Força, força, companheiro Vasco, nós seremos amuralha de aço!

Vasco Gonçalves

Militar e político (Entre 18 de Junho de 1974 e 12 de Setembro de 1975, foi Primeiro-Ministro):
1921 - 2005



Quando tudo aconteceu...

1921: Vasco dos Santos Gonçalves nasce em Lisboa a 3 de Maio. 1940: Entra como aluno da Universidade de Coimbra. 1942: Assenta praça em 2 de Agosto. 1942-46: Aluno da Escola do Exército. 1946: Licenciado em Engenharia Civil. 1947: Colocado na Escola Prática de Engenharia; casa com Aida da Rocha Afonso, natural do Fundão. 1950: Colocado na Base das Lajes. 1952-53: Colocado como adido na Escola do Exército. 1955-57: Comissão militar de serviço no Estado Português da Índia, como comandante da Companhia de Engenharia. 1960-64: Colocado como professor adjunto da Academia Militar. 1965-67: Comissão de serviço na Região Militar de Moçambique. 1967-69: Colocado na Direção do Serviço de Fortificações e Obras Militares. 1970-72: Comissão de serviço na Região Militar de Angola. 1973: Condecorado com a Medalha Militar de Prata de serviços distintos com palma. 1973-74: Membro ativo da Comissão Política e Comissão de Redação do Movimento dos Capitães e do MFA. 1974: Primeiro-Ministro do II Governo Provisório; Primeiro-Ministro do III Governo Provisório. 1975: Membro do Conselho da Revolução; Primeiro-Ministro do IV Governo Provisório; discursa na sessão de encerramento do Congresso da Intersindical Nacional em 27 de Julho; Primeiro-Ministro do V Governo Provisório; discurso de Almada, com transmissão em direto pela rádio e televisão (18 de Agosto); o “Grupo do Nove” pressiona e impõe ao general Costa Gomes a demissão do Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves (19 de Agosto); exonerado do cargo de Primeiro-Ministro do V Governo Provisório (decreto de 12 de Setembro); passa à situação de reserva (15 de Dezembro); demitido do cargo de diretor do Instituto de Altos Estudos Militares, por ordem do Chefe do Estado-Maior do Exército (20 de Dezembro). 1990: Reformado (1 de Julho). 2005: Falece em Almancil em 11 de Junho de 2005.

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AS ORIGENS

Vasco dos Santos Gonçalves nasceu no Bairro da Graça, em Lisboa, no dia 3 de Maio de 1921. Filho de Victor Gonçalves, homem de negócios e futebolista do Sport Lisboa e Benfica, Vasco tinha um ideário próximo dos comunistas, se bem que nunca tenha sido membro do PCP.
O pai era um salazarista convicto. Apesar de tudo e mesmo com os pais separados, manteve sempre com os dois um ótimo relacionamento.

Numa entrevista conduzida por Fernando Rosas, em 30 de Outubro de 1998, Vasco Gonçalves fala de si e de seu pai:

«O meu pai era um pequeno comerciante, era, penso eu, uma daquelas figuras típicas da pequena burguesia que é vulgar dizer que deram bastante apoio ao fascismo, ao salazarismo, etc. Meu pai era de facto um grande apaniguado do Salazar, separou-se da minha mãe, enfim divorciaram-se tinha eu dez anos de idade e as conversas normalmente regulares sobre estes assuntos com ele, mas havia sempre da parte do meu pai, nisso ter-me-á influenciado bastante, uma preocupação de ordem nas ruas, contra aqueles sucessivos governos do tempo da República, contra os bolchevistas. Então, ele focava muito isso, não é verdade. A questão dos bolchevistas, a desordem nas ruas são as ideias que dele mais me recordo e enfim um grande, o meu pai tinha um grande sentido patriótico. Pensava que, enfim, que o Salazar estava desenvolvendo uma ação nitidamente patriótica pôr as finanças em ordem, etc. Por outro lado, eu, não sei se isto vale. Por outro lado, eu precisamente aos dez anos, onze anos de idade perdi o primeiro ano do liceu. Enfim, queria brincadeira, etc. O meu pai tinha um grande amigo que veio a ser digamos o meu segundo pai e o pai digamos ideológico ou espiritual que era um oficial, um capitão de infantaria, inválido da guerra e era um homem extraordinariamente inteligente, um grande explicador, etc. e portanto em face daquele meu insucesso do primeiro ano do liceu ele tomou conta de mim e começou-me a dar explicações, etc. e de facto transformou-me, não é verdade, enfim, num bom aluno e nunca mais tive problemas, pelo contrário, enfim com os estudos. Pelo contrário, criou em mim um grande gosto pelo estudo, quase uma paixão pelos estudos e sobretudo era a matemática, a física e a química de que ele era professor. Esse homem era um homem de facto de esquerda avançada, etc. como depois vim a verificar. Ora um belo dia, portanto foi já com a guerra de Espanha a decorrer, devia eu ter aí 15 anos, ele estava em minha casa a ouvir um programa de rádio. Lembra-se do célebre capitão Botelho Moniz, que fazia aqueles programas da rádio no Rádio Clube Português e portanto levava aquilo, enfim, era um fascista consumado, mas eu praticamente não tinha quaisquer ideias políticas, enfim, seguras ou coisa parecida. Meditava pouco nessas coisas, ouvia apenas aquelas conversas com o meu pai e lembro-me que quando era miúdo fui assistir ao desfile das tropas no 28 de Maio na avenida da República devia ter eu aí cinco anos de idade. Tenho uma vaga ideia disso […] E então o Botelho Moniz fez, enfim, uma intervenção muito inflamada em que o nosso território tinha sido penetrado ou invadido, não posso precisar agora os termos, não é verdade, por tipos, por espanhóis, etc. e eu educado dentro daquele amor à pátria, etc. fiquei muito impressionado com aquilo e chorei mesmo, chegaram-me as lágrimas aos olhos e chorei com aquilo. Como é isto? Então esta gente entra por aqui dentro. No dia seguinte, fui lá abaixo ao estabelecimento do meu pai que era na rua do Ouro e no qual era aí que recebia as explicações desse amigo do meu pai e disse-lhe, senhor Carlos Alberto, até tenho muito gosto em dizer este nome, ontem ouvi este programa, etc. o que é tudo isso. E ele olhou assim para mim, agarrou em mim e disse, meu rapaz isso não é nada disso e começou-me a explicar as coisas e é daí que vem, não é verdade, o meu interesse pelas questões políticas.» (Programa gravado da Antena 2 no dia 30 de Outubro de 1998)




A VIDA MILITAR

Vasco Gonçalves assentou praça em 2 de Agosto de 1942; aluno da Escola do Exército entre 1942 – 1946); aspirante a oficial de Engenharia em 30 de Setembro de 1946; alferes de Engenharia em 1 de Novembro de 1946; tenente de Engenharia em 1 de Dezembro de 1947; capitão de Engenharia (20 de Agosto de 1954); major de Engenharia (19 de Fevereiro de 1963); tenente-coronel de Engenharia (9 de Junho de 1967); coronel (13 de Agosto de 1971); membro ativo da Comissão Política e Comissão de Redação do Movimento dos Capitães e do MFA (1973 –1974). Em 12 de Setembro de 1974 Vasco Gonçalves é promovido a brigadeiro e a general em 27 de Maio de 1975.




