Hei-de cantar sempre o fado...

Hermínia Silva

Fadista:
1907 - 1993



Quando tudo aconteceu...

1907 – Hermínia Silva nasce em 23 de Outubro no Hospital de S. José, Freguesia do Socorro, em Lisboa. (De notar que em algumas biografias, o ano de nascimento aparece como sendo 1913). É filha de Josefina Augusta, que mora à data do parto na Rua do Benformoso, 153, no 1.º andar, freguesia dos Anjos, em Lisboa. 1908 – No segundo andar do Campo de Santana, onde moram os pais, cai de uma janela para dentro de uma cesta de legumes. Tem oito meses e, além do susto, nada mais lhe acontece. Porém, os pais, com receio de que ela volte a cair, mudam-se para uma casa no bairro do Castelo. 1914 – Entra na Escola da Rua da Madalena onde irá completar a instrução primária. 1920 – Armandinho ouve-a cantar. 1925 – Inscreve-se como amadora no Grupo dos Leais Amigos, junto da Igreja de São Vicente, onde representa peças dramáticas. 1926 – Representa e canta no Teatro Gil Vicente, na Graça. Aí é contratada para uma digressão por vários pontos do País. Quando a digressão termina, começa a trabalhar no cinema “Malacaio”, no bairro da Esperança, onde, actuará durante dois anos cantando fados após a exibição dos filmes. 1927 – Em 9 de Abril, nasce o seu filho Mário. 1928 – Neste ano, é contratada pelo «Valente das Farturas», para cantar no Parque Mayer. No «Artur das Farturas», ao lado, o grande Alfredo Marceneiro é o foco de atracção. 1929 – Na «Esplanada Egípcia», ainda no Parque Mayer, canta “Ouro sobre azul”, “De trás da orelha” e “Off-side”. 1932 – Estreia-se nos palcos, cantando na opereta “Fonte Santa” que sobe à cena no Teatro Maria Vitória.1933 – Entra na revista “Feijão Frade”, que sobe à cena no Variedades. Já é segunda figura de cartaz, logo a seguir a Beatriz Costa. Dá uma entrevista ao jornal Trovas de Portugal, de 30 Julho, onde afirma: — Sou de Lisboa, freguesia do Socorro, e criei‑me no Castelo de S. Jorge! Entra na opereta “Rosa Cantadeira”. 1934 – Integra o elenco de “Zé dos Pacatos”, que sobe à cena no Apolo, e é nesta revista que, já em 1935, o fado “A Tendinha” é estreado. 1936 – Figura como atracção no cartaz da revista “Arre Burro”. 1937 – Faz parte do elenco da revista “Chuva de Mulheres”. 1938 – Entra no filme de Chianca de Garcia, “Aldeia da Roupa Branca”, cantando o “Fado do Retiro”. No Variedades, é cabeça de cartaz na revista “Sempre em Pé”; no Teatro Apolo, participa no elenco de “Iscas com elas”. 1939 – Entra na revista “Na Ponta da Unha” e em “O Banzé”, estreada no Maria Vitória. 1940 – No Teatro Variedades entra em “Bailarico”. 1941 – Canta e representa nas revistas “A Desgarrada” e também em ”Boa vai ela!”, esta última estreada no Maria Vitória. 1942 – Na revista “Boa Nova” contracena com Amália Rodrigues. 1943 – Faz parte do elenco do filme “O Costa do Castelo”, realizado por Arthur Duarte, onde contracena com António Silva. Entra na revista “Toma lá, dá cá”, estreada no Maria Vitória. 1944 – Na reposição da opereta “Rosa Cantadeira”, volta a contracenar com Amália Rodrigues. 1945 – Em Dezembro, é-lhe prestada uma homenagem no Teatro Avenida, em Lisboa. 1946 – No filme de Henrique de Campos, “Um Homem do Ribatejo”, contracena com Barreto Poeira: participa no elenco da revista “Tiroliro” que se estreia no Avenida, 1947 – Actua em “Tá bem ou não tá?”, revista que se estreia no Avenida. 1948 – Faz parte do elenco da revista “Ai, bata bate” que sobe à cena no Teatro Variedades. 1949 – Casa com Manuel Guerreiro; no Variedades, é a figura principal da revista “Ora agora viras tu”. 1950 – Participa em “Fogo de vistas”, revista que se estreia no Maria Vitória. Interpreta duas peças declamadas – “História de uma fadista” e “Sempre em festa”.1952 – Faz uma digressão pelo Brasil e participa no espectáculo musical “Há sinceridade nisso?”. 1953 – integra o elenco da revista “Lisboa antiga”. No filme “Ribatejo”, a sequela de “Um Homem do Ribatejo”, de Henrique de Campos, canta o “Fado da Sina”. 1954 – Faz uma digressão pelos Açores e pela Madeira. 1955 – É a chamada atracção da revista “De bota abaixo”, que se estreia no Apolo. 1956 – Participa no elenco de “Daqui Fala o Zé” que se apresenta no Teatro ABC, 1957 –. No teatro ABC entra em “A Casa da Sorte”. 1958 – Em Maio, inaugura o Solar da Hermínia, no Largo Trindade Coelho, à entrada do Bairro Alto, em Lisboa e abre também uma casa típica em Benavente, O Pôr do Sol. 1961 – Jorge Alves realiza para a RTP o programa “15 minutos com Hermínia Silva”. 1964 – Volta ao teatro de revista com “Ai venham vê-las” em cena no Teatro ABC. 1969 – Entra no filme de Constantino Esteves, “O Diabo era outro”, protagonizado por António Calvário. 1970 – Faz uma digressão de três meses pelo Brasil. 1971 – Outra digressão, agora pelo Canadá. 1975 – No Teatro ABC entra na revista “Afinal como é?”. 1976 – Pela última vez, actua no palco – é na revista “Cada Cor, Seu Paladar”, no Teatro ABC. 1980 – Digressão por França. Durante um concerto seu no Teatro de São Luiz, é-lhe solenemente outorgada a Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa, 1981 – Actua nos Estados Unidos e no Canadá. 1982 – Em Outubro, o Solar da Hermínia encerra. Neste retiro, haviam dado os primeiros passos muitos artistas que se tornaram famosos. 1985 – É-lhe atribuída pelo presidente da República, general Ramalho Eanes, a comenda da Ordem do Infante D. Henrique. 1987 – Na discoteca “Loucuras” e na presença de Mário Soares, presidente da República, Hermínia dá um concerto em que interpreta os grandes êxitos de quase 60 anos de carreira. 1990 – O presidente Mário Soares outorga-lhe a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. 1993 – Em 13 de Junho, dia de Santo António, padroeiro de Lisboa, com 85 anos, Hermínia Silva morre. O seu nome é atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa a uma Rua da Freguesia da Ajuda. 2005 – É editado em DVD o programa “15 minutos com Hermínia Silva”, realizado em 1961 por Jorge Alves.

