As raças extinguem-se, os homens digladiam-se… mas só as ideias permanecem…

Ribeiro Sanches

Um estrangeirado na Europa das luzes:
1699 - 1783



Quando tudo aconteceu...

1699: Nasce a 7 de Março na vila fronteiriça de Penamacor - Beira Baixa, e o nome de baptismo é António Nunes Ribeiro Sanches. – 1716: Inscreve-se na Universidade de Coimbra, em Direito. – ca. 1719: Transfere-se para Salamanca e cursa Medicina. – 1724: Grau de doutor em Medicina, pela mesma Universidade. – 1726: Foge de Lisboa, por denúncias da prática de judaísmo e fixa-se em 1730 na Holanda onde estuda com o grande Boerhaave. – 1731: Sob a sua recomendação à corte imperial da Rússia, aqui exerce durante dezasseis anos altas funções nos exércitos dos czares. – 1739: Membro da Academia de Ciências de S. Petersburgo, recebendo, no mesmo ano, igual distinção na de Paris. – 1747: De regresso à cidade das Luzes, grande centro de actividade intelectual, colabora com os maiores vultos do Iluminismo. Aqui escreve as suas obras fundamentais. – 1750: Dissertation sur la Maladie Vénérienne. – 1756:Tratado da Conservação da Saúde dos Povos. – 1760: Cartas sobre a Educação da Mocidade, uma das suas obras fundamentais, a que se segue o Método para Aprender e Estudar a Medicina – 1763. Mémoire sur les Bains de Vapeur en Russie – 1779. E até à sua morte, ocorrida em 14 de Outubro de 1783, vai ser consultado com regularidade pelas personalidades mais notáveis da Europa culta de então.

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OS JUDEUS EM PORTUGAL

Como era habitual à época, os filhos da grande família judaica optavam pela Arte Médica ou de Boticário, ocupando por isso mesmo, nestas artes, a maior parte dos cargos por direito próprio.



O ambiente da terra beirã, coberta de montanhas, frio, neve e ainda pouco habitada, dava azo a lendas, malquerenças e demais fantasias; no tempo do nosso leitor chamar‑me‑iam um homem da interioridade. Assim, era comum aos judeus, mesmo conversos, serem considerados pelos vizinhos cristãos -velhos, de acordo com a longa tradição da Humanidade, como renegados e feiticeiros, detentores de sortilégios com poderes quase demoníacos.



Talvez para este comportamento ancestral de desconfiança e despeito contribuísse a proverbial prosperidade económica dos judeus sefarditas, quase sempre fruto de uma luta e persistência familiar prolongada, de gerações, associada a qualidades de trabalho e resistência pouco habituais na velha terra lusitana, antiga de seiscentos anos.



Portugal, já nessa altura a viver acima das suas riquezas e haveres (como parece continuar a ser uma característica endémica nos trezentos anos seguintes) e sem fazer nada para se cuidar, devido à sua índole ociosa, passadista do antigo Império, agora quase falido, vai-se tornar cada vez mais uma sociedade fechada, ensimesmada, mesquinha, invejosa, sendo um dos sinais o seu fanatismo, a que a Inquisição (famosa polícia religiosa ultra-católica) corporizou, pois devido à sua intolerância, perseguia, enclausurava e mandava queimar qualquer homem ou mulher que fugisse às normas do costume, baseadas estas na tradicional doutrina universal com profundas raízes conservadoras e antijudaica.






UMA VIDA ERRANTE

Penamacor era, na altura, uma vila propícia, com guarnição militar e um castelo fernandino a lembrar a sua importância como fortaleza arraiana.



A minha família tem sangue judaico - meus pais são Simão Nunes e Ana Nunes Ribeiro, abastados comerciantes da região, cristãos-novos descendentes de outro grande médico Francisco Sanches (1551-1623).



Quando eu nasci já a fogueira da Santa Inquisição fazia arder corpos e almas no Rossio de Lisboa e de Évora, assim como nos Paços de Coimbra e Goa.



A débil constituição física, aliada a um perfil hipocondríaco, não irá alterar a minha dedicação ao estudo e à pesquisa, devido em parte ao meu espírito diligente e curioso, apesar dos caprichos dos tempos e do Homem.



Ainda com doze anos já lia fluentemente castelhano, latim e todos os livros que me vinham parar à mão, tais como de Plutarco e Montaigne, sabia música e também conhecia a nossa história, razão segundo uns devido a uma inteligência superior e elevado espírito de observação – era o que mais tarde se irá chamar de criança sobredotada.