MFA

Não obstante o seu interesse pelos assuntos do processo histórico e pelo estudo de clássicos do marxismo, Vasco Gonçalves passou ao lado de várias organizações de resistência à ditadura, muito por força do isolamento político e social em que viviam as forças armadas. Ainda assim, procurou dinamizar o estudo de textos progressistas na Escola do Exército e, em 1945/1946, tornou-se diretor da Sala de Estudo da Escola, assinando por exemplo a revista “Seara Nova”. Entre 1955 e 1957 serviu o exército na Índia, comandando a Companhia de Engenharia. Foi o seu primeiro contacto direto com o colonialismo. Teria estado implicado numa tentativa de golpe de estado em 1959.
Depois de, em 1960, ter colaborado no jornal clandestino “Tribuna Militar”, ingressou no Movimento dos Capitães em 1973.

Surgiu no Movimento dos Capitães em Dezembro de 1973, numa reunião alargada da sua comissão coordenadora efetuada na Costa da Caparica. Coronel de engenharia, viria a integrar a Comissão de Redação do Programa do Movimento das Forças Armadas, passando a ser o elemento de ligação com o general Costa Gomes.

Otelo, no seu livro, Alvorada em Abril, conta como foi a chegada de Vasco Gonçalves ao Movimento dos Capitães:

«No dia seguinte, 5 de Dezembro, uma fria quarta-feira, reuniu-se pela primeira vez a Comissão Coordenadora eleita em Óbidos. Vítor Alves pedira a amigos, para o efeito, o empréstimo da sua casa de praia, uma construção de rés-do-chão e primeiro andar, pin tada de amarelo-ocre, situada na Rua Barros de Castro, na Costa da Caparica.

Partimos à frente e localizámos a casa. E enquanto o Vítor aguardava, dispondo a sala, desloquei-me para junto da igreja da vila onde esperaria a chegada dos participantes. Vieram mais do que os previstos componentes da Comissão, alargando a reunião. Até Corvacho e o tenente-coronel Rolando Ferreira compareceram, vindos do Porto. E além de Banazol, que iria fazer a última ten tativa para levar a água ao moinho da sua revolução e rouquejar uma vez mais a leitura do seu programa, tínhamos entre nós pela primeira vez, trazido por Pinto Soares e Macedo, um coronel.

Era um homem magro e desengonçado, de nariz afilado e grandes entradas, a testa alta e larga. Humilde e simples, tinha o semblante ingénuo e honesto dos homens bons. Gostei dele à pri meira vista. Pinto Soares apresentou-mo:

- O nosso coronel Vasco Gonçalves, da Direcção da Arma de Engenharia. Meu coronel, este é o major Otelo, de Artilharia.

Oferecemo-lhe, no respeito hierárquico, a presidência. Logo aí lhe notei um certo incómodo. Não queria estar em destaque, na mesa. Preferia ir para o meio dos outros. Insistimos. À sua esquerda, Banazol, à direita, Vítor Alves. Que me segredou em confidência:

- Este é que é «o Baldes»...

Nunca, na Academia Militar, me tinha cruzado com ele. Mas sempre me assaltara o riso quando recordava uma das melhores alcunhas que em minha opinião tinham sido postas a um professor e pelo motivo que a justificava: quando andava, parecia que levava um balde cheio em cada mão.

Ele ali estava então, pela primeira vez, entre nós. Demos-lhe a palavra, de imediato, que ele utilizou, receosamente, como quem pede desculpa, para tentar definir a sua posição e expor as suas dúvidas.»

Ainda sobre Vasco Gonçalves, no livro de Otelo, pode ler-se:

«Uma certa falta de confiança, afinal, persistia também em alguns dos mais altos responsáveis do Movimento. Nas vésperas do Dia D, Vasco Gonçalves, que já tinha assistido a fracassos anteriores, cogitava para Vítor Alves, em termos condicionais: «Ah! Se o Movimento conseguisse ganhar, como era bom, daqui por uns dois anos, termos uma social-democracia em Portugal! Mas é muito difícil, sabe? Os tipos têm um aparelho muito forte.»




O EMBRIÃO DO 25 DE ABRIL

A 28 de Agosto de 1973 dá-se a eleição da primeira comissão do "Movimento dos Capitães", constituída pelos Capitães Almeida Coimbra, Matos Gomes, Duran Clemente e António Caetano.

Tiveram várias reuniões clandestinas, dentro e fora de Portugal metropolitano, destacando-se a de Bissau em 21 de Agosto de 1973 e a de 9 de Setembro de 1973, em Monte Sobral, dia em que oficialmente nasce o MFA (Movimento das Forças Armadas), com a presença de 95 Capitães, 39 Tenentes e 2 Alferes.

Os «Capitães de Abril», tinham várias tendências políticas (mas mais inclinadas para a esquerda) e, segundo o «Programa do MFA», alegavam que pretendiam «acabar com as Guerras Coloniais que se arrastavam há 13 anos, abolir a censura e a PIDE/DGS, instaurar uma melhor justiça social, acabar com monopolismos, e providenciar eleições livres e uma Constituição nova»




DEPOIS DE ABRIL

A evolução do processo político após o 25 de Abril de 1974, rapidamente originou divisões entre os seus protagonistas, nomeadamente entre a esquerda revolucionária que pretendia um processo de transformações sociais mais profundas e os sectores mais conservadores e, entre o movimento de capitães (MFA) e o general António de Spínola, Presidente da República após a queda da ditadura. Nos meses que se seguiram à restauração da democracia, esses sinais de conflitualidade tornaram-se cada vez mais indisfarçáveis.
Adelino da Palma Carlos é escolhido para chefiar o I Governo, tomando posse em 16 de Maio de 1974.

Seguiu-se um período tumultuoso em que Palma Carlos se demite e unilateralmente o MFA substituiu-o por Vasco Gonçalves, que inaugura o II Governo Provisório em 18 de Julho desse ano.




SPÍNOLA E O 28 DE SETEMBRO DE 197

Nada satisfeito andava o general Spínola que em 27 de Setembro de 1974 propõe à Junta de Salvação Nacional a demissão do Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves, nomeado após a demissão de Adelino da Palma Carlos.

28 de Setembro foi a data acordada para a manifestação da «Maioria Silenciosa» que tinha por alvo o reforço da posição do Presidente da República António de Spínola.

Os cartazes desse movimento invadiram a cidade, mas eram prontamente destruídos por militantes de esquerda.

A autorização para a realização da manifestação foi difícil de obter; o governo fez saber a sua discórdia relativamente ao seu objectivo. O COPCON preparou uma operação que incluía a prisão de membros ligados à manobra projectada. Surgiram-se apelos das forças de esquerda para que os seus militantes montassem barreiras de vigilância - barricadas - nas entradas de Lisboa. O plano da manifestação abortou e o evento acabou por não se realizar. No entanto, o distanciamento entre o Presidente da República e o MFA era cada vez mais acentuado, sobretudo depois de Vasco Gonçalves ter sucedido a Palma Carlos. A ruptura parecia inevitável e consumou-se a 30 de Setembro. Spínola discursa à nação, denuncia as manobras dos sectores da esquerda e demite-se.

Desiludido, e após uns meros 4 meses no poder, Spínola renuncia ao seu cargo de Presidente, alegando:

«O meu sentido de lealdade inibe-me de trair o povo a que pertenço e para a qual, sob a bandeira de uma falsa liberdade, estão preparando novas formas de escravidão».

