Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue ouro, marfim, améns e bíceps do meus povo.

José Craveirinha

Poeta, ensaísta e jornalista:
1922 - 2003



Quando tudo aconteceu...

1922: Em 28 de Maio nasce, na cidade de Lourenço Marques (antigo nome da atual capital moçambicana, Maputo), no bairro de Mafalala, João José Craveirinha. Filho de um português (natural de Aljezur, Algarve) e de mãe moçambicana de Xai-Xai, de etnia Ronga, um dos principais grupos étnico-linguísticos de Moçambique. Morou na Av. Vinte e Quatro de Julho, importante artéria da zona central da cidade. Herdou do pai o gosto pela poesia, cedo travou contato com Victor Hugo, Eça de Queirós, Zola, Antero de Quental, Guerra Junqueira e, dentre outros, Camões. Também teve muita aproximação com o neo – realismo português e a obra de brasileiros, como Rachel de Queiróz e Jorge Amado. 1940: Nos meados dos anos 40, inicia sua atividade jornalística no semanário O Brado Africano. Ao longo da mesma década, colaborou com outros jornais e revistas, como Itinerário e Mensagem(CEI) a sua colaboração mais significativa encontra-se no jornal O Brado Africano para o qual escrevia crônicas, poemas e pequenos textos de ficção (que, futuramente, seriam reunidos no livro de contos Hamina e outros Contos, 1996) e artigos sobre desporto. Muitas das suas matérias envolviam o mundo futebolístico – o próprio fora um jogador de futebol no Benfica e no Desportivo de Lourenço Maques – e as organizações que permitiam ao negro e mestiço adquirir uma consciência reivindicatória. É no jornal que se aproxima de gerações anteriores e posteriores de escritores, como Noémia de Sousa, Rui de Noronha e Rui Knopfli. 1955: Começa a colaborar com o Notícias de Bloqueio(1959). 1958: Começa a colaborar com o Moçambique (Suplemento Literário do Notícias), até meados de 1959. 1959: Recebe o prêmio Cidade de Lourenço Marques. 1960: Começa a colaborar com o “A Voz de Moçambique”. 1961: Recebe os prêmios “Reinaldo Ferreira” e “Ensaio”, pelo Centro de Arte e Cultura da Beira. Participa da edição nº 10 da revista Black Orpheus. Nessa altura, já era reconhecido como um dos poetas que mais enobreciam a poesia moçambicana, atingindo influência e prestígio por toda a sua terra. 1962: Início de suas colaborações com o “Tribuna”. Colaborou, na mesma redação, com o ensaísta Eugénio Lisboa e os escritores Rui Knopfli e Luís Bernardo Honwana. 1962: Publicação da coletânea de poemas intitulada Manifesto, com a qual ganharia o prêmio “Alexandra Dáskalos”, em um concurso realizado pela Casa dos Estudantes do Império(CEI). O poema “Chigubo” aparece primeiramente nesta obra. 1964: Primeira Edição do Livro de Poemas “Chigubo”, contendo poemas da coletânea Manifesto e abrindo com o poema “Chigubo”, lançado pela CEI na coleção “Autores Ultramarinos”. O livro, apreendido pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), foi utilizado como uma – dentre outras - prova nos processos que o mantiveram preso entre 1965-1969. A 2ª Edição foi rebatizada “Xigubo”, com vinte e um poemas (1980).
1965-1969: Período em que esteve preso. Compartilhou da cela com Rui Nogar e Malangatana, experiência descrita no livro Cela I (1980). 1966: Publicação na Itália, em edição bilíngue, do seu livro Cantico a un Dio de Catrame. 1971: Começa a colaborar com o periódico Caliban, até 1972. 1973: Como reconhecimento do seu valor literário, a obra de Craveirinha começa a ser alvo de trabalhos acadêmicos, a exemplo do livro Poesia em Moçambique – Craveirinha, Grabato Dias, Rui Knopfli, lançado por Jorge de Sena, Maria de Lourdes Cortez e Eugénio Lisboa. 