"Sempre tratei os meus doentes com igual cuidado, quer fossem pobres ou nascidos em nobreza, sem procurar saber se eram hebreus, cristãos ou sequazes da lei Maometana."

Amato Lusitano

Judeu português, médico e escritor:
1511 - 1568



Quando tudo aconteceu...

1511: Nasce em Castelo Branco (lat. 39.75º N e long. 08.50º W), João Rodrigues. – 1533: João Rodrigues de Castelo Branco, conclui o Curso de Medicina, na Universidade de Salamanca. – 1533/1534: Vive e exerce em Lisboa (lat. 38.75º N e long. 09.25º W). Parte para Antuérpia. – 1534/1541: Vive em Antuérpia (lat. 51.40º N e long. 04.50º E ). – 1536: Publica o seu primeiro livro o «Index Dioscoridis». – 1541/1547: É professor na Universidade de Ferrara (lat. 44.75º N e long. 11.50º E). Encontra João Baptista Canano. – 1541: Inicia a escrita da 1.ª Centúria. – 1547/1555: Passa a viver em Ancona (lat. 43.60º N e long. 13.25º E). – 1555/1556: Muda-se para Pesaro (lat. 43.70º N e long. 12.50ºE), mas durante pouco tempo. – 1556/1558: Vive em Ragusa, hoje Dubrovnik (lat. 42.40º N e long. 18.00º E). – 1556: Escreve a 6.ª Centúria (Ragusina). – 1558/1568: Vive em Tessalónica, hoje Salónica (lat. 40.30º N e long. 23.00º E). – 1561: Escreve a 7.ª e última Centúria. – 1568: Morre em Tessalónica, de peste.

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PORTUGAL, CASTELO BRANCO, 1511

- Parabéns, mulher. Que rico filho me deste. Vai chamar-se João. João Rodrigues. Não vai precisar de mais nomes. As pessoas são o que são e o que fazem de si. Nunca serão o que os outros fazem delas.
- Que cresça bem e lhe possamos dar todo o amor e ajuda de que vier a precisar. Parabéns, mulher. Temos um filho. Um homem.
- Cresce, filho. Cresce.
- Já viste, mulher, como o nosso João está grande? Já reparaste como é atento à vida, inteligente e estudioso? Já viste como ele mantém conversas interessadas com os mais velhos?
- Este nosso João vai longe, mulher. Vai longe. E não lhe faltará a nossa ajuda.
- Mulher, vai custar-nos muito, mas temos de mandar o nosso João estudar em Espanha. Em Salamanca. A Universidade de Lisboa está de rastos, segundo me dizem.
- Para o nosso filho tem de ser a melhor, porque ele merece.
- Quer ser médico e será.
- Vai para Salamanca, está resolvido. E sempre te digo, mulher, que a distância é a mesma que a Lisboa.
- Como te «lhamas», amigo?
- João. João Rodrigues.
- De onde vens e onde nasceste?
- De Portugal. Em Castelo Branco.
- «Pues ahora te llamarás João Rodrigues de Castelo Branco».
- Parabéns, João. És o orgulho dos teus pais. Estudaste. Cumpriste. És médico e licenciado pela Universidade de Salamanca.
- Agora a vida é tua. Vai em frente. O mundo espera-te. Não faças como eu, agarrado que nem uma lapa a este berço de pedra.
- Sempre que sentires que deves ir em frente, vai. O caminho, faz-se caminhando, digo-to hoje, quatro séculos antes de alguém o voltar a dizer para a História.
- Sinto, meu pai, que a minha vida se vai fazer de saltos, para a frente e para o alto. Umas vezes empurrado pelo destino, outras pelo desejo.
- Sinto, meu pai, que os tempos estão maus e vão piorar ainda. A Inquisição não nos vai dar descanso e vai seguir-nos até nos poder apanhar nos seus longos braços e tentáculos.
- Temos que estar atentos, sempre despertos e capazes de dar resposta a esse perigo, mesmo que tenhamos que fazer um pouco mais de caminho. Assim me obrigam e assim farei.
- E vós, meus pais?
- A nossa idade é outra, João. Por agora a Inquisição ainda está em estado larvar, lá para Lisboa.
- Ainda vai demorar algum tempo até ficarmos em perigo. Já não a receio, meu filho! Mas tu, vai. Faz o teu caminho.
- Adeus, meus pais. Vou direito a Antuérpia, onde não me faltarão clientes e amigos portugueses.
- Muitos judeus ricos já deixaram Lisboa há algum tempo e por lá se instalaram. Farei como eles.
- Adeus meu pai.
- Adeus minha mãe.