Costa Gomes ocupou o lugar deixado vago pela abdicação de Spínola e declara que aqueles que planeiam a longo prazo não têm necessidade de se preocupar com os apoios mas com a forma de agir.

Estas ocorrências, inscritas na história do PREC (processo revolucionário em curso) pela esquerda, como manobras reaccionárias para desvirtuar os objectivos económicos e sociais do 25 de Abril, originaram uma radicalização desse mesmo processo, uma «viragem à esquerda» que se iria acentuar em 11 de Março do ano seguinte.





VASCO GONÇALVES E O 11 DE MARÇO

«Uma minoria de criminosos lançou homens das Forças Armadas contra homens das Forças Armadas, que é o maior crime que hoje se pode perpetrar em Portugal. Beneficiando da grande benevolência que os generosos obreiros do 25 de Abril têm tido para com os seus ini migos, tentaram dividir o País ao serviço de forças rea cionárias para que tantas vezes tem sido chamada a atenção. Eu espero que isto seja uma verdadeira lição para todos os portugueses, para os partidos políticos, para os sindicatos, para as Forças Armadas, para todos os patriotas. Os nossos verdadeiros inimigos são de facto a reacção e os fascistas.
E a reacção traduz-se na prática por aqueles que se opõem ao desenvolvimento e ao processo da nossa Pátria dentro do Programa das Forças Armadas e no sentido que o M. F. A. lhe tem procurado imprimir. São todos aqueles que quotidianamente travem esse pro cesso revolucionário, quer ao nível de repartições públicas, quer ao nível das cúpulas, a todos os níveis. Essa luta quotidiana que todos os democratas travam contra o seus inimigos, é que significa a luta que o Povo Português trava contra a reacção.

Eu daqui exorto as massas trabalhadoras para que não se deixem desunir nos seus sindicatos, para que se unam, para que vejam bem onde estão os seus inimigos e os seus amigos. A unidade das massas trabalhadoras é indispensável à consolidação da revolução democrática portuguesa.

No momento em que estávamos a ser atacados estava-se preparando uma greve nos T. A. P. É preciso que os trabalhadores dos T. A. P., por exemplo, entre outros, que tomem bem consciência dos perigos que correm ao dividir-se do Movimento das Forças Armadas. E que estejam alerta para quem os divide. Os trabalhadores devem tirar todas as conclusões desta tentativa reaccio nária de lançar Forças Armadas contra Forças Armadas, lançar camaradas de armas, servindo-se das maiores men tiras, ignomínias, lançando homens honrados em aven turas condenadas antecipadamente ao fracasso, porque o Movimento das Forças Armadas tem conseguido a esmagadora maioria das massas trabalhadoras e dos partidos portugueses.

Também exorto os partidos a reflectir nas reacções da situação que acabámos de viver. Em lugar de se lançarem em lutas uns contra os outros, em lugar de se dividirem se unam, unam-se em volta da bandeira da nossa Pátria, das ideias revolucionárias que traz o Programa das Forças Armadas. Os partidos políticos têm obrigação de tirar bem a ilacção destes acontecimentos.

Por outro lado, as forças progressistas desses mesmos partidos políticos apoiaram-nos neste momento. Devemos reconhecê-lo e mais uma vez afirmar que a revolução portuguesa só pode marchar em frente em estreita aliança do Movimento das Forças Armadas com os partidos progressistas e patrióticos que verdadeiramente estão interessados na mudança de rumo da vida política, econó mica e social portuguesa.

A todos os portugueses, a todos os patriotas, quer os trabalhadores, quer a pequena-burguesia, quer os pequenos comerciantes, os quadros, os médios comerciantes que vejam bem as aventuras para que os nossos inimigos nos podem lançar e que tenham confiança no M. F. A. que está atento e em ligação estreita com o Povo Por tuguês não permitirá que a reacção volte a dominar este País. Viva Portugal!».

Em 1998 respondendo a Fernando Rosas, Vasco Gonçalves fala do 11 de Março:

«Porque depois do 11 de Março passou a haver condições subjetivas para tomarmos outras medidas, medidas de transformações profundas no sentido de acabar de destruir os grupos monopolistas e é porque eu era dessa opinião e outros meus camaradas também éramos dessa opinião que os tipos dizem tudo o que dizem a nosso respeito porque o senhor doutor sabe que o país (…) era dominado por sete grupos monopolistas, tinham no centro sete famílias, tinham o seu banco, a sua companhia de seguros, depois tinham as suas empresas, etc. A CUF era o conjunto empresarial maior da península ibérica, tinha centenas de empresas e as empresas fictícias que eles tinham e essas coisas todas, etc., etc.»




COMUNICADO DA ASSEMBLEIA DO MFA. CRIADO O TRIBUNAL REVOLUCIONÁRIO (19 MAIO 1975)

«Pela sua oportunidade a assembleia apreciou os incidentes ocorridos no último fim-de-semana, provocados pelo M. R. P. P., em que foram envolvidas forças operacionais do COPCON, tendo aprovado o comunicado de ontem, emitido por este Comando, onde é salientado o carácter divisionista e contra-revolucionário do referido agrupamento.
Segundo a ordem de trabalhos, foi analisada a evolução política desde 11 de Março, com especial incidência sobre a construção do socialismo em Portugal. A assembleia considerou dever reflectir-se nos aspectos mais intimamente ligados à independência nacio nal e às hipóteses possíveis de estrutura de desenvolvimento na nova sociedade portuguesa a construir. Factos mais salientes do 1.º de Maio, e sua interpretação foram a seguir objecto de algumas intervenções, tendo a assembleia considerado que o M. F. A. deve intensificar as suas ligações directas com todas as estruturas de participação popular em fase de arranque, tais como comissões de bairro, de moradores, de trabalhadores, etc., como forma de con solidação da aliança Povo-M. F. A. e de superação das divisões partidárias na luta comum para a batalha da produção e de efectiva construção do socialismo e da sua defesa revolucionária.

Pelo presidente da comissão de inquérito ao 11 de Março, foi esclarecida a assembleia sobre o andamento dos seus trabalhos. Por proposta do Conselho da Revolução foi aprovado um voto de louvor ao excelente e oportuno trabalho já realizado e reiterada confiança à comissão.

Discutidos em seguida aspectos relacionados com o Tribunal Revolucionário, a assembleia aprovou a sua constituição, que será a de um presidente oficial general; dois vogais, oficiais superiores; um auditor, juiz de direito, togado, todos estes elementos a designar pelo Conselho da Revolução. A existência de um júri, constituído por doze elementos efectivos e seis suplentes, a nomear pela Assem bleia do M. F. A., sendo os efectivos — do Exército, quatro oficiais, um sargento e uma praça; da Força Aérea, um oficial, um sar gento e uma praça; e da Armada, um oficial, um sargento e uma praça.»

Imparável, Vasco Gonçalves prosseguia na senda de discursos onde falava sem qualquer contenção das suas ideias.

Depois de ter discursado na comemoração do 1.º de Maio de 1975, participa na cerimónia dos 30 anos da queda do fascismo na Europa e discursa no Congresso dos Escritores Portugueses. Ainda por esta altura vai à Sorefame onde usa da palavra perante algumas centenas de trabalhadores:





VASCO GONÇALVES NA SOREFAME (...)

