O saber contra a ignorância, a saúde contra a doença, a vida contra a morte...

osvaldo cruz

Médico, cientista:
1872-01-01 - 1917-01-01



Quando tudo aconteceu...

1872: Nasce Osvaldo Gonçalves Cruz em São Luís do Paraitinga, serra da Mantiqueira, vale do Paraíba, Estado de São Paulo, Brasil. - 1877: A família Gonçalves Cruz muda-se para o Rio de Janeiro - 1887: Osvaldo entra na Faculdade de Medicina. - 1891: Estudante ainda, publica dois trabalhos sobre microbiologia. - 1892: Com 20 anos, forma-se em Medicina. - 1893: Casa com Emília da Fonseca. - 1896: Vai estudar em França. - 1897: É admitido no Instituto Pasteur. - 1899: Regressa ao Brasil. - 1900: Assume a direcção técnica do Instituto de Manguinhos (Instituto Soroterápico Nacional). - 1903: Toma posse como director da Saúde Pública; sem contemplações, políticas ou outras, forma e assume a liderança da equipa sanitária que irá erradicar as doenças que dizimam a população brasileira: febre amarela, varíola e peste bubónica. - 1907: Em Berlim, obtém o 1.º Prémio do XV Congresso Internacional de Higiene e Demografia. - 1912: Comanda o saneamento do vale amazónico. - 1916: Exausto, retira-se para Petrópolis. - 1917: Com apenas 45 anos, morre Osvaldo Cruz.

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AMIGO EXAUSTO

Petrópolis, Fevereiro de 1917 - Lá em baixo, no Rio de Janeiro, o tempo está muito abafado. Aqui, no alto da serra, a temperatura é amena. Ainda bem. Estou sentado à cabeceira do meu amigo exausto. Ele sorri e pergunta:

- Portuga, Você lembra de Mamãe me sacando da Escola?

Balançando a cabeça, sorrio também. Mas levo o indicador aos lábios, ele não pode falar, não deve cansar-se. É claro que me lembro de tudo. Desde o grupo escolar que somos amigos íntimos. Olhar para ele é recordar toda a sua vida. Parece-me que estou a ouvi-lo.




FAZER A CAMA...

Disse, digo, direi sempre:

O saber contra a ignorância, a saúde contra a doença, a vida contra a morte... Mil reflexos da Batalha Permanente em que estamos todos envolvidos...

Osvaldo Cruz é o meu nome. Desde menino fui treinado para combatente. Filho de D. Amélia Bulhões (nome de solteira) e do médico Dr. Bento Gonçalves Cruz, nasci em 1872 em São Luís do Paraitinga, ali no Vale do Paraíba, serra da Mantiqueira, Estado de São Paulo.

Tenho uma irmã, Amália, a quem todos chamam Sinhazinha. Também eu a chamo assim porque ela é mesmo uma senhorinha. Tive outra irmã, Eugênia, que morreu na primeira infância, coitadinha.

Com Papai aprendo e dele apreendo a tenacidade, a dedicação aos doentes, a força de caracter. Mamãe ensina-me a disciplina, a autodisciplina e também as primeiras letras. Aos cinco anos já sei ler e escrever. Mas empurram-me para a Escola, meus pais acham que é imprescindível a convivência com outros garotos.

A propósito de Escola: um dia Mamãe bate à porta da sala de aula, entra, pede desculpa à professora por levar o filho para casa, porém há um assunto inadiável a resolver. Ficam todos preocupados, alunos e professora, o que é, o que não é? Saberão depois: eu saíra de casa antes de fazer a cama e isso Mamãe não pode admitir. Quem está do lado da saúde e do saber, desleixo não pode ter... Mamãe foi sempre uma deliciosa durona, saudades que eu tenho dela...




OS MICRO ASSASSINOS

A minha família muda-se para o Rio de Janeiro em 1877. Ali Mamãe, em anos sucessivos, irá dar à luz mais três filhas: Alice, Hortênsia e Noemi. Mais três meninas que irão adorar-me...

