Um mundo novo onde o amor campeia...

Alda Espírito Santo

Poeta santomense:
1926 - 2010



Quando tudo aconteceu...

1926: Em 30 de abril nasce, na cidade de São Tomé, capital do Arquipélago de São Tomé e Príncipe, Alda Neves da Graça do Espírito Santo. Filha de uma professora primária e de um funcionário dos Correios, ainda nova faz seus primeiros estudos em São Tomé. 1940: Em meados de 1940, muda-se com a família para o norte de Portugal, anos depois a família muda-se para Lisboa onde Alda inicia seus estudos universitários. 1950: No início dessa década, morando em Lisboa com a família, Alda Espírito Santo faz contato com alguns dos importantes escritores e intelectuais que viriam a ser os futuros dirigentes dos movimentos de independência das colônias portuguesas de África, como Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, Francisco José Tenreiro, entre outros. A casa de sua família, no número 37 da Rua Actor Vale, funciona como local de encontros do CEA (Centro de Estudos Africanos). Os encontros regulares na casa de Alda promoviam palestras sobre temas diversos como Linguística, História e também sobre a consciência cultural e política acerca do colonialismo, do assimilacionismo e da defesa do colonizado. Na mesma época, Alda Espírito Santo frequenta a CEI (Casa dos Estudantes do Império). Algum tempo depois, abandona o curso universitário por razões políticas e também financeiras. 1953: Em janeiro, regressa a São Tomé e Príncipe, onde atua como professora e jornalista. Nesse mesmo ano, escreve o poema “Trindade” que denuncia o massacre ocorrido em 5 de fevereiro em Trindade (São Tomé e Príncipe). 1975: Após a independência de São Tomé e Príncipe, ocorrida em 12 de junho, Alda Espírito Santo ocupa vários cargos sucessivos no governo da jovem nação, entre os quais os de Ministra da Educação e Cultura, Ministra da Informação e Cultura, Presidente da Assembleia Nacional e Secretária Geral da União Nacional de Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe. Nesse ano, em novembro, compõe a letra do Hino Nacional de São Tomé e Príncipe, intitulado “Independência Total”. 1976: Publica um livro de poemas intitulado O jogral das Ilhas. 1978: Publica o livro de poemas É nosso o solo sagrado da terra, que reúne uma coletânea dos poemas produzidos por Alda entre os anos de 1950- 1970. 2010: Em 9 de março em Luanda (Angola), falece a poetisa Alda Espírito Santo por complicações na saúde. O governo santomense decreta luto oficial de 5 dias.

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CONSTRUIR

Lá está ela. Janela aberta ao sol. Observo seu vulto à distância . Percebo a respiração profunda que sorve lentamente o ar fresco e puro da manhã. Debruça-se sobre o parapeito e fica a contemplar o jardim. Parece estar completamente feliz. Respeito este momento de sua intimidade, espero um tanto para me aproximar e provocar esta conversa imaginária, mas perfeitamente possível. Ouço o chamado em voz quase imperceptível: Vinde ouvir a história da vida ...

Corria o ano de 1950 e a jovem Alda Espírito Santo começava a conhecer em Lisboa, onde residia com a família, alguns intelectuais africanos importantes como Agostinho Neto, Amílcar Cabral entre outros. Nas reuniões na casa de sua família, conversava-se sobre a situação dos países africanos, sobre a realidade que poderia ser diferente. “Construir”, poema da jovem Alda Espírito Santo escrito nessa época, retrata essa utopia, inspirada certamente na solidariedade construída coletivamente naquela casa da Rua Actor Vale.