«É preciso que as massas trabalhadoras compreendam, sem margem para dúvidas quem são os seus aliados na batalha da produção e na superação das dificuldades. Isso é muito preciso e, mesmo hoje, põe-se esse problema. Sem dúvida nenhuma, só há duas alternativas: ou se está com a revolução ou se está com a reacção. Não há terceiras vias, nem há neutros aqui. Não pode haver neutros.

Eu queria agora falar dos quadros. Penso que os trabalhadores tal como os quadros devem estar conscientes da sua aliança natural no processo revolucionário. É claro que os quadros, a certos níveis, se a gente raciocinar profundamente, também eram, e ainda são, assalariados do capital e, nesse aspecto, estão ao nível dos outros trabalhadores assalariados.

Mas eles, quer pela sua origem social, quer pelos seus hábitos de vida, quer pelos vencimentos que auferem, quer porque até ficam com uma parte, ou ficaram com uma parte, da mais-valia criada pelos trabalhadores, têm tendência natural para não estar directamente ligados aos trabalhadores. Mas, por outro lado, esta situação revolucionária depois do 25 de Abril, o processo histórico, e revolucionário, devem levar os quadros à compreensão de que o seu lugar é ao pé do trabalhador e levar os trabalhadores à compreensão de que necessitam dos quadros. Deve haver uma identidade muito firme entre os quadros e os trabalhadores propriamente ditos, e eu verifiquei isso, aqui, na Sorefame, ao ver o carinho, a amizade, e as palmas que vós destes ao vosso presidente do conselho de administração.

Isso é típico do trabalho revolucionário, pois nós estamos todos metidos no mesmo barco. Uns trabalham de uma maneira, outros trabalham de outra, mas não podemos separar os quadros dos trabalhadores e necessitamos dessa profunda unidade entre quadros e trabalhadores.

Nós também precisamos de aliados nesta revolução, precisamos de pequenos empresários, médios empresários, que compreendam esta revolução, que caminhem ao lado de nós. Nós precisamos também de alianças, porque isto é uma tarefa muito grande.

Mas, evidentemente, que a revolução só comporta duas situações: ou se está por nós ou se está contra nós. Não há tipos que possam dizer: eu sou neutral, não me interessa nada de política. Não, hoje não se pode dizer isso; só há duas posições: ou estamos na revolução ou estamos contra a revolução. Os quadros, portanto, também têm que fazer a sua opção, senão a fizeram já. Os quadros ou estão com a revolução ou estão com a reacção. Não há meio caminho nesta tarefa em que nos metemos e que põe a nossa própria vida, o nosso futuro, em jogo. Não há meio caminho, nem meias-tintas, ha só um caminho, ou há a rejeição desse caminho. E nós estamos apostados em seguir nesse caminho, em seguir para a frente, para os destinos gloriosos, para os destinos radiosos, de uma pátria que seja de todos os portugueses.»

Descontentes com tudo isto, estavam os ministros socialistas do IV Governo que em 12 de Julho de 1975 decidem abandonar Vasco Gonçalves. Logo de seguida, em 17 de Julho, os ministros do PPD tomam a mesma decisão. É o fim de mais um Governo de Vasco Gonçalves.





OTELO OPÕE-SE A VASCO GONÇALVES

Em 3 de Agosto de 1975, o Forte de São Julião da Barra foi o local escolhido para uma reunião importante entre o Presidente da República, general Costa Gomes, o Primeiro-Ministro cessante, general Vasco Gonçalves e Teixeira Ribeiro, catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, professor de finanças públicas, militante do MDP/CDE.
Vasco Gonçalves batia-se por formar novo Executivo, o V Governo Provisório desde a Revolução de 25 de Abril de 1974. Mas o Presidente da República, Costa Gomes, tentava demonstrar-lhe que chegara a hora de dar o lugar a outro. Teixeira Ribeiro, que apoiava as pretensões de Vasco Gonçalves, seria vice-Primeiro-Ministro.

A discussão entre os três homens foi interrompida pela chegada de Otelo Saraiva de Carvalho, comandante do COPCON, líder da ala militar revolucionária. Desembarcara em Lisboa, vindo de Cuba, no dia 30 de Julho. No aeroporto, entusiasmado com a lição que recebera de Fidel Castro, disse: “Fascistas para o Campo Pequeno” – frase com que deixou no ar a ameaça de fuzilamento dos que se opunham ao processo revolucionário.

Otelo não quis perder a reunião no Forte de São Julião da Barra, onde se discutia o próximo Primeiro-Ministro. Fez-se anunciar como um furacão. Virou-se determinado para Vasco Gonçalves – e disse-lhe que as tropas que comandava não o queriam como Primeiro-Ministro.

As palavras de Otelo caíram como bombas. Costa Gomes, mestre em amainar até as mais explosivas fervuras, acabou ali a conversa. Marcou nova reunião para o dia seguinte, desta vez alargada à maioria dos oficiais da Região Militar de Lisboa. Objetivo: escolher um militar para Primeiro-Ministro.

Juntaram-se duas centenas de oficiais. A larga maioria votou no sentido de ser Vasco Gonçalves o próximo chefe do Governo. Otelo Saraiva de Carvalho, que já manifestara o seu azedume por esta escolha, recusou o cargo de vice-Primeiro-Ministro.

O novo Governo, o V Provisório, acabou por tomar posse no dia 8 de Agosto. Mas o general Costa Gomes, avisadamente, não lhe augurou grande futuro. O Partido Socialista e Partido Popular Democrático recusavam participar. A luta política estava ao rubro. O Governo não teria vida longa. Costa Gomes, no dia da tomada de posse dos novos ministros, avisou Vasco Gonçalves de que não se aguentaria durante muito tempo como Primeiro-Ministro – e ninguém imaginou na altura como estava certo.

O Movimento das Forças Armadas está mais dividido do que nunca. Os militares moderados com assento no Conselho da Revolução organizam-se sob a batuta de Melo Antunes, de longe o mais esclarecido politicamente – e, a 8 de Agosto, tornam público um documento com fortes e contundentes críticas à atuação do PCP e da ala revolucionária do MFA. Nasce assim o Grupo dos Nove, de que fazem parte Melo Antunes, Vasco Lourenço, Canto e Castro, Vítor Crespo, Sousa e Castro, Costa Neves, Vítor Alves, Franco Charais e Pezarat Correia.

Os revolucionários acusaram-nos de traidores. O Conselho da Revolução expulsou-os e mandou-os apresentarem-se nas Armas a que pertenciam. Otelo Saraiva de Carvalho respondeu ao “Documento dos Nove” com um outro texto: “Documento de Autocrítica Revolucionária”, mais conhecido como “Documento COPCON”, em que defendia o poder popular de base e recolheu amplo apoio da extrema-esquerda militar que ocupava a 5.ª Divisão do Estado-Maior-General das Forças Armadas.

