores dos índios.

É o auge do ciclo da cana-de-açúcar no nordeste brasileiro. Cada vez custa mais caro comprar um escravo negro, a procura é maior do que a oferta. Nos canaviais, para evitar a redução da margem de lucro, os produtores açucareiros começam a substituir a mão-de-obra africana pela indígena. Abre-se uma nova frente de negócios para os paulistas. A venda dos índios passa a ser a principal fonte de riquezas no planalto. Com o dinheiro alcançado neste comércio, São Paulo importa munições, louças, tecidos, talheres até.

Na defesa dos seus interesses econômicos os burgueses, uma confraria com pouco mais de 200 pessoas, ignora a Coroa e a Santa Sé. Nem a ameaça de excomunhão do Papa Urbano VIII amedronta os escravizadores de índios.

Nada detém os bandeirantes: embrenham-se mata adentro, atravessam confins. As missões que abrigam indígenas são para eles um alvo a destruir. E é o que fazem, sem pestanejar. Obedecem cegos às regras do novo mercado: perseguir, capturar e depois vender, fazer fortuna.

As bandeiras ganham o Oeste e o Centro-sul, tomam cada polegada de terra por onde pisam, realinham as fronteiras do interior do país. Depois da passagem dos bandeirantes, o mapa traçado pelo Tratado de Tordesilhas adquire nova configuração, prejuízo para a Espanha.

No retorno de suas andanças, Fernão encontra uma São Paulo muito enfraquecida pelo conflito que já durava há 20 anos, com curtos intervalos. Decide devolver uma certa moral e ordem religiosa à vila. Como? trazendo de volta os jesuítas. Com a eloquência consegue o apoio dos paulistas para sua manobra. Ontem perseguindo, hoje conciliando...

Fernão viaja ao Rio de Janeiro à caça, desta vez, de padres. Não os traz sob ameaça de armas, como faz com os índios. Mas também não vacila, traz firmada a garantia de que eles jamais voltarão a tentar impedir a escravidão indígena e nem mesmo abrigar os foragidos.

1660, é preciso sustar o sangue que encharca a vila. A pedido dos Pires Fernão assume o papel de comandante. Mais um desafio, mais um lance que o leva ao pódio: põe cobro à guerra paulista. Assina o tratado de paz entre as famílias no dia 25 de janeiro. A data não pode ser mais simbólica: é o aniversário da fundação de São Paulo.




DECLÍNIO DO COMÉRCIO INDÍGENA

Em 1665, depois de três anos no Paraná, Fernão regressa com cerca de 4 mil índios cativados e depara-se com o comércio da mão-de-obra indígena quebrado. A produção açucareira do nordeste caíra depois que os holandeses, expulsos do Brasil, das Antilhas começaram a fazer concorrência. A própria região nordestina está abalada com o impacto das lutas contra os holandeses. Também fora levantado o bloqueio ao tráfico de negros. Consequência: não há mais compradores de índios.

Encruzilhada: sua máquina de fazer fortuna emperrara e tem ao seu dispor um exército de homens desocupados.

Nem por isso dá-lhes a liberdade. Ainda hão de servir para alguma coisa, sabe disso. Leva-os às margens do rio Tietê. Não usa a força. Porém não deixa dúvidas: nesta aldeia o chefe é ele.




CAÇA ÀS ESMERALDAS

Da Corte, tão desprezada por Fernão Dias, chega a tábua de salvação. Primeiro, em 1665, o apelo de D Afonso VI para que partisse em busca de metais e pedras preciosas, sorriso largo estampado no rosto. Depois, em 1672, a missiva de D. Pedro II encarregando-o de achar as tais minas. Recebe a nomeação oficial de "governador de toda a gente de guerra e outra qualquer que tiver ido ao descobrimento das minas de pratas e esmeraldas".

Além de honras, a Corte promete-lhe ajuda financeira para colocar de pé sua expedição. Oferta jamais cumprida...

Fernão prepara sozinho, e durante três anos, a sua bandeira. Junta brancos, índios e mamelucos. Tem no total 674 homens dispostos a dar a vida pelo sonho. Em julho de 1674 parte em direção às cabeceiras do rio da Velha, atravessando a serra da Mantiqueira na região de Atibaia e Camanducaia. Desbravar matas, domar selvagens, enfrentar a ira das tempestades ou o inferno dos dias de verão, para ele deixara de ser um desafio.

Matias Cardoso e Bartolomeu da Cunha Gago já estão no caminho com suas tropas.

Na trajetória que seguem, os bandeirantes vão deixando marcas definitivas: criam entrepostos comerciais, atraem povoações de outras paragens, levam vida a longínquos vilarejos.

Na Serra de Sabarabuçu exige de seus homens esforço redobrado. Ainda no começo do século, Marcos Azevedo afirmara ter encontrado esmeraldas naquela região. Morrera na prisão, recusando-se a revelar a rota para a mina.

Agora, confiam-lhe a missão de descobri-la. Está determinado a não desapontar.

Sente que sua obstinação assusta e que às vezes até causa horror. Assume-se, jamais irá desviar-se das suas metas.

A terra é ingrata, nem sequer dá pistas do tesouro. Sob a ordem de Fernão os bandeirantes persistem. Tocam as entranhas do sertão. Vasculham, pedaço a pedaço reviram o chão que vão trilhando.