Papai é agora médico na fábrica Corcovado e na Junta Central de Higiene. E eu entro na Faculdade de Medicina em 1887, tenho apenas 15 anos. No primeiro dia de aulas vejo que Mamãe sorri, tal pai tal filho, o saber contra a ignorância, a doença contra a saúde, a vida contra a morte.

Emília é filha do Comendador José Maria da Fonseca. Foi minha namoradinha de infância. Continua tendo uma queda por mim e eu por ela. Numa tarde de Dezembro de 1891, calor infernal, avista-me na praia do Flamengo, eu absorto, mirando o mar, mirando o longe. Pega no meu braço, sacode a minha cisma.

- Olá Emília, menina bonita, Você aí?

Vontade minha é abraçá-la e beijá-la, mas há que manter o decoro. Além do mais vem acompanhada pela mãe, não é de bom tom uma donzela andar sozinha pelas ruas do Rio. Respeitosamente cumprimento a senhora e começo a conversar com a filha. Puxo um assunto que me consome:

- Emília, Você não acha que em 1808, ao decretar a abertura dos nossos portos a toda a navegação, D. João VI estava promovendo o desenvolvimento do Brasil?

- Osvaldo, isso toda a gente sabe, aprendemos na Escola...

- Mas a febre amarela, vómito negro, está sabotando a intenção régia. Hoje, raros são os navios estrangeiros que demandam os portos brasileiros.

- É natural... Ninguém quer morrer de peste.

- É isso aí... O Brasil é um vasto hospital, é o que se diz em todo o mundo.

Mando parar uma caleche, convido e arrasto mãe e filha até minha casa. Mamãe e Sinhazinha recebem as duas com beijinhos e abraços. Antes da conversa descambar em frivolidades, puxo Emília para o meu laboratório. Ainda não acabei o curso de Medicina mas já publiquei dois livros. Trato de mostrá-los a Emília: Um caso de bócio exoftálmico em indivíduo do sexo masculino e Um micróbio das águas putrefactas encontrado nas águas do Rio de Janeiro. Também lhe mostro um microscópio, um instrumento para focar micróbios. Convido-a a espreitar e ela espreita. Vê umas coisinhas a mexer, assusta-se. São micróbios, porém inofensivos. Conto-lhe que os outros, os patogénicos, são aos milhões a cercar a Humanidade.

- Patogénicos? É assim que Você chama os micro-assassinos?

Diverte-me a terminologia inventada por Emília. Digo-lhe que a minha ambição, no Brasil, é combater e liquidar os micro-assassinos da varíola, tal como Pasteur, em França, liquidou os do carbúnculo e da raiva. Tento explicar-lhe o que é vacina. Não entende. Mas tem que entender, é só encontrar a imagem incisiva:

- Emília: um incêndio, numa floresta, pode ser combatido com o fogo. Você sabe disso, não sabe?

- Sim, sei, se o vento estiver de feição.

- Então saiba que uma doença pode ser combatida com produtos segregados pelas bactérias da própria doença. A isso é que se chama vacina e, com o nosso saber e o nossos querer, somos nós que sopramos o tal vento de feição. Depois é só vacinar todo o povo para erradicar a doença.

Vacinar todo o povo? Emília duvida, abana a cabeça, cepticismo: no Brasil o povo só acredita no que vê e os micro-assassinos não têm corpo visível...

A intuição feminina acertando na mouche, reconhecerei mais tarde...




A FRAGATA LOMBARDIA

No ano seguinte (1892) concluo o curso de Medicina, tenho apenas 20 anos. A minha tese “A água como veículo dos micróbios” é louvada pelos mestres e aprovada com distinção.

Em 1893 caso com a Emília da Fonseca.

Em 1895 a fragata italiana Lombardia fundeia na baía da Guanabara. Os marinheiros descem a terra, 340. Em alguns dias de passeio pela ruas do Rio, 240 apanham a febre amarela. Destes, morrem 144, inclusive o comandante.

