A região, a emoção e o mundo de Zé Lins

José Lins Do Rego

Escritor:
1901 - 1957



Quando tudo aconteceu...

1901: JOSÉ LINS DO REGO Cavalcanti nasce em Pilar, Paraíba, Brasil. 1915: Conclui o curso secundário em Recife. 1922: Conhece Gilberto Freyre, autor de Casa Grande & Senzala, que muito o influenciará. 1924: Forma-se bacharel em Direito. 1925: Casa com Filomena Masa, que lhe dará três filhas. 1932: Publica Menino do Engenho.. 1934: Publica Banguê. 1935: É torcedor fanático do Flamengo pelo resto da vida. 1936-37: Luta na ditadura Vargas para tirar Graciliano Ramos da cadeia....1942: Publica Fogo Morto. 1947: Publica Eurídice. 1949: Exibe faca afiada na cintura, durante a posse de Afonso Arinos, contestado pelos comunistas, na presidência da Associação Brasileira de Escritores.. 1955: Em discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, diz que seu antecessor, ministro do Supremo Tribunal Federal, não foi juiz sábio e jamais gostou de um poema. 1957: Morre no Rio de Janeiro.

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Capaz de tudo, se lhe pisam os calos

"Tenho 46 anos, moreno, cabelos pretos com meia dúzia de fios brancos, um metro e 74 centímetros, casado, com três filhas e um genro, 86 quilos bem pesados, muita saúde e muito medo de morrer.

Não gosto de trabalhar, não fumo, durmo com muitos sonos e já escrevi 11 romances. Se chove, tenho saudades do sol; se faz calor, tenho saudades da chuva.
Temo os poderes de Deus, e fui devoto de Nossa Senhora da Conceição. Enfim, literato da cabeça aos pés, amigo dos meus amigos e capaz de tudo se me pisarem nos calos. Perco então a cabeça e fico ridículo. Afinal de contas, sou um homem como os outros e Deus permita que assim continue."

Quem se exprime desse modo, em dezembro de 1947, é o pletórico José Lins do Rego, romancista, cronista e principalmente memorialista brasileiro, um dos pilares do neo-realismo regionalista, do ciclo que se inicia em 1928 com A Bagaceira, de José Américo de Almeida, e avança em 1930 com o romance O Quinze, de Rachel de Queiroz.

Além da paixão pela literatura, que já se manifestava nos verdes anos e o contagiou quando estudante secundário em Recife, Pernambuco, na leitura de O Ateneu (Raul Pompeia) e Dom Casmurro (Machado de Assis), Zé Lins, ou Zélins, como era popularmente chamado, teve outra paixão: o futebol. Torcedor doente do Flamengo, daqueles que discutem e esbravejam em mesa de bar, e nos estádios soltam o berro, ele ocupou cargos no clube que tem a maior torcida no Brasil, juntamente com o Corinthians, e foi vários anos secretário geral da antiga Confederação Brasileira de Desportos.

Não resistiu o José Lins a falar de futebol num de seus romances desligados da temática nordestina: Água-Mãe, ambientado na região fluminense dos lagos, de onde um personagem bom de bola chega à seleção brasileira e estreia contra o sempre temido Uruguai, num jogo da outrora Copa Rio Branco.

O escritor chefiou em 1953 a delegação do Brasil a um desastroso (para nós) Sul-Americano de Futebol — em Lima, Peru, e no relatório traçou o perfil psicológico dos atletas, em parte desabonador. Porque esse José Lins era mesmo arrebatado: com ele era tudo ou nada. Era “a pátria de chuteiras”, para usar uma expressão de Nélson Rodrigues.

Mas era igualmente de matar e esfolar pela literatura. Em 1949, na posse de Afonso Arinos como presidente eleito da Associação Brasileira de Escritores, no Rio de Janeiro, foi visto de peixeira (facção curto, muito cortante, comum no Nordeste) à mostra, contra a tropa de choque do PCB (Partido Comunista Brasileiro) que tumultuava a cerimônia.




De menino de engenho a romancista laureado

1901 – Nasce José Lins do Rego Cavalcanti a 3 de julho, no Engenho Corredor, município do Pilar, Paraíba, filho de João do Rego Cavalcanti e Amélia Lins Cavalcanti. Cedo órfão de mãe, e com o desaparecimento do pai, é recolhido ao engenho do avô, que lhe servirá de modelo para o patriarca em declínio José (Zé) Paulino, dos romances Fogo Morto, Banguê e outros, no por ele denominado Ciclo da Cana-de-Açúcar. A infância folgazã, como autêntico menino arteiro da bagaceira (monturo de bagaço de cana passada pela moenda, do qual sobe um odor azedo), será rememorada em Meus Verdes Anos, memórias, de 1956.

1912 — Faz estudos secundários na capital João Pessoa (antiga Paraíba), depois de passar, dos 8 aos 11 anos, pelo Internato Nossa Senhora da Conceição e Colégio de Itabaiana. Publica o primeiro artigo em jornal.

1915 — Vai estudar em Recife, para conclui o curso secundário.

1919 — Entra na Faculdade de Direito de Recife.

1920 — Assina coluna literária no Diário do Estado da Paraíba.

1922 — Funda o semanário Dom Casmurro. Trava amizade com José Américo de Almeida, Aníbal Fernandes, Luiz Delgado, Osório Borba, Gilberto Freyre (que voltara de estudos universitários nos Estados Unidos).