Por motivo da pressão familiar do lado paterno, com um tio jurisconsulto, versado em leis, vou ainda cedo para Coimbra para me inscrever no curso de Direito, em 1716.



Aqui, mais uma vez, insatisfeito com o meio (ao fazer uma “reflexão muito profunda acerca da decadência da universidade”) e com o estudo aborrecido das leis e da filosofia - “aprender a nossa filosofia era pior que não a aprender” - o que me provoca efeitos indesejáveis e outros distúrbios funcionais, acentuados pelo esforço em excesso dedicado ao estudo, exs. enxaquecas, desmaios, dores de estômago, moléstias estas que no futuro, mais ou menos próximo, se irão agrupar em queixas ou demais sintomas psicossomáticos.



Entre 1717-18, ao tentar perceber o que se passava comigo, vencendo a reconhecida insegurança interior, começo a ler tudo o que me vem parar às mãos, incluindo livros médicos. Nestes pareço ter encontrado algum conforto espiritual para os meus males, um deles em especial - os Aforismos de Hipócrates que, pela forte ligação entre a ciência prática e a filosofia especulativa, vai mudar-me em definitivo o rumo profissional.



Ao mesmo tempo, em Coimbra, o ambiente universitário era muito pouco disciplinado, o que associado ao estado de rebeldia latente dos alunos perante o ensino, ao obscurantismo dos mestres, mais o meu frágil e crónico estado físico (organismo débil e enfermiço), vai-me facilitar a transferência, a meu pedido, para a cidade vizinha de Salamanca, assim como inevitavelmente perder a noiva, minha prima, mais o belo dote de judia.



Em todas as épocas da nossa história, homens dos mais variados campos do saber, de modo mais sentido na Medicina, trocavam a terra de origem por um País estrangeiro onde pudessem exercer a sua profissão com outra sabedoria e paz de espírito. As grandes escolas da Península Ibérica limitavam-se a transmitir o conhecimento dos textos antigos, cuja autoridade não era questionada, votando o ensino e a prática médica a uma paralisante inércia.



Recebo por isso com facilidade o grau de doutor em Medicina, pela Universidade salamanquina, em 1724.



Para um jovem médico, acabado de regressar a Portugal, o País não oferecia grandes perspectivas. Instalo-me temporariamente em Benavente – aí reparo que as águas estagnadas são a causa de febres e outros morbos que as pessoas de Salvaterra manifestavam de modo intermitente. Ainda serei médico na Guarda e Amarante, antes de descobrir a Europa.



Em 1726, por denúncias feitas à Inquisição por um familiar, um primo, de nome Manuel Nunes Sanches, pela prática do judaísmo, sou obrigado a exilar-me à pressa, partindo pela calada da noite, num barco ancorado em Lisboa. Saio do País, desta vez sem mais regresso.



Após breves passagens por Génova, Montpellier, Londres (onde dou aulas e exerço medicina nos hospitais) e Bordéus, chego a Leiden, na Holanda, onde assisto às aulas do célebre Hermann Boerhaave (1668-1738), considerado o maior professor de medicina do seu tempo, para onde muito dos estudantes e doentes de todo o mundo se dirigem. Aqui torno-me, movido pela curiosidade científica, um dos seus discípulos dilectos mais distintos, deixando também de viver como judeu, a cuja fé já havia renunciado.



Em 1731, sob a sua incumbência parto para a Rússia. Aí exerço importantes cargos como médico, acompanhando as expedições dos exércitos imperiais e, depois, no Corpo Imperial dos Cadetes de São Petersburgo (colégio reservado à mais alta aristocracia russa), tendo por último sido nomeado médico da czarina Ana Ivanovna. Ao mesmo tempo correspondo-me com os melhores espíritos europeus da época.



Na Europa, sopram já os ventos do Iluminismo (os filósofos que difundiam o novo espírito do século julgavam-se promotores da luz e do conhecimento, sendo, por isso, chamados de iluministas); este movimento vinha ganhando expressão nos escritos de vários livres-pensadores: John Locke, Montesquieu, Denis Diderot, Voltaire e outros.



A longa permanência na Rússia (tendo participado na campanha militar de Azoff – Crimeia) e o contacto com os seus diferentes povos e raças permitem‑me fazer importantes observações etnológicas que comunico a Buffon e que são por ele referidas no 3.º Volume da sua História Natural.