O MFA passou a estar partido em três grupos: o Grupo dos Nove, estrategicamente próximo do Partido Socialista; o sector liderado por Vasco Gonçalves e apoiado pelo PCP; e um terceiro grupo, mais radical, encabeçado por Otelo Saraiva de Carvalho. Enquanto isto, Vasco Gonçalves não desistia de recorrer aos seus arrebatados discursos onde não deixava nada por dizer. Um dos discursos mais marcantes foi o proferido em Almada em 18 de Agosto 1975:




DISCURSO DE VASCO GONÇALVES EM ALMADA

«Muita coisa teria para vos dizer e, em particular, toda esta rica experiência que ganhei nas últimas semanas, com as vicissitudes da constituição deste V Governo Provisório, análise da situação, etc. Porquê? Porque eu penso que a política deve ser feita defronte de vocês e não nas costas de todos. Mas eu contarei, em breve, ao povo português, para que saiba bem, para que seja bem lúcido, as diversas peripécias por que passámos, nós, os portugueses, a revolução, nas últimas semanas. Eu contarei isso em tempo oportuno e em breve.

Alinhavei, contudo, algumas palavras que, sob certos aspetos, considero muito importante focar agora. Isto não é um trabalho literário. Toda a gente sabe que eu não sou um literato, nem interessa que haja aqui literatos. O que interessa é que haja homens transparentes que digam a verdade ao povo na linguagem que ele entende. (…)

Chegou, enfim, a hora da verdade da revolução portuguesa. A partir deste momento não fica mais campo para os socialistas de palavras, para os falsos socialistas. É bom que todos estejam conscientes desta questão e façam um esforço no sentido de verem, para além das campanhas de intoxicação e de ataque que ultimamente têm chegado a algumas organizações e figuras entre as quais eu me encontro. A questão é entre aqueles que querem exercer o Poder no sentido de ajudarem os outros a tomar o seu destino nas suas próprias mãos e aqueles que, pretendendo exercer o Poder em nome do povo querem perpetuar a sua exploração. A questão coloca-se entre os que são socialistas nos atos e os que são socialistas nas palavras. A questão não é, pois, de oposição entre Vasco Gonçalves e Fulano ou Vasco Gonçalves e Sicrano. Não se trata, pois, de um problema de individualidades. A questão, repito, não é esta. A questão é mais profunda, só se pode pôr no campo da luta de classes, no campo da opção de classe, pondo as coisas claramente. (...)

É necessário que todos os portugueses democratas, progressistas e patriotas tenham bem consciência dos perigos que atravessamos, e que se unam! Que se unam na defesa das conquistas alcançadas depois do 25 de Abril.

À frente de todos, os trabalhadores – operários, camponeses, pescadores, na vanguarda do processo de democratização do País e de transição para o socialismo. A paralisação do trabalho das 11 às 11 e 30 proposta pela Intersindical para amanhã é uma ação justa de defesa do nosso povo contra o perigo fascista. Os trabalhadores portugueses devem alertar e mobilizar o País com a sua ação. Unidos, coesos, conscientes dos seus deveres para com os seus compatriotas, essa paralisação não é uma ação de carácter laboral, mas uma ação patriótica destinada a alertar a consciência de todos os portugueses para a defesa das conquistas obtidas depois do 25 de Abril. Repito: as liberdades e garantias individuais; as novas relações de trabalho; a unidade sindical; as nacionalizações; o controlo da produção pelos trabalhadores a Reforma Agrária.

Estais dispostos a perder isto? Ou estais dispostos a lutar por isto?

Os trabalhadores dão um alto exemplo de consciência cívica e de unidade, mostrando ao seu povo o caminho da luta firme, tenaz, quotidiana pela liberdade e pela democracia.

Conscientes de que a batalha da produção e da economia não pode ser separada dessa ação de massas, nem tão-pouco prejudicada, exorto os trabalhadores a compensar essa meia hora de amanhã, num determinado dia e hora, para que assim demonstrem a sua disciplina revolucionária, o seu civismo e o seu ardor patriótico – o seu amor à liberdade.

Sempre tenho combatido o anticlericalismo. O sr. Cardeal-patriarca de Lisboa sabe-o bem pelas conversas que tem tido comigo.

Reconhecemos que temos cometido alguns erros em certas campanhas de dinamização cultural, por exemplo, e a decisão de não entregar a Rádio Renascença ao Patriarcado foi um erro grave. (…)

Só na medida em que dispusermos de um Estado democrático e forte poderemos impor ritmo à Revolução. Mais uma vez, portanto, se põe a questão do exercício de uma autoridade democrática que faça cumprir as leis democráticas e que dê condições ao governo que permitam clarificar a situação económica, as relações laborais, etc.

Na campanha de intoxicação da opinião pública a que assistimos fala-se muito de que os lugares-chave da administração central e local estão ocupados por individualidades do PC, do MDP e de outros partidos políticos de esquerda em detrimento do PS, do PPD e do CDS. Ora o que se passa na realidade desmente de maneira absoluta as atoardas de tal campanha. É conhecido como logo a seguir ao 25 de Abril, muitas autarquias locais passaram a ser geridas por pessoas daqueles partidos de esquerda incluindo elementos do PS que se encontravam ainda ligados aos outros partidos antifascistas no seio do Movimento Democrático Português. Isto passou-se devido ao facto de nestes partidos se encontrarem os indivíduos militantes mais aptos para ocuparem naquele momento aqueles lugares e ser necessário substituir rapidamente as direções fascistas. O mesmo não podia passar-se ao nível da administração central onde só algumas individualidades mais comprometidas com o regime anterior foram afastadas.

Poderá dizer-se que nos lugares de dirigentes deixados vagos pelo saneamento e nos lugares novos que foram criados, foram colocados só individualidades dos partidos referidos? Bastará olharmos para a composição desses quadros dirigentes nos diversos ministérios para verificarmos que neles se encontram individualidades das mais diversas tendências políticas. O mesmo se passa nos quadros dirigentes das empresas públicas e nacionalizadas. (…)

A Revolução - a nossa Revolução - é do Povo Português.

O tempo do paternalismo, dos mandões, dos donos do País, acabou!

Por isso o Povo tem o direito de exigir que o MFA – seu braço armado – defenda a Revolução, sob pena de deixar de ser o MFA.

A Revolução não é de ninguém, é de todos. Por isso, agora que o fascismo – mercê das nossas hesitações, ambiguidades e querelas subalternas – está a levantar cabeça para recuperar o perdido em 25 de Abril, todos os antifascistas, todos os patriotas, todos os democratas, seja qual for o partido político a que pertencem, devem unir-se numa frente de defesa das liberdades democráticas, inabalável e indestrutível!

Viva a unidade no seio das Forças Armadas!
Viva a unidade entre os partidos progressistas!
Viva a unidade de todos os trabalhadores!
Viva a aliança Povo-MFA!
Viva Portugal!»

Os discursos empolgados do Companheiro Vasco não evitavam o que estava à vista. O V Governo caminhava a passos largos para a extinção.
«O V Governo foi desde o começo um nado-morto.» – diz o historiador António José Telo – «Parecia que o único que ainda acreditava nele era Vasco Gonçalves, animado por uma fé quase messiânica, com atitudes de visionário, que rapidamente resvalaram para um ridículo difícil de disfarçar, que incomodava os aliados da véspera. A partir de certa altura, a grande dificuldade de todos os apoiantes oficiais de Vasco Gonçalves era manter as distâncias e procurar sair do barco antes de este afundar, a começar no PCP. Vasco Gonçalves repetiu nisto o destino de António de Spínola: todos os amigos da véspera fugiam deles como da peste quando se aproximava a hora do confronto final.»




