A ignorância, mais que a preguiça, é a mãe de todos os vícios...

Brito Camacho

Médico, militar, escritor e político:
1862 - 1934



Quando tudo aconteceu...

1862 – MANUEL DE BRITO CAMACHO nasce no dia 12 de Fevereiro no Monte das Mesas, aldeia de Rio de Moinhos, Aljustrel. 1868 - Estudos primários em Aljustrel 1876 – Estudos secundários no Liceu de Beja. 1880 – Ingressa na Escola Médico Cirúrgica de Lisboa 1884 – Licenciatura em Medicina. Inicia carreira de médico em Torrão. 1891 - Ingressa em 23 de Abril, no Serviço de Saúde do Exército e é colocado em Caçadores 10 como cirurgião ajudante. 1893 – Inicia actividade política como candidato a deputado por Beja nas listas republicanas. Após as eleições sofre processo disciplinar militar por artigo contra a Monarquia, publicado no jornal Nove de Junho. Suspenso por um ano, desce doze lugares na ordenação dos médicos militares (9 de Abril de 1894). Transferido para a 2.ª Divisão Militar, em Viseu e depois transferido para os Açores 1894 – Regressa dos Açores e é colocado em Viseu. Inicia colaboração regular na imprensa. Funda, com Ricardo Pais Gomes e Ribeiro de Sousa, O Intransigente, jornal de crítica política e propaganda republicana 1895 – Em 18 de Abril passou à situação de inactividade temporária sem vencimento, a seu pedido. Termina em Junho a publicação de O Intransigente 1897 – Em 21 de Julho foi demitido do serviço do Exército, a seu pedido. 1902 - Apresenta uma tese de doutoramento em Medicina na Universidade de Paris. Abandona definitivamente a sua prática como médico militar e dedica-se em exclusivo ao jornalismo e à política 1904 – Concorre a professor da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa 1906 – Funda com outros o jornal A Lucta, periódico republicano (mais tarde órgão oficioso do Partido Unionista) 1908 – Eleito Deputado nas eleições depois do Regicídio 1909 - Toma parte activa na organização das manifestações promovidas pela Junta Liberal dirigida por Miguel Bombarda (de quem Brito Camacho recebeu as últimas indicações revolucionárias, a 3 de Outubro de 1910, quando aquele foi vítima dum atentado) 1910 - Nomeado Ministro do Fomento do Governo Provisório levando a cabo importantes reformas, como a divisão do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa e a criação do Instituto Superior Técnico e Instituto Superior de Comércio,. Por decreto deste Governo de 21 de Novembro, foi anulado o castigo que sofrera em 1894 e foi reintegrado no Exército sendo promovido a capitão médico (com antiguidade de 19 de Julho de 1901) 1911 – Volta a ser Ministro após as primeiras eleições republicanas. Subscreve, como Ministro, a Lei da Separação da Igreja do Estado 1912 – Reassume o lugar de director de A Lucta. Após a cisão do Partido Republicano, lidera a sua ala direita que constitui o Partido da União Republicana ou Unionista 1914 - Durante a I Grande Guerra conserva-se afastado dos governos e defende a ideia de que a participação de Portugal deveria ser nas colónias e não em França 1917 – Promovido a Major Médico 1918 - Dá-se a fusão do Partido Unionista com o Partido Evolucionista, levando à criação do Partido Liberal Republicano e Brito Camacho afasta-se da actividade política, abandonando os cargos de liderança partidária. Promovido a Tenente Coronel Médico 1919 – Promovido a Coronel Médico 1920 – Recusa o convite para formar um governo apoiado pelo Partido Liberal Republicano. 1921 – Nomeado Alto Comissário da República em Moçambique. Mantém essas funções até Setembro de 1923, embora tenha regressado no ano anterior 1925 – Sendo Deputado, manifesta aos eleitores a intenção de abandonar a vida política 1926 – Após a Revolução de 28 de Maio, foi obrigado a abandonar a actividade política 1934 – Morre em Lisboa no dia 19 de Setembro.