1924 — Forma-se bacharel em Direito Pesou-lhe, e muito, nos rumos e substância da futura obra literária, esse convívio com o autor de Casa-Grande & Senzala, notável ensaio de largo fôlego sobre a formação da sociedade patriarcal nordestina assentada no cultivo da cana e produção açucareira, graças ao labor do escravo negro que, depois emancipado, permaneceria vassalo dos antigos senhores brancos. Com o Manifesto Regionalista, de 1926, Gilberto Freyre, o solitário mestre de Apicucos, propunha uma arte focada em questões específicas dessa sociedade caldeada por senhores e escravos. Outro propugnador da regionalidade, Franklin Távora, em prefácio ao romance O Cabeleira (1876) propôs um ficcionismo provincial e, com uma dose de radicalismo que não falta aos pioneiros, chama a nova veia de “literatura do Norte”, como se pudessem coexistir num país de língua única, apesar das etnias várias, diferentes expressões literárias. “As regiões”, como bem observou Afrânio Coutinho, “não dão lugar a literaturas isoladas”. De tais manifestos, incluindo a modernista de 1922, há de ter ficado algo: a temática brasileira, a cor local. Mas em mãos de ficcionistas de amplitude, como JLR, “a região é o mundo”, segundo observou genericamente Eduardo Portella.

1924 — Diploma-se bacharel em Direito

1925 — Desposa Filomena Masa Lins do Rego, que lhe deu três filhas. Nomeado promotor público em Manhuaçu, Minas Gerais.

1926 — Renuncia ao cargo e muda-se para Maceió, Alagoas. É fiscal de bancos, atividade que se prolongará até 1930. Colaborador do Jornal de Alagoas, entra para o grupo de intelectuais em torno de Graciliano Ramos, formado, entre outros, por Aurélio Buarque de Holanda, Rachel de Queiroz, Jorge de Lima, Valdemar Cavalcanti, Aloísio Branco.

1932 — Publica, a suas custas, o romance de estreia, Menino de Engenho, prêmio da Fundação Graça Aranha.

1933 — Vem a lume Doidinho, que as línguas ferinas dizem “autobiográfico”, pela Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, edição de 10 mil exemplares. Doravante, ano a ano, lançará Banguê, O Moleque Ricardo e Usina, romances atrelados ao Ciclo da Cana-de-Açúcar, à exceção de O Moleque Ricardo (1935), que decorre quase inteiramente na então ilha-presídio de Fernando de Noronha.




Ascensão e queda do patriarca

No romance Banguê, sua primeira obra-prima, José Lins do Rego levanta a personalidade de um tímido e alheado, o personagem central Carlos de Melo, que retorna doutor ao Santa Rosa, do avô Zé Paulino, e entrega-se, contra a expectativa otimista de todos, e fundo desgosto dos familiares, ao tédio e sensação de inutilidade. Pertence a outra geração, a dos netos viciados pelas facilidades de vida e levados, assim, a preguiçar sobre os louros dos antepassados. Tecnologias novas, importadas dos Estados Unidos, aquecem a produção do açúcar, a usina substitui aos poucos os rudes engenhos nas várzeas, pressiona-os, invade-os, deles se apropria. O Santa Rosa (heterônimo do Engenho Corredor) corre perigo, as safras escasseiam, as chaminés da usina próxima se acercam. Mas o doutor Carlos continua na rede, a devanear.

Está vencido pelo desânimo. A vida, em tudo leve, traz-lhe o fardo de um estigma. Dessa contemplação inútil somente o despertará a chegada de uma hóspede, Maria Alice, mulher casada, mulher bonita em busca de ares saudáveis. Está consumida de vaga melancolia e, na ausência do marido, renasce para contagiar Carlos. Amam-se na rede, em lugares ermos por onde cavalgam, e suas efusões de sensualidade parecem minar da terra, dos canaviais, do luar, em franca cumplicidade com a ambiência. Resgatado, Carlos de Melo tenta reagir aos tentáculos de usineiros gananciosos — e na luta tomba o fiel escudeiro Nicolau, a quem ele quer dar “um túmulo bonito”.

Usina (1936) fecha o ciclo canavieiro. Ao retornar da prisão, Ricardo depara uma realidade transfigurada. O engenho Santa Rosa entrou em agonia. Agente da economia de escala, a usina de açúcar impõe regras do capitalismo selvagem, e o que antes parecia lírico, mesmo sob a pátina da pobreza e miséria, diluiu-se no duro embate inaugurado pelos açambarcadores. No entanto, o atestado supremo de decadência senhorial solarenga será passado em outro volume integrado no ciclo, embora tardio: a obra-prima definitiva, Fogo Morto (1942). A descrição do declínio e morte do engenho Santa Fé, que “não bota mais”, porque lhe falta cana para moagem e apuro dos pães de açúcar, adquire timbre patético, tem ressonâncias dostoievskianas.

Na divisão dos romances de Lins do Rego consta, além do ciclo açucareiro, o ciclo do sertão seco, do misticismo e do cangaço, de que são partes o trágico Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953), o dos romances desarticulados, embora de temática nordestina (Pureza, 1937, e Riacho Doce, 1939), e os romances geograficamente deslocados: Água-Mãe (1941, Prêmio Felipe d´Oliveira) e Eurídice (1947, Prêmio Fábio Prado). Por ser este seu único romance “urbano”, merece nota à parte, adiante.




