Um exemplo de cidadania

Arlindo Vicente

Pintor, advogado e candidato à Presidência da República:
1906 - 1983



Quando tudo aconteceu...

1906: Em 5 de Março nasce Arlindo Augusto Pires Vicente, filho de Manuel António dos Santos Vicente e de Amélia da Silva Pires Vicente, na freguesia de Troviscal, concelho de Oliveira do Bairro. 1918: Quando frequenta o 3.º ano do Liceu de Aveiro, obtém a classificação de 20 valores em Desenho, pela reprodução de uma Vénus de Milo, denotando invulgar talento artístico. 1920: Desenha a capa de um livro do reitor do liceu, o latinista José Pereira Tavares. 1926: Matricula-se em Medicina na Universidade de Coimbra, seguindo os desejos de seu pai. É director artístico do quinzenário de caricatura “Pena, Lápis e Veneno”. 1927: Participa com 16 obras no I Salão de Arte dos estudantes da Universidade de Coimbra, em cuja organização se empenhou. Funda-se, também em Coimbra, a revista Presença, na qual Arlindo Vicente colabora com ilustrações e com artigos sobre artes plásticas. 1929: Casa-se com Adélia Marques de Araújo, licenciada em Farmácia. 1930: Trabalha na organização do I Salão dos Artistas Independentes, em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), em que expõe 16 trabalhos. 1931: Participa com 12 trabalhos no II Salão de Independentes. 1932. Licencia-se em Direito na Universidade de Coimbra e inicia em Anadia a carreira de advogado. 1936: Radica-se em Lisboa com a sua família, e continua a sua carreira de advogado. Os seus desenhos aparecem em prestigiosas publicações periódicas, como a Presença, o Diabo, a Seara Nova, e mais tarde a Vértice. Participa na Exposição dos artistas modernos independentes, na Casa Quintão, na rua Ivens, em Lisboa. 1940: Participa na Exposição do Mundo Português. 1945: Adere ao Movimento de Unidade Democrática (MUD), constituído em 8 de Outubro deste ano, no Centro Almirante Reis, em Lisboa. 1946: Participa na Exposição Geral de Artes Plásticas, na SNBA. Subscreve uma representação ao Presidente da República, protestando contra as demissões dos Professores Mário Azevedo Gomes e Bento de Jesus Caraça, por se oporem ao regime vigente 1947: Na sua qualidade de advogado participa na defesa dos membros da Comissão Central do MUD, constituídos arguidos e levados a tribunal. 1950: Expõe na Quinta Exposição de Artes Plásticas, realizada na SNBA. Os seus quadros e os dos demais participantes são apreendidos por ordem do Ministro da Educação, Prof. Dr. Pires de Lima, que considera subversiva a pintura exposta. 1952: Subscreve uma representação dirigida ao Presidente da República, no sentido de Portugal abandonar a NATO. 1956: Subscreve um abaixo-assinado com o título “Pela paz entre as nações”, que propõe que o Governo Português efectue diligências para a conclusão de um pacto de paz entre as Grandes Potências. Como advogado de defesa de elementos dirigentes do MUD, abandona a sala do julgamento em sinal de protesto contra o cerceamento da defesa pelo juiz presidente do tribunal, no que é seguido pelos restantes advogados. O Tribunal faz participação à Ordem dos Advogados, mas o Conselho Disciplinar arquiva o processo. 1957: É proposto pela Oposição Democrática como candidato a deputado à Assembleia Nacional pelo círculo de Lisboa. 1958: Faz parte da Comissão Cívica Eleitoral, de iniciativa da Oposição Democrática, que visa a actualização dos cadernos eleitorais, com vista à eleição presidencial, que se vai realizar em Junho deste ano. Arlindo Vicente integra a comissão que se propõe lançar a candidatura do Eng.º Cunha Leal à Presidência da República. Após a recusa deste em concorrer, a 20 de Abril é apresentada oficialmente a candidatura de Arlindo Vicente à Presidência da República, à qual também concorrem o almirante Américo Tomás, apoiado pelo regime, e o General Humberto Delgado, pela Oposição Independente. Em 30 de Maio os dois candidatos oposicionistas reúnem-se e concluem que a força da oposição será maior se apresentar apenas um candidato. Arlindo Vicente desiste a favor de Humberto Delgado. 1959: Subscreve uma representação ao Presidente do Conselho, sugerindo o seu afastamento. Subscreve também uma circular dirigida aos Democratas do Distrito de Lisboa em que são focados os pontos essenciais da luta a travar por um Portugal Democrático. 1960: Preside ao comício de comemoração do 31 de Janeiro no Porto. É agredido brutalmente no Cemitério do Prado do Repouso. 1961: Subscreve um protesto contra as sanções aplicadas ao jornal “República”, por causa da atitude deste em relação ao desvio do paquete Santa Maria. A 30 de Setembro, um sábado, Arlindo Vicente é detido pela PIDE, quando se dirige de casa para o escritório. É encerrado no Aljube. 1962: É transferido para Caxias, julgado, condenado a uma pena suspensa e à suspensão dos direitos políticos por cinco anos. 1969: Participa no II Congresso Republicano, realizado em Aveiro, a cujo jantar de encerramento preside. 1970: Exposição individual na Sociedade Nacional de Belas Artes, em que reúne 106 obras. Entretanto requer a sua aposentação à Ordem dos Advogados, para se dedicar exclusivamente à pintura. 1973. Faz parte da Comissão Nacional do III Congresso da Oposição Democrática. 1974: Nova exposição individual na Sociedade Nacional de Belas Artes. 1977: A 24 de Novembro Arlindo Vicente falece em Lisboa. 1983: É-lhe atribuído o grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade.