Em 1747, de regresso a Paris, fugindo às intrigas da corte czarista, sou recebido por Frederico o Grande da Prússia. É-me atribuída uma tença por Catarina II da Rússia. Aqui, na cidade das Luzes, recolhido na intimidade dos livros, acabo os meus dias, a 14 de Outubro de 1783.




A CIÊNCIA MÉDICA NO SÉC. XVIII

Durante muitos séculos as doenças foram encaradas como algo de sobrenatural. Para a Bíblia, a lepra seria um castigo divino e a epilepsia, uma das afecções mais antigas conhecidas, atribuída a espíritos malignos (já representada em papiros cerca de 3 000 anos a.C.), daí os doentes serem julgados como possuídos por demónios.



Por todo o século XVIII vai-se adquirindo um melhor conhecimento do corpo humano, de modo a perceber os seus mecanismos intrínsecos para lutar contra a doença e preservar um melhor estado de saúde. Os tratamentos são desenvolvidos com base em conhecimentos práticos, adquiridos pela observação.



Na Fisiologia, a atenção recai sobre o processo respiratório, o sistema digestivo (como fenómeno químico), o aparelho circulatório (estudo da irrigação coronária e da pressão sanguínea) e a composição do sangue.



A respiração é explicada por Lavoisier (1743-1794), o fundador da química moderna, em consequência dos seus estudos sobre o oxigénio e a combustão - as suas investigações, serviram para demonstrar que a respiração tinha um carácter químico, acabando deste modo com as crenças tradicionais que a suponham ser efeito de uma simples ventilação mecânica ou do arrefecimento produzido nos pulmões, pela inspiração de ar fresco.



Com o avanço nas técnicas de laboratório e como resultado de uma observação directa mais intensa e atenta, a anatomia dá de novo grandes passos, exs. Herman Boerhaave (1668-1738) professor em Leiden que, fundamentado na observação clínica, na evolução da doença e nos achados anatomopatológicos, transforma a universidade local num centro de excelência no ensino da medicina, o que faz atrair estudantes de toda a Europa; Giovanni Battista Morgagni (1682-1771), fundador da anatomia patológica; Albrecht von Haller (1708-1777), renomado médico suíço que, ao instituir a fisiologia como disciplina autónoma, cria um novo ramo da ciência médica; Percival Pott (1714-1788), cirurgião inglês que, pelo seu saber e perícia técnica, ajuda ao incremento da cirurgia (ver Mal de Pott); Edward Jenner (1749-1823), que cria a primeira vacina em 1796, demonstrando a sua eficácia contra a varíola; Xavier Bichat (1771-1802), anatomista francês e cirurgião que, ao investigar a estrutura dos órgãos, descobriu o tecido (conjunto de células associadas igualmente diferenciadas), o que vai servir de base para o estudo de toda a anatomia subsequente.



Todos eles podem ser considerados, com outros mais, os grandes construtores dos caminhos novos da medicina moderna.




OS ESTRANGEIRADOS

Ribeiro Sanches pertence ao número dos intelectuais portugueses que exerceram a sua actividade no estrangeiro, de onde a comum designação de estrangeirado.



É uma designação dada àqueles que, entre meados do século XVII e ao longo do século XVIII, conviveram com a cultura dos grandes centros europeus — sobretudo a França - em contraciclo à letargia que, a todos os níveis, afectava Portugal. Naturalmente isolado por motivos geográficos, sujeito à Inquisição e à ocupação filipina, o atraso do país era flagrante. Assim, os estrangeirados, na sua maioria judeus, refugiados ou diplomatas enviados após 1640 para consolidar, junto das cortes europeias, a nossa independência nacional, procuravam contribuir para o progresso nacional nas várias áreas: da política à indústria e agricultura, do comércio à educação, etc., seguindo o exemplo dos países que os acolhiam. São, geralmente, homens ligados aos ideais iluministas, racionalistas, cientes das consequências da revolução burguesa, em Inglaterra, do mercantilismo e ao mesmo tempo das ideias revolucionárias francesas, conceitos que a divulgação da imprensa mais facilmente traz ao conhecimento geral.



O homem culto do século XVIII é acima de tudo um grande escritor de missivas e manuscritos - havia uma verdadeira arte da epistolografia. A literatura aparece possuída de ideais políticos, que predominam sobre a superstição, o fantástico e o sagrado. Um espírito de rebeldia e inovação percorre este século, quer no campo filosófico e científico, quer no político, religioso e, consequentemente, literário.