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AO MENINO E AO BORRACHO…

Em 23 de Outubro de 1907, no Hospital de São José, freguesia do Socorro, em Lisboa, nasce uma criança do sexo feminino, filha de Josefina Augusta, natural de Samora Correia. Chama-se Hermínia Silva Leite Guerreiro e virá a ser conhecida pelos dois primeiros nomes. Tem uma irmã mais velha, a Emília e um irmão, o Artur Moreira. Virá a ser, com Alfredo Marceneiro e Amália Rodrigues, um dos nomes indissociáveis da história do fado lisboeta. A partir de 1932, ano em que se estreia como profissional, participa em cinco filmes, treze operetas, trinta e sete revistas… Faz teatro declamado e entra em diversos programas da televisão… Mas vamos, em breves pinceladas, traçar um quadro da vida de Hermínia. Quadro biográfico baseado em entrevistas e testemunhos da própria artista.

Tem uma Infância sem grandes acontecimentos onde apenas avulta «a queda». Aos oito meses cai da varanda à rua. Na casa onde a família habita quando nasce, um segundo andar, há uma varanda onde Hermínia brinca e que, por segurança, tem as grades vedadas por uma rede. Um dia, alguém tira e a criança, gatinhando, passa pelas grades e voa em queda livre até à rua… indo cair dentro de um cesto de hortaliças de uma vendedeira ambulante que vinha a passar. Levada ao hospital verifica-se não ter a menor beliscadura. A família vai viver para o bairro do Castelo.

No Álbum da Canção, datado de 1965, fala do local do seu nascimento, mas sem muita clareza: — “nasci numa travessa da qual não me lembro o nome, ali ao Campo de Santana”. Quando é entrevistada para a RTP diz que nasceu na Rua das Flores que ficava junto à Travessa Conde de Avintes, e que era perto do local onde morava o Armandinho. Ora este local situa‑se na freguesia de S. Vicente de Fora, onde existe uma Travessa das Flores e não uma Rua das Flores, a qual se situa perto do Largo de Camões.




“O FADO É QUE INDUCA”…

Mas numa coisa é muito clara: «Desde que me entendo, sempre gostei de cantar». E por cantar, ela quer dizer cantar o fado,… Aos seis anos começa a ir à escola primária, na Rua da Madalena, em frente da igreja. Nas escolas, tal como hoje, organizam-se festas em que as crianças mostram as suas habilidades – recitam poemas, cantam…Diz Hermínia «Eu deixava‑me ficar muito caladinha quanto aos meus “méritos”, pois tinha vergonha de os revelar». Mas, quando se prepara uma dessas festas, uma colega diz à professora: “— Minha Senhora, esta menina canta muito bem!”. Porém, quando exibe os seus dotes, a professora fica horrorizada – “Credo! Uma menina a cantar o fado! As meninas não cantam fado!”

