Independência ou morte!

D. Pedro I do Brasil

Imperador e Rei:
1798-01-01 - 1834-01-01



Quando tudo aconteceu...

1798: Filho d’El-Rei D. João VI e de D. Carlota Joaquina, no Palácio de Queluz, bem perto de Lisboa, nasce o futuro D. Pedro I do Brasil que será também D. Pedro IV de Portugal.

1801: Morre Francisco António de Bragança, irmão mais velho de Pedro o qual, em consequência, passa a ser o herdeiro da coroa.

1807: Para escapar à invasão napoleónica comandada por Junot, a Família Real e grande parte da nobreza portuguesa embarcam de Lisboa para o Rio de Janeiro.

1817: Insurreição liberal na região de Lisboa.

1818: D. Pedro de Bragança casa com D. Leopoldina Habsburgo, filha do Imperador da Áustria; a qual dará à luz sete crianças, entre as quais a futura Rainha de Portugal D. Maria II e o futuro Imperador do Brasil D. Pedro II.

1820: Revolta liberal na região do Porto.

1822 a 1829: Escandaloso romance de D. Pedro com a Marquesa de Santos.

1822: A 9 de janeiro D. Pedro garante que fica no Brasil. A 7 de setembro, junto ao riacho Ipiranga, em São Paulo, grita independência ou morte! A 1 de dezembro é coroado Imperador do Brasil.

1824: Em 25 de março é promulgada a Constituição brasileira.

1825: Em 29 de agosto Portugal reconhece a independência do Brasil.

1826: Em 10 de março falece D. João VI. Em 2 de maio D. Pedro IV de Portugal (I do Brasil) abdica a favor da sua filha Maria. Em 11 de dezembro falece D. Leopoldina Habsburgo.

1828: Em 23 de julho D. Miguel proclama-se Rei absoluto de Portugal. No Brasil, em 4 de outubro ocorre a independência da província Cisplatina*.

1829: D. Pedro casa com D. Amélia de Beauharnais, princesa da Baviera.

1831: Em 7 de abril D. Pedro I abdica a favor do seu filho Pedro II, que tem apenas cinco anos. E embarca para Portugal, visando defender os direitos da sua filha Maria.

1831 a 1834: Guerra civil em Portugal, os liberais comandados por D. Pedro derrotam os absolutistas comandados por D. Miguel. 1834: Morte de D. Pedro em 24 de setembro.

1834: 1834: Morte de D. Pedro em 24 de setembro.

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XANGÔ

Sim, estais vendo, negro eu sou mas escravo deixei de ser. Quem me comprou, só para depois me dar a alforria, a liberdade, foi D. Pedro de Bragança, o Libertador, o primeiro Imperador do nosso Brasil. Uma vez, sorrindo, disse-me:

- Xangô, cortei-me, afinal o meu sangue não é azul, é vermelho como o teu...

Foi sempre contra a escravidão, alforria, meu farol! Para viajar recusava instalar-se numa liteira carregada por negros; preferia cavalgar ou conduzir uma carruagem puxada por mulas ou cavalos. Aliás D. Pedro entende muito de equitação. Vejo-o não só a montar mas também a lavar, a arrear, a treinar e até mesmo a ferrar os animais.

O quê, saúde de ferro, a sua? Oxalá fosse verdade... Só que às vezes tomba a espernear, epilepsia. Ao recuperar, volta a forçar o corpo, mãos habilidosas para todo o tipo de trabalho, principalmente carpintaria. O que também o inflama são as artes marciais, em esgrima não há quem o vença.

Em 1818, tinha apenas 19 anos, D. Pedro casou com D. Leopoldina Habsburgo, filha do Imperador da Áustria. Em oito anos ela irá dar-lhe sete filhos, entre os quais D. Maria II (futura rainha de Portugal) e D. Pedro II (futuro imperador do Brasil). O quê? Sim, é claro, o seu casamento foi promovido pela diplomacia, não pelo amor.

O matrimónio não abafa a lascívia de D. Pedro. Quatro anos depois das núpcias torna-se amante de D. Domitília, Marquesa de Santos. Nem sequer liga para o escândalo que não pára de engrossar... D. Domitília dá-lhe quatro filhos, sempre amparados pelo pai como se legítimos fossem eles.

Atormentada, D. Leopoldina falece em 1826. Em 1829 D. Pedro torna a casar, agora com D. Amélia, princesa da Baviera, a diplomacia outra vez a funcionar... Princesa que lhe dará mais uma filha.

D. Pedro é impulsivo mas, ao mesmo tempo, comedido. À noite, nas ruas, quando singra na boémia, se algum Zé Ninguém o aborda, dá-lhe sempre uma resposta afável, preza muito a convivência com gente humilde.

É contra a escravatura, alforria, meu farol! É contra mas sabe que ela ainda é um alicerce da fortuna brasileira. Por isso trava a sua gana de total e imediata abolição.

É também um estudioso. Com professores vários aprendeu catecismo, latim, francês, inglês e alemão. Mas a matéria que mais o encanta é a matemática. Pergunto: como pode ajustar-se uma disciplina tão rigorosa a um temperamento tão exaltado? Mistérios!

