Todos os meus problemas, tive-os por ouvir bem demais...

Germano Sacarrão

Zoólogo e ecologista::
2010 - 1992



Quando tudo aconteceu...

1914: No dia 19 de Agosto nasce em Lisboa, na freguesia de Santa Isabel, Germano da Fonseca Sacarrão, filho de Henrique Sacarrão e de Maria Rosa da Fonseca Sacarrão. É uma família de poucos recursos económicos, mas irá investir na educação de Germano tudo o que lhe for possível. A sua infância e a adolescência decorrem sem que ocorram factos assinaláveis. Pratica muito desporto, estuda também muito e obtém boas notas, compensando o sacrifício económico que os pais fazem. E assim, em 1932, conclui o curso complementar dos liceus no Passos Manuel. Matricula-se na Escola Naval. Porém em 1933 desistindo de um futuro na Marinha, vai ao encontro da sua vocação e matricula-se na Faculdade de Ciências, em Química Orgânica, Botânica Geral e Desenho Aplicado às Ciências Biológicas. 1935: Obtém dezassete valores a Zoologia Sistemática, bom com distinção. 1936: Às Ciências Biológicas acrescenta outros saberes - está agora no Curso de Oficiais Milicianos – é o soldado-cadete número 153/35 da 3ª Companhia de Saúde. 1937: Conclui a licenciatura em Ciências Biológicas com a nota final de quinze valores - bom com distincão.1937-38: É-lhe concedida uma bolsa de estudo para frequentar, na Faculdade de Letras, as cadeiras de Pedagogia e Didáctica, Psicologia Escolar, Higiene Escolar, História da Educação e Psicologia Geral, da secção de Pedagógicas. É um passo importante, pois será a competência que obtém com este diploma que lhe permitirá futuramente dar aulas em diversos colégios de Lisboa. 1938-41: Recebe uma nova bolsa de estudo do Instituto de Alta Cultura. Desta vez é para poder estagiar no Centro de Estudos Histofisiológicos da Faculdade de Medicina. Aqui receberá lições dos professores Celestino da Costa e Xavier Morato. 1941: Publica numerosos artigos científicos no Jornal do Comércio. Publica também Études embryologiques sur les céphalopodes. In: Colectânea de Separatas dos Trabalhos Enviados como Homenagem ao Professor A. Celestino da Costa. Lisboa, e ainda Pasteur. Gente Moça, Colégio Moderno, Lisboa. 1942: Como bolseiro do Instituto de Alta Cultura, estagia na Universidade de Genebra, sob orientação dos professores Émile Guyénot, Kitty Ponse e Jean Perrot, aprendendo técnicas laboratoriais, métodos de cultura da Drosophila e outros. 1943: Estagia com o Professor Adolf Portmann no Zoologische Anstalt da Universidade de Basileia. Estuda a embriologia geral e dos cefalópodes. Publica - Contribution à l'étude du tissu conjonctif des capsules surrénales des vertébrés. Bulletin de la Société Portugaise des Sciences Naturelles, XIV (3), Lisboa e Observations sur les dernières phases de la vie embryonnaire de l'Eledone. Arquivos do Museu Bocage, 14: 29-35, 1 planche tripla. Lisboa. E a separata. Embriologia. Cephalopoda. Moluscos. Adolf Portmann constituirá para Germano uma referência imperecível – terá sido o seu mestre dilecto. 1944: A convite do Professor Ricardo Jorge, ocupa o cargo de naturalista do Museu e Laboratório Zoológico e Antropológico (Museu Bocage). Publica Les corps suprarénaux des Sélaciens (Étude histologique). Archives Portugaises des Sciences Biologiques, VII (1), Porto. E sai também, de sua autoria Contribuição para o estudo das aves de Moçambique (I). Arquivos do Museu Bocage, 15, Lisboa 1945: É publicada a separata Études embryologiques sur les céphalopodes. Arquivos do Museu Bocage, XVI, 33-69. Lisboa. 1951: É nomeado primeiro-assistente do quadro da Faculdade de Ciências de Lisboa. Até à sua jubilação (em 1984) ensinará todas as disciplinas, teóricas e práticas, da secção de Zoologia: Embriologia e Histologia, Invertebrados, Metodologia das Ciências Biológicas, Curso Geral de Zoologia, Zoologia Sistemática, Ecologia Animal e Zoogeografia, Zoologia Médica, Anatomia e Fisiologia Comparadas, e Antropologia. Ainda em 1951, defende a dissertação de doutoramento, "Sobre as primeiras fases da ontogénese de Tremoctopus violaceus", que completara em 1949. É aprovado com dezoito valores - muito bom com distinção. Em 21 de Setembro, recebe o diploma de Doutor. 1955: Escreve o ensaio Sobre a evolução ontogenética das relações embrião-órgão vitelino nos cefalópodes. 1957: É editado em livro o seu ensaio O Embrião e a Evolução dos Vertebrados 1959: Por portaria publicada no Diário do Governo, é-lhe atribuído o título de professor agregado de Zoologia e Antropologia. 1960: Em 8 de Novembro, com a lição A ontogenia dos cefalópodes no quadro dos moluscos - aspectos do problema consagra a nomeação como professor catedrático da 3a Secção.1964: É nomeado director da Faculdade de Ciências de Lisboa, cargo que ocupa ate 1971. Dirige também o Museu e Laboratório Zoológico e Antropológico (Museu Bocage) até 1974. 1971-76: Dirige o Projecto de Investigação (LB 2) do Instituto Nacional de Investigação Científica. 1977: É editado o seu livro Ontogenia e Ambiente na Evolução dos Vertebrados. 1979: Saem a público os seus livros A Ecologia da Luz e Vida e A Vida e o Ambiente. 1981: É publicado o livro A Temperatura como Factor Ecológico. 1982: Publica A Biologia do Egoísmo.1983: Publicação de O Meio Biológico. Iniciação ao Estudo da Interdependência na Natureza Viva. 1984: No ano da sua jubilação é publicado um ensaio de sua autoria de grande importância na revista “Naturalia” – O Abuso da Metáfora em Biologia. 1985: Publica o artigo O darwinismo em Portugal. 1987: É editada a sua obra A Adaptação e a Invenção do Futuro.1987-92:.É membro fundador, sócio n.º 1 e presidente da Associação Portuguesa de Biólogos. 1992: Germano Sacarrão morre no dia 22 de Outubro. .