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UMA VOCAÇÃO PRECOCE

Desde muito novo que Arlindo Vicente demonstra grande capacidade para o desenho. Ao longo de toda a sua vida nunca esquece o gosto pela sua arte. Miguel Dias Santos[1] refere que foi buscar ao ambiente familiar o interesse pelas artes plásticas, com destaque para a influência de um tio, que é farmacêutico, e cultiva a pintura nas horas vagas.

O ambiente rural em que passa a infância estimula o seu gosto pelas cores e pela observação das pessoas. Na escola primária, no Troviscal, recebe elogios e incentivos, e é encorajado a praticar o desenho. Pinta já aos 12 anos, com aguarelas, que acha ser mais simples e mais barato. Expõe pela primeira vez aos 13 anos, no Liceu de Aveiro. O reitor, o latinista José Pereira Tavares, cuja amizade por Arlindo Vicente perdura ao longo dos anos, sendo inclusive companheiros na Oposição Democrática ao Estado Novo, encomenda ao jovem aluno um retrato de Vasco da Gama, patrono do liceu, e concede-lhe o primeiro pagamento da sua carreira, uns dias de feriado. Mais tarde o reitor encomenda-lhe a execução da capa de um livro escolar, da autoria do próprio reitor. Arlindo Vicente tem então 14 anos. Os seus dotes artísticos e pessoais já então lhe granjeiam prestígio entre os colegas, e também entre os professores. Para além do desenho e da pintura, tenta a escultura, mas não se satisfazendo com os resultados alcançados, não continua essa especialidade. O jornalista aveirense Eduardo Cerqueira, seu colega e amigo de sempre, refere que, durante largo tempo, se mantém numa parede do liceu Vasco da Gama, hoje José Estêvão, um desenho de Arlindo Vicente, figurando uma reunião imaginária do conselho escolar, em que se reconhecem ao primeiro relance, os elementos do corpo docente.[2]

Arlindo Vicente conta que o tio farmacêutico, que tanto o influenciou no sentido de o levar a gostar do desenho e da pintura, também fez tudo para o afastar da carreira das artes, da pintura, pois achava que o artista plástico era um cidadão condenado à morte pela fome[3]. Também os pais, modestos lavradores, temerosos de o verem na miséria, querem que o filho vá tirar um curso superior, e procuram desviá-lo de seguir uma carreira artística. Em 1970, numa entrevista ao Diário de Lisboa, diz o seguinte:

“Comecei a desenhar antes de soletrar. O meu professor primário incitou-me, e depois no liceu davam-me sempre vintes em desenho. Quis ir para as Belas-Artes, mas o meu pai não deixou, não transigiu com isso. Sabia que era uma carreira para a fome. Matriculou-me em Medicina, mas eu fugi no primeiro ano…”[4].

