Tua graça me acolheu em teu materno colo...

josé de anchieta

Missionário:
1534 - 1597



Quando tudo aconteceu...

1534: Nasce José de Anchieta no Arquipélago das Canárias. 1547: Vai estudar em Coimbra. 1553: Embarca em Lisboa rumo ao Brasil; dois meses depois desce em Salvador da Bahia. 1554: Com o Padre Manuel da Nóbrega reza missa de louvor à fundação do Colégio do São Paulo de Piratininga. 1562: Na areia da praia de Iperoig escreve o Poema à Virgem, mais de 4 mil versos. - A Confederação dos Tamoios tenta destruir São Paulo de Piratininga. 1565: Durante a luta contra franceses e Tamoios na baía da Guanabara, Estácio de Sá falece nos braços de Anchieta. 1569: No Espírito Santo, Anchieta pousa na povoação Reritiba. 1570/1573: Dirige o Colégio do Rio de Janeiro. 1577/1587: È o Provincial da Companhia de Jesus no Brasil. 1593/1595: Dirige o Colégio dos Jesuítas em Vitória do Espírito Santo. 1597: Morre em Reritiba.

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PIRATININGA

Numa povoação chamada São Paulo, nos altos de Piratininga, perto do riacho Anhangabaú e dos rios Tamanduateí e Tietê, uma pequena multidão de crianças índias senta-se em círculo no pátio do Colégio. Duas delas avançam para o centro. Uma veste uma camisa vermelha, cor do Inferno. Outra veste uma camisa azul, cor do Céu. Estamos, portanto, a assistir ao confronto entre um diabo e um anjo, conforme as lições de Gil Vicente. Araras a grasnar e os dois rapazes que não param de berrar um com o outro. Mas não entendo o que dizem porque falam tupi e essa língua eu não domino. Quem me ajuda é o Padre José de Anchieta que traduz:

ANJO - O peçonhento dragão
e pai de toda a mentira,
que procura perdição
com mui furiosa ira,
contra a humana geração!
Tu, nesta povoação,
não tens mando nem poder,
pois todos pretendem ser,
de todo seu coração,
imigos de Lucifer.

DIABO – Ó que valentes soldados!
Agora me quero rir!...
Mal me podem resistir,
os que fracos, com pecados,
não fazem senão cair.

ANJO - Se caem, logo se levantam,
E outros ficam de pé.
Os quais, com armas da fé,
já resistem e te espantam
porque Deus com eles é.
.
Para gáudio dos adultos, a criançada não pára de vaiar o Diabo. Acho que o autor da peça e dos diálogos em tupi e em português, é o próprio José de Anchieta
É ele ainda quem me traduz do tupi para português as palavras que ouvi no início desta conversa: Piratininga é Peixe Seco. Anhangabaú é Água do Espírito Mau. Tamanduateí é Rio de Muitas Voltas e Tietê é Água Boa. Diz-me que, para facilitar a comunicação entre brancos e nativos, os jesuítas desejam que a língua portuguesa no Brasil absorva essas e outras palavras tupis.




O CANÁRIO DE COIMBRA

Meu caro José de Anchieta:

Sei que nasceste em 19 de Março de 1534 , em San Cristóbal de La Laguna, na ilha de Tenerife, arquipélago das Canárias que hoje pertence à Espanha. Aprendeste as primeiras letras em casa e os rudimentos de latim com os dominicanos que tinham um colégio perto de ti.

Tinhas catorze anos quando o teu pai te mandou continuar os estudos em Coimbra. Não em Salamanca porque o nome Anchieta é mal visto na Espanha continental, por causa da rebelião dos comuneros contra Carlos I em que ele se envolvera quando jovem.

À beira do Mondego, no Real Colégio de Artes, estudas humanidades e filosofia. E logo te distingues pela facilidade de versejar em latim. Os teus colegas aliam o local onde nasceste ao local aonde passaste a estudar e dão-te o simpático apelido de “Canário de Coimbra".

Magro, franzino, testa ampla, nariz comprido, barba mal semeada, feições predispostas à alegria, não fosse um esgar que, de vez em quando, as arrepanha. Dores, e muitas, na tua empenada coluna vertebral que mais parece um S...