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Germano da Fonseca Sacarrão, um intelectual de escol e um ser ímpar

Germano da Fonseca Sacarrão, zoólogo e ecologista de renome internacional, amigo e tradutor de cientistas como Edgar Morin, foi um grande professor da Faculdade de Ciências de Lisboa. As suas lições eram tão vivas e tão participadas que muitos alunos de outras faculdades, de outros cursos, licenciados e pós-graduados, a elas assistiam. Era um orador brilhante, a sua escrita era límpida e o raciocínio surgia claro, mesmo para os leigos. Foi um divulgador científico de grande qualidade didáctica. Mas foi também um investigador com importantes trabalhos científicos publicados em revistas internacionais.

Numa manhã de Outubro de 1992 foi comprar um ramo de flores para oferecer à esposa que estava acamada com uma gripe e a meio do caminho caiu fulminado por um ataque cardíaco. Os transeuntes acorrem, mas nada havia a fazer.

Desaparecera uma pessoa de grande envergadura intelectual e um ser humano bondoso e cordial. Deixou uma série de projectos por concluir, nomeadamente uma obra de biofilosofia que o trazia muito entusiasmado - A Ecologia do Espírito.

O essencial sobre o que se pode apurar sobre a vida deste homem, tão importante no panorama da cultura portuguesa, está descrito acima. Não vou biografar, vou recordar alguns momentos da sua vida. Episódios por ele contados, pois era um conversador emérito. Sem ordem cronológica. Ao sabor da memória de quem o conheceu e teve a honra de ser seu amigo.






Professor de Física, mas não mentor político

Final dos anos 80. Germano Sacarrão está absorto ante um quadro, numa exposição de pintura na Galeria 111 do Campo Grande. Ouve um tropel de passos, um rumor de sussurros de conversas e risos que se aproxima. Uma voz conhecida diz.

- Olha, o meu querido professor!

Volta-se. Diante dele está, nem mais nem menos que o presidente da República, Mário Soares que, aliás, reside ali, a poucos metros, na rua que tem o nome de seu pai. Na verdade, Germano Sacarrão fora professor de Mário Soares no Colégio Moderno. Por questões políticas, quando veio da Suíça onde, após a licenciatura e com bolsas do Instituto de Alta Cultura, estagiou entre 1938 e 1943, não lhe foi dada colocação no ensino oficial – nem na Universidade, nem sequer no Ensino Secundário. Generosamente, João Soares deu-lhe guarida no seu Colégio Moderno. Sacarrão nunca esqueceu esse gesto solidário.

Agora, a comitiva do presidente ali está, respeitosa e sorridente, esperando a reacção de Germano. Soares abraçou-o e repetiu:

- O meu querido professor!.

Então Germano, olhando os membros da comitiva numerosa, que mantinham uma distância respeitosa, esclareceu:

- De Física! Professor de Física!

(Não fossem eles pensar que fora ele o mestre, o mentor político!). E, perante os sorrisos da comitiva, correspondeu ao abraço do seu antigo aluno que, segundo parece, era um cábula de primeira. -«Muito esperto e inteligente, mas um cábula», dizia Sacarrão, que mantinha uma grande estima por Soares, embora de modo algum estivesse de acordo com a sua prática política.