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AS ORIGENS

Nasce no Monte das Mesas, aldeia de Rio de Moinhos, Aljustrel, no dia 12 de Fevereiro de 1862, no seio de uma família de lavradores, filho de Manoel de Brito Camacho e de D. Maria Bárbara (aos 14 anos ainda escrevia o seu nome como Manuel de Brito Camacho Júnior).

Casa com uma filha do Dr. José Jacinto Nunes, Maria da Luz, que morre durante o parto da única filha do casal, que viria a morrer algum tempo depois. O desgosto então sofrido parece ter moldado o seu carácter, fazendo de Brito Camacho um homem duro, triste, revoltado e por vezes pouco sociável.




OS ESTUDOS

Fez os estudos primários em Aljustrel e no Liceu em Beja, sendo um bom e aplicado aluno.

Fez os Estudos Preparatórios na Escola Politécnica em Lisboa e depois ingressou na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, onde se licenciou em 1884.




O MÉDICO

Logo após a licenciatura iniciou a sua vida de médico no Alentejo, em Torrão. Contudo, a sua actividade médica foi diminuta, uma vez que a escrita e a política o desviaram da sua profissão.

Como médico militar a sua actividade também foi muito limitada. Tendo ingressado no Quadro Permanente dos Médicos Militares em 23 de Abril de 1891, solicita em 18 de Abril de 1895 a passagem à Inactividade temporária sem vencimento e em 11 de Julho de 1897 requer a sua Demissão que o Rei defere.

Neste curto período de seis anos, teve um processo disciplinar e um ano de suspensão de funções e transferência para os Açores.

Esta atribulada passagem pelo Serviço de Saúde Militar viria a ser compensada pela sua actividade política, pois após a República e fazendo parte do Governo, foi assinado o Decreto de 21 de Novembro de 1910, publicado na Ordem do Exército n.º 9, 2,ª série, que o considera reintegrado nos quadros do Exército, no posto de capitão, contando a antiguidade desde 19 de Julho de 1901. Será promovido ao longo da vida, até ao posto de Coronel Médico.

Em 1902 apresentou uma tese de doutoramento na Universidade de Paris e em 1904 ainda concorreu a Professor da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Tanto quanto se sabe, não chegou a concluir nenhum destes projectos.




O MÉDICO MILITAR

Em 3 de Abril de 1891 ingressa no Serviço de Saúde Militar e é colocado em Caçadores 10, Tancos e Torres Novas como Cirurgião Ajudante, passando a ter a nova designação de Tenente nesse mesmo ano. Em 1893 e já como consequência da sua actividade de publicista e político, o Exército levanta-lhe um processo disciplinar e coloca-o inicialmente em Viseu e posterior transferência para os Açores, sendo suspenso por um ano.

Em 1894 regressa dos Açores e é colocado na 2.ª Divisão Militar em Viseu.

Em 21 de Julho de 1897 um despacho assinado pelo Reis, diz que - foi demitido do serviço militar o cirurgião ajudante em inactividade temporária sem vencimento, Manuel Brito Camacho, pelo haver requerido. O ministro e secretário d’estado dos negócios da guerra assim o tenha entendido e faça executar. Paço, em 21 de Julho de 1897. REI

Apesar de demitido, foi promovido a capitão em 19 de Julho de 1901, a major em 7 de Maio de 1917, a tenente-coronel em 26 de Janeiro de 1918 e a coronel em 1 de Janeiro de 1919, em cumprimento do Decreto de 21 de Novembro de 1910, publicado na Ordem do Exército, n.º 9, 2.ª série, 1910 que o considera reintegrado nos quadros do Exército, no posto de capitão médico contando a antiguidade deste posto desde de 19 de Julho de 1901.