O mundo cabe na região

Há que distinguir região geográfica e região cultural. A geografia não dá foros culturais a uma região. Quando esta obtém voz própria, típica, impregnada de cor local, será com base num ficcionismo que faz do homem sujeito e objeto, ao mesmo tempo, do meio e das condições de vida. A região literária do Nordeste veio a impor-se pela pena de José do Patrocínio (um dos pioneiros do romance de seca, com Os Retirantes, 1879), Franklin Távora, José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, Amando Fontes, José Lins do Rego, Adonias Filho, Jorge Amado, José Vieira (o prosador paraibano de Vida e Aventuras de Pedro Malazarte), Osman Lins (o de O Fiel e a Pedra), Ariano Suassuna — seus epígonos mais conhecidos.

Houve uma quase coincidência de datas editoriais — todas a partir de 1930 — aplicadas a uma plêiade de ficcionistas de cepa nordestina que trabalhavam num projeto estético assemelhado: fazer o homem contracenar com a paisagem, primeiro em situação de inferioridade, depois em igualdade de condições ou impondo-se como expressão maior da realidade, na medida em que os autores dominavam recursos narrativos avançados. No romance nordestino de José Américo de Almeida (A Bagaceira, 1928, O Boqueirão e Coiteiros, 1935), a descrição de exterioridades, marcadamente literária, se impõe ao intimismo, por isso o relato resultará menos espontâneo, e conseqüentemente menos “verdadeiro”, do que em Menino de Engenho e Banguê. Como romancista, JLR será mais criador, porque aplica mais o ouvido que a inteligência intelectualizada. Ele será, mais que qualquer outro do grupo nordestino, o escritor-que-se-lembra, aquele que transforma a matéria bruta do memorialismo em narrativas recriadas. Em sua pena, o tema se transfigura e incorpora alta emotividade. Advém, então, uma espantosa naturalidade do dizer e do fazer literário, como se o ficcionista fosse uma caixa de ressonância, um tambor, um sismógrafo do meio social. Tem-se a impressão de que as personagens, recortadas de conhecidos estereótipos trabalhados na literatura de cordel adquirem, banhadas pela emotividade do relato e coloquialismo, uma presença portentosa.

Da sua infância e adolescência, das histórias que ouviu e dos resíduos do patriarcado açucareiro que ainda pôde testemunhar, Lins do Rego tem os alforjes repletos de memórias e impressões. Quando decide escrever, basta-lhe o esforço de recriação e associação, que não será assim tão grande, para juntar figuras, cenas, imagens, a elas agregando o testemunho e arte de prosador emocionado.

Diferente de José Américo, porque não quer conceituar nem concluir, quer apenas rememorar para atestar, ele será também diferente de Graciliano Ramos. Este, a partir do segundo romance, S. Bernardo (1934), e recorrendo também aos brasileirismos como reação à cartilha estética portuguesa, chega com seu estilo concentrado, sucinto e reticente, em que as palavras, como escopros, desbastam o acessório em busca do essencial. Seu companheiro Lins do Rego, por temperamento um arrebatado, atém-se ao fio da novelística de remota fonte peninsular que pesponta a literatura popular no Nordeste. Será certamente menos “escritor”, quanto ao fazer, do que Graciliano, mas tem o destino dos que se apoiam no imaginário, dos que se fazem captadores das vozes do povo, já que é um emérito contador de histórias. E vai esta expressão no sentido puro que lhe deu Robert Louis Stevenson.

O romance nordestino, e com ele a obra de JLR, espelhou, mais que o chamado romance da terra, a busca de uma expressão nova casada a temas localistas ou regionais que se encaminhariam, com maior ou menor rapidez, para o estuário largo do universo ficcional. A região é o mundo, disse Eduardo Portella. Seu alcance dependerá, digo eu, de quem a povoa. A região pode chegar via William Faulkner ou Graciliano Ramos, García Márquez ou José Saramago a um estágio psicossocial somente obtido por mestres universais do gênero. Também poderá, por força da emotividade desatada, tocar a consciência e pôr a sensibilidade em estado de brasa.

Na busca de um romance brasileiro — brasileiro pelo tema, tom, tônus e aspectos peculiares da gramática portuguesa transplantada— o romance do Nordeste, praticado, aliás, em quase todo o País, fortaleceu o ideário de José de Alencar, expresso no opúsculo Como e Porque Sou Romancista. E ao desdobrar-se e marchetar-se, saindo do classicismo do paraibano José Vieira para as fantasmagorias de Hermilo Borba Filho e os enredos armoriais de Ariano Suassuna, deixou marcos imperecíveis da arte de narrar à beira do soluço, de José Lins do Rego.




Censura prévia na Academia

1935 — Nomeado fiscal de imposto de consumo, muda-se para o Rio de Janeiro e logo se integra no meio literário. Descobre sua paixão pelo futebol.

1936 — Publica Histórias da Velha Totônia, sua única incursão na literatura infantil, com ilustrações do pintor Santa Rosa. Viaja ao exterior.

1942 — Lança Fogo Morto, saudado como obra-prima por vários críticos, em especial Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux. “Que obra-prima Fogo Morto, puxa!”, exclamou o primeiro.

1953 — Publica Cangaceiros, seu derradeiro romance.

1955 — Eleito a 15 de setembro para a Academia Brasileira de Letras, cadeira 25, que fora de Ataulfo de Paiva, ministro do Supremo Tribunal Federal. Empossado a 15 de dezembro, disse de seu antecessor, em discurso contrário à praxe acadêmica: ”Ataulfo de Paiva chegou ao Supremo Tribunal Federal sem ter sido um juiz sábio e à Academia sem nunca ter gostado de um poema”. A partir de então, os discursos de posse passam a sofrer censura prévia

1957— Morre no Rio de Janeiro, a 12 de setembro, de um problema hepático. Tinha 56 anos. E, como dissera, temia a morte. Além de romancista, foi cronista e articulista. Publicou três livros de sua produção jornalística: Gordos e Magros (1942), Poesia e Vida (1945) e Homens, Seres e Coisas (1952). Traduzido em vários idiomas, teve algumas obras adaptadas para o cinema, teatro e televisão, entre elas Riacho Doce e Fogo Morto.