Um verdadeiro diálogo de surdos

Morava em Campo de Ourique. Era, aliás, um entusiasta do bairro, o «quartier latin», como se diz entre os nativos. É um bairro charmoso, projectado nos anos 70 do século XIX, pelo grande engenheiro, Frederico Ressano Garcia (1847-1911), um discípulo das teorias urbanísticas do barão de Haussmann, o arquitecto da Paris imperial, com grandes vias cortadas perpendicularmente por ruas secundárias, como, aliás, já no século anterior, Eugénio dos Santos fizera com a Baixa. Campo de Ourique é uma cidade dentro da cidade, tem tudo, é auto-suficiente. Até tem lugares de culto – o mercado, a Livraria Ler, do Luís Alves, no Jardim da Parada, o café centenário «A Tentadora», «Os Alunos de Apolo», onde desde 1872 milhares de lisboetas aprenderam a dançar, o CACO – Clube Atlético de Campo de Ourique… Um mundo.

Sacarrão conta como uma manhã encontrou dois surdos famosos, precisamente no café « A Tentadora», na Ferreira Borges, com a sua bela fachada Arte Nova: António José Saraiva, um morador do bairro, e Óscar Lopes que, na altura, era presidente da Associação Portuguesa de Escritores e vinha semanalmente, a Lisboa, ficando, ao que julgo saber, em casa do amigo. Saraiva que há muito abandonara o PCP (desde 1962), enquanto Óscar Lopes ainda hoje é militante. Convidam-no para a mesa e Sacarrão escuta a discussão que já vai a meio. São amistosas discussões de natureza ideológica, prolongadas e ricas em finos argumentos vindos de ambos os lados, mas nunca chegando a acordo – Sacarrão que os escutou deleitado e divertido com a elevação intelectual da divergência, comenta, usando, neste caso, a surdez no sentido metafórico.

- Um verdadeiro diálogo de surdos!




O elogio da surdez

Sou um pouco surdo. É frequente receber folhetos publicitários sobre aparelhos auditivos e, sempre que os recebo, lembro-me me de uma frase lapidar de Sacarrão sobre o tema e não compro. E o que diz Sacarrão? Já lá vamos.

Conta como muitas vezes chega a casa fatigado, ansioso por descansar e encontra um ambiente agitado. O neto, que vive com os avós, como bom adolescente, está no seu quarto ouvindo música rock num ruído que seria ensurdecedor se Germano pudesse ainda ensurdecer (a piada é dele). Adora o neto – refere-se-lhe muitas vezes e diz que ajudado pelo jovem, está a fazer uma grande reciclagem – conceitos, perspectivas, maneiras de estar. Uma vez diz – Os velhos vivem muito no passado, precisam de ter um espião no presente. O meu neto informa-me de como são as coisas agora.

Na sala, a esposa e a criada vêem e ouvem uma telenovela com o som demasiado alto, para que a empregada, que vai à cozinha vigiar o jantar, não perca os diálogos. Música rock e conversa de telenovela: uma mistura explosiva - Um pequeno inferno, resume.

Então, o golpe de magia: Germano desliga o aparelho auditivo e senta-se numa cadeira confortável. Imediatamente, diz, entra numa maravilhosa ilha de silêncio – pode ler o jornal, um livro ou simplesmente ficar a sós com os seus pensamentos.

E culmina o seu elogio da surdez com a tal frase que nunca mais esquecerei: «Nunca tive problemas por ser surdo – todos os meus problemas, tive-os por ouvir bem demais».




As galinhas não são estúpidas

Condena a antropomorfização dos animais que nos leva a dividi-los em bons e maus, inteligentes e estúpidos. E diz: «As galinhas não são estúpidas; têm a inteligência de que necessitam para sobreviver».

Como refere a escritora Maria Estela Guedes num excelente trabalho seu sobre Sacarrão, este preocupava-se com o facto de o discurso biológico transportar conceitos da esfera zoológica para a antropológica e vice-versa. Esta metaforização é abusiva e acientífica, na sua opinião. As metáforas nascem do impulso de manipularmos a sensibilidade alheia, de moldarmos o ponto de vista dos outros pelo nosso. «A realidade é uma invenção do nosso espírito», costumava dizer; o cérebro tem barreiras de conhecimento, está adaptado a um dado mundo e não a outro. Embora também manipuladora, em poesia, a metáfora é aceitável; em ciência não. Acrescente-se que este magnífico trabalho de Maria Estela Guedes é um dos poucos disponíveis sobre Germano Sacarrão.




Um ramo de flores

Naquele dia 22 de Agosto Germano faz anos de casado. Vem à rua comprar um ramo de flores para oferecer à esposa que está doente com uma gripe. Subitamente, uma dor forte. Germano cambaleia. Cai. Os transeuntes acorrem…