Arlindo Vicente promete ao pai “seguir para doutor”, refere Pedro Calheiros, mas não se deixa desencorajar. Continua a desenhar e a pintar, nas horas vagas, e a aprender como autodidacta.

[1] Arlindo Vicente – Percurso de um Artista Moderno, in Centenário do Nascimento, pág. 9.

[2] Evocação Dorida de Arlindo Vicente – Um Amigo Que Era Uma Figura Nacional, in Centenário do Nascimento, pág.105.

[3] Entrevista não identificada, in Centenário do Nascimento, pág. 127

[4] Arlindo Vicente, À Procura do Tempo Perdido, , por Pedro Calheiros, in Centenário do Nascimento, pág. 16.




PARTICIPAÇÃO NA VIDA CULTURAL E ARTÍSTICA

Quando Arlindo Vicente vai estudar para Coimbra, em 1926, torna-se Director Artístico da revista Pena, Lápis e Veneno, de que se conhece apenas um exemplar. Faz caricaturas de colegas e professores. O reconhecimento generalizado do seu talento e o seu espírito participativo levam a que desempenhe um papel relevante na organização do I Salão de Arte dos estudantes da Universidade, que decorreu apenas um ano após a sua chegada a Coimbra, e no qual também apresenta obras suas. Pratica com grande êxito o caricaturismo, já na altura tido como uma forma de afirmação dos mais novos, e utilizado na sátira e na crítica social.

Em 1927 é lançada a revista literária Presença, expressão de um importante movimento cultural, que virá a ter grande peso e deixar importantes vestígios ao nível nacional. Arlindo Vicente colabora assiduamente como ilustrador. Desenvolve o seu talento como retratista, representando Presencistas como Miguel Torga, João Gaspar Simões, José Régio, Vitorino Nemésio e outros. Conforme assinala a Dr.ª Filipa Vicente[1], estes desenhos traduzem os estreitos laços afectivos existentes entre os colaboradores da revista, numa comunhão de ideias e sentimentos. A amizade que os une perdura para além do desaparecimento da Presença. Os retratos desenhados por Arlindo Vicente, de um grande rigor formal, mas também de enorme densidade humana, serão utilizados para representar os retratados ao longo dos anos.

Arlindo Vicente colabora também com a Seara Nova, Vértice, Labor e outras revistas. Ilustra obras de vários autores, como os livros de poemas de António Pedro, seu grande amigo, também pintor, dramaturgo e encenador, e que viria a ser um dos fundadores do movimento surrealista. Frequenta as tertúlias dos cafés, como a do Café Chiado, em Lisboa. Através dos seus contactos com os outros artistas, sente as influências dos movimentos de arte moderna, em voga na Europa.

Em 1930 realiza-se em Lisboa o I Salão dos Independentes, na SNBA. Pretende-se romper com as fórmulas académicas. As críticas dividem-se. É o choque da modernidade com os padrões clássicos. Arlindo Vicente colabora na organização e apresenta 16 trabalhos, sobretudo retratos. É a primeira vez que expõe em Lisboa. È salientada a segurança que mostra nos seus trabalhos. Em 1936, na Casa Quintão, participa com vários retratos, entre artistas como Almada Negreiros, Maria Helena Vieira da Silva e outros.

É de salientar que José-Augusto França aparenta a pintura de Arlindo Vicente com a de Mário Eloy e a de Júlio (irmão de José Régio), seus companheiros na Presença e no I Salão dos Independentes,[2] caracterizando-a como de um expressionismo lírico, e chamando a atenção para os seus desenhos sobre temas sociais polémicos.