RUTURA DE OTELO SARAIVA DE CARVALHO COM VASCO GONÇALVES

No seguimento do discurso de Almada, Otelo Saraiva de Carvalho consuma a rutura com Vasco Gonçalves. Em carta pessoal Otelo proíbe Vasco Gonçalves de visitar as unidades militares integradas no COPCON comandado por Otelo e pede ao general que "descanse, repouse, serene, medite e leia":

A CARTA DE OTELO A VASCO GONÇALVES

Meu general Recebi hoje cerca das 12 horas, um telegrama do Fabião informando-me de que o Primeiro-Ministro se deslocava amanhã em visita ao RIOQ e que, na 6.ª feira 22, assistia ao juramento de Bandeira no RPM.

Nesta nota pessoal – utilizando o tal processo que nos propusemos de nos dizermos as coisas cara a cara, – quero dizer-lhe que, na minha qualidade de Comandante Operacional do Con tinente e Governador Militar de Lisboa, funções de que pelo M.F.A. fui encarregado, e, mal ou bem, vou desempenhando, não autorizo as suas visitas a Unidades Militares sob a minha jurisdição. O teor do comunicado que no dia 16 leu perante a Nação e o discurso – triste discurso – que fez perante o «seu» público anteontem em Almada, aliado à posição que perante si, frontalmente, tenho tomado, levam-me a esta atitude.

Sei que ficará chocado e adivinho como reagirá. Já o conheço o suficiente para o saber. E quero, antes que pense o contrário, afirmar-lhe que neste momento estou serenamente em casa, aguardando que minha mulher me chame para o almoço, totalmente livre de quaisquer «perniciosas» influências que sobre mim pudessem pesar.

É portanto uma atitude pessoal. Compreende-a decerto, em consequência do que lhe tenho afirmado em reuniões do Directório ou alargadas nos Chefes de Estado-Maior. Embora S. Ex.ª o Senhor Presidente da República não o faça, eu afirmo-lhe, em nome do M.F.A. (julgo-me com direito de em nome dele poder falar ou, pelo menos, em nome do Movimento que considero mais puro o que, regressando às origens, apelidaria do «Movimento 25 de Abril») que o Companheiro Vasco tem de ser dispensado. Concordo consigo. É o M.F.A que tem que assumir as suas responsabilidades e demiti-lo. Eu anteontem disse-lhe que sim, que o demitia em nome do M.F.A. No entanto, depois disso e querendo desesperadamente ganhar o tempo que a amizade, a indecisão, perante tão grave resolução do General Costa Gomes lhe concede, companheiro Vasco resolve começar a visitar Unidades Militares!

Lembre-se de que, em curto espaço de tempo, o comparei já a Spínola e a Salazar, por motivos diferentes e opostos. E confirmo essa semelhança real, embora criada com antagonismos. O seu patético discurso de anteontem e esta súbita e intempestiva necessidade de visitar Unidades Militares recordam-me dolorosamente os procedimentos suspeitos de António Spínola antes do 28 de Setembro.

As Unidades Militares não devem nem podem servir, sobretudo nesta grave crise, quando os homens do 25 de Abril repensam a Revolução, de local propício à realização de comícios «tipo Almada». Tenha paciência, meu caro amigo, mas a minha recusa é total.

Percorremos juntos e com muita amizade um curto-longo caminho da nossa História. Agora companheiro, separamo-nos. Julgo estar dentro da realidade correcta deste País ao assim proce der. Como dizia Mao – citando os clássicos – , um revolucionário deve estar sempre com as maiorias populares. Só com elas pode remos caminhar em frente na Revolução que é e se quer Nacional.

Não me faça sorrir com essa da aliança histórica da direita com a extrema-esquerda! Ainda um dia havemos de conversar sobre isso.

Cá continuarei em frente, pois, com o meu sentido intuitivo e não científico da Revolução, no que ela exige de sacrifício, de avanços e recuos, com a minha, tão proclamada por si, «falta de visão política». Penso que a orientação que devemos dar à Revolução a pode encaminhar no melhor sentido, em benefício do povo que é o nosso no País real em que habitamos.

Peço-lhe que descanse, repouse, serene, medite e leia. Bem necessita de um repouso muito prolongado e bem merecido pelo que esta maratona da Revolução de si exigiu até hoje. Pelo seu patriotismo, a sua abnegação, o seu espírito de sacrifício e de revolucionário.

Com mágoa e com muita amizade, um abraço, companheiro do

Otelo Saraiva de Carvalho (20-8-75)




AINDA DURANTE A DEMOCRACIA

O “Grupo do Nove” pressiona e impõe ao general Costa Gomes a demissão do Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves (19 de Agosto de 1975); reunião do Diretório (Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo) com os chefes de Estado-Maior (Carlos Fabião, Morais da Silva e Pinheiro de Azevedo), onde foi decidido a indigitação do vice-almirante José Pinheiro de Azevedo para Primeiro-Ministro e a nomeação do general Vasco Gonçalves para as funções de Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas – CEMGFA (25 de Agosto de 1975); foi oficialmente indigitado para o cargo de Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (30 de Agosto de 1975); Assembleia de Delegados do Exército, em Tancos, decide não aceitar a nomeação de Vasco Gonçalves para CEMGFA (2 de Setembro de 1975); Assembleia do MFA, na Escola Prática de Engenharia, o célebre “Pronunciamento de Tancos”, onde se consuma o afastamento de Vasco Gonçalves, que também renuncia ao cargo de CEMGFA e ao Conselho da Revolução (5 de Setembro de 1975); apresenta a demissão formal do cargo de Primeiro-Ministro (6 de Setembro de 1975); exonerado do cargo de Primeiro-Ministro do V Governo Provisório (decreto de 12 de Setembro de 1975); indigitado para chefiar o IAEM – Instituto de Altos Estudos Militares, por proposta do general graduado Carlos Fabião (22 de Outubro de 1975); toma posse como diretor do Instituto de Altos Estudos Militares (31 de Outubro de 1975); passou à situação de reserva (15 de Dezembro de 1975); demitido do cargo de diretor do Instituto de Altos Estudos Militares, por ordem do Chefe do Estado-Maior do Exército (20 de Dezembro de 1975); contesta a decisão do Conselho da Revolução da sua passagem à reserva, por considerar injustificado o motivo invocado de «não oferecer garantias de fidelidade» (16 de Fevereiro de 1976); o Conselho da Revolução indefere o pedido do general Vasco Gonçalves no sentido do seu reingresso no ativo das Forças Armadas (7 de Maio 1976); reformado (1 de Julho de 1990).





O COMPANHEIRO VASCO

Vasco dos Santos Gonçalves sempre se afirmou como um «patriota descomprometido com os partidos mas não com as ideias». Considerado geralmente como pertencente ao grupo dos militares próximos do PCP, perdeu toda a sua influência na sequência do movimento do “25 de Novembro de 1975”.

Como Primeiro-Ministro, foi o mentor da reforma agrária, das nacionalizações (bancos, seguros, transportes públicos, Siderurgia, etc.), do salário mínimo para os funcionários públicos, do subsídio de férias (13º mês) e do subsídio de Natal. A sua honestidade e honradez nunca foram postas em causa.

O seu protagonismo durante os acontecimentos do “Verão Quente” de 1975 levou os apoiantes do “Gonçalvismo”, na pessoa de Carlos Alberto Moniz, a comporem uma canção em que figurava o seu nome: «Força, força, companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço!».

