Abre essa janela, que quero ver o mar...

rosalía de castro

Poetisa:
1837-01-01 - 1885-01-01



Quando tudo aconteceu...

1837: Em 21 de Fevereiro, Rosalía de Castro nasce em Camiño Novo, no cruzamento com a estrada para Conjo, na periferia de Santiago de Compostela, filha de María Teresa de la Cruz de Castro y Abadia e, segundo se julga, do padre católico José Martínez Viojo, embora não existam documentos que sustentem esta afirmação comumente aceite. Não podendo, pela sua condição sacerdotal, legitimar ou reconhecer a filha, encarrega suas irmãs, Teresa e María Josefa, de cuidarem da recém-nascida. No assento de nascimento, figura o nome de María Rosalía Rita de Castro, filha de pais incógnitos.1842: Numa certidão do concelho de Padrón, datada de 17 de Setembro, regista-se que ali reside Teresa de Castro com sua filha Rosalía e com uma criada de nome María Martínez. Após ter vivido os primeiros anos com suas tias paternas, terá, portanto, ficado ao cuidado da mãe. 1843: Antolín Faraldo, na Assembleia Federal de Lugo, reclama a independência da Galiza. 1850: Neste ano, Rosalía e sua mãe residem em Santiago, onde a jovem estuda e participa em diversas actividades culturais.1852: É o ano da sua paixão por Aurelio Aguirre, o poeta romântico apodado de «o Espronceda galego». 1853: Contrai o tifo. Cura-se, mas Eduarda Pondal, sua melhor amiga, morre, vítima da mesma doença. 1856: Muda-se para Madrid, onde vive em casa de uma prima. Deste ano datam as suas primeiras publicações. Em 2 de Março, realiza-se o célebre Banquete do Conjo. 1857: Sai a sua primeira colectânea de poemas em língua castelhana – La flor. 1858: Morre Aurelio Aguirre, grande amigo de Rosalía e seu primeiro amor. Casa com Manuel Murguía, um escritor e investigador funcionário do Estado. 1859: O casal regressa à Galiza, onde, a 12 de Maio, em Santiago, nasce Alejandra, sua primeira filha. Publica em castelhano La hija del mar. 1861: Voltam a Madrid. Neste ano começa a publicar textos em galego e em castelhano. É editado o seu «ensaio de romance», Flavio.1862: Morre sua mãe. A ela dedica o livro A mi madre, publicado no ano seguinte. 1863: É publicado em Vigo a sua primeira grande obra em língua galega, Cantares Gallegos. Sai também a público Flavio. O dia 17 de Maio, Dia das Letras Galegas, é feriado nacional na Galiza por ser a data da edição dos Cantares gallegos, a primeira obra editada em língua galega. Em castelhano, publica A mi madre.1864: Mesmo antes de ser publicado, um artigo de Rosalía cujo original se perdeu, enfurece uma horda de seminaristas de Lugo, que invadem as instalações do El Almanaque de Galicia, destruindo a composição. 1866: Edita em Madrid a narrativa Ruinas e, em Lugo, El Cadice. 1867: Ainda no idioma oficial do Estado, sai o romance El caballero de las botas azules. 1868: Em Setembro, eclode em Cádis uma revolta liberal, liderada pelo almirante Topete ao qual se junta depois o marechal Prim. A rebelião dirige-se contra a rainha Isabel II e contra o presidente do seu governo, González Bravo. A rainha refugia-se em França e é deposta. Devido à liberalização do governo, Murguía é nomeado Chefe do Arquivo de Simancas. O casal passa a viver entre Madrid e Simancas. Depois de terem residido em Lugo, Rosalía e Manuel voltam a Madrid onde, em Dezembro, nasce uma segunda filha, Aura.1871: Em Julho, nascem os gémeos Gala e Ovídio. 1873: Nasce na Corunha, em Julho, Amara. 1875: Em Março, nasce Adriano Honorato Alejandro (que viria a morrer em Novembro do ano seguinte, vítima de uma queda). 1877: Em Fevereiro, Rosalía dá à luz Valentina (que nasce morta). 1879/1882: Passa a residir em Torres de Lestrove. Entretanto, em Madrid, Murguía dirige La Ilustración Gallega y Asturiana.1880: É editada, em galego, a colectânea Follas novas.1881: Publica El primer loco; cuento estraño. Em La Ilustración Gallega y Asturiana, publica um texto sobre «Padrón y las inundaciones». 1884: Em castelhano, é editada a colectânea En las orillas del Sar. 1885: No lugar de Padrón, em 15 de Julho, com 48 anos, morre Rosalía de Castro, vitimada por um cancro no útero. É enterrada no cemitério de