Apesar do sofrimento que te deixa cada vez mais encurvado, não desistes do rumo que já traçaste para a tua vida. Em 1551, tens tu dezassete anos, és recebido como noviço na Companhia de Jesus. E ali ajudas a dizer de cinco a dez missas por dia, são orações que não acabam mais... Acreditas piamente no poder divino. Por isso crês que a tua cura baixará um dia do Reino dos Céus. Sou um céptico. Mas não posso deixar de apreciar e louvar a tua crença que afinal é força de vontade convertida em esperança.

Fazes voto de castidade. Mais acirrado fica o meu cepticismo, casto eu cá não sou. Em contrapartida sou cauto. Por Ela e com Ela terei sempre cautela...




BRASIL

Os médicos dizem-te que os ares do Novo Mundo podem contribuir para a tua cura. Decides engajar-te na esquadra de D. Duarte da Costa, segundo Governador Geral do Brasil. No porto de Lisboa sobes ao navio que te indicaram. Após dois meses de viagem, em 13 de julho de 1553 desembarcas em Salvador da Bahia, capital do Brasil.

Aproveitas para contactar e tentar perceber os índios, o que, para ti, ó Canário de Coimbra, não é difícil.

Decorridos uns três meses voltas a navegar, mas desta vez para o sul, junto à costa. Na altura do Rio Caravelas uma tempestade quase vos afunda, mas acabais por vos salvar. Já o navio que vos acompanha, esse sim, é que naufraga, embora não haja mortes a lamentar.

Finalmente, na véspera do Natal, fundeias em São Vicente. Baixas a terra e, penosamente, começas a escalar a Serra do Mar, floresta luxuriante. No Novo Mundo não é apenas a flora que te deslumbra mas também a fauna. Mais tarde, entre outras novidades, irás referir-te, espantado, a lagartos gigantescos que vivem nos rios, dispostos a atacar, matar e comer homens... A cada lagarto desses os índios dão o nome de jacaré. Também esta palavra a língua portuguesa irá absorver, dizes tu.

Finalmente alcanças o planalto de Piratininga, onde o Padre Manuel da Nóbrega, Provincial dos Jesuítas, já estava à tua espera. Ele cansara-se de mandar mensagens para Portugal pedindo novos colaboradores para a sua acção missionária. É com alegria que te dá um abraço de boas-vindas. Sabe da tua facilidade com línguas e pede a tua ajuda nessa área. Não o desiludes. Conversas com os índios, passas a falar fluentemente com eles.

Em 25 de Janeiro de 1554, tu e Nóbrega rezam missa de louvor à fundação do Colégio da futura vila, e mais tarde cidade de São Paulo de Piratininga. Colégio, vila, cidade? Por enquanto apenas uma choupana implantada no planalto... Mas um ano depois, entre brancos, índios e mestiços, de um e outro sexo, a povoação já terá 130 habitantes, dos quais 36 baptizados. E porquê São Paulo? Porque 25 de Janeiro foi a data de conversão do Apóstolo São Paulo.

Para facilitar o convívio entre raças, tu e os outros jesuítas incentivam os casamentos mistos, porém um branco com direito apenas a uma índia, monogamia é exigência da Santa Madre Igreja. E filhos mestiços (caribocas, em tupi), quantos? Aqueles que Deus mandar!

Dizes que o teu abrigo é apenas “uma casinha de palha com uma esteira de cana por porta”. E a tua cama é uma das redes que os índios usam. E o teu cobertor é o fogo da lenha que os irmãos recolhem no mato para passarem as noites frias. E a roupa é muito pobre, somente um hábito de algodão, sem calças e alpargatas feitas de arbustos entrançados. Também a comida é pouca, uma mão-cheia de farinha de mandioca, um peixinho seco e uma peça de caça que os índios vos oferecem.

Mas nada disso impede que, passados seis meses, dês por concluídos o Vocabulário Tupi e a Arte da Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil. Não foi por acaso que o Padre Manuel da Nóbrega te nomeou director do Colégio de São Paulo de Piratininga...




ÍNDIO TEM ALMA?

Muito se discute nas universidades da Europa se negros e índios têm ou não têm alma. Tendência dominante é a de recusá-la a esses povos. Ou seja: milhões de homens ameaçados de perder a condição humana para serem convertidos em bois de trabalho, escravidão. Acicatado pelo amor ao próximo a tua ânsia é fazer o maior número possível de conversões, pois cristão está moralmente impedido de escravizar cristão. Por isso, em voz alta, até gritada para que todos ouçam, aos índios não te cansas de chamar “irmãos em Cristo”.
Converter e logo a seguir alfabetizar, sequência lógica à qual obedeces rigorosamente. Portanto escolas, não só para índios mas também para brancos, porque estes são quase todos analfabetos.