Mas cansados ficam seus homens. Má alimentação. Corpos fracos e mentes contaminadas pela ideia do fracasso. Muitos deles não resistem. Vão ficando pelas águas dos rios e veredas das serras, vítimas de epidemias ou de ataques dos selvagens. Também falta munição. Está difícil prosseguir. Insiste, exorciza o fantasma da renúncia que paira sobre a tropa. Despreza a covardia. Fareja a fortuna. Que os fracos confiem ao menos no instinto dos fortes, vocifera.




PUNHAL CRAVADO NO PEITO

Noite silenciosa. Fernão está inquieto. Agita-se entre os planos que elabora para evitar a derrota. Seu orgulho afasta de imediato a idéia de recorrer à ajuda das autoridades da colônia ou do reino.

Fincada do lado de fora de sua tenda, uma índia em estado de choque. Demora até conseguir articular palavra. Vem alertá-lo de que há uma conspiração contra ele.

Sorrateiro, encaminha-se para o local onde se encontram os conspiradores. Treme e seus olhos parecem querer saltar diante do que vê: amigos chegados defendem sua morte como único meio de pôr fim ao que chamam busca desvairada.

Na manhã seguinte dá ordem de prisão aos traidores. Para o líder da conspiração reserva castigo capital: a forca. O enforcado é o filho de Fernão, tormento e espanto.




BANDEIRA ERGUIDA

O bandeirante logo reanima-se e concentra a atenção no que realmente o interessa, que é a descoberta de esmeraldas. Decide enviar emissários a São Paulo para a angariação de fundos.

No planalto, conta com a ajuda de sua esposa, Maria Pais Betim. Dos objetos da casa às jóias das filhas, ela vende tudo em prol da sua missão. Recorre a empréstimo para garantir de vez seu sucesso. O irmão de Fernão, o padre João Leite da Silva, encarrega-se da recolha de mantimentos.

No arraial do Sumidouro, enquanto espera a chegada de recursos, tenta de tudo para persuadir a tropa a lutar ao seu lado. Decepção.

Doentes, enfraquecidos, eles desertam. O abandono vem desde os capelães da bandeira ao seu próprio lugar-tenente, Matias Cardoso de Almeida, que faz o caminho de volta com grande parte da tropa.

São poucos os homens que não se rendem.




FAÍSCAS

1681. Comoção coletiva. Pedras, uma jazida delas, verde faiscante! É a recompensa pelos sete anos de investidas no sertão.

Doente, a barba toda branca cobrindo o rosto marcado pelos 73 anos, Fernão já não conserva sua rigidez. Aproxima-se do seu tesouro, toca-lhe. Ergue um punhado de pedras:

- Eis a prova de que estávamos certos, brada.

Em seguida, encarrega o sobrinho, Francisco Ribeiro, de levar a notícia a São Paulo:

- Leve algumas esmeraldas, para que não haja dúvidas.

De volta ao arraial do Sumidouro sente-se cansado e pede para ser deixado só. Permanece absorto por algumas horas até que se surpreende banhado em suor às margens do rio das Velhas. Volta a agarrar suas pedras, antecipa:

- Agora já posso morrer.




LEGADO DE FERNÃO

Chove com violência e a canoa que transporta para São Paulo o corpo embalsamado do bandeirante vira ao atravessar o rio das Velhas. Os homens mergulham dia e noite à sua procura. Em vão.

Chega ao arraial o comissário das minas de D. Pedro II. Acirra-se a disputa pelas jazidas. Rodrigo de Castel Blanco, perito em pedras e metais preciosos, antes mesmo de avaliar o valor da descoberta, toma o comando da bandeira e recusa-se a entregar a fortuna à família de Fernão. Mulher, cinco filhas solteiras e ainda cinco sobrinhas órfãs, são deixadas na miséria. Todos os bens tinham sido empenhados para dar prosseguimento à bandeira.

Borba Gato faz frente à ganância do fidalgo espanhol. No confronto, o genro de Fernão não hesita: atira o representante da Corte penhasco abaixo.

Foge das autoridades portuguesas, segue os rastos deixados pelo sogro e leva por diante a sua missão.

No rio, o corpo de Fernão emerge e dá à margem. Seu último desejo pode finalmente ser atendido. Em São Paulo é sepultado no mosteiro de São Bento que ajudara a construir.




HOMENAGEM...

Maria entra na capela. Mesmo de luto, aos 39 anos é ainda uma bela mulher. Aproxima-se do túmulo e reza pela alma do marido. Recorda o sonho que tivera, calcula ela que no preciso instante em que o finado emergira e dera à margem: casarões e muita gente, talvez o progresso de que falava Fernão, todos a gritar e a aplaudi-lo, homenagem à coragem e aos feitos do bandeirante. Pouco importa que as esmeraldas encontradas por Fernão sejam apenas turmalinas, pedras sem valor. Mais longa tivesse sido a sua vida e outras esmeraldas, das verdadeiras, haveria ele de ter caçado... Apesar da desilusão póstuma, Fernão muito fez pelo Brasil e há de ficar na História, está convicta. Que descanse em paz!

Benze-se, sai da capela, enxuga as lágrimas. Apenas um sonho... irá ela se lamentando até morrer.

Três séculos mais tarde a Br-381, rodovia que liga São Paulo a Minas Gerais, ganha o nome de Fernão Dias. Afinal fora o caçador de esmeraldas quem rasgara fronteiras no interior brasileiro e impulsionara o ciclo do ouro. Homenagem tardia, porém homenagem, mais que um sonho...