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ROSALÍA DE CASTRO, FUNDADORA DA MODERNA LITERATURA GALEGA

Em qualquer idioma é difícil encontrar um autor que simbolize toda uma língua e toda uma literatura. Do castelhano se diz ser «a língua de Cervantes». Em Portugal, por exemplo, hesitamos na escolha desse ícone – Fernão Lopes, Camões, Pessoa? Tendo sempre presente o autor das Crónicas, textos onde pela primeira vez o português assume uma dimensão literária, usamos com frequência a expressão «língua de Camões», mas não esquecemos que Pessoa afirmou que o nosso idioma era a sua pátria. Na Galiza esse problema não existe – Rosalía de Castro é, pode dizer-se, o escritor galego por antonomásia. Com Manuel Curros Enríquez (1881-1917), Eduardo Pondal (1835-1917) e outros escritores, funda o movimento galeguista do Rexurdimento galego. Com a sua obra, a velha e nobre nação galega (transformada em mera «região» pelo centralismo castelhano, actualmente sob o eufemismo de Comunidade Autónoma da Galiza) reencontra-se com a sua língua e, através desta, com a sua história secular. Falar de Rosalía e da sua obra, além de falar de um dos maiores escritores da literatura peninsular e europeia do século XIX, é falar da sua pátria. É, com toda a justiça, considerada a fundadora da moderna literatura galega.




A INFÂNCIA E A ADOLESCÊNCIA

Embora nasça numa modesta casa de Barreiras, Rosalía é filha de María Teresa de la Cruz de Castro, uma aristocrata proveniente da linhagem dos Castro, implantada desde a Idade Média na Galiza, pertencendo os condes de Lemos a um dos seus ramos. María Teresa é a senhora da casa grande de Arretén; descende, portanto de uma das famílias mais ilustres e respeitadas da Galiza. Quando Rosalía nasce, María Teresa tem 32 anos. Embora não exista documentação que o prove, segundo o indicam todas as fontes fidedignas, seu pai é o sacerdote católico José Martínez Viojo, com trinta e nove anos à data do nascimento de Rosalía. Por isso, para a ter, a mãe se refugia em Barreiras. São as irmãs de seu pai, Teresa e María Josefa, quem cuida carinhosamente dela durante os seus primeiros anos, na Casa do Castro, no lugar de Ortoño. Sendo sua mãe uma senhora solteira e seu pai um padre, o nascimento da menina é rodeado por um tremendo escândalo e são as tias paternas que se encarregam de Rosalía. Para compreender a dimensão desse escândalo, há que ter em conta os preconceitos da época, agravados pelo facto de tudo se passar num meio provinciano, tradicionalista e fechado – uma fidalga e um padre católico gerarem clandestinamente uma criança, é, por aquele primeiro terço do século XIX, uma monstruosa enormidade, um insulto à moral instituída. Sem necessitarmos de recorrer a Freud, pode dizer-se que esta circunstância, a vergonha e o secretismo que rodeiam a sua ascendência, os eufemismos com que em família se lhe tenta esconde a verdade, marcam para sempre a maneira de ser de Rosalía e (quem sabe?) terão sido um dos motores da sua criatividade, marcada por uma sensibilidade nostálgica e por um acentuado sentimento trágico da existência.
Porém, a mãe não a abandona; não desiste dela: acalmadas as bocas venenosas, ultrapassado aquele escândalo por outros acontecimentos que alimentam a hidra de mil cabeças da curiosidade malsã pelas desditas alheias e do maldizer próprio das sociedades provincianas (e não só), ainda menina, vai viver com María Teresa. Desconhece-se a data precisa em que começam a morar juntas, mas, num registo do concelho de Padrón, datado de 17 de Setembro de 1842, consta que residem ambas naquela aldeia com uma criada de nome María Martínez. Nesta altura Teresa vai completar 38 anos e Rosalía está com cinco anos e sete meses.