TRABALHOS

Cuidas e curas, ou tentas curar enfermos, pois bem conheces o organismo humano.
Mas o que te dá mais trabalho são as aulas. Não dormes mais do que quatro ou cinco horas por noite, porque estás sempre a copiar lições para compensar a falta de livros. Contas:

- Ocupo-me em ensinar gramática em três classes diferentes. E, às vezes, estando eu dormindo, me vêm a despertar para fazer-me perguntas; e em tudo isto parece que saro; e assim é, porque, em fazendo conta que não estava enfermo, comecei a estar são.




ALENTO

Na gana de expandires a tua acção evangelizadora, não paras de subir e descer a Serra do Mar. Ora estás em São Paulo de Piratininga, ora estás à beira-mar em Itanhaém, também em Peruíbe. Não paras, não descansas. Estou a ver que o clima tropical deu um novo alento ao teu corpo retorcido.




IPEROIG

Precisando de mão de obra para os seus engenhos de açúcar, os colonizadores portugueses não desistem de escravizar os índios, o que provoca reacções aguerridas de diversas tribos, entre elas os Tupinambás, os Guainazes e os Aimorés. Ao conjunto de todas elas é dado o nome de Tamoios, palavra que deriva de Tamuya (antigos donos da terra).
Na tentativa de um armistício, em 1562 tu e Manuel da Nóbrega desembarcam em Iperoig, a mais importante aldeia dos Tupinambás. Essa aldeia será mais tarde chamada de Ubatuba,

Os guerreiros ameaçam trucidar-vos, mas tu, falando com fluência o tupi, gestos, chama, veemência, lá consegues amansá-los.

Depois, no navio que vos trouxe, embarcam Manuel da Nóbrega e o filho do pagé Cunhambebe. Em busca de uma trégua, ambos tencionam conferenciar com as autoridades portuguesas de São Vicente. Com berros e bravatas, outros chefes Tupinambás opõem-se a tal viagem. Vai ser difícil ultrapassar a latente predisposição para o combate...

Durante cinco meses ficas tu como refém em Iperoig. Os guardas (que são todos os homens da tribo) ora te ameaçam, ora te oferecem várias moças para passar o tempo. Refreias a tua palpitante gula e, uma a uma, todas recusas. Eles matam-se a rir. Não ligas, já estás habituado às galhofas que derivam do teu voto de castidade.

Segues para a praia. Com um ramo aguçado escreves na areia o POEMA À VIRGEM, mais de 4 mil versos em latim, que memorizas e mais tarde passarás ao papel (em latim e em português). Alguns deles:

Eis os versos que outrora, ó Mãe Santíssima,
te prometi em voto,
vendo-me cercado de feros inimigos.

Enquanto a minha presença
amansava os Tamoios conjurados
e eu os levava com jeito à suspirada paz,
tua graça me acolheu
em teu materno colo,
e teu poder me protegeu intactos, corpo e alma.

Lá atraca finalmente em Iperoig o filho de Cunhambebe. Declara ter Manuel da Nóbrega conseguido que os portugueses libertassem os seus escravos.

É-te devolvida a liberdade. Então o navio recolhe-te e leva-te a São Vicente. E dali, pela Serra do Mar, outra vez sobes até São Paulo de Piratininga.




A CONFEDERAÇÃO DOS TAMOIOS

A ganância acaba sempre por abafar a razão. Pouco tempo depois de alcançado o armistício com os Tamoios, os colonizadores portugueses recomeçam a caçar e a escravizar índios.
Ainda em 1562 os Tamoios sobem a Serra do Mar, decididos a invadir São Paulo de Piratininga. Ao redor da povoação já existem hortas e pomares, também lavouras de mandioca, cana, milho e trigo. Cobiça dos Tamoios por toda aquela riqueza? Não, apenas ódio e tentativa de vingança, pois acham que o armistício foi ardil de Nóbrega e Anchieta.

