Sete castelhanos dentro do forno...

Brites de Almeida

Padeira de Aljubarrota:
1350 (?) - (?)



Quando tudo aconteceu...

1350 (?): Nascimento de Brites de Almeida. – 1370 (?): Brites fica órfã. – 1375 (?): Brites mata um abusador soldado alentejano. – 1376 (?): Brites escrava em Argel. – 1377 (?): Brites foge de Argel, regressa a Portugal. – 1383 (?): Brites aceita ser ajudante de padeira em Aljubarrota. – 1385: Nos campos de Aljubarrota, 7.000 soldados portugueses vencem 30.000 castelhanos; com a sua pá, Brites mata 7 soldados castelhanos escondidos dentro do forno da sua padaria. – 1389 (?): Brites casa com um lavrador.

Ler mais...




MARIA RAPAZ

Render-se, entregar-se ao mais forte, àquele que impõe a sua vontade e só deseja dominar? Não, Brites de Almeida, tu não és e nunca foste dessa laia. Não te conheço bem, há poucos dados reais sobre ti, serás antes uma lenda que, desde o século XIV, pegou de estaca e alastrou pela alma portuguesa. Porém, vamos lá saber da tua vida, seja ela fantasia ou realidade, ou talvez o cruzamento de uma com a outra.

Cerca de 1350 terás nascido em Faro, ou em Loulé, ou numa póvoa entre um e outro burgo, Algarve, sul do país.

Os teus pais são muito pobres, vivem dos magros lucros que lhes dá uma pequena taberna.

Nasces e logo te revelas menina robusta. Os teus pais ficam muito contentes, irão ter uma preciosa ajudante nos trabalhos quotidianos, lavar e encher as pipas, servir canecas de vinho aos clientes. Enganam-se, coitados... Basta um garoto chegar à porta da taberna a provocar-te com um dichote, para largares logo o trabalho que tens em mãos e correres atrás do provocador. Se consegues apanhá-lo, dás-lhe um enxerto de porrada que ficará famoso. E tantos são os enxertos que rapidamente ganhas a alcunha de Maria Rapaz.

Ó Brites, creio entender-te: não é a chalaça que te tira do sério, mas a arrogância masculina sempre a exigir a submissão feminina. Ou seja: canga, seja ela qual for, tu não aceitas.

Cerca de 1370, terás tu uns vinte anos, ficas órfã. Não te apetece continuar o negócio do teus pais, porque ele obriga a muitas curvaturas de espinha ante os clientes. Vendes os parcos bens que herdaste e metes-te a caminho de serra em serra, de praia em praia, de terra em terra, de feira em feira. Ao relento, dormes ao lado de vagabundos, soldados, frades e pedintes, mas ai daquele que tentar apalpar-te tirando partido do teu sono...

Comida? Muitas vezes apenas uma côdea e meia dúzia de azeitonas.

Ora com este, ora com aquele, praticas o jogo do pau, logo a seguir aprendes a esgrimir e rapidamente ganhas fama de valentona. É quanto basta para que um dia um soldado alentejano, sorrindo, por escárnio te proponha casamento. Também sorrindo, tu respondes:

- Vamos lutar. Se venceres, serei tua mulher.

- Vamos a isso!

Espada ensarilhada contra espada, ó Brites, evitas um bote e dás uma cutilada tão profunda que o soldado tomba morto. Tens agora um grave problema pela proa porque matar um soldado é crime, seja em que circunstância for. Para fugir da mais que certa prisão resolves abalar para Espanha. Embarcas na Ria Formosa, em Faro, mas não consegues chegar à Andaluzia porque piratas mouros tomam a nave em que viajas e vendem-te como escrava a um grande senhor da Argélia, dono também de dois outros portugueses.




ARGEL, IDA E VOLTA

Estou a ver-te, ó Brites. Tu, que nunca aceitaste qualquer jugo, por mais suave que fosse, acabas de ser promovida a escrava. Está-se mesmo a ver que esta situação não vai prolongar-se indefinidamente, ó então não te conheço, ó Brites!

E realmente não se prolonga, embora trates de fingir que já estás domada. É a tua manha, é a tua ronha a abrir nova estratégia de combate... Ao fim de um ano mobilizas os outros dois portugueses e, ao anoitecer, vocês apanham a sonolência do vosso dono para lhe cravar uma adaga no peito. Ou seja: matam, sem dó nem piedade, a quem vos roubara a liberdade...

Antes que seja descoberto o homicídio, vocês correm silenciosamente para o porto de Argel, ali se apoderam de uma embarcação, fazem-se ao mar e tentam alcançar a costa portuguesa.

Por vosso azar, temporal desgarrado vos apanha, rasgam-se as velas, parte-se o mastro e o timão, andais à deriva dias e noites. Por fim, sem saber ao certo como isso foi possível, arribais à Ericeira, porto a meio da costa ocidental portuguesa.