Este Decreto foi assinado por Joaquim Theófilo Braga, António José d’Almeida, Affonso Costa, José Relvas, António Xavier Corrêa Barreto, Bernardino Machado e António Luiz Gomes e dizia o seguinte –

«Entre o grupo distincto dos mais ardentes servidores da Republica Portugueza, que como irrisória compensação, ainda hoje estão soffrendo as consequências da sua patriótica iniciativa, devotada isenção e inquebrantável amor pela causa pública, figura em vantajoso destaque o ex-cirurgião ajudante do regimento de artilheria n.º 2, Manuel de Brito Camacho.

Há cerca de vinte annos que este benemérito cidadão tem dedicado, com exclusivo e perseverante ardor, ao serviço e publica propaganda do ideal republicano, as melhores energias do seu carácter e os maiores fulgores do seu talento. Desde os seus artigos no extincto jornal Nove de Julho , até aos seus trabalhos brilhantes como conferencista, orador e organisador de núcleos de resistência contra o decaído regímen monarchico, e ainda ultimamente a diffusão esclarecida e methodica dos princípios democráticos feita entre as classes mais illustradas da sociedade portugueza pelo seu apostolado admirável no jornal A Lucta, Manuel de Brito Camacho tem-se revelado sempre como um dos mais arrojados, confiantes e leaes cooperadores n’essa obra grandiosa de saneamento e justiça que acaba de emancipar a Pátria Portugueza.

A collaboração de Manuel de Brito Camacho no jornal Nove de Julho e a apresentação da sua candidatura como deputado republicano, valeram-lhe a imposição d’uma grave pena disciplinar, que o levou, depois, com justificado desgosto, a demittir-se do exercito.

É agora um dever elementar de equidade reparar a injustiça feita e reintegrar o ex-cirurgião ajudante Manuel de Brito Camacho no cargo que antigamente exercia no exercito, com a sua folha de serviço limpa e occupando o posto na escala de promoção que hoje lhe pertenceria se não tivesse deixado o exercito.

É como expressão d’este levantado princípio de justiça que se publica o seguinte decreto.

O Governo Provisório da Republica Portugueza decreta, para valer como lei, o seguinte:

Artigo 1.º - É annullado o castigo imposto em 9 de Abril de 1894 a Manuel de Brito Camacho, sendo riscada a nota na respectiva folha.

Artigo 2.º - É reintegrado nos quadros do exercito o ex-cirurgião ajudante Manuel de Brito Camacho, no posto de capitão médico, por ser esta a sua altura na escala de promoção, com a antiguidade d’este posto, de 19 de Julho de 1901.

Determina-se, portanto, que todas as auctoridades a quem o conhecimento e a execução do presente decreto, com força de lei, pertencer, o cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como n’elle se contém.

Os ministros de todas as repartições o façam imprimir, publicar e correr.

Dado nos Paços do Governo da Republica, aos 21 de Novembro de 1910»




O PUBLICISTA

Em Abril de 1894 funda, com Ricardo Pais Gomes e Ribeiro de Sousa, o periódico O Intransigente, um jornal de crítica política e propaganda republicana que se publica até Junho de 1895.

Nos anos de 1896 e 1897 dedica-se à publicação e à colaboração com periódicos republicanos e desenvolve em Évora intensa acção política, realizando conferências e inúmeros comícios.

Em 1906, funda com outros o periódico republicano A Lucta, que iniciou publicação no dia 1 de Janeiro. A Lucta foi o mais influente periódico republicano e, tempo depois, transforma-se no órgão oficioso do Partido Unionista.




O ESCRITOR

Dizia que era para si que escrevia - «esforço-me para que os meus escritos reflictam o mais exactamente possível o meu particular modo de pensar e de sentir, as minhas ideias e os meus sentimentos, sempre norteado por um ideal de justiça, de verdade e de beleza».

É muito extensa a sua obra publicada de que são prova os 39 títulos abaixo descriminados. Mas além dos livros publicados há que ter em conta as centenas de artigos publicados, as dezenas de palestras efectuadas.