O Brasil é um vasto hospital, repete-se em todo o mundo... Mais uma vitória da doença contra a saúde, e eu continuo sem saber como entrar na luta. Quais são e onde estão as minhas armas?




NO INSTITUTO PASTEUR

Perde-se uma batalha mas nem por isso acaba a guerra. Aspiro especializar-me em microbiologia. Emília carpindo mas em 1896 parto para França. O meu sogro é um homem rico, dinheiro não faltará para a viagem e a minha estadia na Europa...

Em Paris começo a trabalhar com Ollier e Vilbert, medicina legal. Mas a minha verdadeira paixão é a microbiologia. Em 1897 consigo ser admitido no Instituto Pasteur, dirigido pelo Dr. Émile Roux, descobridor do soro anti-diftérico. Ele e o Dr. Ellie Metchnikoff serão os meus principais orientadores.

Em laboratório, mil e uma experiências de combate aos micro-assassinos e, passado um ano, um admirando e respeitando o outro, súbita amizade entre mim e o Dr. Roux. Enveredo pela toxicologia. Polémica com Hater, sábio alemão, a propósito das qualidades venenosas do rícino. Minha tese é a correcta, demonstro. O Dr. Roux dá-me um grande abraço.




REFLEXOS (LITERÁRIO E POLÍTICO)

Releio os versos que um dia escrevi nas costas de uma fotografia de Emília:

Tu és minha, eu sou teu,
E ficarás para sempre
Dentro do meu coração.

Releio, sorrio, pergunto: como foi possível eu escrever uma coisa tão insonsa? Até nas Letras se reflecte a Batalha Permanente. Cativa-me a inovação contra a vulgaridade. De Paris envio uma carta a Emília. Opino que As Flores do Mal alçaram Baudelaire à posição de príncipe dos poetas. Vai ficar surpreendida pois acha que eu só penso em micro-assassinos. Foram eles que me arrastaram do Rio a Paris. Foram eles que, depois de três anos de casados, me roubaram ao seu convívio. Parece-me que estou a ouvi-la: Agora o cientista está interessado em Literatura? Mas que absurdo!

Mas se uma carta surpreende Emília, outra vai deixá-la atordoada: eu, o Dr. Roux e todos os cientistas e técnicos do Instituto Pasteur manifestam-se, publica e indignadamente, contra a conspiração anti-semita que levou o Governo francês a prender e o Tribunal a condenar como espião o capitão Dreyfus, só por ele ser de origem judaica. O pessoal do Instituto Pasteur desce do pedestal da Ciência para juntar as suas vozes ao protesto cívico de Anatole France e Émile Zola. A justiça contra a iniquidade, mais um dos reflexos da Batalha Permanente... Ao ler a carta dirá Emília: O cientista mordido pelo bichinho da Política? Só me faltava essa... Absurdo, absurdo, absurdo!...




PESTE BUBÓNICA

O Dr. Roux convida-me a ficar no Instituto Pasteur, insiste. Agradeço o convite mas o Brasil precisa de mim, o meu país não pode estar condenado a ser, para sempre, um vasto hospital.

Regresso em 1899. Durante a travessia do Atlântico evito o convívio com os outros passageiros, não suporto a ignorância endinheirada.

Desço no Rio. Mal acabo de abraçar e beijar Emília quando me dão a notícia: no porto de Santos deflagrara epidemia de peste bubónica.

O Instituto de Higiene encarrega-me de avaliar a extensão do mal.

Viajo para Santos. Investigo e concluo que um navio, oriundo do Oriente Médio, desembarcara talvez passageiros, de certeza ratos contaminados. Consequência: a peste alastrara pela cidade. Centenas de vítimas agonizam pelas ruas. Outras tentam fugir para o interior, espalhando o mal. E se o mesmo navio tocou no Rio de Janeiro, ou um doente para lá fugiu, a peste eclodirá na capital. Já não nos bastava a febre amarela? Agora também a peste bubónica, a que muitos chamam de peste negra?