Arlindo Vicente acredita na arte pela arte. Contudo isso não o impede de se debruçar sobre a situação dos mais desafortunados. São exemplos do seu interesse solidário a ilustração da capa da Presença n.º 33, de 1931, uma caricatura baptizada de “Monumento”, e alguns dos seus quadros mais notáveis, como o Menino Morto e o Enterro do Carcamano, muito mais recentes. Se, a certa altura, talvez se lhe possa assinalar uma deriva nacionalista, quando colabora com o semanário Acção, de cariz nacionalista e anticomunista, e participa na Exposição do Mundo Português, que decorre em 1940, em Lisboa, por iniciativa do Estado Novo, tem de se reconhecer que mantém sempre o sentido de crítica em relação às injustiças da sociedade e de preocupação perante o sofrimento dos desfavorecidos. E que entretanto Arlindo Vicente mostra o seu talento, mais uma vez, na Sala da Restauração, do Pavilhão da Independência, na referida Exposição do Mundo Português, ao pintar uma alegoria da Restauração de 1640.[3]

[1] Arlindo Vicente, Ilustrador da Presença e Retratista dos Presencistas, in Site Vida e Obra de Arlindo Vicente.

[2] Dicionário de Pintura Universal, Volume III, pág. 424.

[3] Arlindo Vicente – Percurso de Um Artista Moderno, por Miguel Dias Santos, in Centenário do Nascimento, págs. 9 a 13, reproduzindo A Arte de Arlindo Vicente, obra editada pela Comissão Promotora das Comemorações.




O PINTOR, O ADVOGADO E O POLÍTICO

Arlindo Vicente é sem dúvida um homem multifacetado. A sua vocação, aquilo que realmente lhe dá prazer é desenhar e pintar. Contudo, neste campo, continua sempre um autodidacta. A influência familiar e a necessidade de ganhar a vida, levam-no a estudar em Coimbra e em Lisboa, matérias que não a pintura, e depois a seguir a carreira de advogado. Mais tarde, o sentimento do dever de participar na vida cívica e política leva-o a assumir compromissos que marcarão definitivamente a sua vida. Mas ao longo de toda a sua vida pratica sem cessar a sua arte, até mesmo no cárcere, já em 1962, na prisão de Caxias, onde retratou vários dos seus companheiros presos.[1]

As pressões familiares levam-no a estudar primeiro Medicina, que abandona ao fim de um ano. Opta depois por Direito, cujo curso frequenta em Lisboa e Coimbra. Exerce a profissão de advogado durante quase quarenta anos, com evidente prejuízo da sua vocação. O pintor e crítico de arte Jorge Guimarães, numa brochura de apresentação à exposição póstuma das obras de Arlindo Vicente, levada a cabo em 1990 no Porto, no Museu Nacional Soares Reis, pelos promotores do III Congresso dos Advogados Portugueses, sublinha a incompatibilidade da profissão de advogado com o exercício da pintura[2]:



“… Esse foi o drama do Artista Arlindo Vicente, vivido em todos os minutos da sua vida. Mas de qualquer modo realizou ele uma obra que bem nos documenta sobre a força do seu talento, o esforço do seu percurso, e os altíssimos momentos que nele conseguiu atingir. Peças há nesta colecção que são alguns píncaros da pintura do seu tempo, em Portugal…”



Mas para além de uma grande ligação à família, da dedicação à profissão e do amor à arte, existe em Arlindo Vicente, um forte sentimento do dever cívico, de responsabilidade social, que lhe vem sem dúvida desde os bancos da escola, e que o leva à participação na vida política. E esse sentimento marca profundamente a sua vida. Analisando as atitudes que tomou ao longo dos anos, chega-se à conclusão que não o move uma paixão desenfreada pelo poder ou pelo mediatismo. Essa paixão, perfeitamente detectável noutros políticos, em Arlindo Vicente dava lugar a uma grande solidariedade com os desfavorecidos aliada a uma forte consciência cívica. Talvez por isso Mário Soares, segundo João Alves Falcato, o ache “um analfabeto político”[3]. Trata-se sem dúvida de uma injustiça, mas há evidentes diferenças de estilo entre o perfil de Arlindo Vicente e o de outros políticos que dominam a vida portuguesa dos últimos tempos, sobretudo desde o advento do Estado Novo. E é preciso salientar que Arlindo Vicente vem a pagar muito caro pelas suas atitudes políticas. A prisão que sofre em 1961-62 prejudica gravemente a sua vida profissional e familiar, assim como a sua saúde, sofrendo um enfarte de miocárdio na prisão. Não sendo comunista, participa em iniciativas que o PCP lança, e sofre as respectivas consequências. Não hesita nunca em mostrar a sua discordância com o regime salazarista, como o atestam os 13 processos com o seu nome existentes nos arquivos da PIDE/DGS.