Outra das suas paixões é a música, aprendeu a tocar diversos instrumentos, cravo, violino, flauta e outros mais. Até compôs várias melodias, entre as quais a que virá a ser conhecida como o Hino da Independência...

Quem? D. Miguel? É o irmão mais novo de D. Pedro. No Palácio, uma velha camareira disse-me que os dois, apesar dos raspanetes da mãe, D. Carlota Joaquina, andavam sempre em choque, murros, gritos e pontapés, as tais brigas de infância...

O meu nome? O de batismo? Não interessa, sou conhecido apenas pela alcunha de Xangô, o orixá da Justiça, umbanda, candomblé a zumbir apesar do esconjuro da Santa Madre Igreja. Sossegai que, apesar de eu ser Xangô, não disparo trovões e raios, não tenho os poderes do outro, deixai-me rir...

É claro que resido no Palácio da Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, pois sou um dos ajudantes do nosso Imperador, alforria, meu farol! A convivência com tanta gente letrada é que me facilitou a aprendizagem da língua portuguesa...

Sim, a Família Real e grande parte da nobreza lusa arribaram ao Rio de Janeiro em finais de 1807. Vinte navios, se não estou em erro. Vinham fugidos da invasão francesa comandada por Junot, tropas de Napoleão a tentarem conquistar Portugal. Nascido no Palácio de Queluz, perto de Lisboa, D. Pedro tinha apenas 9 anos. Francisco António, o seu irmão mais velho, tinha morrido com apenas 6 anos. Por isso D. Pedro passou a ser o herdeiro da coroa.

Fuga de Lisboa para o Rio... Desastrosa para os portugueses, excelente para os brasileiros. Explico: implantada aqui a Corte, fomentado foi sendo o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Ou seja: começava a esbater-se a nossa condição de colónia.




FICO

Na Europa falharam as investidas de Napoleão Bonaparte. Clero, nobreza e burguesia lusitanas exigem o regresso da Família Real e a reinstalação das Cortes em Lisboa. Em 1821 D. João VI, o Clemente, embarca para a metrópole mas deixa D. Pedro como Príncipe Regente do Brasil. Sim, chamaram Clemente a El-Rei por ter perdoado muitas penas de morte.

Em Lisboa D. João sofre grandes pressões para rebaixar o Brasil outra vez à condição de colónia. Transige e manda uma frota ao Rio de Janeiro buscar D. Pedro. Entretanto este recebe uma petição com mais de 8.000 assinaturas exigindo a sua permanência no Brasil. Documento que fora posto a circular pelo liberais, entre os quais avultava o jurista e matemático José Bonifácio de Andrada e Silva, conhecido defensor da independência do Brasil. D. Pedro lê, folheia as numerosas páginas rubricadas e diz ao mensageiro José Clemente Pereira, presidente da Câmara do Rio:

- Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto: diga ao povo que fico.

Exalta-se e repete:

- Fico, fico!

Isto acontece em 9 de janeiro de 1822, data que será lembrada como o Dia do Fico.




O GRITO DO IPIRANGA

D. Pedro entregou a chefia do Ministério a José Bonifácio. Mas avisou-o que nenhuma ordem vinda de Portugal devia ser executada sem a prévia autorização do Príncipe Regente.

Em fins de março de 1822, com meia dúzia de acompanhantes e sem escolta pessoal, D. Pedro foi a Minas Gerais tentar diluir as reservas do Governo local contra à sua Regência. Audácia que provocou o aplauso de populares e governantes, até mesmo em Vila Rica, capital da província. O seu arrojo dissipou a desconfiança dos mineiros...

Ainda em 1822, nos finais de agosto, por motivo idêntico ao de Minas, D. Pedro desloca-se a São Paulo. Ali, em 7 de setembro, junto ao riacho Ipiranga, um mensageiro, acabado de chegar do Rio, entrega-lhe uma carta de José Bonifácio. Lê-a e fica a saber que as Cortes de Lisboa rebaixavam o Príncipe Regente a mero funcionário e que iriam embarcar um regimento para repor a ordem no Brasil. Furioso, D. Pedro brande a espada e, para todos que o cercam, grita:

- Independência ou morte!

Frase que ficará conhecida como O Grito do Ipiranga. No Rio de Janeiro, para entusiasmo da multidão, em 1 de dezembro de 1822 D. Pedro é coroado Imperador, o primeiro do Brasil. Tem apenas 24 anos. E todo o povo usa o laço que ele desenhara: as palavras Independência ou Morte! estampadas sobre dois tecidos sobrepostos, um verde, outro amarelo. Duas cores a simbolizar a floresta e o ouro, a natureza e a fortuna.




AS PROVÍNCIAS

A independência é rejeitada pelos militares portugueses estacionadas nas províncias de Grão-Pará, Maranhão, Piauí e Bahia. Porém D. Pedro acha que a exemplar união do Rio de Janeiro com Minas Gerais e São Paulo acabará por alastrar, de norte a sul, por todo o Brasil. E não estava errado, jamais chegou o reforço bélico que Lisboa ameaçara mandar. Consequência? Em várias escaramuças, as tropas brasileiras começaram a molestar as portuguesas. Estas afrouxaram, diluíram-se e acabaram sendo absorvidas pelo povo brasileiro, suavidade, fusão.

