Pois este é século para poetas? Ou temos nós poetas para este século?...

Almeida Garrett

Escritor:
1799-01-01 - 1854-01-01



Quando tudo aconteceu...

1799: No dia 4 de Fevereiro, na Rua do Calvário, actual Rua Dr. Barbosa de Castro, nº 37 na cidade do Porto, nasce João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, filho segundo de António Bernardo da Silva Garrett, Selador Mor da Alfândega do Porto, e de Ana Augusta de Almeida Leitão. No dia 10 de Fevereiro é baptizado na Igreja Paroquial de Santo Ildefonso, tendo como padrinhos João Baptista da Silva e Antónia Margarida Garrett.. 1804: A família muda a residência para Vila Nova de Gaia. 1809: Em Fevereiro parte com a família para a ilha Terceira, fugindo da segunda invasão francesa.1812: Seu tio, Frei Alexandre da Sagrada Família, é nomeado bispo de Angra do Heroísmo. A educação do jovem foi confiada a dois tios paternos, ao Dr. João Carlos Leitão e ao bispo. 1816: Matricula-se no curso de Direito da Universidade de Coimbra. 1818: Começa a usar os apelidos Almeida Garrett. 1819: Publica Lucrécia. 1820: Em 24 de Agosto eclode o pronunciamento militar no Porto, por acção do Sinédrio. Almeida Garrett participa no movimento que a revolta no Porto desencadeia por todo o País em prol dos valores do liberalismo e escreve um Hino Patriótico que é recitado no Teatro de São João. 1821: Publica o poema Ao corpo académico, Publica O Retrato de Vénus, trabalho que lhe vale um processo por ser considerado materialista, ateu e imoral. Funda a Sociedade dos Jardineiros. É representada em Lisboa a sua tragédia Catão. É também levada à cena, Mérope. Em Novembro conclui a licenciatura em Leis. 1822: É absolvido do processo que lhe é posto pela publicação de O Retrato de Vénus. Publica O Toucador. Em Agosto é admitido como secretário particular de Silva Carvalho, secretário de Estado dos Negócios do Reino. Em 11 de Novembro casa com Luisa Midosi. 1823: A Vila-Francada obriga-o a exilar-se em Inglaterra. 1824: Parte para França e durante a viagem escreve Camões e Dona Branca. 1825: Publica em Paris Camões, obra importante do Romantismo português. 1826: Publica Dona Branca. Trabalha na livraria Aillaud, em Paris. Pela morte de D. João VI é lançada uma amnistia que o abrange. Regressa a Portugal. Funda e dirige o jornal diário O Português e em 1827 o semanário O Cronista. 1828: Em 22 Fevereiro, D. Miguel, regressado a Lisboa, jura a Carta no Palácio da Ajuda. A legitimidade do seu reinado só é reconhecida por Espanha, Vaticano e Estados Unidos. Este acto desencadeia a Guerra Civil. Com o regresso de D. .Miguel, Garrett exila-se novamente em Inglaterra. Morre sua filha recém-nascida. Publica Adozinda. 1829: Publica Lírica de João Mínimo e O Tratado da Educação 1830: Publica Portugal na Balança da Europa e Um Auto de Gil Vicente. 1831: De Inglaterra parte para França onde se alista num batalhão de imigrados liberais. 1832: Em Julho, dá-se o desembarque da expedição liberal no Mindelo e ocupação do Porto. Garrett faz parte deste corpo militar (tal como Alexandre Herculano). Escreve O Arco de Sant’ana (que viria a publicar em 1845).1834: É assinada a Concessão de Evoramonte que põe termo à Guerra Civil. 1835: È editado o Livro II dos Versos, integrando as Fábulas. 1836: A subida de Passos Manuel ao poder, implica a nomeação de Garrett como responsável pela reorganização do teatro em Portugal. Separa-se de Luísa Midosi que terá cometido adultério. 1837: Envolve-se sentimentalmente com Adelaide Pastor. 1838: Escreve para o Teatro de D. Maria Um auto de Gil Vicente. Em 20 de Dezembro é nomeado cronista-mor do Reino. 1839: Organiza um curso de leituras públicas de História. 1840: Um segundo curso de leituras públicas tem como tema a «história política, literária e científica de Portugal no século XVI». Para o teatro escreve D. Filipa de Vilhena. 1841: Escreve "O Alfageme de Santarém" (segundo algumas fontes, terá sido em 1842). Da sua ligação com Adelaide Pastor Deville nasce uma filha : Maria Adelaide. 1842:. Costa Cabral toma o poder e demite Garrett, opositor assumido da ditadura cabralista, do cargo de inspector-geral dos teatros. 184