Há uma dupla reacção, quer contra o barroco, quer contra o atraso cultural do país, expressa nos escritos dos Estrangeirados e concretizada na reforma do ensino promovida pelo marquês de Pombal e na criação das Academias. A cultura começa a dar os primeiros passos no sentido da democratização.



Nomes grandes da medicina portuguesa eram iluministas, descendentes de cristãos-novos, que viviam e trabalhavam no estrangeiro (Londres, Leiden, Moscovo, Paris…), tendo-se recusado a voltar a Portugal, como foi o caso de Jacob de Castro Sarmento (1691-1762) e António Ribeiro Sanches: este último, autor do Tratado de Conservação da Saúde dos Povos (1756), bem como do Método para Aprender e Estudar a Medicina (1763), o que vai ter uma influência decisiva na reforma pombalina dos estudos médicos (1772).



D. João V promoveu tanto a vinda de estrangeiros a Portugal, como as viagens de portugueses ao estrangeiro. Um dos que mais activamente se empenharam nesta tentativa de regeneração do país foi Luís António Verney (1713-1792), cujo Verdadeiro Método de Estudar serviu de base à política educativa reformista do marquês de Pombal - ele próprio um estrangeirado. A instituição do Colégio dos Nobres, a reforma dos currículos escolares e o recurso a professores e demais estrangeiros foram algumas das medidas tomadas. A criação da Academia Real de História (1720) e da Academia das Ciências (1779) foram também marcos na tentativa de acompanhar o movimento das modernas correntes do pensamento europeu. Para além dos nomes já aludidos, são de registar os de Luís da Cunha, Alexandre de Gusmão, entre outros estrangeirados notáveis.




OBRA

Que importa, oh Sanches, que hajas escrutado

Do Numen de Epidauro altos segredos

Se has-de toccar (um pouco mais tardio)

A meta inevitável?

(Filinto Elísio)



A obra de Ribeiro Sanches é enorme, sendo em muitos aspectos pioneira e reformadora, ainda que por tantos anos longe de Portugal, repartindo-se com o produto do seu próprio pensamento por diversos domínios, como a etnologia, a medicina, a educação, a arte ou a ética, beneficiando do carácter internacional do ensino universitário da época.



O seu amor exacerbado pelas ciências é factor determinante para a sua permanência em Paris até ao fim da vida. Aí reside de 1747 a 1783, ano do seu falecimento, onde convive com outros cientistas e homens de letras que o visitam periodicamente.



Destaca-se nos seus textos, o propósito de colaborar ao intervir na reforma da cultura filosófica e científica do País que muito vai influenciar a composição dos futuros Estatutos da Universidade de Coimbra (1772), sobretudo no capítulo dedicado ao curso de Medicina e aos temas pedagógicos em geral.



Daqui sobressaem duas obras essenciais, são elas o Método para aprender e estudar a Medicina (1763) e as Cartas sobre a educação da mocidade (1760).



A primeira, lançando as bases teóricas para a instituição de uma Faculdade Real de Medicina, à semelhança das então existentes pela Europa, exs. Paris, Viena, Bolonha, etc., a segunda a de justificar a tutela do ensino pelo Estado.



Ribeiro Sanches, que por essa data vive em Paris, sabendo que a educação portuguesa se conservava no estado da "monarquia gótica", redige a obra Cartas sobre a educação da mocidade, como pano de fundo para educação da juventude, desde o ensino primário ao universitário.



Ambas foram elaboradas à luz da intenção reformista e pedagógica que vai animar o nosso iluminismo, através do diplomata Sebastião José de Carvalho e Melo, que veio a ser conhecido pelo nome de Marquês de Pombal (1699-1782).



A Medicina foi um campo onde os judeus, não só em Portugal, mas em todo o mundo, se tornaram célebres. Ribeiro Sanches distingue-se na venereologia (sendo por isso também chamado o médico dos males de amor), sendo um nome grande da história da medicina universal, transportando consigo uma vida de recolhimento e estudo.



Colaborou, a pedido de D’Alembert e Diderot, para a redacção da Enciclopédia – será o único pensador português a ter o privilégio de constar na célebre enciclopédia. Manteve relações privilegiadas, científicas e de amizade, com os grande vultos da ciência do seu tempo.