Tal como Amália, Hermínia, nas suas entrevistas, sempre iria alegar, como desculpa para eventuais lacunas culturais, o facto de apenas ter frequentado o ensino obrigatório, os quatro anos básicos – Porém, tal como Amália, Hermínia vai aprendendo e adquirindo uma cultura acima da média. No entanto, há diferenças entre quem, como Amália, “exporta” o fado, apresentando-o por todos os continentes, e Hermínia que, apesar das suas digressões pelo estrangeiro, se torna um ídolo dos portugueses. E cultiva a ‘incultura’ sábia do povo, usando o argot lisboeta (É pá! Tás à rasca?) e criando uma nova maneira de estar no palco – preenche os períodos instrumentais que antecedem a parte cantada ou os silêncios que se fazem antes dos finais, com frases jocosas e invectiva para os guitarristas ou para o público - “Anda Pacheco!” (um os seus guitarristas). Tornam-se famosos os seus “trolarós”, trauteios de refrões. – Hum, hum,,, não queres é fazer nenhum!

“As meninas não cantam o fado”, dissera a professora. Mas Hermínia nunca deixa de o cantar. Como viria a dizer mais tarde nas suas famosas frases – O fado é que induca!




FADO, FARTURAS E FAMA

Naquela A família mora em Entre Muros e ela canta a plenos pulmões. Ouve-se em toda a rua.. Batem à porta e Emília, a irmã, vai abrir.

Na sua frente está Armandinho.

Embora não haja televisão e as emissões regulares de radiotelefonia ainda venham longe, Armandinho é uma celebridade. Executante virtuoso de guitarra portuguesa, compositor, uma das figuras cimeiras do universo do fado de Lisboa.
A uma Emília perplexa, pergunta: — “Não é aqui que está uma pequena a cantar?”. Emília chama a irmã. Hermínia, doze anos, envergonhada perante o astro que lhe faz perguntas, lá vai respondendo. Armandinho diz poder arranjar um contrato para ela ir gravar um disco ao «Valentim de Carvalho». E fala mesmo na hipótese de ir a Berlim com ele, com o Menano e com a Ercília Costa… Hermínia não aceita. Nem os pais a deixariam ir.

E é altura de «pensar na vida», de «acautelar o futuro». Cantigas, leva-as os vento – tem mas é de aprender um ofício. E vai para um ateliê de uma modista aprender costura, Nunca deixa, no entanto, de cantar em festas e bailaricos. Em 1925 inscreve-se como amadora dramática no «Grupo dos Leais Amigos», que tinham a sede junto à igreja de S. Vicente. Em 1926, representa e canta no antigo Teatro Gil Vicente, à Graça. E é aí que um espectador, o escritor Artur Vítor Machado, a leva à presença do pai, o maestro Júlio Machado, que é também empresário e agente teatral. É contratada para uma digressão pela província. Começa a carreira como profissional, indo trabalhar para um cinema, à Esperança, o «Malacaio», contratada por oito dias para cantar fados no final da exibição dos filmes. Vai depois para o Parque Mayer. Ali os estabelecimentos de farturas tinham, ao tempo, grande clientela. Hermínia é contratada pelo «Valente das Farturas». Este contrato é por oito dias, mas vai prolongar-se por mais de dois anos. À época, os artistas dos teatros do Parque Mayer, antes ou depois dos espectáculos ou mesmo entre sessões, frequentam o «Valente das Farturas». E torna-se moda ir ouvir a Hermínia. O cachet sobe para 55 escudos por dia, uma verba importante, embora haja por vezes seis sessões diárias. Entre os artistas frequentadores do «Valente das Farturas», há dois particularmente famosos e que trabalham no Teatro Maria Vitória - Alberto Ghira e Hortense Luz. E um dia convidam Hermínia para integrar a companhia que, no entanto, recusa, pois dificilmente no teatro atingirá um cachet elevado e regular como o que está a ganhar no «Valente das Farturas.

Uma infecção na garganta obriga-a a interromper as actuações. Quando fica curada recomeça a cantar numa sociedade de recreio.

E é aí que um empresário importante a contrata para o Teatro Maria Vitória. E desta vez aceita.




SEIS DÉCADAS DE SUCESSO

Canta na opereta “Fonte Santa”. Estamos em 1932. Depois… Bem, depois, uma prolongada sequência de sucessos. E a felicidade não tem história. Canta até pouco antes de morrer. O seu coração bate pelo fado quase até ao momento em que para. Por isso, a sua história é a história das suas actuações. Os factos essenciais da vida de Hermínia Silva estão registados em QUANDO TUDO ACONTECEU.
Por esta cronologia se pode seguir, ano por ano, acontecimentos marcantes da vida da artista. Morre em 13 de Junho de 1993, dia de Santo António, padroeiro de Lisboa. É sepultada no Cemitério dos Prazeres.
Numa entrevista afirmara que enquanto ouvisse bem, cantaria o fado - «onde quer que ele se cante, onde quer que ele esteja, onde quer que eu vá, hei-de cantar sempre o fado».
E cumpriu.