Fora dos ciclos: o caso “Eurídice”

No fundo do tacho das ficções de José Lins do Rego está disfarçado o ponto de vista crítico. Que ele o tem é certo, mas prefere deixá-lo nas entrelinhas, porque privilegia a narrativa, é um compulsivo narrador que age por impulsos, sem determinismos. Sabe que, por trás de suas narrações, repontam a pobreza, a espoliação, a violência, o misticismo, o apego à natureza agreste, o vaivém ciclotímico do amor e do ódio em almas aparentemente secas, mas prontas a romper, de súbito, em lágrimas ou fúria de espoliados.

A força dessa obra é subterrânea, brota do esforço com que o romancista tenta conter a caudal da memória de teor sociológico — a sociologia de um povo, da formação do povo nordestino, aquela sociologia explicitada didaticamente por Gilberto Freyre.

O romancista tem o poder de sentir o que sentem as personagens, e com estas dividir dores. Ficcionista de temas explícitos e de personagens concretas em situações de risco que resumem vidas sem abstrações, um figurativista, um aquarelista, um retratista, JLR esmera-se na criação de tipos que saltam das páginas. Vitorino, com o seu exacerbado senso de justiça e disposição de enfrentar as injustiças, é a cara do Brasil. Os romances de JLR estão povoados de gente de verdade, em geral personagens chaplinianas, em estados patéticos que aproximam o riso da lágrima, o desespero do êxtase místico. É que a sua ficção, tendo por cenário o Nordeste, forçosamente incluiria traços da novelística ibérica picaresca, mesmo quando centrada nos dramas de consciência e nos tormentos da personalidade.

Escritos os seus romances no aparente estilo livre indireto, sente-se a proximidade solidária do romancista que viu e sentiu os destroços de um mundo, emocionou-se e recolheu não apenas casos, cenas, situações, atmosferas mais tarde por ele argamassados, senão, e sobretudo, a linguagem. Pois a oralidade é um dos seus talentos. E ele a expõe quase em estado bruto, acrescentando-lhe aqui e ali achados lingüísticos saborosos, como aquele “se fez na faca” (o ancião que, em Pedra Bonita, levanta-se em defesa do bode que lhe come milho na mão). “Nunca que se esquecesse” é outra de suas alquimias, em que o idioma português brasileiro retrocede às nascentes do mavioso português lusitano.

O sertanejo pensa de forma intensiva, recorrente, em poucos assuntos — os fatos de seu limitado raio de ação e entendimento. Por isso repete as falas, em obsessiva reiteração. Nem assim sofreia os impulsos de uma alma livre e lírica — como se fora um prolongamento bonançoso da terra agreste e espinhenta, dos homens que o meio torna às vezes impiedosos, e que, ainda assim, porventura cedem, doces como caldo de moenda.

Um ficcionista desse naipe nós o entendemos como força da natureza. Jamais o veríamos fora do seu ambiente natural, longe do que testemunhou e armazena na lembrança, distanciado dos vultos fantasmagóricos que o rondam. Sair dos temas do Nordeste, do chão do Nordeste, seria para José Lins desenraizar-se. E, no entanto, ele o fez, cometeu a proeza, talvez por já estar o armazém da memória pouco sortido. Tem dois romances fora dos seus ciclos habituais: Água-Mãe e o mais estranho, talvez bizarro: Eurídice, em que o romancista, com a sua linguagem telúrica habitual, empalma um drama psicanalítico de fatura urbana. Foi motivo de surpresa um romancista tão preso à oralidade sertaneja arriscar um tema que exigia prospecções submarinas. Curiosidade literária? Nem tanto. Eurídice tem aura própria, apesar de transplantado e longe de perfilhar uma das muitas versões da lenda grega de amor funesto — como quase todos os enredos de amor.

Da sexta edição deste romance, lançada quando o romancista faria 70 anos, brotam depoimentos que parecem atestar a existência de um desafio insinuado pela crítica e que o romancista se dispôs a enfrentar. Afirmou Rachel de Queiroz, em artigo de 1947, sobre Eurídice: “E José Lins do Rego mostrou que não perde nada quando prescinde do pitoresco, do regional, do Nordeste”. De Lúcia Miguel-Pereira: “Grande prova para um romancista é a de tentar renovar-se, mudar de meio e de orientação. Prova de que José Lins do Rego saiu inteiramente vitorioso”. Ambas conjugam os verbos mostrar e provar, sintomáticos de que JLR pretendia, de fato, com romances fora da sua linha ficcional legítima, impor-se como criador sem compromissos, a bem dizer, genéticos com a sua terra e a sua gente e com o mundo das imagens pessoais e familiares.

Quando Eurídice apareceu, em 1947, ambientado no Rio de Janeiro, era mais forte por parte da crítica o preconceito contra o regionalismo, como se não pudesse haver, detectado pelo Sr. Antônio Cândido, aquele “super-regionalismo” que confere importância universal a William Faulkner e Thomas Hardy, por exemplo — e até mesmo ao Hemingway dos relatos em Michigan, à Villa Cather das pradarias de Nebraska. Predominava então no ficcionismo brasileiro a tendência (passageira, afinal) para um intimismo abstracionista, alegórico, como se possível ao ficcionista abstrair a moldura ambientalista em que é divisado não apenas o cenário, mas igualmente seres que o habitam. atrelados a um processo de historicidade inarredável. Poucos, raros críticos distinguiam na matéria de memória a interferência do criador literário por meio da indução e do acréscimo — uma transfiguração que Nélson Werneck Sodré chamou, com muita propriedade, “memória ficcional”.