É urgente dispor do soro para combater o flagelo. Mas importá-lo pode implicar demora fatal. Melhor será produzi-lo aqui. É decidido que na fazenda de Manguinhos, nos arredores do Rio, seja instalado o Instituto Soroterápico Nacional. “Não há no país um técnico competente para dirigi-lo”, é o que dizem os governantes. São incapazes de avaliar a capacidade de um Adolfo Lutz, de um Vital Brazil, de um Emílio Ribas, de um Carlos Chagas (este acabará por trabalhar comigo em Manguinhos). Somos cinco investigadores; sabemos que as doenças tropicais, contrariamente ao que se apregoa, não derivam nem da maresia, nem do clima quente e húmido, mas de micróbios patogénicos transmitidos por alguns animais, tais como insectos e ratos. Porém a ignorância está no poleiro e os governantes escrevem ao Dr. Roux, do Instituto Pasteur. Pedem-lhe que indique e ceda um dos seus colaboradores para comandar o projecto. O Dr. Roux responde (humor gaulês) que um dos seus técnicos mais qualificados vive no Rio de Janeiro, chama-se Osvaldo Cruz... Nós, brasileiros, somos assim: o que temos em casa não presta, só o que está lá fora é que é bom... Creio que herdámos esta pecha dos portugueses (e que eles me desculpem por esta observação...).

Convidam-me, aceito e em Julho de 1900 eis-me à frente do Instituto de Manguinhos, um pardieiro com um nome pomposo. A mesa de reuniões é uma porta velha assente sobre barricas e as cadeiras são caixotes...

Tenho que formar e disciplinar equipa. Lembro-me de estar a autopsiar uma cobaia quando irrompe um fogo numa das dependências de Manguinhos. Figueiredo de Vasconcelos, o meu assistente, começa a correr para ir apagar o fogo. Peço-lhe:

- Por favor, o que nós começámos, nós vamos acabar. Já está lá muita gente para apagar o fogo...

Pouco tempo depois a minha equipa consegue produzir o soro que é logo enviado para Santos. E, a partir de São Paulo, Adolfo Lutz faz o mesmo. Resultado: baixa drasticamente a mortalidade provocada pela peste.

No Rio de Janeiro, como eu previra, a peste também acabou por eclodir. Nos bairros populares ponho vários “homens da corneta” a comprar ratos mortos a 300 réis a cabeça. O povo acha graça e assim vinga, na cidade, a caça ao rato. Vinga também uma modinha divertida, “rato, rato, rato, por que motivo roeste o meu baú?” No Rio de Janeiro a aplicação do soro e a caça ao rato liquidam a peste em três meses.

Figueiredo de Vasconcelos, a quem eu, metaforicamente, puxara as orelhas, dirá de mim:

- Foram as suas qualidades morais que o fizeram vencer! Só uma envergadura especial como a sua poderia dar cabo da tarefa em tais condições. Tudo teve de fazer, desde o preparo do material à parte técnica, dando-nos um exemplo admirável de tenacidade e esforço. Foi a sua energia manifestada entre sorrisos, foi a sua exigência pedindo habilmente por favor, foram as suas qualidades de trabalhador infatigável, que fizeram dele o triunfador inesquecível. Não mandava apenas; trabalhava, ultrapassando a todos e a tudo com seu grande amor à ciência.




DE PARDIEIRO A PALÁCIO

Num pardieiro é que se produzem os medicamentos que irão defender a saúde dos brasileiros? Não aparo o descalabro, os governantes estão equivocados a meu respeito...

Sobraram verbas da Saúde Pública. É quanto basta para que, em Manguinhos, eu mande construir um edifício que realmente mereça o nome de Instituto Soroterápico Nacional, quatro andares e dois torreões. Exteriormente, o meu Instituto é um palácio em estilo mourisco, trago de França o gosto pela art nouveau. Mas lá dentro há tudo o que é indispensável para a pesquisa científica: relógio eléctrico central que transmite a mesmo hora para todas as dependências, balanças de precisão, aquecimento para as estufas de secagem de vidros, aparelhos para registarem a temperatura de cada estufa, água destilada por correntes de ar comprimido, etc., etc.