Ressalva para:a província Cisplatina* no extremo sul do império. Ali viviam populações de origem portuguesa e castelhana. Resistiram, lutaram, venceram e em 4 de outubro de 1828, com o apoio da Argentina, proclamaram a independência da província. Diz-me o nosso Imperador:

- Xangô, o meu prestígio fica abalado, sei disso. Mas não consinto que o Brasil se envolva em guerras com nações vizinhas...

Pergunto: como é que D. Pedro adivinhou que o exército anunciado por Lisboa jamais arribaria à nossa costa? Respondo: acho que não adivinhou, apenas pressentiu. O Imperador bem sabia que a Grã-Bretanha estava interessada em fazer negócios de vulto com o Brasil. O reino bretão tinha que domar o velho aliado Portugal porque, assanhado contra nós, impedia as transações.

Dito e feito: o amansado Portugal acabou por reconhecer a independência do Brasil em 29 de agosto de 1825. E depois de Portugal, a Grã-Bretanha e outras nações europeias fizeram o mesmo. Bravo, D. Pedro, intuição é intuição!





CONSTITUIÇÃO

Em 1823 a Assembleia Constituinte não consegue redigir a Carta Magna, os deputados passam o tempo só a discutir uns com os outros. D. Pedro irrita-se e dissolve a Constituinte. Também desterra seis deputados (entre eles o José Bonifácio) que propunham reduzir o Imperador a um simples adorno de Governo. Desterra-os mas para França, não para Portugal onde poderiam vir a ser fuzilados por defenderem a independência do Brasil. Sim, estou de acordo, às vezes D. Pedro é muito rigoroso, mas frontal, sem perfídia.

Mais tarde o Imperador cria um Conselho de Estado para redigir a Constituição. A qual, finalmente, em 25 de Março de 1824, é promulgada e jurada por D. Pedro na Catedral do Império. Nela ficam garantidos os direitos individuais e os poderes do Imperador.




SAUDADES TENHO...

Em Lisboa, D. João VI falece em 10 de março de 1826. Inquieto, D. Pedro parte para Portugal. Ali, em 26 de abril, é coroado como El-Rei D. Pedro IV, euforia. Uma semana depois, em 2 de maio, abdica a favor da sua filha Maria da Glória que tem apenas 7 anos. D. Miguel aceita ser o tutor da sobrinha para, uns 10 anos mais tarde, poder casar com ela. E eu pergunto: tio com sobrinha na cama não é incesto? Não? Opino sim, por isso aponto!

Enfim, D. Pedro regressa ao Brasil. Tranquilo? Duvido, apenas tolerante, pois bem sabe que o seu irmão uma vez tentara depor o pai. Tolerância, abismo... Em 23 de julho de 1828, apesar do protesto dos liberais, D. Miguel destrona a Maria de 9 anos e proclama- se Rei absoluto de Portugal. Afrontado, D. Pedro irá tornar à terra natal, obviamente.

A 7 de abril de 1831 abdica a favor do seu filho Pedro II, que tem apenas 5 anos. Abdica e trata de embarcar para o arquipélago dos Açores. Açafatas e preceptores ficam a tomar conta do garoto que, aos 14 anos, será declarado maior de idade e coroado Imperador do Brasil.

Nunca mais tornei a ver D. Pedro, o Rei-Soldado. Mas dele foram-me chegando notícias: Ainda em 1831 arribou às ilhas onde, a partir de Angra, mobilizou numeroso exército de liberais. Rumaram depois para o continente, desembarcaram no Mindelo, praia perto do Porto, cidade onde, em 1820, eclodira uma revolta liberal. Em 1817, na região de Lisboa, também houvera idêntica insurreição. Mas vamos ao que interessa: os miguelistas cercaram as forças de D. Pedro, brigas de infância a serem convertidas em guerra civil: espartilhar ou liberar poderes, Miguel ou Pedro?

Fileiras engrossadas de um lado e outro, de norte a sul absolutistas contra liberais, cerca de 3 anos de mortandade. Por fim os liberais, comandados pelo Duque da Terceira, em 24 de julho de 1833 ocuparam Lisboa. E em 26 de maio de 1834, em Évora Monte, D. Miguel, o Usurpador, assinou a rendição e partiu para o exílio na Alemanha.

D. Pedro repôs no trono a sua filha D. Maria II que já tinha 15 anos, o tempo passa... Regozijo popular com a vitória dos liberais, porém a tosse a varar D. Pedro. Quebranto, escarros de sangue, tuberculose a galopar. Recolheu-se ao Palácio de Queluz. Apagou-se em 24 de setembro de 1834. No mesmo quarto, na mesma cama onde, há 35 anos, fora dado à luz.

Saudades tenho do nosso Imperador.



* Cisplatina foi o nome do atual Uruguai.