OS ANOS DA APRENDIZAGEM

Não se sabe em que data mudam a residência para Santiago de Compostela, sendo, no entanto, certo que em 1850 mãe e filha viviam naquela cidade. Aos onze anos começa a escrever versos, lendo mais tarde, já com catorze anos, algumas dessas composições no Liceu de Santo Agostinho, em Santiago. Manifesta também uma grande inclinação para a música e para a arte dramática. Rosalía recebe educação musical, artística e literária, participando (a partir de 1852) nas actividades do Liceo de la Juventud, associação cultural a que estão ligados diversos intelectuais ligados aos movimentos galeguistas, tais como Eduardo Pondal[1], Aurelio Aguirre e Paz Novoa, de quem será grande amiga. Outra sua grande amiga, é a jovem Eduarda Pondal, irmã do escritor Pondal. Em Setembro de 1853, vão ambas à festa de Nossa Senhora de la Barca, em Muxia (Corunha) e contraem o tifo. Rosalía cura-se, mas Eduarda morre. É o primeiro grande desgosto que sofre – o primeiro de uma série que só terminará com a sua morte.

É voz corrente que, por estes anos de 1852, 53, Rosalía nutre pelo poeta Aurelio Aguirre uma abrasadora paixão de adolescente. Depois, consta que terá surgido um outro amor, por pessoa cuja identidade se desconhece. É a vida sentimental que se pode esperar numa jovem de 16 ou 17 anos. Aurelio presidirá, em 2 de Março de 1856, no Conjo a um transgressivo banquete de confraternização entre operários e estudantes, organizado também por Eduardo Pondal e Rodríguez Seoane, onde profere um brilhante discurso carregado de poesia e de alusões políticas. Na realidade, é neste ambiente que Rosalía, que é actriz amadora no grupo de teatro do Liceo, forja as suas convicções socialistas e republicanas.

[1] - Eduardo Pondal Abente (Ponteceso, Corunha, 1835-Corunha, 1917). Poeta galego, autor de Rumores de los pinos, Queixumes dos pinos e A campana de Anllóns. Formado em Medicina pela Universidade de Compostela, sendo uma das figuras cimeiras do Rexurdimento, com Aurelio Aguirre e com Rodríguez Seoane, foi um dos promotores do famoso Banquete de Conjo. Era um profundo conhecedor da literatura portuguesa.




A VIDA FAMILIAR. O CASAMENTO. OS FILHOS

Em 1856, vai viver para Madrid, para casa de uma prima da mãe, Carmen Garcia-Lugin, na Calle de la Ballesta, nº 13. Há quem diga que o motivo desta mudança se deve ao seu desejo de poder entrar no mundo do teatro; outros biógrafos são da opinião que o motivo da viagem é bastante mais prosaico – tratar de uma questão judicial familiar. Começa a publicar textos seus em jornais e revistas. Em 1857, publica em castelhano La flor. No jornal Ibéria sai uma crítica encomiástica ao livrinho da autoria de um jovem, mas já conceituado escritor galego – Manuel Murguía Martínez (1833-1923), um amigo de Aurelio. Rosalía e Murguía virão a conhecer-se pessoalmente em Maio de 1857, na Corunha, durante o funeral de Aguirre que morre com 24 anos. Em 10 de Outubro de 1858, contrariando a vontade de sua mãe, casa, na Igreja de Santo Ildefonso, com Murguía, investigador, cronista e jornalista muito conhecido pelos seus estudos de arqueologia, história e arte (em 1906 virá a ser eleito presidente da Real Academia Galega). Funcionário do Estado – Director do Arquivo Geral da Galiza, é frequentemente transferido e, assim, Rosalía tem uma vida itinerante – em 1859, o casal regressa à Galiza, onde nasce Alejandra, a primeira filha. Em, 1861, estão novamente em Madrid, mudando-se poucos anos após para Lugo. Voltam depois a Madrid, onde, em Dezembro de 1868, nasce Aura. A errância profissional de Murguía, leva-os depois a Simancas, Corunha, Compostela, Lestrobe, Alicante… Vão nascendo mais filhos: Gala e Ovídio, gémeos (em Julho de 1871), Amara, em Julho de 1873, Adriano Honorato Alejandro, em Março de 1875 e falecido em Novembro do ano seguinte devido a uma queda. Em Fevereiro de 1877, nasce Valentina (nado-morta).