ANTUÉRPIA

Florescente cidade europeia, onde todos os dias chegam mais e mais judeus. Eles, as famílias, os criados, o dinheiro e a apetência para o ganhar.

Entre os judeus há uma grande colónia de portugueses que ali continuam as suas actividades mercantis e aumentam a sua prosperidade económica e influência social.

Quando João Rodrigues de Castelo Branco chega a Antuérpia logo os contacta. A diáspora acolhe-o de braços abertos.

Com esse apoio, médico, licenciado, interessado e culto, rapidamente atinge notoriedade, passando a ser médico de famílias influentes, no domínio das actividades mercantis, da banca e da nobreza.

Amato é um poliglota. Domina o Latim, o Grego, o Hebraico, o Árabe, o Português, o Castelhano, o Francês, o Italiano, o Alemão e, presume-se, o Inglês.

É por essa altura que resolve mudar o seu nome para Amato Lusitano. Nome que escolhe para assinar as suas obras e que se supõe ter feito derivar da tradução latina do nome hebraico da família, Habid, que naquela língua significa querido ou dilecto.

É com este nome que passa a ser celebrado em toda a Europa, o que, nesse tempo, é o mesmo que dizer em todo o mundo civilizado.

Os doentes são cada vez mais e os proventos acompanham esse crescimento de prestígio.

Nada faria supor que passados alguns anos irá abandonar a cidade que tão bem o recebeu e onde iniciou uma vida de prosperidade e êxitos médicos.

Em 1536 publica a sua primeira obra, o «Index Dioscoridis», que ainda não assina como Amato Lusitano.

Mas a Inquisição espreita e, mesmo quando não presente, cria uma instabilidade e um receio que levam os mais precavidos a dar nova orientação às suas vidas.

Catherine Clément, a actual e famosa escritora de romances históricos, no seu mais conhecido e talvez mais interessante livro, «A Senhora», publicado em 1992, faz de Amato um dos elementos socialmente destacados da Antuérpia daquele tempo e peça importante da trama romanesca, contada na primeira pessoa, por Josef Nasi, sobrinho de Beatriz de Luna ou Gracia Nasi, nascida precisamente um ano antes de Amato Lusitano.

O médico português, é referido habitualmente como Lusitano ou bom Lusitano, é apresentado como um amigo da família e dele se diz na página 78 da tradução portuguesa, que «se tornou o grande, o querido Amato Lusitano, nosso médico, que por sua bondade e paciência bem terá merecido o apodo de Angelicus».

E na página 112 lê-se que «Lusitano predizia que fora do Império Otomano não haveria em breve outro lugar de refúgio para os Marranos. O que é que restava na Europa? Talvez Ferrara. O duque de Este mantinha uma tolerância pacífica, protegia corajosamente os seus judeus e fazia abertamente profissão de humanismo. Ferrara? ...».

Percebe-se bem que quem tinha tal convicção, tivesse feito da sua vida uma autêntica peregrinação através da Europa, do Norte ao Sul e também a Leste.

É dado como tendo acompanhado o grupo dos fugitivos judeus, onde se incluem Beatriz de Luna e Josef Nasi, que se dirige de Antuérpia para Istambul.

Ter-se-á separado deles em Ancona, com uma justificação verdadeiramente amatiana – «em Ferrara, os nossos amigos (judeus) necessitam mais dos meus serviços do que vós, que encontrareis em Istambul toda a casta de excelentes médicos».

Não se viram mais, mas Amato dedicará a Quinta Centúria de Curas Medicinais a Josef Nasci.




DE ANTUÉRPIA A SALÓNICA

Em 1541 e a convite do Duque d'Este, aceitou reger uma cadeira na Faculdade de Medicina de Ferrara (Studium Generale), que era uma das mais prestigiadas e afamadas Universidades de Itália.

Apesar de só ter vivido seis anos em Ferrara, foram tempo bastante para cimentar uma forte amizade com o seu assistente João Baptista Canano, que viria a ser um anatomista ilustre e peça central de uma questão de autoria, disputada entre ele e Amatus.

Seis anos depois, em 1547, já João Rodrigues de Castelo Branco se tinha mudado para Ancona.

Mas não foi ainda em Ancona que Amato Lusitano iria estabilizar, pois oito anos depois, em 1555, mudou-se para Pesaro, numa tentativa de se afastar do perigo inquisitorial que a entronização de Paulo IV como Papa, representava. Este corporizava o Papa da Contra Reforma e esperava-se um aumento das perseguições a judeus.

A estadia em Pesaro durou apenas um ano, findo o qual Amato Lusitano se muda para Ragusa, hoje Dubrovnik, aceitando finalmente um convite que lhe tinha sido feito aquando da sua estadia em Ferrara.