1974: Lançamento da obra Karingana ua karingana, às vésperas da independência moçambicana. O título da obra é uma expressão ronga que significa “Era uma vez”, na qual aparece um dos seus mais célebres poemas, “Ao Meu Belo Pai Ex-Emigrante”. Após a independência ocupou diversos cargos públicos, como o de vice-administrador da Imprensa Nacional. 1975: Recebe o Prêmio Nacional de Poesia de Itália. É premiado com a Medalha de Ouro da Comuna de Concesio (Brescia). 1979: Escolhido para ocupar o cargo de membro permanente do Júri do Prêmio Lotus pela VI Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos, realizada em Luanda, Angola. 1980: Lançamento da 2ª edição de Chibugo, rebatizada para Xibugo, com vinte e um poemas. 1982: Assume como primeiro presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, cargo que exercerá até 1987. 1983: Recebe o Prêmio Lótus da Associação dos Escritores Afro-Asiáticos. 1985: Recebe a Medalha Nachingwea do Governo de Moçambique. 1987: Recebe a Medalha de Mérito da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, Brasil. 1988: Lançamento da 1ª edição do livro Maria, dedicado a sua mulher, Maria de Lurdes Nicolau, filha de pai grego e mãe ronga, falecida em 1979. 1989: Integra a seleta “50 Poetas Africanos”, organizada por Manuel Ferreira. 1991: Torna-se o primeiro autor africano galardoado com o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário da língua portuguesa. Considerado o Poeta mor moçambicano, no sentido em que Camões o é para Portugal. Com a sua poesia frequentemente extensa, narrática, glosando temáticas da dominação colonial, da identidade nacional e de lirismo amoroso ou irônico, Craveirinha acaba por forjar textos que têm marcas épicas, que funcionam como relatos concentrados ou alusões à gesta do povo de Moçambique. O escritor é uma representação da própria literatura moçambicana, por ter participado de várias gerações de escritores, sempre se reinventando. 1994: Nomeado para o cargo de Vice-presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, cargo que exercerá até a data do seu falecimento, em 2003. 1996: Lançamento do livro Babalaze das hienas. 1997: Lançamento do Livro Hamina e outros contos; Agraciado com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal; também agraciado com a Ordem Amizade e Paz, atribuída pelo presidente Joaquim Chissano. 1998: (re) lançamento de Maria, considerado como um livro diferente, por conter cento e cinqueta e dois poemas aos quarenta e oito da primeira edição. Trata-se de um novo livro, segundo o poeta, resultado do que ele foi anotando ao longo de duas décadas. Recebe o Prêmio Rui de Noronha. Publica pela Editora Ndjira, em Maputo, o livro de crônicas Contacto. Recebe o Prêmio Vida Literária da Associação dos Escritores Moçambicanos. 2002: O então presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, consagra o ano como “o ano do poeta José Craveirinha”. 2003: No dia 06 de Fevereiro de 2003 falece o poeta. Seu corpo é enterrado na Cripta da Praça dos Heróis, em Maputo, em companhia daquele que foi seu amigo pessoal, o primeiro presidente de Moçambique, Samora Machel. Instituído o premio José craveirinha de Literatura pela Associação dos escritores moçambicanos. 2007: A residência do poeta - na qual vivia desde 1976, localizada na Av. Romão Fernandes Farinha 1504, no Alto-Maé, bairro da Malafaia, em Maputo –, é transformada em Museu José Craveirinha pelo Núcleo dos Amigos de José Craveirinha (NAJOC). A Casa-Museu José Craveirinha promove atividades culturais e busca estimular a criatividade artística e literária.