Recusa sempre a protecção do regime. Não se deixa seduzir pelas manifestações culturais oficiais, incluindo as promovidas sob a égide de António Ferro, que chegam a atrair artistas da estirpe de Almada Negreiros. Após a deriva nacionalista dos primeiros anos de Lisboa, começa a frequentar a tertúlia da pastelaria Veneza, em Lisboa, onde conhece o escritor Ferreira de Castro, com o qual entabula uma amizade que dura a vida toda. A tertúlia da Veneza inclui ainda outras figuras de intelectuais, como Assis Esperança, Câmara Reis, Mário Domingues, Álvaro Salema e Julião Quintilha, conotados com a oposição ao Estado Novo. A adesão de Arlindo Vicente ao MUD vem sem dúvida na sequência destas ligações.

É um elemento activo na organização de iniciativas como as Exposições Gerais de Artes Plásticas, na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), a partir de 1946, que muito contribuem para que os artistas portugueses alinhem maioritariamente contra o regime ditatorial, até como resposta à repressão que se abate sobre a instituição. Arlindo Vicente não se limita a expor as suas obras. Participa na elaboração dos novos estatutos da SNBA, colabora com os júris das exposições e chega a fazer parte dos corpos gerentes. Também, como advogado, representa a SNBA.

Entretanto, Arlindo Vicente participa cada vez mais intensamente na vida política portuguesa. Defende nos tribunais elementos do MUD acusados de responsabilidade num panfleto relativo à adesão de Portugal à ONU. Participa activamente nas movimentações da Oposição que, ao longo da década de 50, procuram enfrentar o regime fascista, e dar corpo à luta política. Os documentos da PIDE dão uma ideia clara sobre o temor que Arlindo Vicente inspira aos responsáveis do regime.

Um exame atento dos episódios que integram a sua candidatura à Presidência da República mostra bem a personalidade de Arlindo Vicente. Por um lado ressalta a sua segurança no campo das ideias, e o destemor em enfrentar a repressão feroz que se abate sobre a Oposição. Por outro, a modéstia e o equilíbrio da sua conduta, que fazem com que só avance para a candidatura quando percebe que os indivíduos que julga com idoneidade suficiente para o fazerem não vão avançar. Por último, não ambiciona o poder pelo poder, e como tal, desiste a favor de Humberto Delgado ao constatar o grande entusiasmo popular que a candidatura deste desperta.

No fim da década de 50 e o início dos anos 60 a ditadura salazarista entra em estertor. A União Indiana, em 1961, ocupa Goa, Damão e Diu. E no mesmo ano começa a guerra de Angola. Decorre o episódio do desvio do paquete Santa Maria. No fim do ano, é o assalto ao quartel de Beja. O regime procura organizar eleições para mostrar uma fachada de democracia, mas acossado por todos os lados, procura neutralizar uma individualidade capaz de lhe fazer frente. Prende Arlindo Vicente e monta um simulacro de processo para o neutralizar. Contudo, este, apesar da saúde muito abalada, continua a participar na vida política.

Em 1974, já reformado da advocacia, entrevistado pelo Comércio do Porto, afirma querer aproveitar o tempo que lhe resta de vida para pintar muito, mas que nunca abandonará a política, que considera uma obrigação que respeitará até à morte.[4]

[1] Arlindo Vicente – Centenário do Nascimento, págs. 169 e 170.

[2] Transcrito da Agenda Municipal da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro, Março-Abril de 2006

[3] Ver Seara Nova n.º 1696, Verão 2006.

[4] Arlindo Vicente – Pintor que foi Candidato à Presidência da República, por Jaime Ferreira, in Centenário do Nascimento, págs. 97 e 98.