Construir sobre a fachada do luar das nossas terras
Um mundo novo onde o amor campeia, unindo os homens
de todas as terras
Por sobre os recalques, os ódios e as incompreensões,
as torturas de todas as eras.
É um longo caminho a percorrer no mundo dos homens.
É difícil sim, percorrer este longo caminho
De longe de toda a África martirizada.
Crucificada todos os dias na alma dos seus filhos.
É difícil sim, recordar o pai esbofeteado
pelo despotismo dum tirano qualquer,
a irmã violada pelo mais forte, os irmãos morrendo nas minas
Enquanto os argentários amontoam o oiro.
É difícil sim percorrer esse longo caminho
Contemplando o cemitério dos mortos lançados ao mar
Na demência dum louco do poder, caminhando impune
para a frente, sem temer a justiça dos homens
É difícil sim, perdoar os carrascos
Esquecer as terras donde nos escorraçaram
As galeras transportando nossas avós para outros continentes
Lançando no mar as cargas humanas
Se os navios negreiros têm lastro em demasia, é difícil sim,
Esquecer todos esses anos de torturas e inundar o mundo
De luz, de paz e de amor, na hora fatal do ajuste de contas.
É difícil sim, mas um erro não justifica outro erro igual.
Na construção de um mundo novo à sombra das nossas
Terras maravilhosas, juramos não sofrer uma afronta igual
Mas receber conscientes o amor onde há fraternidade
Espalhando assim o grito potente da nossa apregoada selvajaria
Mas essa hora tarde e os gritos do deserto espreitam
Por sobre as nossas cabeças encanecidas da longa espera
Mas os nossos sonhos hão-de abrir clareiras nos eternos luares
Dos nossos desertos assombrados.




TRINDADE

Era o ano de 1953, o massacre ocorrido em São Tomé em 05 de fevereiro desse ano, que vitimou cerca de 500 santomenses espancados até a morte ou abatidos a tiros, mobilizou as vozes que já se colocavam contra o colonialismo, a denunciar essas ações. Alda Espírito Santo encontrava-se em São Tomé desde janeiro e não pode calar-se frente a esses terríveis acontecimentos. Através da arma que lhe é familiar, a escrita, compõe o longo poema “Trindade”, cuja estrutura remete ao texto teatral. Os acontecimentos se destacam para mostrar ao mundo que era preciso mudar.
Está aqui, um homem negro de pé, estendendo os braços lassos cansados, tonto de bater em vão a todas as portas e ter de estender os braços com os olhos injectados de sangue e angústia.


A sua história é real. Saiu duma câmara da morte. Escapou com a vida, enquanto trinta dos seus companheiros morreram asfixiados, pedindo ar e água.
E isto passou-se. Foi a 5 de Fevereiro que eles morreram. E o negro, tonto de tanta ruína humana caindo desmaiado sobre os cadáveres dos companheiros mortos, despertou atordoado, correndo como ébrio para o pátio da prisão, gritando com fome e sede.


Eu chamo-me Cravid
E tenho um crime...
? Nasci na Trindade ?
A vida condenada.

Pintava casas
nas empreitadas da cidade.
Fui levado manhã cedo
e eles prenderam-me.

Fecharam meu corpo
Fechado de raiva
numa casa sem ar.

Camaradas de cela se cruzaram
camaradas de cela se juntaram...

E a porta de zinco ia abrindo
e sempre nascia uma esp’rança
de volver p’rá liberdade,
para o ar livre das ruas.

E a esperança saía
na porta fechada, cerrada
recebendo mais gente.
Aos vinte... trinta… quarenta…

Aos vinte, trinta, quarenta,
os gritos cresciam
as bocas secavam...
E a sede, a sede aumentava
e a gente morria sem ar...
E os tiranos zombavam no pátio.

Os gritos cresciam...
? Água, água, água...
Ar, ar!...
Num coro de morte
gritando p’la vida.

E a tarde caía
a noite chegava.
A gente morria...
Meia-noite, hora da morte...
Os coros subiam
na noite sinistra
e corpos humanos tombavam por terra.

? Ó velho, motorista Alfredo,
tu tombaste já...
Teu corpo inerte está livre
evadiu-se.
E tu, Lima,
Junto ao postigo
tu pediste ar
pediste vida
e o destino escarninho
tombou contigo no chão.
E o ar já não virá...

Um a um camaradas
um a um
no coro da angústia
se finaram, companheiros
no escuro de túmulos,
na eterna escuridão
da esperança morta.

E na manhã sinistra
de sexta-feira 6
nesse mês de Fevereiro
fatídico e cruel
eu ainda tinha vida...

Dezasseis, dezasseis homens
saíram tombando, erguendo a carcaça.
E eu fiquei.
Fiquei deitado.
Meu corpo caiu sobre os mortos
na primeira revolta.
E levantei-me.

De mim, saiu outro homem.
Eu levantei maluco
e corri à porta.
Eu gritei
p’la água que não vinha
p’la fome que tinha.

E escarrei ao carrasco
todo o fel, todo o fel
da revolta nascente.

E eles, eles, os tiranos
só ligaram meus membros
quando o corpo cansado o consentiu.

A revolta cresceu...
As lavas sufocaram os algozes
e as forças dos meus nervos
desataram as cordas.