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Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram- me Sontinho, diminutivo de Sonto [que significa domingo em ronga, língua da capital]. Pela parte de minha mãe, claro. Por parte do meu pai fiquei José. Aonde? Na Av. do Zichacha entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres. Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato... A seguir fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros. Quando meu pai foi de vez, tive outro pai: o seu irmão. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique. A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra. Nasci ainda mais uma vez no jornal O Brado Africano. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso. Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por causa de minha mãe, só resignação. Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta. Minha grande aventura: ser pai. Depois, eu casado. Mas casado quando quis. E como quis. Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes altas horas da noite





Ao Meu Belo Pai Ex-emigrante

Pai:
As maternas palavras de signos
vivem e revivem no meu sangue
e pacientes esperam ainda a época de colheita
enquanto soltas já são as tuas sentimentais
sementes de emigrante português
espezinhadas no passo de marcha
das patrulhas de sovacos suando
as coronhas de pesadelo.

E na minha rude e grata
sinceridade não esqueço
meu antigo português puro
que me geraste no ventre de uma tombasana
eu mais um novo moçambicano
semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
e seminegro para jamais renegar
um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

E agora
para além do antigo amigo Jimmy Durante a cantar
e a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha
subconsciência dos porquês de Buster keaton sorumbático
achando que não valia a pena fazer cara alegre
e um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa
Ante os meus sócios Bucha e Estica no "écran" todo branco
e para sempre um zinco tap-tap de cacimba no chão
e minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene
enquanto tua voz serena profecia paternal: - "Zé:
quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém."

Oh, Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
do luso-arábico Algezur da tua infância
mas amar por amor só amo
e somente posso e devo amar
esta minha bela e única nação do Mundo
onde minha mãe nasceu e me gerou
e contigo comungou a terra, meu Pai.
E onde ibéricas heranças de fados e broas
se africanizaram para a eternidade nas minhas veias
e teu sangue se moçambicanizou nos torrões
da sepultura de velho emigrante numa cama de hospital
colono tão pobre como desembarcaste em África
meu belo Pai ex-português.

Pai:
O Zé de cabelos crespos e aloirados
não sei como ou antes por tua culpa
o "Trinta-Diabos" de joelhos esfolados nos mergulhos
à Zamora nas balizas dos estádios descampados
avançado-centro de "bicicleta" à Leónidas no capim
mortífera pontaria de fisga na guerra aos gala-galas
embasbacado com as proezas do Circo Pagel
nódoas de cajú na camisa e nos calções de caqui
campeão de corridas no "xituto" Harley-Davidson
os fundilhos dos calções avermelhados nos montes
do Desportivo nas gazetas à doca dos pescadores
para salvar a rapariga Maureen O'Sullivan das mandíbulas
afiadas dos jacarés do filme de Trazan Weissmuller
os bolsos cheios de tingolé da praia
as viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã
do carro eléctrico e as mangas verdes com sal
sou eu, Pai, o "Cascabulho" para ti
e Sontinho para minha Mãe
todo maluco de medo das visões alucinantes
de Lon Chaney com muitas caras.

Pai:
Ainda me lembro bem do teu olhar
e mais humano o tenho agora na lucidez da saudade
ou teus versos de improviso em loas à vida escuto
e também lágrimas na demência dos silêncios
em tuas pálpebras revejo nitidamente
eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos
dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura
na dimensão desmedida do meu amor por ti
meu belo algarvio bem moçambicano!

E choro-te
chorando-me mais agora que te conheço
a ti, meu pai vinte e sete anos e três meses depois
dos carros na lenta procissão do nosso funeral
mas só Tu no caixão de funcionário aposentado
nos limites da vida
e na íris do meu olhar o teu lívido rosto
ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus
e na minha cabeça de mulatinho os últimos
afagos da tua mão tremula mas decidida sinto
naquele dia de visitas na enfermaria do hospital central.

E revejo os teus longos dedos no dirlim-dirlim da guitarra
ou o arco da bondade deslizando no violino da tua aguda tristeza
e nas abafadas noites dos nossos índicos verões
tua voz grave recitando Guerra Junqueiro ou Antero
e eu ainda Ricardino, Douglas Fairbanks e Tom Mix
todos cavalgando e aos tiros menos Tarzan analfabeto
e de tanga na casa de madeira e zinco
da estrada do Zichacha onde eu nasci.

Pai:
Afinal tu e minha mãe não morreram ainda bem
mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios
e Tarzan agente disfarçado em África
e a Shirley Temple de sofisma nas covinhas da face
e eu também é que mudamos.
E alinhavadas palavras como se fossem versos
bandos de sécuas ávidos sangrando grãos de sol
no tropical silo de raivas eu deixo nesta canção
para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços
agitados nas manhãs de bronzes
chorando gotas de uma cacimba de solidão nas próprias
almas esguias hastes espetadas nas margens das úmidas
ancas sinuosas dos rios.