Manuel da Nóbrega resolve então pedir auxílio ao ex-náufrago português JOÃO RAMALHO. Ele vive em mancebia com Potira, filha de Tibiriçá, pagé dos Tupiniquins. Não só com Potira, mas com dezenas de outras moças índias, poligamia, o costume... Pior: ele tolera os rituais canibalescos da tribo que o adoptou. Por tudo isso, ó José de Anchieta, o teu primeiro impulso é excomungá-lo. Mas seguras-te porque o mais importante é salvar São Paulo de Piratininga, pois é daí que irradia a acção evangélica para todo o sul do Brasil. Ou seja: é daí que o amor ao próximo pode salvar os índios.

Tibiriçá e JOÃO RAMALHO rapidamente juntam milhares de guerreiros para defender São Paulo. Combates sangrentos, mortes de um lado e outro, mas por fim é estilhaçada a Confederação dos Tamoios, os quais recuam para o norte, rumo à baía da Guanabara.




FRANÇA ANTÁRTICA

Franceses, chefiados por Villegagnon, visando o contrabando de pau-brasil (matéria prima das tinturarias europeias), ocupam a baía da Guanabara à qual dão o nome de França Antártica. Depois fornecem armas aos Tamoios e com eles se aliam na luta contra os portugueses.

Em 1565, a partir de São Vicente, singram navios com reforços para Estácio de Sá que, na Guanabara, junto ao morro do Pão de Açúcar, fundara aldeia que virá a ser a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, e que não pára de lutar contra a ocupação dos franceses. Esses reforços (portugueses, índios convertidos e em vias de conversão) foram reunidos por jesuítas. Tu, Anchieta, entre eles.

Estás agora transformado em enfermeiro de campanha, mas isso não evita que, varado por uma seta indígena, nos teus braços venha a morrer Estácio de Sá.

Em 1566 navegas para Salvador da Bahia para relatar o ocorrido a Mem de Sá, terceiro Governador Geral do Brasil e tio do falecido Estácio.

Por essa época, em Salvador, és ordenado sacerdote. Tens 32 anos.

Em 1567 Mem de Sá reúne tropa suficiente para vencer os franceses, que são assim forçados a abandonar a baía da Guanabara, renunciando finalmente à sua França Antártica...




AO LONGO DA COSTA

A ânsia de evangelização não te dá sossego. Já converteste e alfabetizaste milhares de índios. Espicaçado pelo amor ao próximo, mais e mais tu queres converter, tu queres salvar.
Em 1569, no Espírito Santo, pousas na povoação de Reritiba que, em tupi, quer dizer Sítio das Ostras.

De 1570 a 1573 diriges o Colégio do Rio de Janeiro.

Por morte do Padre Manuel da Nóbrega, em 1577 és nomeado Provincial da Companhia de Jesus no Brasil. Passas a deslocar-te ao longo da costa num pequeno navio chamado Santa Úrsula. Porquê este nome? Não sei ao certo. Sei apenas que num poema pões uma Santa Úrsula a dizer estes versos:

Se os nossos portugueses

Nos quiserem sempre honrar,

Sentirão poucos reveses.

De ingleses e franceses

Seguros podem estar.

Em 1587 (ao fim de dez anos de trabalho) pedes para ser substituído na função de Provincial.




O FINAL

Retiras-te para Reritiba, onde és recebido com alegria pelos índios que surgem do sertão. Mas em 1593 tens ainda que dirigir o Colégio dos Jesuítas em Vitória do Espírito Santo. Em 1595 consegues obter dispensa dessas funções e, em busca de descanso, retiras-te definitivamente para Reritiba. Até que enfim...
Agrava-se a doença que te persegue desde a adolescência, coluna retorcida. Em 9 de Junho de1597 pedes (e recebes) a Extrema Unção. A rezar em latim e abraçado às imagens de Jesus Cristo e da Santíssima Virgem, morres meia hora depois.

Espontaneamente, mais de 3 mil índios engrossam o teu funeral, ao qual se vão juntando centenas de brancos e caribocas. Saem de Reritiba rumo a Vitória, onde serás sepultado. Durante três dias a consternada multidão carrega e acompanha o teu amortalhado corpo.

Desde São Paulo de Piratininga e Peruíbe e Itanhaém e São Vicente até ao Rio de Janeiro e Vitória do Espírito Santo e Salvador da Bahia ninguém te esquece; nem índios, nem brancos, nem caribocas. Antes pelo contrário, clamam todos que és tu o Apóstolo do Brasil.

Em tua homenagem Reritiba passará a chamar-se ANCHIETA.