Tu, ó Brites, temes que a justiça ainda queira deitar-te mão por causa da morte do soldado alentejano. Por isso dizes aos teus dois companheiros de aventura que sigam os seus próprios caminhos. E eles seguem... E tu disfarças-te de homem, compras um macho e duas mulas e começas a transportar mercadorias de terra para terra, almocreve.

Mas essa actividade, ao fim de um certo tempo, começa a fatigar-te, já não tens nem 15, nem 20 anos...




ALJUBARROTA

Passas por Aljubarrota, burgo não muito longe do litoral. Numa taberna ouves uma conversa que desperta a tua curiosidade: a padeira da terra está muito velha e cansada, precisa encontrar urgentemente uma ajudante. Bebes mais uma caneca de vinho e arrancas, vais bater à porta da padeira. Ela mira demoradamente o teu rosto e os teus braços, parece impressionada com a tua frontalidade e o teu físico, contrata-te como ajudante.
Dois ou três anos depois morre a padeira e tu recebes, de herança, a padaria.

Ficas tranquila? Nem por isso, porque há notícias preocupantes a correr por todo o Reino: Leonor Teles, a viúva d’El Rei D. Fernando, tem uma filha, D. Beatriz, casada com El Rei de Castela. E este, aconselhado pela sogra, a pretexto de defender os interesses da esposa pretende arrochar a pata sobre todos os portugueses, desde a arraia-miúda, à burguesia e à nobreza.

Juan de Castilla começa por cercar a cidade de Lisboa. Quem salva os lisboetas é não só a determinação da arraia-miúda em resistir, antes quebrar que torcer, mas também uma peste providencial que se abate sobre as hostes castelhanas.

Mais tarde portugueses e castelhanos defrontam-se nos campos de Atoleiros, perto de Fronteira. A vitória pende para o nosso lado porque o Condestável D. Nuno Álvares Pereira ensaia a técnica do quadrado que bebera na estratégia militar de Alexandre Magno. Para alguma coisa servem os livros com mais de mil anos de existência...

Mas a batalha decisiva vai acontecer em 14 de Agosto de 1385 nos campos de Aljubarrota, 7.000 guerreiros portugueses contra 30.000 castelhanos. Estes sorriem do reduzido número de adversários, arrogância. Comandam as nossas tropas o Condestável D. Nuno Álvares Pereira e o Mestre de Avis (D. JOÃO I). Mas a técnica do quadrado foi apurada e, apesar da desproporção numérica, os castelhanos outra vez são derrotados, gritos, relinchos, desespero.

Tu, Brites, ouves o fragor da batalha e não te aguentas, o teu antigamente vem à tona. Corres para o campo da peleja, recolhes a espada de um moribundo e tratas de juntar-te à tropa portuguesa e à arraia-miúda que perseguem os fugitivos, quem manda em Portugal são os portugueses, quero lá saber de Leonor Teles, a grande puta, e de Beatriz filha da puta!

Desgrenhada, esfarrapada, ensanguentada, ao anoitecer chegas a casa. Estranhas que a porta do forno da padaria esteja fechada quando tens a certeza que a deixaste aberta. Tratas de reabri-la e dentro do forno vês sete soldados castelhanos que fingem dormir. Agarras na pá de ferro e começas a arrear porrada valente em todos eles. Gritando de dor, vão todos saindo, um a um. É quanto basta para que, dando um golpe na nuca de cada qual, todos eles tombem mortos.

Este feito de, à saída do forno, matar à pazada sete castelhanos, é que te dá fama. Fantasia ou realidade? Talvez uma entrançada com a outra, a bordar lenda que, desde o século XIV, prova que em Portugal só mandam os portugueses, e bem lixado está quem tal não queira entender!




CASAMENTO

Ó Brites, já te chamaram Maria Rapaz, já mataste um soldado alentejano que quis tirar partido de ti. Mas a vida dá muitas voltas e um dia sentes uma queda por um lavrador ali dos campos de Aljubarrota. Nada te exige, nada te impõe, quer apenas dar-te amor e de ti receber amor em troca. Ficas embevecida, cedes e, perto dos teus 40 anos, casas. Consta que, do teu lavrador, ainda tiveste vários filhos.




A PÁ

E mais não sei de ti, ó Brites. Nem sequer o ano da tua morte.

Mas de outra coisa sei eu: comemorando a vitória dos portugueses sobre os castelhanos, todos os anos, a 14 de Agosto, há uma procissão em Aljubarrota. E à frente dessa procissão vai sempre a pá de ferro com que mataste os sete castelhanos.

E doutra coisa também sei: três reis castelhanos, os Filipes, dominaram Portugal de 1580 a 1640. Durante esses 60 anos a tua pá esteve escondida dentro da parede de uma casa de Aljubarrota. E só no 1.º dia de Dezembro de 1640, em que foi restaurada a independência de Portugal, é que a tua pá saiu da parede cá para fora. Hoje continua a ser exibida publicamente nas procissões de 14 de Agosto.

Ah grande Brites de Almeida, ah grande padeira de Aljubarrota!