Ficou vermelha a campina...

catarina eufémia

Camponesa assassinada:
1928-01-01 - 1954-01-01



Quando tudo aconteceu...

1928: Filha de camponeses sem terra, Catarina Efigénia Sabino Eufémia nasce na aldeia de Baleizão, concelho de Beja (Alentejo, Portugal). 1945: Casa com António Joaquim do Carmo, operário da CUF e com ele vai viver, durante algum tempo, no Barreiro. 1954: Ao protestar contra a miséria, num latifúndio de Baleizão é assassinada a tiro por um tenente da GNR. É sepultada em Quintos. 1974: Depois da Revolução de Abril os seus restos mortais são trasladados de Quintos para Baleizão.

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INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

Filha de camponeses sem terra, a 13 de fevereiro de 1928 tu nasces em Baleizão, aldeia na província do Alentejo. De dia teus pais estão ausentes, a laborar num latifúndio. Em casa irmãos vários, trabalho muito. Nem sequer te sobra tempo, ó Catarina, para ires à escola aprender a ler.
Ao entrares na adolescência começas logo a trabalhar, à jorna, nos latifúndios. Aprendes tudo sobre os trabalhos no campo, desde a sementeira até à ceifa.




CASAMENTO

Aos 17 anos namoras e casas com o António Joaquim do Carmo. Ele é operário da CUF e por isso vocês vão viver na vila do Barreiro (margem esquerda do Tejo, frente a Lisboa) onde nasce a vossa primeira filha. Mais tarde o António é dispensado da CUF e vocês regressam a Baleizão.




QUINTOS

António Joaquim consegue um emprego de cantoneiro na sua terra natal, Quintos, aldeia que fica a uns 10 quilómetros de Baleizão. O salário que recebe não chega para sustentar a família. Circunstância que te força, ó Catarina, a voltar ao trabalho nos latifúndios.
Porém as tua jornas diárias, ó Catarina, acabam fragmentadas por gestações e partos, pois de ti arribam mais dois filhos. Cresce o amor, também a fome...




MORTE

Inflamada pelos comunistas, no dia 19 de maio de 1954 lideras um grupo de 14 ceifeiras que exigem um aumento de mais dois escudos na jorna diária. De repente, na herdade do Olival, às 11 da manhã vocês já estão cercadas por soldados da GNR. O tenente Carrajola sai de trás de uma oliveira, aponta para ti e berra:
- O que queres tu, ó idiota?
Respondes, tranquilidade:
- Quero pão para matar a fome dos meus filhos!
Carrajola logo te acerta violenta bofetada e tu, Catarina, cais de costas mas amparando o filho de oito meses que levas ao colo. Porquê um filho no local de trabalho? Resposta óbvia: ele tem que mamar durante o dia...
Levantas-te e provocas o tenente:
- Quer matar-me?
Carrajola saca a pistola, dispara três tiros à queima-roupa, cais morta. Derradeira queda e o teu menino fica ferido.




FUNERAL

Durante o funeral a GNR dispersa à bastonada a multidão que chora e protesta contra a tua morte. No tumulto nove camponeses são presos para depois serem julgados e condenados a dois anos de prisão.
O carro funerário arranca e abala, não para o cemitério mas para a estrada. Para evitar romagens subversivas, por ordem da GNR já não vais ser sepultada em Baleizão mas em Quintos.




CARRAJOLA

O tenente Carrajola não vai a tribunal nem sequer é castigado pela GNR. É apenas transferido de Baleizão para Aljustrel onde acaba por morrer em 1964 (morte natural).




TRASLADAÇÃO

Ainda em 1974, ó Catarina, a Revolução dos Cravos traslada os teus restos mortais de Quintos para Baleizão.




TRASLADAÇÃO

Ainda em 1974, ó Catarina, a Revolução dos Cravos traslada os teus restos mortais de Quintos para Baleizão.