Lourdes / Gente vária / Contos e sátiras / Gente rústica / Contos ligeiros / A reacção / Por ali fora: notas de viagem / Os amores de Latino Coelho / Gente bóer: aspectos de África / Por cerros e vales / De bom humor / A linda Emília / Impressões de viagem: cartas a um jornalista / Longe da vista / Moçambique: problemas coloniais / Rescaldo da guerra: através do "Livro Branco" / Política colonial / D. Carlos, íntimo / Memórias e narrativas alentejanas / Contos selvagens: recordações de África / A caminho de África / Questões nacionais / Nas horas calmas / Jornadas / Dois crimes / Cenas da vida / Ao de leve / Ferroadas / Quadros alentejanos / Pretos e brancos / Pó da estrada / Terra de lendas / Portugal na guerra / Rescaldo da guerra através do "Livro branco": continuação do "Portugal na guerra" / Matéria vaga / A reacção / Longe da vista / A educação nacional / Por ahi fóra: notas de viagem




O POLÍTICO

Foi no Centro Socialista das Amoreiras que fez a sua primeira conferência política intitulada «A coroa substituída pelo chapéu alto».

Foi eleito deputado pela oposição republicana, nas eleições que se realizaram a 5 de Abril de 1908, após o Regicídio. Falou pela primeira vez na Câmara de Deputados a 9 de Maio, protestando contra o facto de o terem obrigado, como deputado, a jurar manter uma religião que não professava e a ser fiel a uma instituição que combatia; e, logo então, apresentou um projecto de lei que visava abolir em todas as instâncias o juramento político. No Parlamento e na imprensa foi o grande defensor do derrube da monarquia e um dos líderes do movimento de opinião pública que criou as condições para a implantação da República Portuguesa a 5 de Outubro de 1910..

Em Agosto de 1909 tomou parte activa na organização das manifestações promovidas pela Junta Liberal de Miguel Bombarda. Foi dele que Brito Camacho recebeu as últimas indicações revolucionárias, a 3 de Outubro de 1910, quando aquele foi vítima dum atentado.

As suas relações com o Almirante Cândido dos Reis, chefe militar do movimento insurreccional e com outros oficiais do Exército e da Marinha, permitiam a Brito Camacho, médico militar, ser um interlocutor privilegiado entre políticos e militares.

É um dos protagonistas da cisão do Partido Republicano Português (PRP), que originou os três principais agrupamentos políticos do novo regime - o Partido Democrático (Afonso Costa), o Partido Evolucionista (António José de Almeida) e o Partido da União Republicana ou Unionista (Brito Camacho).

A 23 de Novembro de 1919 é nomeado Ministro do Fomento do Governo Provisório, substituindo o Dr. António Luiz Gomes. Leva a cabo importantes reformas e decisões sobre o crédito agrícola, os caminhos de ferro e os transportes em geral, e o ensino técnico, sector onde procedeu à divisão do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, criando o Instituto Superior Técnico e o Instituto Superior do Comércio. Em 18 de Dezembro de 1910, com as assinaturas de Teófilo Braga e Brito Camacho, foi criada a ACAP (Associação de Classe Industrial de Vehículos e Artes Correlativas), hoje Associação Automóvel de Portugal que representa um dos mais dinâmicos e inovadores sectores da economia nacional. Em Setembro de 1911, após as primeiras eleições republicanas, volta a integrar o Governo.

Durante a I Grande Guerra conservou-se afastado dos governos da União Sagrada, defendendo a ideia de que a participação de Portugal deveria ser nas colónias, e não em França.

Em 1920 recusa o convite para formar um governo apoiado pelo Partido Liberal Republicano (que resultara da fusão dos Partidos Unionista e Evolucionista).

Exerce as funções de Alto Comissário da República em Moçambique, de Março de 1921 a Setembro de 1923, embora regresse a Lisboa em 1922..

Em 1925 manifesta a vontade de abandonar a vida política activa e o cargo de Deputado. Continua, no entanto, a promover a defesa dos ideais democráticos e da estabilidade política da República, em inúmeras conferências pelo país. Parece adivinhar o que lá vinha, pois após a Revolução de 28 de Maio de 1926 foi obrigado a abandonar a actividade política e retira-se para a vida privada.