A OBRA – DE CANTARES GALLEGOS A FOLLAS NOVAS – O «REXURDIMENTO GALEGO»

Em 1863, por iniciativa do marido, publica-se a primeira grande obra de Rosalía – Cantares Gallegos. Murguía toma a iniciativa da edição sem conhecimento de sua mulher, que só vê o livro quando este sai do prelo. Diz Basílio Losada: «Seu marido, Manuel Murguía era um orientador seguro e, sem dúvida, influenciou de maneira decisiva a obra de sua esposa. Sabemos que foi ele que a encorajou a escrever em galego e que, frequentemente, corrigia os seus textos. Ele próprio, Murguía, arquivista e historiador, era por outro lado um respeitável poeta, bom conhecedor da literatura francesa da sua época, atento a todas as novidades».[1]

Como se sabe, a língua galega estava desde o século XV relegada para a condição de idioma rural. Neologismos castelhanos foram sendo tomados de empréstimo e integrados, a fonética castelhana invadira também a pureza do galego genuíno – o vernáculo foi-se perdendo. Pode mesmo dizer-se que a língua, na sua forma escrita, estava extinta. Os Cantares são pois o sinal mais luminoso do ressurgimento (rexurdimento) da cultura nacional; é considerado o primeiro livro escrito em galego. Nele, em muitos dos seus poemas, Rosalía faz a recolha de cantigas populares tradicionais, denunciando a miséria, a pobreza e a emigração forçada a que estavam obrigados os galegos para poderem sobreviver naqueles difíceis anos do século XIX. Rosalía é, sem sombra de dúvida, a figura cimeira do movimento galeguista. Em Portugal, Antero de Quental e Teófilo Braga não deixam de saudar com entusiasmo a publicação desta obra. No prólogo de Cantares, com assinalável modéstia, diz Rosalía: «Grande atrevemento é, sin duda, pra un probe inxenio como o que me cadrou en sorte, dar á luz un libro cuyas páxinas debían estar cheias de sol, de armonía e de aquela naturalidade que unida a unha fonda ternura, a un arrulo incesante de palabriñas mimosas e sentidas, forman a maior belleza dos nossos cantos populares».

Em 1880, sai a colectânea Follas novas, que pode considerar-se, em parte, como uma sequência dos Cantares gallegos. Cerca de 40% desta nova obra possui uma evidente afinidade com a linha costumista da anterior. O restante reflecte um espírito poético de conteúdo mais profundo, político e metafísico, embora sempre ligado à melancólica nostalgia e às raízes telúricas que caracterizam toda a sua obra. Entretanto, publica em castelhano La flor (1857), reflexo da sua paixão por Aurelio Aguirre. A mi madre (1863), onde chora a morte de sua mãe, e En las orillas del Sar (1884), um livro carregado de um pessimismo acentuado pelas sucessivas tragédias que Rosalía viveu até então, bem como pela doença que os partos numerosos vão agravando. Edita também o romance El caballero de las botas azules (1867), trabalhos que podem ser enquadrados no movimento Romântico que influenciava as artes por aquela época. El primer loco;outro cuento estraño (1881), parece ser um balanço do seu amor adolescente por Aurelio Aguirre.

Para além de um prodigioso talento, a escritora revela também uma cultura apurada e um conhecimento actualizado da evolução literária. Como diz Basílio Losada, «não é correcta a visão de Rosalía como aldeã inculta que só por um milagre de sensibilidade consegue encontrar algumas fórmulas expressivas renovadoras. Rosalía recebera a cultura média de uma rapariga da burguesia provinciana do seu tempo».[2]

[1] - Basílio Losada Castro, prefácio da Antologia de Rosalía de Castro, Barcelona, 1985, pp.19/20.
[2] - Basílio Losada Castro, op. cit. p. 19




PALAVRAS DO SÉCULO XIX ECOAM NO SÉCULO XX – A INTEMPORAL ACTUALIDADE DE ROSALÍA

Érguete, miña amiga,
que xa cantan os galos do dia! (…)[1]

diz Federico García Lorca no seu poema Canzon de Cuna pra Rosalía de Castro, morta (Seis poemas galegos). De notar que o imortal poeta andaluz evoca Rosalía escrevendo em língua galega:

Galicia deitada e queda

transida de tristes herbas.

Herbas que cobren teu leito

E a negra fonte dos teus cabelos.