Há, de fato, indícios suficientes de que JLR pretendeu demonstrar independência em relação à temática nordestina, que nele, aliás, não estava de todo esgotada, porque Cangaceiros viria em 1953, depois de Eurídice. Mas teria JLR conseguido mudar de temática e geografia para adquirir novo estilo propulsor da tão exigida densidade psicológica?

Em Água-Mãe, localizado em Araruama e arredores, são visíveis os contornos daquele romance nordestino de fluxo narrativo natural, espontâneo, semelhante ao da água a escorrer, que vem desde Menino de Engenho, nos longes de 1932. Eurídice, com intenções a drama de personalidade e, ademais, de ambientação urbana, pressupunha a mudança renovadora, como instrumento de contestação literária.

Sintomaticamente, em Eurídice JLR passa da habitual terceira pessoa que narra, ou seja, do aparente estilo indireto, de quem se sabe preso ao fato narrado (e, portanto, é ao mesmo tempo sujeito e predicado da sua narração), à primeira pessoa — o que pode indicar confissão, discurso livre em busca do ponto nevrálgico da consciência. Depois de cometido um crime, a personagem principal desfia recordações de infância, na tentativa de explicá-lo. “O que existe em mim, como senhores e donos absolutos, são as lembranças que não se apagam, a própria carne da minha carne”, anota Júlio. Ele sente necessidade imperiosa de remexer no que ficou, na esperança de assim se libertar. Está configurada a “caça ao passado”, conforme diz.

Com as memórias de Júlio se identifica logo o romancista JLR. Sentimos que Júlio, um citadino, nascido e criado no Rio de Janeiro, testemunha de acontecimentos políticos ali desenrolados entre 1925 e 1940, é um prolongamento, ainda que tênue, de outras criaturas do ciclo da cana-de-açúcar. Lembramos, na sua maneira desfibrada de encarar a vida, aquele Carlos de Melo de Banguê, a preguiçar na rede enquanto a usina ao lado ameaça tomar as terras do engenho; e lembra ainda o enfermo que, em Pureza, procura recompor o físico e a mente num entroncamento ferroviário da Great Western.

Em curto preâmbulo cerimonioso, de paletó e gravata, porque em língua literária enganador, o romancista não tarda a se trair pela linguagem: frase curta, ritmo e sestros dos outros romances. Quando o menino Júlio se refere ao “bater de língua”, no sentido de falatório, e ao “pegadio” (dependência afetiva) da irmã Isidora com o noivo, fala por ele o menino da bagaceira, saído do fundo do tempo. “Lá fora a brincadeira dos meninos era para mim de uma distância de légua”, eis uma imagem que dificilmente ocorreria a um moço de cidade grande. O mesmo em relação aos “resguardos de mulher parida”, comparados aos cuidados forenses do tio Pontes, e àquela “tristeza de cortar coração”. A raiva tempestuosa da mãe de Júlio “se reduzia àquele pingo de biqueira em fim de chuva”. Esta não seria a linguagem imagística para uma família burguesa de classe média residente em casarão da Tijuca e aparentemente sem raízes rurais próximas. A traição vocabular e imagística percorre todo o romance Eurídice.

Na estruturação psicológica, outras armadilhas aguardam o migrante ainda não de todo absorvido ao meio. A primeira no capítulo sete, quando se levanta a celeuma em torno do vestido de noiva de Isidora, despedaçado por mãos desconhecidas. Não sabem, na casa, a quem atribuir o vandalismo, embora havendo, a rigor, apenas uma pessoa interessada em desfazer o casamento: Júlio, o menino enjeitado pela mãe, adorado por Isidora, inimigo do noivo que lhe despertava náuseas. JLR, um intuitivo, narrador por excelência, tangência a justificação de estados de alma que lhe são estrangeiros. Seus recursos para explicar atitudes e definir comportamentos, mesmo os mais simples, nem sempre haverão de convencer, porque puramente narrativos, sem participação. Quando mexe no mecanismo das emoções — o que seria fatal em romance de corte psicológico, como este — o escritor exime-se de provocar, insinuar e sugere; limita-se à descrição, e esta, então, soa fria ou incaracterística.

Exemplos de dissonância entre linguagem e tema subjetivo são encontrados nos trechos em que pontifica Campos das Águas, a personagem mais simpática. Trata-se de um intelectual raté, exibicionista, cheio de lembranças dos poetas boêmios da fase parnasiana, com os quais teria convivido nos cafés cariocas. Somos advertidos para o pormenor de que o velho Campos costumava falar difícil. No entanto, seu discurso contém aqui e ali a fluência dos destemperos de Vitorino Carneiro da Cunha, figura admirável de Fogo Morto.

O romancista JLR está sempre a pagar tributo ao Nordeste. Poderia, e até certo ponto demonstrou em Eurídice, criar fora do Nordeste, mas a emoção básica de que está tomado, de que nasceu possuído, é forte demais. Essa emoção é o extrato do tempo morto, porém ainda não de todo “perdido”, que ele ressuscita.