PERFIL PEDAGÓGICO

As marcas deixadas pela projecção do pensamento de Ribeiro Sanches sobre a educação, ética, política, ou mesmo na filosofia, é vasta, revelando-se um convicto defensor do Iluminismo Científico e um reformador. As suas ideias principais baseadas no primado da razão (senhora absoluta) acham-se nas Cartas sobre a Educação da Mocidade (1760) - que vão ter uma contributo decisivo, dentro do novo espírito educativo emergente, para a criação do Colégio Real dos Nobres - é uma das obras mais importantes e influentes da bibliografia pedagógica do século XVIII, a favor da laicização do ensino e da sociedade em geral, a par duma espiritualização da actividade da Igreja.



Excerto: “… Além disso o povo não faz boas nem más acções e raríssimas vezes se move por sistema nem por reflexão: será cortês ou grosseiro, sisudo ou ralhador, pacífico ou insultador, conforme for tratado pelo seu cura, pelo seu juiz, pelo escudeiro ou lavrador honrado. O povo imita as acções dos seus maiores. A gente das vilas imita o trato das cidades à roda; as cidades o trato da capital; e a capital o da corte. Deste modo, que a mocidade plebeia tenha ou não mestre, os costumes, (leia-se cultura) que tiver serão sempre a imitação dos que virem nos seus maiores, e não do ensino que tiveram nas escolas …”.



Considerado por muitos como um verdadeiro enciclopedista (médico, filósofo, pedagogo, historiador, etc.), escreve largas dezenas de manuscritos, sob a influência do pedagogismo no século das Luzes, dos quais apenas nove foram publicados em vida. A maioria continua nos arquivos à espera de melhor sorte.



O seu nome está na primeira fila dos grandes mestres do pensamento europeu da sua época, em confronto com um País retrógrado, beato, tolhido pela preguiça e arreigado à vanglória do passado - reino cadaveroso, arcaico e debilitado, embrenhado num profundo marasmo científico e cultural. O Marquês de Pombal vai aproveitar muito do seu saber para implementar a sua acção cultural e científica, na sua tarefa de modernização de Portugal.



A nova ciência contrapõe o progresso contra a rotina preguiçosa, a justiça contra o erro, a civilização contra a falta de cultura, a razão contra a inverdade.




IMPORTÂNCIA HISTÓRICA DE RIBEIRO SANCHES

Com o advento do Renascimento, a concepção de Homem altera-se: a Razão humana orienta o destino da Humanidade dentro das novas correntes do pensamento para rumos ainda inimagináveis, até a um novo modelo antropocêntrico - o homem como centro do mundo - e heliocêntrico de mundividência, tendo como limite uma explicação racional do Universo.



As luzes da razão humana, adquiridas pela observação da Natureza e pelo livre exercício, irrompiam no obscurantismo secular do pensamento primordial, cristalizado pelos dogmas da escolástica.



Ao fazê-lo, o homem, numa luta eterna contra o tempo, tem a necessidade última, através de um sem número de práticas e normas, de procurar ser eficaz, na utopia de alcançar a perfeição.



Ribeiro Sanches, médico, filósofo e pedagogo, pertence ao número dos intelectuais portugueses, possuidores de um novo corpus do conhecimento. Durante todo o período da sua longa vida vai demonstrar pelos relatórios e descrições científicas a vitalidade da Matéria Médica portuguesa.



Comenta Camilo Castelo Branco em Noites de Insónia: «O Marquês de Pombal ou não quis, ou apesar da sua omnipotência não logrou assegurar repouso na pátria ao seu douto oráculo, em paga dos conselhos e projectos de boa administração que o neto do hebreu lhe sugeriu de Paris, e o valido ingrato aproveitou ocultando-lhe a procedência». A criação do Colégio dos Nobre seria uma... entre várias. No entanto foi durante o seu governo que se eliminaram as distinções entre cristãos velhos e novos, e na prática, se acabaram com os autos-de-fé em Portugal.



A ligação entre Ribeiro Sanches e a modernidade está definitivamente assente pela força das convicções e pelo alcance da sua visão científica. As suas propostas, ao serem extremamente inovadoras no seu tempo, fazem com o seu nome permaneça como nosso contemporâneo.




CENA FINAL

O moderno espírito científico tinha-se desenvolvido com o Renascimento e com os novos Descobrimentos. Ribeiro Sanches, tal como Amato Lusitano, ambos de ascendência judaica, de igual ramo e vocação, cobrindo o mesmo campo científico – a medicina com amplo apoio na matéria médica. Depois de formados em Salamanca regressam a Portugal onde exercem temporariamente as suas profissões para logo partirem em definitivo, obrigados a refugiarem-se no estrangeiro por causa da acção do Tribunal do Santo Ofício, em novas vidas de diáspora e peregrinação por toda a Europa culta e evoluída de então.