As obras provocam comentários soezes na imprensa e interpelações corrosivas no Parlamento. O Ministro da Justiça tenta suspender as obras.

- Senhor Ministro, um Instituto Soroterápico tem que ter instalações apropriadas, dignas. Estou decidido a levantar o edifício. Se quer bloquear as obras, dispense os meus serviços.

Não dispensa.




O CZAR DOS MOSQUITOS AO ATAQUE

Em 15 de Novembro de 1902 Rodrigues Alves é eleito Presidente da República. Em Dezembro toma posse. Promove a revolução urbana do Rio de Janeiro. Rasga grandes avenidas no litoral (zona sul) e no interior (zona norte) e, ao mesmo tempo, trata de alargar as ruas do centro da cidade. Chácaras e fazendas são desapropriadas e cortadas por vias públicas. Casas velhas, tugúrios e quiosques imundos são demolidos. Interesses privados são assim atingidos e começa a levantar-se um coro de protestos. É quando Rodrigues Alves declara que vai acabar com as doenças que fazem a desgraça e a vergonha do Brasil: febre amarela, peste bubónica e varíola. Convoca-me e vou à sua presença. Digo-lhe que se me der os meios necessários, em 3 anos acabarei com a febre amarela e mais tarde atacarei as outras doenças. Pouco depois entrego-lhe o rol dos referidos meios. Num dia o Presidente nomeia-me Director da Saúde Pública, mas no dia seguinte eu peço a demissão porque nomeara para secretário do meu projecto, não quem eu indicara, mas um figurão da sua confiança. Fica abismado com a minha atitude mas recua, despede o figurão, nomeia quem eu indico. A 26 de Março de 1903 tomo posse.

Primeiro inimigo a abater: a febre amarela, com o seu vómito negro e mortal. Tenho portanto que liquidar o stegomia fasciata, o mosquito raiado que, ao picar os homens, neles inocula o gérmen da doença. E isso só se consegue eliminando as águas estagnadas onde proliferam as larvas e as ninfas dos mosquitos raiados. Pedi ao Presidente um contigente de 1200 homens mas o Congresso, com as suas burocracias, tarda em aprovar o meu pedido. Então resolvo que uma brigada de 85 homens, chefiados pelo meu amigo Dr. Carneiro de Mendonça, saia em campo. Os meus fiscais sanitários batem quintais e jardins. Na ânsia de desinfectar invadem pátios e porões, trepam aos telhados, saturam com petróleo as águas estagnadas, poças e charcos. No início, os cariocas divertem-se e troçam dos mata-mosquitos. O Dr. Carneiro de Mendonça passa a ser o mosquiteiro-mor e eu ganho a alcunha de czar dos mosquitos. Mas depois a população do Rio, tocada pela imprensa (prosa satírica e caricaturas) e pela Oposição a Rodrigues Alves, irrita-se, hostiliza, apela para a violência. Para impedir a inspecção domiciliar dos meus agentes, os proprietários impetram habeas-corpus. A Justiça começa por lhes dar razão e eu entro na briga. Em Tribunal alego que, se numa rua, uma casa ficar por desinfectar, em breve a febre amarela tomará conta dos seus habitantes que irão infectar os vizinhos e isso é quanto basta para regressarmos aos cem óbitos diários de antigamente. O Supremo Tribunal recua, o habeas-corpus não pode ser aplicado nestes casos. E eu trato de acelerar o saneamento da cidade. Rodrigues Alves pede-me que eu não seja tão rígido. Não cedo e coloco o meu cargo à sua disposição. O Presidente mantém-me no posto. Chega mesmo a dizer para um amigo comum:

- É impossível que esse moço não tenha razão.

No primeiro semestre de 1903, no Rio de Janeiro ocorreram 469 óbitos por febre amarela. Já no primeiro semestre de 1904 apenas 39. E em 1906 dou por extinta a epidemia de febre amarela. Cumpri o prometido: 3 anos para acabar com a peste!