Mas, afinal, que querem os críticos? Que um ficcionista mantenha de livro para livro os elevados abalos sísmicos de que é capaz, à margem de temas, situações e lugares? Eurídice fica como modelo de romance que JLR compôs no esforço de dissimular perante a crítica preconceituosa sua fatal (para eles, críticos) identidade nordestina. Tarefa impossível a quem, como JLR, pisa no chão do Nordeste, se exprime pelas vozes nordestinas gravadas na memória, é um escritor telúrico: o que sentiu, o que lhe doeu na sensibilidade, e que ele recria como forma de retribuição é o que conta, como frisou Flannery O´Connor acerca da arte da ficção. Ademais, a crítica do tempo, de todas a mais certeira, abonou Eurídice, a julgar pelas sucessivas edições. Melhor atestado não desejará um tecedor de enredos e criador de personagens. Se escrever ficção é desnudar-se, ou cicatrizar feridas, ou libertar fantasmas, como querem alguns, então cada ficcionista se deixará guiar cegamente pelo mapa da sua aldeia íntima. A par da sua infância e adolescência, das histórias que ouviu e dos resíduos de patriarcado açucareiro que ainda pôde recolher, JLR desenfarda lembranças. Quando decide escrever, basta-lhe o esforço de recriação e associação, que não será assim tão grande, de juntar figuras, cenas, imagens, a elas agregando o seu testemunho e arte de prosador emotivo, certo de que a vida é mesmo inevitável.




O fogo vivo da recriação

Da sua infância e adolescência e dos resíduos de patriarcado que ainda pôde testemunhar, JLR tem os alforjes cheios. Quando decide escrever, basta-lhe o esforço de recriação e associação, que não será assim tão grande, de juntar figuras, cenas, imagens, a elas agregando a arte de prosador “en état de rêve”.

Fogo Morto tem uma galeria de personagens notáveis. É difícil esquecer, setenta anos depois, o seleiro de beira de estrada José Amaro, no seu desespero, na sua atormentada sede de justiça, no ódio de que se nutre. Guarda-se também a doença de Lula, a decadência do seu engenho, as facécias tragicômicas, chaplinianas, de Vitorino Carneiro da Cunha, pequeno Don Quixote de uma legião de oprimidos. Anda-se ainda hoje com o cego Torquato e a sua dignidade ferida, com o feroz chefe da tropa volante, com o cangaceiro Antônio Silvino, tem-se piedade da fanada Nenén, saudade do assovio alegre do negro Passarinho nos canaviais.

O romancista José Lins é um filme a rodar e perpassar na memória. Em Banguê, as cenas de Carlos de Melo e Maria Alice na rede e nas cavalgadas são das melhores páginas amorosas da ficção brasileira. Criador de personagens, o romancista tem na sua galeria José Paulino, patriarca do sertão, o sedutor cantador Deoclécio em Pedra Bonita, os romeiros e retirantes, os cangaceiros ora sentimentais ora cruéis, os místicos, a criança que em O Moleque Ricardo abre os braços e geme: “Cardo, Cardo”, ao pressentir que o irmão vai embora. Há o sentimentalismo comedido de Pureza, as paisagens de sol e sal de Água-Mãe, a sexualidade amordaçada que explode no canto solitário dos vaqueiros. O sertão nordestino, um vasto mundo, o mundo — e mundo vivo, povoado por gente de carne e osso, não o frio mundo dos criadores em seco. Nesse mundo, que é a região, fala-se língua brasileira, estropia-se muitas vezes o cânone linguístico para dar-lhe mais sabor e lógica. Como, por exemplo, na cena em que um velho defende o bode que comia milho na sua mão: “E o velho se fez na faca”. Ou construções admiráveis, do tipo “nunca que se esquecesse”, por “jamais esqueceria”. A abertura de frases e parágrafos por pronomes oblíquos legitima a nossa gramática, é uma ousadia que vem dos modernistas de 22.

Um romance multicelular, como é o caso de Fogo Morto, cujo tema se desdobra em variantes sucessivas, exige a presença da personagem. Através de pessoas que agem, interagem, dizem e pensam, embora repetitivos, buscaremos a verosimilhança e consistência da história. O romance intimista poderá contentar-se com a linguagem, que por vezes ressoa sozinha, mas o romance extrovertido nasce da ação contínua e desta se alimenta.

As personagens, que em Fogo Morto são de uma inventiva surpreendente, ditam o ponto de vista. Se bem estruturado e esculpido o romance, elas se transformam em criaturas vivas, expondo-se e impondo-se a ponto de convocar, queira-se ou não, simpatia ou repulsa. Ao contrário do romance apenas de palavras, o romance de personagens e de acontecimentos por ela suscitados ou vividos resulta em documento humano.

A releitura de Fogo Morto fortalece uma convicção: o chamado romance do Nordeste ou romance de ’30 se exprime pela boca de personagens, ao narrar conflitos humanos gerados pelo desconforto da sociedade patriarcal, sobretudo pela má distribuição de terra e renda. Desde o discurso apaixonado de José do Patrocínio em Os Retirantes (1877), sobre a seca de 1877-8, no Ceará, esta vertente assimila conquistas formais, unindo linguagem e ponto de vista à temática. Outra seca será a força motriz de Rachel de Queiroz em O Quinze. Outro cultor desse romance, Jorge Amado, referiu-se à necessidade de “recolher material”. O processo de documentação salva, pois, esse romance do perigo de crises a que o levariam preocupações esteticistas.