Cada um a seu modo vai ter uma acção importante tanto pela sua deontologia profissional como nas intensas actividades científicas, de pesquisa e reflexão, realizadas com independência mas que vão ter projecção imediata, o que faz com que os seus trabalhos perdurem para além da Ciência do seu tempo. Apesar de dois séculos separarem as suas vidas, estes dois eminentes portugueses vão contribuir no melhor sentido como pioneiros para uma melhor atitude humanista na procura da verdade, pondo de parte preconceitos, indo ao caminho dos novos rumos que desde então se abriam ao conhecimento europeu e universal, exs. a saúde pública, a urologia, a hidrologia, a botânica, a mineralogia, a química moderna, etc., legando-nos um extenso património científico e cultural. Foram capítulos novos da Matéria Médica que se escreveram por mérito próprio e aos quais ficou ligado o nome de Portugal.



Ribeiro Sanches caracteriza bem o pensamento médico (…” é o grande pioneiro da saúde pública”…. Ricardo Jorge, 1906) ligado a um sentimento de vincado inconformismo, sendo considerado o primeiro higienista, que alicerça a sua Medicina Política num modelo de compreensão global do homem em equilíbrio com o meio, e que permanece contemporâneo pelo alcance da sua visão esclarecida e pela força das convicções. Tal como Leibniz, foi um dos primeiros autores a perceber que uma boa política, no sentido literal do termo, implicava uma melhor prática da medicina. As suas ideias foram aplicadas com fundamento nas reformas pombalinas da Educação e Medicina. Mas muitos dos planos originais que concebeu para os déspotas esclarecidos, D. José I e Catarina II, não passaram do papel.



As bases da reforma do ensino médico em Portugal, tanto na regulamentação da formação como do seu exercício, formam o corpo no seu Método de Aprender e Estudar Medicina, escrito a pedido do Governo. Neste projecto, Sanches vai mais longe do que Verney:



• Alarga o leque dos conhecimentos exigidos aos candidatos ao curso de medicina;



• Propõe a criação de um colégio especificamente destinado ao ensino das ciências médicas, assim como a ida dos alunos aos centros mais cultos da Europa para se aperfeiçoarem;



• Propõe a fundação de um hospital escolar, dotado de camas suficientes, completado pelo teatro anatómico, o jardim botânico, o laboratório e a botica;



• Galeno e Hipócrates seriam substituídos por Boherhaave;



• A profissão médica passaria a ser unificada, com a integração da cirurgia no ensino universitário.



Durante toda a sua longa vida manteve uma boa relação epistolar com diversas personalidades eminentes da sociedade intelectual europeia, além de promover bons vínculos a instituições importantes da cultura internacional, como seja a de ser correspondente da Academia Internacional de Paris, membro da Sociedade Real de Londres e membro da Academia de S. Petersburgo. Defendeu sábias e úteis relações com os restantes elementos do grupo da Enciclopédia, o que muito contribuiu para o desencadear da Revolução Francesa.



Ribeiro Sanches, isolado e malquisto por judeu na sua pátria, é a personalidade portuguesa que vai desempenhar um papel particularmente relevante na corte russa, contribuindo para o desenvolvimento das relações culturais, económicas e de amizade entre os dois países.





Recordo que em 1999 se passaram trezentos anos sobre o nascimento deste prestigiado cidadão europeu, reformador da medicina e do ensino, que foi apenas um dos maiores vultos da ciência e da medicina do século XVIII (o Século das Luzes) e continua tão pouco conhecido entre nós




Principais obras



• Discurso sobre as Águas de Penha Garcia (1.ª obra, 1726)

• A dissertation on the origin of the venereal disease (Londres, 1751);

• Tratado de Conservação de Saúde dos Povos (Paris, 1756);

• Cartas sobre a Educação da Mocidade (Paris, 1760);

• Fundamentos da Sociedade Cristã e Política (1760);

• Método para aprender a Estudar a Medicina (Paris, 1763);

• Mémoire sur les bains de vapeur de Russie, considérés pour la conservation de la santé et pour la guérison de plusieurs maladies, (Paris, 1779);

• Observations sur les maladies vénériennes (a título póstumo, por iniciativa do seu amigo Andry); (Paris, 1785);

• Maneira de Alimentar e Criar os Enjeitados no Hospital de Moscovo;

• Tratado das Paixões da Alma.