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A INFÂNCIA: "NASCI NO PORTO, MAS CRIEI-ME EM GAIA"

Almeida Garrett é uma figura que identificamos com a cultura, com a literatura, com o teatro. Chamar-lhe-íamos na linguagem dos nossos dias, “um ícone da cultura portuguesa do seu tempo”. A sua preocupação com o aspecto, a maneira como se veste, indiciando o dândi, o peralvilho, mais não é do que o invólucro enganador de uma personalidade multifacetada, de um intelectual rigoroso, de um político corajoso, de um homem de carácter, em suma. A sua preocupação com o aspecto talvez seja apenas o desejo de agradar ao belo sexo, uma consequência do seu carácter de sedutor impenitente. Revolucionário, jovem, com boa figura e um permanente cuidado com a elegância do trajo e da postura, cria uma aura de heroísmo que o faz ser bem recebido nos salões mundanos.

Em Viagens na Minha Terra diz; «Eu amo a charneca.. E não sou Romanesco. Romântico, Deus me livre de o ser - ao menos o que na algaravia de hoje se entende por essa palavra». A sua vida é constelada por casos amorosos. No seu caso, o adjectivo romântico assume duas acepções, pois além do sentido mais comum, no plano da arte e da literatura, Almeida Garrett é a figura de proa do Romantismo em Portugal. “Romanesco”, não será. Mas duplamente romântico não «se livra de ser».

Nasce numa família da alta burguesia.. O pai, Selador-Mór da Alfândega do Porto, é um proprietário da ilha Terceira, com três irmãos eclesiásticos. A mãe é oriunda de uma família minhota de origens humildes, mas que fez fortuna no Brasil. O apelido Garrett, de ressonância aristocrática, foi recuperado de uma antepassada irlandesa do lado paterno. É gente com teres e haveres e com a noção do valor da cultura. O pequeno João Baptista recebe uma esmerada educação guiada por dois dos tios paternos.

Em 1804, a família muda a residência para Vila Nova de Gaia, vivendo na Quinta do Castelo, no lugar do Candal, freguesia de Santa Marinha, nas proximidades das ruínas do Castelo de Gaia. Aqui terá ouvido falar na lenda de Gaia que mais tarde dará origem a um poema seu. Depois, a família transfere-se para a Quinta do Sardão, em Oliveira do Douro, propriedade pertencente ao avô materno José Bento Leitão. Escreverá mais tarde: "Nasci no Porto, mas criei-me em Gaia". Mas Almeida Garrett não será nunca uma figura regional. Não pertencerá ao Porto, nem a Gaia, nem a Angra do Heroísmo, nem a Lisboa… Virá a ser uma figura nacional. Sem que isso signifique a rejeição das suas origens – uma das frases mais citadas no Porto é de Garrett, ostentando o seu orgulho tripeiro - «Podemos trocar os vês pelos bês, mas não trocamos nunca a liberdade pela servidão».




Pois este é século para poetas? Ou temos nós poetas para este século?

Mas, mais importante do que a região onde os seus dias de criança decorrem, é o tempo que lhe foi dado viver. Almeida Garrett vem ao mundo numa época conturbada. Na passagem do século XVIII para o XIX, muitas coisas se passam numa Europa onde ecoam ainda os fragores da Grande Revolução Francesa de 1789.

Um Bonaparte simulando respeitar as mudanças impostas pela revolução, transforma-se em Napoleão, o imperador cujo sonho é o de uma Europa unida sob o poder de França e de uma França onde apenas prevalece a vontade do imperador. Portugal, honrando a sua aliança com Inglaterra, recusa-se a aderir ao bloqueio continental que o pequeno corso determina e, como tal, sofre três invasões de exércitos franceses. Em Fevereiro de 1809, o marechal Soult, inicia a segunda invasão. As tropas francesas entram por Chaves. Avançam a marcha forçada para o Porto e ocupam a cidade. Ocupação tristemente assinalada pelo desastre da Ponte das Barcas no qual, em 29 de Março de 1809, morreram mais de quatro mil pessoas.
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Fugindo aos desmandos dos invasores, a família Garrett vai refugiar-se na ilha Terceira, pois conserva ali propriedades. João Baptista, passa a adolescência nos Açores. A família destina-o à vida eclesiástica, Frei Alexandre da Sagrada Família, seu tio paterno, bispo de Malaca e que virá a ser bispo de Angra do Heroísmo, prepara a entrada do jovem na Ordem de Cristo. Mas não será assim, pois João não se sente atraído por tal perspectiva.. Em 1816, regressa ao Continente e matricula-se, em Coimbra, na Faculdade de Direito. E abre-se uma janela para um universo – a luta pelo ideal do liberalismo, ideal a que será fiel até ao fim dos seus dias. Os seus poemas, romances e peças teatrais revelam o seu amor pela liberdade. Pois este é século para poetas? Ou temos nós poetas para este século? perguntará anos depois em Viagens na Minha Terra. Pergunta que, de certo modo, explica o facto de a sua obra literária veicular os ideais políticos que perfilhou.