Cabe, então, razão a Alfredo Bosi quando se refere, em sua História Concisa da Literatura Brasileira, a “uma visão crítica das relações sociais”; e também ao divisar “um clima em que se fundiram as conquistas do modernismo estético e o interesse pelas realidades nacionais”. Mas o fato de haver, no Nordeste, naquela época, um grupo de escritores ancorado em Gilberto Freyre não aproxima modernistas e nordestinos. Às aspirações nacionais preconizadas pelo verde-amarelismo dos paulistas de 22 sinalizam no romance do Nordeste a documentação e a oralidade. Um dos nossos ficcionistas mais “clássicos”, Graciliano Ramos, recorre amiúde à língua falada, legitimando-a literariamente. Brasileirismos são freqüentes nos prosadores nordestinos — e, de par com as cores e os tons do discurso localista, corre um rio subterrâneo de sugestões culturalmente assimiladas, entre elas o aspecto faceto de certo ficcionismo ibérico — a novela picaresca.

Fogo Morto, um dos ápices desse romance nordestino, é um forte documento humano. Pulsa como nervo exposto, lateja como as várzeas da Paraíba quando chegam as chuvas. Impossível ler esta obra máxima sem o concurso da emotividade. E não apenas porque o livro reproduz a alma nordestina, aquele pathos psicossocial tão peculiar ao Nordeste. É que, iniciada a leitura o romance empolga e arrebata. É que ele já nasce em movimento e finda em movimento, como, respectivamente, o diálogo do pintor com o seleiro e do capitão Vitorino com o negro Passarinho. É que ele próprio se escreve, com a mínima interferência do autor, e para isso contando com o seu eu-lírico, enquanto suas personagens andam pelas estradas dos canaviais. A exemplo da novelística picaresca, cujo herói faz o seu destino à medida que palmilha estradas e enceta aventuras, Fogo Morto traz ardentes cavalarias.

Uma de suas personagens principais, o carismático Vitorino, é um quixotesco defensor de causas perdidas. Quer “liberdade para os pobres, para o compadre, para o cego, para o negro”. Fraco, de juízo avariado e com intenso sentimento de justiça, sai em busca dos seus ideais humanitários, montado numa mula de ancas feridas e que mal lhe suporta o peso. Do galgo corredor do fidalgo manchego que há de ter sido o seu ancestral, o sertanejo Vitorino tem faro para descobrir encrencas e nelas entrar com a coragem dos inocentes e dos puros. A lança é a sua língua solta. De sorte que esse capitão Vitorino, rábula de oprimidos e consciência impertinente de opressores, tem por fanal o estabelecimento de justas instituições políticas em terra de patriarcas egocêntricos e súditos desvalidos.

Mas Vitorino não é a única lançadeira entre um ponto e um pesponto no vertiginoso ritmo de Fogo Morto. O romance depende também, porque a ela sempre retorna, da figura patológica de mestre José Amaro, o irado seleiro. Circunstâncias adversas lhe azedam a vida. Doente, velho e desiludido, ele se revolta, esperneia, em vão, nos ressentimentos de fera acuada. Instintos maus lhe turvam o coração. Por sua porta, enquanto ele bate sola e ouve o canto de canários nas biqueiras, passam o mascate, o pintor, o caçador, o pescador, o bicheiro, os aguardenteiros, as comadres, os espiões do cangaceiro Antônio Silvino e os espias da tropa do governo. Passa o capitão Vitorino na sua estropiada égua de passo lerdo, passa também o cabriolé tilintante de Lula de Holanda.

José Lins do Rego, é óbvio, cuidou de recuperar o tempo de outrora. Proustiano, sim, mas sem requintes de elaboração e com aquela simplicidade — processo terminal, depuração e filtro — de cancioneiro, aquela espontaneidade com que parece erigir mitos em terra de parcos recursos. O universo temporal de Fogo Morto remonta à segunda metade do século 19, no apogeu do ciclo da cana-de-açúcar, e invade os primeiros anos da República Velha. Aos latifundiários dos canaviais sucedem os usineiros. O processo de modernização arruína muitos proprietários. José Lins do Rego é o que Antônio Cândido chamou de “romancista da decadência”. Decadência de uma cultura, de um modo de vida, de uma estrutura social —aquela mesma que William Faulkner retraça a propósito da cultura algodoeira no sul dos Estados Unidos. O romancista ouviu histórias, desde menino. Foi ferreteado pelos registros orais de acontecimentos e protagonistas característicos. Guardou-os na memória, amealhou para cristalizar. É certo que tais lembranças, em seu processo ora associativo ora disruptivo, recriam um mundo. O ficcionista-memorialista tem suficiente poder de expressão para recuperar o tumultuado tempo interior, aqueles rios de vida que são estradas em movimento, segundo Pascal. Aliás, as estradas, em Fogo Morto, são rios que escoam os sub-temas tributários da caudal do romance, fazendo-os caminhar para um estuário. Os rios interiores do poeta T. S. Eliot (“The river is within us...). A segunda parte de Fogo Morto, centrada na figura também patológica do coronel Lula, um epiléptico, um paranóico de fala mansa e conduta tirânica, serve de traço de união entre os dois tempos do romance — o apogeu da cana-de-açúcar e a decadência senhorial. Fogo Morto é mais que um desdobramento de Menino de Engenho e de Banguê. É o retorno amplo maduro ao tema.

Ainda bem que em torno de um romance moderno citam-se personagens, descrevem-se alguns que são atores principais da tragicomédia. Feliz da literatura que os tem. Ai da literatura que já não consegue encontrá-las nas ruas e nos campos, na solidão de suas almas atormentadas ou nos movimentos de massa. Ai da literatura que, neste mundo caótico e massificado, incide em abstrações, se compraz nas workshops.