«Ergue-te, minha amiga» exorta Lorca, associando a coragem e a voz transgressora da escritora galega, à sorte de uma Galiza endemicamente flagelada pela fome e pela miséria – nos anos do século XIX que a Rosalía coube viver, tal como na época do século XX que calhou em sorte a Federico – e em que os odiosos abutres fascistas se preparavam para mergulhar a Espanha em terror e em sangue – a emigração constituía para os galegos a única fuga possível:

Este vaise i aquel vaise,

i todos, todos se van;

Galicia, sin homes quedas

que te poidan traballar.

Tês, en cambio, orfos i orfas

i campos de soledad;

e nais que non teñem fillos

e fillos que non tén pais.

E tês corazós que sufren

Longas ausências mortás.

Viudas de vivos e mortos

Que ninguén consolará.[2]

Neste poema de Follas Novas concentra-se o drama de uma terra que os seus filhos se vêm obrigados a abandonar. Não é por acaso que José Niza, numa época em que a miséria e a guerra colonial levavam centenas de milhares de portugueses para uma dolorosa diáspora, recupera para a sua balada, superiormente interpretada por Adriano Correia de Oliveira, estas palavras que, escritas quase um século antes, assumem uma actualidade impressionante para o Portugal da ditadura. Os emigrantes galegos, espalhados pelo mundo, mas concentrados sobretudo na América do Sul (Argentina, Cuba, Uruguai…), quotizam-se para pagar a construção do monumento que lhe é erigido, no ano de 1917, em Santiago de Compostela. Uma dívida de gratidão paga à mulher que ergueu a sua voz em defesa dos deserdados da fortuna que, para sobreviver, tiveram de abandonar terras e famílias – Érguete, miña amiga!

[1] - Neste seu poema, Federico García Lorca faz alusão a uma composição de Rosalía, de Cantares gallegos, Cantan os galos: «Cantan os galos pra o dia, /érguete meu bem, e vaite/-Cómo me hei dir queridiña/cómo me hei dir e deixarte?».
[2] - Na versão portuguesa deste texto, a que chamou «Cantar de emigração», José Niza diz: «Este parte, aquele parte/e todos, todos se vão. /Galiza, ficas sem homens/ que possam cortar teu pão. /Tens em troca órfãos e orfãs/e campos de solidão/e mães que não têm filhos/filhos que não têm pais. /Corações que tens e sofrem/longas horas mortais/viúvas de vivos-mortos/ que ninguém consolará.» - In O Nosso Amargo Cancioneiro, Porto, 1973.




A MORTE – «ABRE ESSA JANELA, QUE QUERO VER O MAR»

Rosalía irá viver os últimos anos da sua vida em Iria Flavia, Padrón, onde a família aluga a «Casa de la Matanza», hoje transformada em casa-museu. A doença cancerosa no útero mina-lhe implacavelmente o corpo. O médico da terra, o Dr. Roque Membiela, tenta prolongar-lhe a vida, mas é uma guerra perdida (nas dedicatórias dos seus livros que oferece ao clínico e ao amigo, Rosalía escreve sempre - «da sua eterna doente»). Por outro lado, a morte de seu filho mais novo Adriano, em 1876, vítima de acidente, ensombra-lhe esses anos, roubam-lhe a alegria de viver. Em 15 de Junho de 1885, com 48 anos, a escritora morre. Pedira aos filhos que queimem as suas obras. Uma parte delas é, de facto destruída. Dias antes de morrer, fora com eles a Carril com o propósito único de, pela última vez, ver o mar. Já moribunda, diz a sua filha Alejandra: «Abre essa janela, que quero ver o mar».

E morreu serenamente logo após ter proferido estas palavras.




Sobre a inclusão de personalidades galegas em Vidas Lusófonas

Por Carlos Loures

com o apoio de Fernando Correia da Silva



Poderá parecer estranho que, entre estas Vidas Lusófonas surja hoje uma personalidade que, de uma perspectiva meramente formal, não pertence ao mundo da lusofonia – a escritora galega Rosalía de Castro. Talvez, para um maior rigor, tivéssemos de situar esta «incoerência» no campo estrito do Direito Internacional. Integrada no Estado Espanhol, a nação galega não pertence de jure ao espaço da lusofonia que apenas abrange Portugal e algumas das suas ex-colónias onde o idioma português permaneceu como língua oficial. Pese embora os fortes laços de amizade fraterna que nos unem a Angolanos, Brasileiros, Cabo-Verdianos, Guineenses, Moçambicanos, São-Tomenses e Timorenses, os nossos irmãos mais antigos (e os mais próximos também) são os Galegos.