A REVOLUÇÃO DE 1820

Em Coimbra, contacta com uma juventude empolgada pelas ideias liberais. Assimilando rapidamente esses ideais, o nosso João Baptista não é um passivo consumidor de ideias – gosta mais de as produzir e, de imediato, passa à acção - organiza uma loja maçónica, que será frequentada por alunos da Universidade. Rapazes como Passos Manuel. Participa entusiasticamente na Revolução de 1820. Diz-se que terá tido conhecimento antecipado da eclosão do movimento revolucionário e que isso é indiciado no poema As férias, escrito em Junho de 1819. A leitura atenta do poema não permite chegar a essa conclusão. Apenas confirma que entre a juventude, mas não só, lavra um incêndio contra um catolicismo bafiento, inspirador de um absolutismo incompatível com as luminosas conquistas da ciência e com os avanços do conhecimento em geral. Um anacronismo que D. Miguel, apoiado por sua mãe, simboliza. Dirigente estudantil, orador inspirado, adere entusiasmadamente ao vintismo e escreve um Hino Patriótico que será recitado no Teatro de São João, no Porto, no ambiente empolgante que o levantamento militar de 24 de Agosto, inspirado pelo Sinédrio, criou na cidade e no país..

Em 1821, depois de uma viagem aos Açores, no regresso ao Continente, estabelece-se em Lisboa, onde continua a publicar escritos patrióticos. Conclui a Licenciatura em Novembro deste ano. É em Coimbra que publica o poema O Retrato de Vénus, que lhe vale ser acusado de materialista e ateu, assim como de «abuso da liberdade de imprensa». É julgado em 1822. No tribunal, usa os seus dotes oratórios e a sua verve num discurso emocionado que lhe vale a absolvição. Em Lisboa, representa-se a sua peça Catão, onde Garrett, sempre em defesa do ideal vintista, desenvolve o lema «liberdade ou morte».

Torna-se secretário particular de Silva Carvalho, secretário de Estado dos Negócios do Reino, ingressando em Agosto na respectiva secretaria, com o lugar de chefe de repartição da instrução pública. Em 11 de Novembro, casa com Luísa Midosi, que tem apenas 14 anos. Um casamento que não será bem sucedido.

A Vila-Francada, o golpe militar de D. Miguel que, em 9 de Junho 1823 interrompe a primeira experiência liberal em Portugal, abolindo a Constituição de 1822, obriga Garrett a exilar-se em França. Experimenta as agruras da pobreza Em Março de 1824 fixa-se no Havre, cidade portuária na foz do Sena, conseguindo uma colocação como correspondente da casa Laffite. Garrett conjuga a actividade comercial com a literatura e são desse período Camões e Dona Branca, obras muito significativas da implantação da escola romântica em Portugal. Em 1826 consegue um lugar na livraria Aillaud, em Paris.. Ainda em 1826, a morte de D. João VI, determina uma amnistia e João Baptista pode regressar a Portugal, após a outorga da Carta Constitucional por D. Pedro IV, reocupando em Agosto o seu lugar na Secretaria de Estado. Em Outubro funda e dirige «O Português, diário político, literário e comercial». E, já no ano seguinte, «O Cronista». Porém, os contra-revolucionários não param..