ABAIXO A VACINA OBRIGATÓRIA!

Mas a ignorância não desarma e a guerra continua. Se a febre amarela atacava no Verão, a varíola ataca no Inverno. É doença trazida para o Rio por imigrantes estrangeiros e retirantes de outros Estados do Brasil. Armas para combatê-la são as vacinas e essas já as mandei produzir, em grande quantidade, no Instituto de Manguinhos. Todas as entradas no Rio passarão a ter postos de vacinação.

Nos finais de 1903 e princípios de 1904, na capital recrudesce a epidemia de varíola. Insisto com a Comissão de Saúde Pública da Câmara para que edite lei que obrigue toda a população a vacinar-se. A lei tarda a ser publicada mas eu avanço: em Maio de 1904 vacino mais de 8 mil pessoas, em Junho mais de 18 mil e em Julho mais de 23 mil. É quanto basta para que a imprensa e a Oposição a Rodrigues Alves tornem a espicaçar a opinião pública contra mim: atentado contra a liberdade individual, contra o pudor da mulher brasileira que será obrigada a mostrar a coxa para ser vacinada, abaixo a tirania, abaixo a vacina obrigatória!

Respondo: “Quem não quer vacinar-se poderá ser infectado. E, ao sê-lo, transmitirá a doença a quem não deseja ser doente. Se colidir com o bem comum, aí sim! a liberdade individual converte-se em tirania.”

Mas a imprensa não publica a minha argumentação. E quando, em Outubro de 1904, finalmente é publicada e entra em vigor a lei da obrigatoriedade da vacina, essa é a gota de água que faz transbordar a antipatia popular contra Rodrigues Alves, o qual não conseguira nem deter a carestia da vida, nem promover a oferta de empregos. Há tumultos, greves e motins. A multidão enfurecida ataca a minha casa mas eu, com a minha família, consigo escapar pelos fundos. Por influência do Apostolado Positivista também ocorre a insurreição da Escola Militar, tiroteio em vários bairros, cartuchos de dinamite explodindo pelas ruas. Teme-se a queda do Governo. O Presidente entra em negociações, apazigua os ânimos, concilia. Mas paga um preço: revogação da obrigatoriedade da vacina. Mais uma vitória da ignorância contra o saber...




CONSAGRAÇÃO

A pedido do Governo, em 1905 desloco-me aos portos do Norte para treinar as equipas sanitárias a lidar com a peste bubónica, a febre amarela e a varíola. Pelos mesmo motivos, em 1906 desloco-me aos portos do Sul.

Em 1907, em Berlim, no XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia, faço uma exposição das actividades do Instituto Manguinhos e da nossa luta para debelar as pestes. Dão-me o primeiro prémio, medalha de ouro.

Ainda em 1907 sofro a primeira crise de insuficiência renal. No mesmo ano ingresso na Academia de Medicina do Brasil. Mas a ocorrência mais importante de 1907 é a esquadra americana singrando em direcção ao Cabo Horn. Pretende contornar a América do Sul para alcançar o Pacífico. A meio caminho da costa atlântica demanda e fundeia, por uns dias, na baía da Guanabara. Antes, o Embaixador americano perguntara-me se havia o perigo de acontecer aos marinheiros americanos o mesmo que sucedera em 1895 aos marinheiro da Lombardia. E eu garanti ao Embaixador que ficasse tranquilo, pois a febre amarela fora inteiramente debelada no Rio de Janeiro. Chega a esquadra, desembarca cerca de 18 mil marinheiros que passeiam pelas ruas, praias, morros e montanhas da cidade que será talvez a mais bonita do mundo, e nenhum deles adoece. Todos recordam o que aconteceu aos marinheiros italianos. E todos comparam o ontem com o hoje. Este acontecimento vai com certeza contribuir para a extinção do labéu internacional Brasil-vasto-hospital. Finalmente vingará, como queria D. João VI, a abertura dos portos brasileiros a toda a navegação...