O CIDADÃO

Arlindo Vicente não é efectivamente um “animal político”, como os que têm dominado a cena nacional. É desde sempre profundamente avesso à ditadura, que lhe repugna visceralmente. Basta ler as referências que faz a Salazar, cuja reputação já conhecia desde o seu tempo de estudante, para perceber como desde sempre detestou o clima reinante sob o Estado Novo. João Alves Falcato conta que, quando Arlindo Vicente era ainda estudante em Coimbra, já tem uma opinião negativa a respeito de Salazar, que na altura é professor na Universidade. Numa entrevista ao Diário Notícias, em 1977, referenciada por Miguel Dias Santos, traça o perfil psicológico do ditador, explicando claramente como este procede para dominar Portugal durante tantos anos.[1] Também num texto elaborado pelo Dr. António Pedro Vicente, filho mais novo de Arlindo Vicente, se salienta a enorme contradição entre a personalidade deste e as características do regime implantado por Salazar.[2]

O sentido fraterno de Arlindo Vicente, a sua enorme humanidade, a solidariedade que tem para com o seu semelhante, está bem patente na amizade que o liga ao artista plástico Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957), um dos maiores expoentes do neo-realismo, claramente expressa nos textos que sobre ele escreve.[3]

Para além das suas qualidades humanas, Arlindo Vicente tem um espírito profundamente participativo, que o leva a integrar-se facilmente nos meios artísticos e intelectuais. Frisa-se que não tem uma ideologia definida, mas que é desde que se conhece a si próprio um humanista e um democrata. Isso leva-o a integrar-se nas correntes de oposição ao regime ditatorial. E a assumir papeis importantes na movimentação da Oposição, culminando com a sua candidatura à Presidência da República. Arlindo Vicente não é um “Vencido da Vida”[4], nunca desiste de lutar por alcançar os ideais que o animam. Continua até ao fim dos seus dias a pintar, tentando recuperar o tempo perdido com outras ocupações. E mantém-se no activo na política, apesar dos seus problemas de saúde, muito agravados com a prisão que sofreu. Quando vem o 25 de Abril chega a anunciar o seu regresso à política, numa entrevista ao jornal A Capital[5]. Morre pouco mais de dois anos depois. À maioria da opinião pública passou despercebida a sua morte. Contudo, hoje em dia, de vários lados procura-se reconhecer a importância da sua intervenção, na política e na arte, e o valor do seu perfil pessoal. O melhor elogio que se lhe pode fazer é dizer, com todo o rigor, que Arlindo Vicente foi um exemplo de cidadania.



Fontes:

Arquivo PIDE/DGS da Torre do Tombo

Vida e Obra de Arlindo Vicente – sítio na Internet, da responsabilidade do Jornal da Bairrada, Fórum da Bairrada e Museu de S. Pedro da Palhaça

Agenda Municipal da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro

Arlindo Vicente – Centenário do Nascimento. Edição da Comissão Promotora das Comemorações. Câmara Municipal de Oliveira do Bairro.

Seara Nova

Dicionário de Pintura Universal – Estúdios Cor - 1973

Dicionário de História do Estado Novo, de Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito. Bertrand Editores

[1] Seara Nova n.º 1696, Verão 2006 e Arlindo Vicente – Centenário do Nascimento, pág. 154.

[2] Vida e Obra de Arlindo Vicente – Sítio na Internet.

[3] Arlindo Vicente – Centenário do Nascimento, págs. 124 e 125 e 135 a 137.

[4] Os Vencidos da Vida foram um grupo de figuras ligadas à geração de 70, que nos últimos anos do séc. XIX, se reuniam regularmente para jantar. Dele fizeram parte figuras como Eça de Queirós, Ramalho Ortigão e Oliveira Martins. Apesar de a certa altura terem chegado a pensar intervir na vida política, na essência o que os unia era a constatação de já não poderem alcançar os ideais da juventude, apesar de na maioria serem pessoas de sucesso nas suas actividades.

[5] Citada por Miguel Dias Santos, na Conclusão a Arlindo Vicente – Centenário do Nascimento, pág. 155.