Garrett desperta o ódio da maior máquina de produzir ideologia obscurantista – o padre José Agostinho de Macedo, fanático defensor do absolutismo miguelista, acusa Almeida Garrett de, com os seus escritos jornalísticos, incitar à rebelião. Segundo ele, a acção de Garrett configura o crime de lesa-majestade. Sabe-se que José Agostinho de Macedo censura tudo o que não respeita integralmente a sua concepção arcaica de catolicismo – nem Camões e Os Lusíadas escapam à sua pena ferozmente prolífica – Publica uma Censura ao poema épico onde incorpora O Oriente – obra sua que dera à estampa em 1814 – poema onde, segundo ele, suplanta Os Lusíadas. Mas embora se saiba que este homem fica dementado perante opiniões progressistas, Garrett é preso em finais de 1827 e os seu jornais encerrados.. Em Junho de 1828, já em liberdade, mas com D. Miguel ocupando o trono, João Baptista opta novamente pelo exílio. Vai para Inglaterra onde vive e trabalha até 1831. Ainda em 1831 vai de Inglaterra para França.




O SOLDADO Nº 72 DO BATALHÃO ACADÉMICO

Em França, alista-se num batalhão de Caçadores, uma unidade de imigrados liberais. Em 1832 junta-se ao exército organizado por D. Pedro na Ilha Terceira e que irá desembarcar na praia do Mindelo – os «Bravos do Mindelo» . O soldado João Baptista integra como voluntário o famoso Batalhão Académico. Durante o Cerco do Porto, fica aquartelado no Colégio de São Lourenço. É o soldado nº 72. Entre missões e combates, começa a escrever o romance histórico O Arco de Sant’Ana (Crónica Portuense). Manuscrito achado no convento dos Grilos no Porto, por um soldado do Corpo Académico.

Em Julho de 1832, as forças liberais entram no Porto e Garrett, promovido a oficial é reintegrado na secretaria de Estado do Reino, trabalhando também, na sua qualidade de jurista, na comissão encarregada do projecto de criação dos Códigos Criminal e Comercial. Depois de acompanhar o Duque de Palmela numa missão por algumas cortes europeias, a missão é dissolvida em Janeiro de 1833 e Garrett é deixado em Inglaterra sem apoio nem instruções. Vai a Paris encontrar-se com a mulher, pois as relações entre ambos ressentem-se da permanente itinerância a que as vicissitudes políticas obrigam. Em 24 de Julho de 1833, Lisboa é tomada por um exército liberal comandado pelo marechal duque da Terceira e as coisas parecem ir melhorar.




NOMEAÇÕES E COMPLICAÇÕES

Em Outubro, Garrett recebe meios para poder regressar a Portugal e em 2 de Novembro é nomeado vogal - secretário da Comissão de Reforma Geral dos Estudos. Em Fevereiro de 1834 é nomeado cônsul-geral e encarregado de negócios na Bélgica. Porém, quando chega a Bruxelas, em Junho, ali fica sem qualquer apoio do governo. Regressa a Portugal em princípios de 1835, voltando à capital da Bélgica em Maio. Está em tratamento médico em Paris e, sem qualquer aviso, tem conhecimento de que foi substituído na delegação em Bruxelas. Logo depois é nomeado embaixador na Dinamarca. Mas está ainda na Bélgica quando é informado de que foi demitido desse cargo. Este comportamento dos sucessivos governos, fere o orgulho de João Baptista. É então que surge o Setembrismo.




O SETEMBRISMO – BREVE ESBOÇO

Em Setembro de 1836 dá-se uma Revolução. O liberal-cartismo deslizara para situações de clientelismo, corrupção, com políticos responsáveis a deixar-se aliciar pelos grandes proprietários, ligados aos interesses do grande comércio estrangeiro. O Setembrismo mais não é do que a vaga de fundo do descontentamento generalizado, afectando trabalhadores, pequenos comerciantes, pequenos lavradores, contra o ideário cartista. Na sua genealogia, vamos encontrar o vintismo. A pedra angular do movimento é a substituição da Carta Constitucional de 1826, redigida pelo rei, por uma constituição aprovada em congresso democraticamente eleito pelo povo. Os setembristas são os liberais de esquerda, enquanto os cartistas são a facção conservadora, apoiante da Carta. Como sempre acontece, o setembrismo divide-se em duas facções: moderados e radicais:

A facção moderada era dominante. Posições cautelosas, procurando evitar rupturas e encontrar as soluções em compromissos com D. Maria II, visivelmente adepta dos cartistas, permitindo uma revisão constitucional onde se introduziriam alguns novos artigos votados em assembleias populares e se conservariam outros da «velha» Lei Fundamental de 1826. As figuras de proa desta facção são Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, o 1.º Visconde de Sá da Bandeira e um velho amigo de Almeida Garrett – Passos Manuel, um amigo e colega de Coimbra, um aderente do Clube dos Jardineiros. Logo convida João Baptista para o movimento.