Era um livre pensador. Pugnou por educação popular e apoiou os Grémios de Instrução e os Centros Escolares Republicanos pois considerava «…que aos letrados não convém que se difunda e intensifique a instrução, assim como aos ricos não convém que haja uma repartição mais equitativa das fortunas. Se o nível intelectual subisse, o valor de muita gente baixava, porque se tornaria manifesta a sua incompetência para ascenderam às posições que ocupam. A ignorância, mais que a preguiça, é a mãe de todos os vícios, porque, embora não tire ao homem o lugar que ocupa na escala zoológica, reduz a pouco mais de nada a sua categoria social, o seu valor como cidadão». (em Matéria Vaga, pág.6).

Pertenceu ao Grande Oriente Lusitano, tendo-se iniciado em 1893 no triângulo de Torres Novas.




A I GRANDE GUERRA

Durante a I Grande Guerra conservou-se afastado dos governos da União Sagrada, defendendo a ideia de que a participação de Portugal deveria ser nas colónias, e não em França.

Apesar de não concordar, Portugal decidiu constituir o Corpo Expedicionário Português e entra na Guerra. Brito Camacho esteve mobilizado e foi desmobilizado, como se poderá ver na leitura de dois documentos que elaborou a esse respeito e aqui deixo -

«Chegou ao meu conhecimento que um tenente coronel médico reclamou da ordem que o mandava seguir para França, em serviço de campanha, alegando que a mim e não a ele competia, n’aquella altura, uma tal missão de serviço.

Sou levado a crer que não tinha bons fundamentos a reclamação, visto não ter obtido despacho favorável; mas nem por isso deixa de ser verdade que na Secretaria da Guerra existe um documento em que um oficial do meu quadro e da minha patente se considera prejudicado em meu favor.

Em 12 de Fevereiro de 1917, sendo deputado da Nação, dirigi ao Presidente da Câmara dos Deputados uma carta assim redigida

Ex.mo Snr. Presidente da Câmara dos Deputados

Em nota de que me foi dado conhecimento hoje, o Quartel General da 1.ª Divisão do Exército ordenou ao Ex.mo Director do Hospital Militar de Lisboa que me mandasse apresentar na 5.ª repartição do Ministério da Guerra, afim de ser incorporado como capitão médico, na expedição a Moçambique.

Fiz imediatamente a minha apresentação.

Tenho, pela Constituição Política da República, o direito, que é ao mesmo tempo uma obrigação, de acompanhar regularmente os trabalhos parlamentares, e desse direito não prescindo enquanto durar a sessão legislativa ordinária, isto é, até 2 de Abril. Terminada ella, se o Ministério da Guerra carecer dos meus serviços fora do território continental da República, estarei pronto a desempenhá-los.

Digne-se V.a Ex.a comunicar ao Ministério da Guerra, para os devidos effeitos, o que deixo exposto.

Saúde e Fraternidade.

Sala das Sessões, 12 de Fevereiro de 1917

Manoel de Brito Camacho

Como V.a Ex.a vê, estou à disposição do Ministério da Guerra, para serviço de campanha, desde o dia 2 de Abril de 1917, até aos primeiros dias de Dezembro do anno corrente, por ter prescindido das minhas imunidades parlamentares, e a partir de então por ter perdido essas imunidades, dissolvido por decreto o Congresso da República.

No dia 8 de Junho próximo passado apresentei-me no Quartel General Territorial do C.E.P. com guia da 5.º repartição da 2,ª direcção da Secretaria da Guerra, e no dia 21 imediato, finda a licença regulamentar que gozara, foi-me lançada na guia esta verba – Apresentado e marcha amanhã para França no comboio das 20 e 05 a apresentar-se ao serviço do C.E.P. devendo apresentar-se na legação portuguesa de Paris no dia 25 do corrente.

Sucedeu, porém, que n’este mesmo dia, por motivos que ignoro, a Secretaria da Guerra mandou sustar a minha partida, ficando demorado sem limitação de tempo.