Entre os séculos IX e XV, a língua falada nos territórios da antiga província romana da Galécia, posteriormente dividida em condados e depois em duas nações, era uma variante neolatina – o galego-português (ou galaico-português). A poesia lírica produzida nesta região era escrita neste idioma que não só era utilizado pelos naturais, como, ultrapassando as suas fronteiras, chegava a Leão e Castela – as Cantigas de Santa Maria, obra do rei castelhano Afonso X, o Sábio, foram escritas em galego-português. No século XII ocorre a independência de Portugal relativamente à coroa leonesa. A Galiza gozava também de alguma independência relativamente à gula castelhana que se ia agudizando. Porém, no século XIV, a intervenção galega a favor de Pedro I de Castela contra Henrique Trastâmara, provoca, após a vitória deste último, o exílio de numerosos galegos em Portugal. Posteriormente, ao tomar posição por Joana, a Beltraneja contra Isabel I de Castela, a Galiza viu as suas instituições nacionais desmanteladas e a sua aristocracia novamente perseguida. De perda em perda, assinale-se que em 1601 o país era representado nas Cortes de Castela pela cidade leonesa de Zamora. Em sma: a Galiza deixara de existir.

No século XIX verifica-se um renascer do sentimento patriótico do povo galego. É nessa «revolução» político-literária que se insere a obra de Rosalía de Castro e de outros insignes escritores – talvez seja mesmo mais correcto afirmar que o galeguismo é um produto do esforço desses intelectuais. Entre o século XV e os anos de Oitocentos, o idioma, nomeadamente a sua fonética, fora sendo invadido por castelhanismos. São os chamados «Anos Escuros». Com Rosalía e os seus Cantares Gallegos o farol do amor e do orgulho pátrios reacende-se – é o «Rexurdimento». No século XX, o franquismo (embora Franco fosse galego) suprime todas as veleidades – a língua do Estado é o «espanhol» (deixa de se dizer «castelhano». O galego, passa à categoria de dialecto rural.

A questão que se coloca é se português e galego são duas línguas diferentes ou duas formas dialectais da mesma língua? Os reputados filólogos portugueses Lindley Cintra e Manuel Rodrigues Lapa, são desta última opinião. Na Galiza, as pessoas dividem-se entre «reintegracionistas», que preconizam a reintegração do galego no português-padrão e outra corrente que defende uma via autónoma, ligada à fala popular e distanciada do português de Portugal. Há, pois, sobretudo entre os intelectuais, quem pretenda aplicar o Acordo Ortográfico que vai entrar em vigor nos oito países membros da CPLP. Aliás, às reuniões deste organismo internacional têm assistido, com o estatuto de observadoras, delegações galegas.

Não nos compete a nós tomar a decisão que só os Galegos, que vivem actualmente em Democracia, podem e devem assumir. Aos muitos naturais desta nação irmã que pretendem terminar a deriva encetada há oito séculos no seio do idioma galego-português, só nos cumpre abrir os braços e acolhê-los no nosso site. Personalidades históricas, como Raimundo de Borgonha, Afonso VI da Galiza, o arcebispo Gelmírez, os jograis Abril Perez, Afonso Gomez de Sarria, o clérigo Airas Nunez, e outras mais recentes, como os intelectuais Eduardo Pondal, Manuel Curros Enríquez, López Ferreiro, Castelão, Celso Emilio Ferreiro, etc, etc, serão bem-vindos a Vidas Lusófonas. Preferentemente, com textos escritos por galegos. Damos hoje o exemplo e o sinal de partida com a biografia da grande escritora da nossa língua, Rosalía de Castro.





Nota – No 7º Colóquio Anual da Lusofonia, realizado entre 2 e 5 de Outubro de 2008 em Bragança, foi decidido que a próxima edição deste evento, marcado para Outubro de 2009, também em Bragança, homenageará cinco intelectuais lusófonos – Carolina Michaëlis, Leite de Vasconcelos, Euclides da Cunha, Agostinho da Silva e Rosalía de Castro.