A rebelião crescia
e os carrascos sem nome
atiraram contra mim.

E os tiros vieram
e eu resisti.
Eu não morri.

Juntos em redor de mim
cobriram de andalas meu corpo
e eu não morri.

Cresço em ondas de revolta
e estou ficando louco.

Deportaram-me
mas eu já voltei...
Meus olhos não param
e eu estou de pé.




INDEPENDÊNCIA TOTAL (1975)

Hino da República de São Tomé e Príncipe

Em 12 de junho de 1975, os santomenses conquistam a tão sonhada independência. Nasce a República Democrática de São Tomé e Príncipe e Alda Espírito Santo, uma das protagonistas dessa luta pela independência, participa desse momento tão importante para o povo santomense, compondo a letra do Hino nacional da jovem nação.


“Independência Total (1975)” – Hino da República Democrática de São Tomé e Príncipe (Letra de Alda Espírito Santo e música de Quintero Aguiar). Em 12 de junho de 1975, os santomenses conquistam a tão sonhada independência.


Independência total
Glorioso canto do povo
Independência total
Hino sagrado combate
Dinamismo
Na luta nacional
Juramento eterno
No país soberano
De São Tomé e Príncipe
Guerrilheiro da guerra sem armas na mão
Chama viva na alma do povo
Congregando os filhos das ilhas
Em redor da Pátria Imortal
Independência total, total e completa
Construindo no progresso e na paz
A Nação mais ditosa da terra
Com os braços heróicos do povo
Independência total
Glorioso canto do povo
Independência total
Hino sagrado combate
Trabalhando, lutando e vencendo
Caminhamos a passos gigantes
Na cruzada dos povos africanos
Hasteando a bandeira nacional
Voz do povo, presente, presente em conjunto
Vibra rijo no coro da esperança
Ser herói na hora do perigo
Ser herói no ressurgir do país
Independência total
Glorioso canto do povo
Independência total
Hino sagrado combate
Dinamismo
Na luta nacional
Juramento eterno
No país soberano
De São Tomé e Príncipe.

Referências Bibliográficas:

AMORIM, Claudia. Alda Espírito Santo. In: AFRICAN LUSOPHONE WRITERS. Dictionary of literary biography. RECTOR, Monica; VERNON, Richard (Orgs.).
A BRUCCOLI Clark Layman book. USA, 2012, p. 83-85
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LABAN, Michel. Encontro com Alda Espírito Santo. In São Tomé e Príncipe. Encontro com escritores. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 2002, v. 1, p. 61-104.

LARANJEIRA, Pires. A negritude africana de língua portuguesa. Porto: Edições Afrontamento, 1995, p. 111-114.
______. Literaturas africanas de expressão portuguesa. Lisbon: Universidade Aberta, 1995, p. 343-349.
______. De letra em riste. Porto. Editora Afrontamento, 1992, p. 19-32.
LEITE, Ana Mafalda. Oralidades e escritas nas literaturas africanas. Lisbon: Colibri, 1998, p. 103.

PEREIRA, Érica Antunes. As (in)diferenças sociais nas vozes poéticas de Alda Espírito Santo e Noémia de Sousa. Revista Crioula. Revista eletrônica dos alunos da Pós-Graduação da FFLCH da Universidade de São Paulo. Edição n.º 1, 2007 In: HYPERLINK "http://www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/crioula/edicao/01/Dossie/05.pdf"

PORTUGAL, Francisco Salinas. Entre Próspero e Caliban. Literaturas africanas de língua portuguesa. Santiago de Compostela. Edicións Laiovento, 1999, p. 102-103.

SECCO, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro. Antologia do mar na poesia africana do século XX. Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras – UFRJ, 1999.
SECCO, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro. Dona Alda e Conceição Lima: uma geografia de paixões, afetos e memórias. Revista Científica Semioses. UNISUAM. N.º 4, 7ed. Rio de Janeiro.
HYPERLINK "http://www.unisuam.edu.br/semioses/pdf_edicoes_anteriores/n4/Semioses_n4_Artigo1.pdf" http://www.unisuam.edu.br/semioses/pdf_edicoes_anteriores/n4/Semioses_n4_Artigo1.pdf
TAVARES, Eugène. Littératures lusophones des archipels atlantiques. Açores, Madère, Cap-Vert, São Tomé e Príncipe. Paris: L’Harmattan, 2009, p. 292-293.