E nestes versos te escrevo, meu Pai
por enquanto escondidos teus póstumos projectos
mais belos no silêncio e mais fortes na espera
porque nascem e renascem no meu não cicatrizado
ronga-ibérico mas afro-puro coração.
E fica a tua prematura beleza realgarvia
quase revelada nesta carta elegia para ti
meu resgatado primeiro ex-português
número UM Craveirinha moçambicano!





África

Em meus lábios grossos fermenta
a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturada com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.
Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.


E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos seus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rolls-Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.
Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstracto
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.


E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfectante benção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de ‘strip-tease’ e meio litro
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exacta só para negro
um gramofone de magaíza
um filme de heróis de carabina a vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das suas balas e dos seus gases lacrimogéneos
civiliza o meu casto impudor africano.
.
Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
em rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas de chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens inventaram
a confortável cadeira eléctrica
a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia
criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Ku-Klux-Klan, Cato Manor e Sharpeville*
e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre os ninhos mornos de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a crucificada nudez
da sua Joana D’Arc e agora vêm
arar os meus campos com charruas ‘Made in Germany’
mas já não ouvem a subtil voz das árvores
nos ouvidos surdos do espasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho ‘cowboy’ do nimbo dos átomos
desfolhados no duplo rodeo aéreo no Japão.
.
Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, améns
e bíceps do meus povo.
.
E ao som másculo dos tantãs tribais o Eros
do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros…
E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
erectos no ventre nervoso da noite africana.





Manifesto

Oh!
Meus belos e curtos cabelos crespos
e meus olhos negros como insurrectas
grandes luas de pasmo na noite mais bela
das mais belas noites inesquecíveis das terras do Zambeze.
Como pássaros desconfiados
incorruptos voando com estrelas nas asas meus olhos
enormes de pesadelos e fantasmas estranhos motorizados
e minhas maravilhosas mãos escuras raízes do cosmos
nostálgicas de novos ritos de iniciação
dura da velha rota das canoas das tribos
e belas como carvões de micaias
na noite das quizumbas.
E a minha boca de lábios túmidos
cheios da bela virilidade ímpia de negro
mordendo a nudez lúbrica de um pão
ao som da orgia dos insectos urbanos
apodrecendo na manhã nova
cantando a cega-rega inútil das cigarras obesas.
Oh! E meus belos dentes brancos de marfim espoliado
puros brilhando na minha negra reencarnada face altiva
e no ventre maternal dos campos da nossa indisfrutada colheita de milho
o cálido encantamento selvagem da minha pele tropical.
Ah! E meu
corpo flexível como o relâmpago fatal da flecha de caça
e meus ombros lisos de negro da Guiné
e meus músculos tensos e brunidos ao sol das colheitas e da carga
e na capulana austral de um céu intangível
os búzios de gente soprando os velhos sons cabalísticos de África.
Ah!
o fogo
a lua
o suor amadurecendo os milhos
a grande irmã água dos nossos rios moçambicanos
e a púrpura do nascente no gume azul dos seios das montanhas.
Ah! Mãe África no meu rosto escuro de diamante
de belas e largas narinas másculas
frementes haurindo o odor florestal
e as tatuadas bailarinas macondes
nuas
na bárbara maravilha eurítmica
das sensuais ancas puras
e no bater uníssono dos mil pés descalços.
Oh! E meu peito da tonalidade mais bela do bréu
e no embondeiro da nossa inaudita esperança gravado
o tótem mais invencível tótem do Mundo
e minha voz estentórea de homem do Tanganhica,
do Congo, Angola, Moçambique e Senegal.
Ah! Outra vez eu chefe zulo
eu azagaia banto
eu lançador de malefícios contra as insaciáveis
pragas de gafanhotos invasores.
Eu tambor
Eu suruma
Eu negro suaíli
Eu Tchaca
Eu Mahazul e Dingana
Eu Zichacha na confidência dos ossinhos mágicos do tintlholo
Eu insubordinada árvore de Munhuana
Eu tocador de presságios nas teclas das timbilas chopes
Eu caçador de leopardos traiçoeiros
E xiguilo no batuque.
E nas fronteiras de água do Rovuma ao Incomáti
Eu-cidadão dos espíritos das luas
carregadas de anátemas de Moçambique.





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