Como definir Fogo Morto? É um romance trágico banhado pela facécia, burla, bambochata da novela picaresca — “the novel of the road”, conforme a observação de Lionel Trilling. Mais do que por seus desencontros, as personagens parecem convulsionadas por conflitos que não criaram, gerados por adversas condições sociais e econômicas. De modo que a tragicidade lhes é inerente, constitui ima segunda natureza. No fundo, tais personagens, por mais iletradas ou alienadas que sejam, pressentem a fatalidade dos seus destinos mesquinhos. O que em umas é resignação, em outras se traduz em luta, ou tentativa de luta. Se levado a extremos, o desespero se torna risível. As duas pontas do leque da encenação e da autocrítica se unem, fazem o ator provocar piedade e ao mesmo tempo sentir pena de si mesmo. Vitorino é um palhaço trágico. Acompanhando-o nas suas arremetidas quixotescas, somos tentados a rir. E rimos, de fato, mas às vezes vem nesse riso um travo de amargor.

Patéticas são algumas personagens de Fogo Morto, patéticas nos parecem suas cenas culminantes. Os conflitos não estão na paisagem, a natureza neste romance não cria dificuldades ao homem. Fogo Morto não é romance sobre a seca. Com a sua ação localizada na várzea paraibana, empurra horizontes. É demiúrgico. Cria situações, modela criaturas e, se quiserem, cria documento, mitos, faz folclore. Homens e mulheres sofrem e rangem os dentes, mas a natureza em Fogo Morto permanece calma. E o romancista a utiliza como lírico contraponto. A cada cena pungente, quando a emotividade se descontrola, introduz um hiato lírico: “Na estrada empoeirada cheiravam as cajazeiras, cantavam pelos arvoredos os pássaros de todas as nações”, anota o eu-lírico. Ou então” “A madrugada cobria tudo de luz macia”. Ou ainda: “A lua entrava pelas telhas de vidro da casa-grande, a lua que pintava as cajazeiras, que dava ordens em D. Olívia, que fazia os cachorros uivarem na solidão”.

Os alívios da tensão dramática ocorrem em todo o romance, como a ressaltar a precariedade dos humanos. Fogo Morto tem repentes à Dostoiévski: o coronel Lula dispara o clavinote num burro de almanjarra, à noite, tomando-o pelo pretenso namorado da filha; Vitorino é detido e espancado pela tropa; Antônio Silvino invade o engenho e D. Amélia toca piano para os cangaceiros; mais morto do que vivo, mestre José Amaro leva uma surra de cipó-de-boi na cadeia do Pilar; a filha rejeitada do mestre seleiro tem ataques de nervos por obra da sexualidade reprimida. José Lins do Rego, emotivo até a ponta dos dedos que encheram cadernos escolares com a prosa de Fogo Morto, transmite emotividade às cenas e aos figurantes. “Não havia vozes que amansassem as dores que andavam no coração do seu povo” — pensa D. Amélia, sentindo que isso, essa desesperança, era a pior das mortes.

A linguagem, misto de oralidade e língua literária, saborosa na sua espontaneidade nativa, é propriedade de JLR. “Nunca que lhe passasse pela cabeça semelhante coisa”. “nunca que se esquecesse...” “Seria que fosse inveja?” “O canário abria o bico nos estalos”. Em vão o romancista tentará transplantar essa linguagem para cenários e temas do Sul, como os que versou em Água-Mãe e Eurídice. Inutilmente ele tentou fazer romance psicológico com tal linguagem e as expansões do seu eu-lírico nordestino. Escritor, portanto, do seu meio, e escritor da sua lembrança, o paraibano Lins do Rego, que Otto Maria Carpeaux considerou “brasileiríssimo”, pratica a teoria da composição inconsciente obtida por Mark Twain no Huckleberry Finn: o romance que, como o rio da inocência, se escreve por si mesmo, no fluxo da memória.




Amigo dos seus amigos

O extrovertido e arrebatado Jose Lins do Rego tinha coração generoso. Era, como disse no auto-retrato de 1947, amigo de seus amigos. Foi quem mais se bateu, entre os intelectuais, pela libertação de seu amigo Graciliano Ramos, preso em Maceió, 1936, quando ainda não era filiado ao Partido Comunista Brasileiro, e sem processo de culpa formado. Levado para o Rio de Janeiro, esteve no cárcere da Ilha Grande. Durante mais de um ano JLR foi incansável nos seus rogos a Getúlio Vargas, Filinto Múller e outros poderosos da época pré-Estado Novo. Mais tarde, ajudou o escritor alagoano a obter sinecura no serviço público, mediante a mobilização de Carlos Drummond de Andrade junto a Gustavo Capanema, ministro da Educação.

Acometido de pudores, inimigo de auréolas, ostentações e privilégios, Graciliano jamais admitiu a intermediação fraterna, embora, no fundo, agradecido às manifestações de afeto e solidariedade de JLR. Em bilhete da prisão, 1936, à mulher Heloísa, ele diz: “Essa historia de defesa não me agrada. Estou resolvido a não me defender. Defender-me de quê? Tudo é comédia e de qualquer modo eu seria péssimo ator”.

Mas na comemoração dos 60 anos do amigo, a 27 de outubro de 1952, José Lins do Rego não se fez de rogado: “Aqui estamos”, disse em discurso, “para homenagear o maior de todos nós”. Palavras raras, gesto raro na habitual mesquinhez da vida literária.

(Salvador, Bahia, 30 de abril de 2011)