Depois da vitória eleitoral do Partido Socialista, não tardou a ser afastado do governo e do exército.




ÚLTIMA ENTREVISTA A VASCO GONÇALVES

«Entre 18 de Junho de 1974 e 12 de Setembro de 1975, foi o Primeiro-Ministro de Portugal, e esse foi o tempo mais gratificante da sua vida. Aos 452 dias iluminados que então viveu, mais de dez mil horas quase todas vividas de olhos abertos, juntem-se-lhe todos os outros e as noites e as madrugadas acesas que fizeram o ano e meio da Revolução. Vasco Gonçalves sorri quando fala desse período, e não é um sorriso de dor ou de saudade: é o riso sereno de quem cumpriu o seu destino e está feliz por com isso ter contribuído para melhorar o destino dos outros.
Depois do 11 de Março de 1975, Vasco Gonçalves foi o centro de todas as atenções: daqueles que o admiravam, como daqueles que o temiam. Durante o PREC, Vasco e a Revolução foram uma e a mesma coisa. A queda do V Governo Provisório, dois meses antes de Novembro, foi o prenúncio de que a Revolução estava a chegar ao fim: "Vasco voltará", garantiam, então, os seus seguidores mais crédulos.

Viriato Teles: - Saudades de Abril, General Vasco Gonçalves?

Vasco Gonçalves: - Tenho, naturalmente, saudades de Abril. Mas saudades saudáveis, não nostálgicas ou melancólicas. Saudades que animam a luta pelo futuro.

VT: - Trinta anos passados sobre o Verão Quente, sente que cumpriu o seu dever?

VG: - Sim. Cumpri o meu dever para com o nosso povo e para com o Movimento das Forças Armadas.

VT: - Se pudesse voltar atrás, o que é que fazia de diferente? Alguma vez se arrependeu?

VG: - Penso que nas suas linhas gerais, definidoras, o ordenamento constitucional de 1976, que consagra as conquistas democráticas alcançadas no período mais criador da revolução, era correto. Foi a falta do seu cumprimento, a política deliberadamente destruidora desse ordenamento, coberta por sucessivas revisões constitucionais que conduziu à situação atual. Mas devemos reconhecer que não houve base de apoio social e político para garantir o cumprimento do ordenamento constitucional, o que tem permitido as sucessivas revisões constitucionais que alteraram, profundamente, a organização económico-social institucionalizada na Constituição de 1976. Nas suas linhas mestras, definidoras, não voltaria portanto, atrás em matéria de conquistas democráticas e revolucionárias.

VT: - Está disponível para participar num novo 25 de Abril?

VG: - Muitas vezes se faz essa pergunta, de há quase 30 anos para cá. As condições históricas, objetivas e subjetivas, as situações são irrepetíveis. A pergunta significa, para mim, se continuo confiante no valor, na capacidade transformadora, das ideias do 25 de Abril, uma vez tomadas pelo nosso povo. Continuo. Penso que os caminhos de Abril continuam bem atuais para a construção duma sociedade de justiça social no nosso país.»

Esta entrevista faz parte do livro "Contas à Vida – Histórias do Tempo que passa", de Viriato Teles, a publicar pela Editora Sete Caminhos.

*

Muitas vezes acusado de ser membro do PCP, em 1998 Vasco Gonçalves responde assim: dizem que sou comunista, que eu estava ali ao serviço do Partido Comunista e tudo isso. (…) Simplesmente eu tenho a minha consciência de que estava ao serviço do país, ao serviço do MFA, etc.»




OTELO CONTA COMO COSTA GOMES CONSEGUIU LIVRAR-SE DE VASCO GONÇALVES


Em 2001, Otelo Saraiva de Carvalho recorda Costa Gomes como "um homem afável, simpático, de um enorme humanismo", mas dotado de "uma sibilina capacidade para resolver, de uma forma dura, situações que envolvessem amigos e camaradas". E para ilustrar tal ideia, conta como ele lidou com Vasco Gonçalves, no Verão de 1975:

"Era claro para toda a gente que Vasco Gonçalves, instrumentalizado pelo PCP, estava numa situação muito difícil, com o seu prestígio muito abalado, quer a nível militar, quer da classe média alta. Para o tirar da ribalta, Costa Gomes propôs-lhe a chefia do Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA), o que provocou uma reação extremamente dura por parte da generalidade dos oficiais, muitos dos quais acabaram por engrossar o Grupo dos Nove".

O antigo comandante do COPCON prossegue: "É claro que, perante aquela reação, Vasco Gonçalves não podia ir chefiar o EMGFA. Então Costa Gomes convidou-o para ficar à frente do V Governo, que ia durar pouco. Perguntei-lhe qual era a ideia. Expor Vasco Gonçalves, penalizá-lo mais? Muito calmamente, ele respondeu-me 'é isso mesmo que eu pretendo'.

Otelo declara que tal atitude, da parte do então Presidente da República, o deixou "chocado". "É que eles eram amigos, desde antes do 25 de Abril, Vasco Gonçalves fora indigitado pelo MFA para os contactos com Costa Gomes, e ambos participaram em reuniões militares clandestinas promovidas pelo PCP".

Para este oficial na reserva, em Costa Gomes "havia uma ambiguidade calculada". "Ele deixava arrefecer as situações para depois as resolver a frio, dava a ideia de que era indeciso, mas não era, apenas não agia de forma afetiva, era frio e racional, um homem de grande qualidade, de grande inteligência".

E, para ilustrar estas características de personalidade, vai buscar acontecimentos que situa no 25 de Novembro de 1975: "Ele evitou, juntamente comigo, um banho de sangue, uma guerra civil. Eu reivindico a minha parte. Nesse dia, ele telefonou-me para o COPCON a solicitar a minha presença em Belém, e só descansou quando eu me apresentei. Disse-me que estava apreensivo e que eu o tinha sossegado, mas que devíamos tomar todas as providências para evitar que os militares saíssem para a rua".

Uma dessas "providências" foi "fazer uma proposta para Costa Martins levar aos paraquedistas e conseguir assim que eles voltassem a Tancos". "Costa Gomes mandou dizer por Costa Martins que iria comigo a Tancos garantir aos paraquedistas que eles deixariam de ser tutelados pelo Estado-Maior da Força Aérea e que passavam a depender do COPCON. Ficámos os dois à espera de uma reação à proposta, mas Costa Martins nunca mais apareceu".

Estes episódios, na opinião do antigo militar de Abril, hoje tenente-coronel na reserva, revelam que houve sempre, da parte daquele que era o único marechal português, "uma vontade enorme de impedir confusões". "Era um homem extremamente ponderado, tomava decisões mas aguardava o melhor momento para as anunciar, era sério, sábio e capaz de gerir o tempo".

Por Isabel Braga (01.08.2001




COMO ÁLVARO CUNHAL SALVOU O PCP AFASTANDO VASCO GONÇALVES

Entretanto, alguns dias após o seu falecimento, aparece no DN de 10 de Outubro de 2005 um artigo de Armando Rafael com o título: – “Álvaro Cunhal salvou PCP afastando Vasco Gonçalves”. Nesse artigo pode ler-se:

«Quarenta e oito horas depois de o V Governo Provisório ter tomado posse, o PCP reuniu, discretamente, o seu Comité Central (CC) em Alhandra para ouvir Álvaro Cunhal alertar o partido para a forte possibilidade de Vasco Gonçalves poder ter os dias contados como Primeiro-Ministro.