Encontro-me na situação que me criou a Secretaria da Guerra, por motivos de que nem sequer tenho o direito de inquirir; mas como já um oficial do meu quadro e da minha patente reclamou por não ir eu para França adiante d’elle, resolvi fazer a V.a Ex.a, como chefe da corporação dos médicos militares, a quem incumbe uma função tutelar com respeito aos seus interesses e decoro, esta exposiçaõ que fará parte do meu processo individual, para lhe dizer que marcharei para o serviço de campanha, logo que me mandem marchar, sem que verifique o logar que ocupo na respectiva escala e sem olhar para traz, no momento da partida, a ver se fica por cá alguém que devesse ir adiante de mim.

Saúde e Fraternidade.

Lisboa, 7 de Setembro de 1918

Manoel de Brito Camacho

Tenente-coronel médico»




O RECONHECIMENTO

Manuel Brito Camacho foi sempre uma personalidade polémica. Admirado por muitos e odiado por outros tantos. Era uma personalidade que não deixava ninguém indiferente. Raul Brandão que considerava que a liderança da República assentava em três políticos dizia deles - «O Afonso Costa desperta paixões e manda, o António José (de Almeida) arrasta multidões com frases. O Brito Camacho, até quando tem razão, é detestado – talvez mais detestado do que quando a não tem […]” .

Louvado pela muita competência de que deu prova nos trabalhos apresentados e pela dedicação e interesse como procurou levar a cabo a missão que lhe havia sido confiada como vogal da comissão nomeada para a reorganização do Exército (2 de Maio de 1911).

Ordem Militar de Aviz

Comendador da Ordem de S. Thiago da Espada

Medalha comemorativa das Campanhas do Exército Português

Personalidade marcada e influente, pouco sociável e contestatária, peça importante na luta pelo derrube da monarquia e pela implantação da República, talvez isso explique o interesse que foi despertando naquela época e ao longo dos tempos e de que são prova os vários livros que sobre ele se escreveram -

- Manuel Brito Camacho ; org. e pref. António Aresta

- Brito Camacho : político 1862-1934 / textos Teresa Sancha Pereira ; coord. António Trindade, Álvaro Albuquerque

- Manuel de Brito Camacho : alguns aspectos sobre o homem e a sua genealogia pela comemoração do centenário da fundação do jornal "A Lucta" / Orlando da Rocha Pinto

- O pensamento anticlerical de Brito Camacho / Luís Vaz ; pref. António Arnaut

- Brito Camacho - calunialista / Eduardo de Almeida Saldanha

- Brito Camacho / M. Ferreira de Mira e Aquilino Ribeiro

- Brito Camacho : algumas reflexões acerca da sua obra colonial / João Fernandes

- A rebolação: resposta ao folheto "A Reacção" do Sr. Dr. Brito Camacho / Frey Gil

- Brito Camacho (Tropical) : compilação dos artigos publicados em 1933 / Ismael Alves da Costa

- Brito Camacho ameaçado de morte pelos democráticos e o 19 de Outubro / Tomé Vieira

A 28 de Outubro de 1987 o Presidente da República Mário Soares descerrou uma lápide comemorativa na casa de Aljustrel onde Brito Camacho viveu, onde se lê – Homenagem a Brito Camacho por ocasião da instalação da Presidência da República no Alentejo, sendo Presidente da República o doutor Mário Soares Aljustrel, 29-10-1987.

Em 1999 foi atribuído o nome de Brito Camacho à Escola Básica de Aljustrel, de que é patrono.

Foi dado o seu nome a várias ruas e avenidas nas seguintes localidades – S. João do Estoril, Oeiras, Lisboa, Évora, Ferreira do Alentejo, Viana do Alentejo, Beja, Castro Verde, Montemor o Novo, Pedrógão do Alentejo, Pias, Lourenço Marques (hoje Patrice Lumumba em Maputo), Sesimbra, Évora, Rio de Moinhos, Almodôvar.




A MORTE

Morre em Lisboa no dia 19 de Setembro de 1934.