Mas em 1908 outra vez a varíola irrompe no Rio de Janeiro. Interrompida que fora a vacinação, era inevitável que tal viesse a acontecer! Mas os tempos agitados de Rodrigues Alves já se foram, agora o Presidente é o tranquilo Afonso Pena. As classes cultas já aceitam facilmente a vacina. Os populares resistem mas, com o passar do tempo, verificam que só morre de varíola quem não foi vacinado. E isso basta para, mesmo sem obrigatoriedade, começarem a aderir à causa da vacina.

Ainda em 1908 o Presidente Afonso Pena crisma o Instituto de Manguinhos com o nome Instituto Osvaldo Cruz. Foi grande gentileza, a sua...

Em 1909, exausto, renuncio à direcção da Saúde Pública e passo a dedicar-me, a tempo inteiro, a Manguinhos. Mas em 1910 sou convidado para investigar as condições sanitárias em que se trabalha na construção da via férrea Madeira-Mamoré. E sigo para o Amazonas, nada me consegue afastar da Batalha Permanente. Verifico que trabalhadores e populações vizinhas sofrem crises de malária. Receito doses maciças de quinino, de acordo com as pesquisas de Artur Neiva e Carlos Chagas. Em seguida marcho para Belém do Pará. Ali, mais uma vez irei enfrentar a febre amarela. Uso os métodos que já aplicara no Rio. Mas com uma diferença: a população paraense, ao contrário da carioca, recebe com afabilidade os agentes sanitários e colabora activamente na guerra contra os mosquitos raiados.

Em 1911 a Exposição Internacional de Higiene (Dresden, Alemanha) confere um diploma de honra ao Instituto Osvaldo Cruz.

Com a colaboração de Carlos Chagas, em 1912 comando o saneamento do vale amazónico. No mesmo ano sou eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Em 1914 a França que, nas suas colónias de África beneficiara das minhas descobertas, concede-me a Legião de Honra, a mais alta distinção republicana.




PETRÓPOLIS

As minhas crises renais são cada vez mais frequentes. Também meu coração e meus olhos começam a falhar. Exausto, em 1916 sou forçado a suspender todo o meu trabalho e retiro-me para Petrópolis. Talvez me revigore o clima ameno do alto da serra.

Dedico-me à floricultura. O meu filho convence-me que eu não tenho temperamento para cuidar apenas de jardinagem. O moço terá razão.

Acaba de ser criada a Prefeitura de Petrópolis e eu candidato-me a Prefeito. Ganho as eleições. Tomo posse e, como sempre fiz na vida, corto a direito, primeiro que tudo o bem comum. As consequências são as do costume: interesses privados contrariados, clamor contra mim. Esgotado, não consigo prosseguir nesta guerra que nem sequer é do meu foro. Renuncio ao cargo.




TESTAMENTO

Petrópolis, 11 de Fevereiro de 1917 - De manhã entrou em coma. Às 9 da noite morre o meu amigo Osvaldo Cruz. O homem que saneou o Brasil, o vencedor de pestes e maleitas tinha apenas 45 anos. Gastou-se a defender a saúde dos seus compatriotas. Estes nem sempre o compreenderam, frequentemente o hostilizaram. Gastaram-no.

No seu testamento Osvaldo pede:

- Evite a minha família a cena penosa de vestir meu corpo, bastará envolvê-lo num lençol.

- Também não faça convites para o meu funeral, nem quero missa do sétimo dia.

- A minha família não deve vestir-se de preto, o luto está nos corações, nunca nas roupas. Além do mais, no nosso clima, roupas pretas são anti-higiénicas.

- A morte é fenómeno fisiológico naturalíssimo, ao qual nada escapa. A minha família não deve prolongar a amargura pela minha ausência, é preciso que nos conformemos com os ditames da natureza. Que passeiem, que se divirtam, que procurem diversões, teatros, festas, viagens, que ajudem o tempo na benfazeja obra de fazer esquecer.

Era assim, o meu amigo Osvaldo Cruz.