Foi um discurso proferido a 10 de Agosto de 1975, recheado de improvisos que só viriam a ser integralmente conhecidos anos depois, e que caiu como um balde de água fria para quem não esperava ouvir o secretário-geral do PCP tirar o tapete a uma figura com a qual os comunistas tanto se identificavam. (...)

Para que não subsistissem dúvidas entre os elementos do Comité Central que o ouviam, e que eventualmente dele discordavam, o secretário-geral do PCP foi ainda mais longe na sua tese "Tomámos a responsabilidade de comunicar que não apoiávamos a constituição desse governo com Vasco Gonçalves, se na verdade não houvesse um apoio militar. Daí já termos afirmado que, a nosso ver, a solução encontrada não exclui possibilidades de recomposições, reajustamentos e reconsiderações que possam aumentar a eficiência do Governo e alargar a sua base de apoio social e política. Da parte da esquerda militar, sem exclusão de ninguém, vemos muito sectarismo. Não dá qualquer abertura e isso pode precipitar a sua queda.(…)

Um sinal e uma mensagem devidamente articulada por Costa Gomes com os sectores moderados do MFA, com Otelo Saraiva de Carvalho, com o PS, mas também com o PCP e Álvaro Cunhal, que, assim, se preparavam para deixar cair Vasco Gonçalves como Primeiro-Ministro, esperando, no entanto, que o sacrifício do Companheiro Vasco como Primeiro-Ministro pudesse vir a ser ainda devidamente compensado pela sua nomeação para chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA). (…)

Tudo porque o PCP temia que os exageros revolucionários da atuação dos governos e da retórica de Vasco Gonçalves pudessem acabar por pôr em causa o peso da esquerda militar no seio do MFA, arrastando o país para uma nova ditadura ou um regime autoritário que excluísse os comunistas, repetindo em Portugal aquilo que se verificara no Chile, onde o golpe militar liderado por Pinochet levara à perseguição e à eliminação sistemática dos comunistas e outros militantes de esquerda.

"Não nos devemos deixar encostar ao muro", advertiu Álvaro Cunhal em Alhandra. Não espanta, por isso, que o secretário-geral do PCP tivesse dedicado uma parte substancial do seu discurso perante o CC à análise da nova correlação de forças que começara a fazer-se sentir no seio do MFA, e que encorajou o Grupo dos Nove (com apoio e cumplicidade de Otelo Saraiva de Carvalho) a liderar a contestação aos gonçalvistas.

Palavras premonitórias sobre a sucessão de acontecimentos que viriam a desembocar no 25 de Novembro, sem que o PCP tivesse conseguido implementar a nova estratégia que acabaria por ser ratificada no Comité Central de Alhandra. E que passava, no essencial, pelo retomar do diálogo com o Grupo de Nove.

Um objetivo que seria parcialmente atingido, como se constataria três meses depois, quando o PCP acabou por ser publicamente absolvido através de uma célebre declaração proferida por Melo Antunes na televisão. (…)

Nessa altura, já Cunhal e o PCP tinham deixado cair Vasco Gonçalves e constatado o erro da aposta que os comunistas tinham feito em Pinheiro de Azevedo para o substituir.

Mas isso seria depois. Muito depois. Em pleno Verão Quente de 1975, a estratégia era bem diferente, como o sucessor de Vasco Gonçalves recordou, alguns anos depois, num livro de memórias que dedicou a esse período [25 de Novembro sem Máscara].

"O PC deixou de lhe dar cobertura (...).Vasco Gonçalves fora útil, mas estava a tornar-se prejudicial, com o seu extremismo desvairado, que poderia levar o país à guerra civil (...). Ora uma guerra civil não interessava a ninguém. Nem interna nem externamente. O PC, manifestamente, achou que Vasco Gonçalves já cumprira o seu papel."




CALOU-SE A VOZ DO GENERAL QUE DEU NOME AO GONÇALVISMO

«Vasco dos Santos Gonçalves, general na reserva, morreu em 11 de Junho de 2005, em Almancil, no Algarve. Foi Primeiro-Ministro nos II, III, IV e V governos provisórios, em 1974 e 1975, e uma das figuras mais marcantes do período revolucionário que se seguiu ao do 25 de Abril. O corpo foi transportado de Faro para Lisboa, num veículo militar, para ser velado na igreja da Academia Militar.

O "companheiro Vasco", como era aclamado nas manifestações de rua no "Verão Quente" de 1975, foi uma das personalidades que mais dividiu opiniões, entre ódios e paixões, mas há unanimidade ao falar-se do seu carácter generoso. O seu nome surgiu nas manifestações e comícios populares do chamado PREC (Período Revolucionário em Curso) em "slogans" como "força, força, companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço", que até deu origem a uma canção.

O combate aos monopólios e aos latifúndios, a nacionalização da Banca e a introdução do 13.º mês foram algumas das decisões que ficaram ligadas ao "gonçalvismo", como ficou conhecido o período em que governou.

Vasco dos Santos Gonçalves encontrava-se na reserva desde 15 de Dezembro de 1975. Oriundo da Arma de Engenharia, a oposição do general Vasco Gonçalves ao salazarismo é referenciada nos anos 50 e nos primórdios do "Movimento dos Capitães", que haveria de culminar, a 25 de Abril de 1974, no derrube da ditadura, tendo sido um dos poucos oficiais superiores a apoiar os mais jovens militares. Seria, mais tarde, o oficial de mais elevada patente na Comissão Coordenadora do Programa do Movimento das Forças Armadas (MFA).

Assumindo-se sempre como "um representante do MFA no Governo" enquanto ocupou as cadeiras do Poder, Vasco Gonçalves – acusado pelos seus opositores de ser próximo do PCP – acabaria por ser afastado sob a acusação genérica de incumprimento do ideário do MFA.

Não se considerou, no entanto, um homem vencido, manifestando sempre a vontade e a determinação de "continuar a lutar". Nas várias entrevistas e conferências que deu até há pouco tempo, disse sempre que Portugal seria muito melhor se tivessem prevalecido as ideias socializantes que defendeu e que considerou inseparáveis da democracia. "Não sendo um homem de partido, Vasco Gonçalves adquiriu muito cedo um conhecimento dos clássicos do marxismo que lhe proporcionou uma compreensão científica da História que, na prática da vida militar, se traduzia numa consciência da necessidade de formar homens responsáveis e num sentimento de solidariedade com o seu povo, vítima com os das colónias de um sistema monstruoso", escreveu o historiador Miguel Urbano Rodrigues, citado pela agência Lusa. (In JN 12 de Junho de 2005).

Vasco Gonçalves morreu aos 83 anos, quando nadava numa piscina, em casa de um irmão, aparentemente devido a uma síncope. O seu funeral constituiu uma inequívoca e impressionante demonstração de carinho de uma parte significativa da população. O seu nome e a sua vida ainda hoje continuam a despertar sentimentos profundamente opostos junto de diferentes grupos da população, sendo naturalmente acarinhado nas regiões mais firmemente de esquerda e, em particular, na grande Lisboa, na Península de Setúbal e no Alentejo.