Foi em Ragusa que escreveu a sua Sexta Centúria.
Lá conviveu com outro ilustre português, como ele expatriado, e seu antigo companheiro de Salamanca, Diogo Pires, natural de Évora.

Além de Diogo Pires, sabe-se que teve ali grandes amigos, como João Gradi, proprietário de vários navios.

Foi de um dos navios de João Gradi que veio o marinheiro que deu origem à Cura centésima da Sexta Centúria, uma primorosa descrição dos traumatismos cranianos.

Amato parece ter gostado muito de viver em Ragusa e sobre ela escreveu na Sexta Centúria que «A cidade de Ragusa é pequena, mas antiga, semelhante a Veneza. Está situada junto ao mar Ilírico (hoje Adriático), entre elevações rochosas, voltada para o sul. Por isso ela fica exposta aos ventos austrais, estando as pessoas sujeitas a mais frequentes e graves doenças durante o Inverno. Produz vinhos fortes, mas pouco saudáveis, escassa fruta e nenhum trigo, visto que não tem campos. A forma de governo é a república, mas nele só a classe nobre é admitida, constituída por homens políticos, bastante ricos e sóbrios. Além da aristocracia há uma numerosa classe popular de que uma parte são mercadores, pessoas bastante civilizadas, comerciando, como os patrícios, por muitas partes do mundo em grandes e magníficos navios. A restante parte da população é inferior e dominada pela pobreza.»

De pouco lhe serviu ter servido nobres e poderosos, desde o Papa Paulo III de quem foi médico pessoal, até às melhores Casas Senhoriais de Veneza e Florença.

Amato Lusitano teve sempre necessidade de se afastar um pouco mais dos tentáculos da Inquisição, numa estratégia de gato e de rato.

O poder eclesiástico sobrepunha-se a todos os poderes, não deixando dúvidas que nenhum outro, nem a amizade, conferiam segurança.

Só mais uma vez se mudou Amato Lusitano.

Em 1559, pensou, e bem, que a única forma de não ser apanhado num abraço de morte por aqueles braços que se lhe estendiam, era ir viver e fixar-se em lugar onde a Inquisição não pudesse realmente chegar.

Resolveu fixar-se então em Salónica que se encontrava sob o domínio do Sultão da Turquia.

E em boa hora o fez, pois ali pôde viver tranquilo e em paz, até a morte o ter apanhado, apenas com 57 anos de idade, durante uma epidemia de peste, e quando contra ela combatia.

Como médico, podemos dizer que morreu em combate.

Eram longos os braços da Inquisição, como se depreende da leitura de uma listagem estudada por J. Lúcio de Azevedo, existente nos documentos da Inquisição – Cod. 1506 e nas folhas 66 e seguintes, onde no seu número 16 se regista que «O físico Amato Lusitano, de Castel Branco, fugio para o grão Turco». Até ali foi referenciado!

A sua curta vida foi bastante para afirmar o seu nome em toda a Europa erudita, para ter convivido e ser amigo das figuras ilustres daquele tempo, para ser objecto de inveja e perfídia, de difamação e aplausos, mas imensamente curta para quem tanto tinha a dar.

Além das Sete Centúrias, escreveu «Comentários a Dioscórides» e «Enarrationes Eruditissime». E acima de tudo, escreveu em Salónica o seu famoso «Juramento de Amato», fazendo parte da Sétima Centúria.




AMATUS E A CIRURGIA

Amatus Lusitanus invadiu frequentemente o domínio da Cirurgia, não se limitando à visão médica dos problemas que se lhe deparavam.

Ficaram conhecidas e célebres as suas opiniões sobre os locais indicados para executar as sangrias, como famosa ficou a sua descrição pioneira das válvulas da veia ázigos.

E não só se limitou a ter opinião sobre assuntos cirúrgicos, como frequentemente invadiu a prática cirúrgica realizando intervenções, as mais variadas, como trepanações, toracotomias, herniorrafias, drenagens de hidrocelos, uretrolitotomia, tratamento de hipospádias, fimose, fístula recto-vaginal e operação de um hermafroditismo referido por Brás Luis de Abreu, no seu livro «Portugal Médico....», que na página 12 e no número 41, diz que «de huma nossa Portuguesa faz menção Amato Lusitano, que sem ser hermafrodita, foi Molher com o nome de Maria Pacheca athé a idade da menstruação; e nesse tempo se converteo repentinamente em homem, e se chamou Manoel Pacheco. Foi natural da Villa de Esgueira.»

Mas foi o tratamento dos Apertos da Uretra que lhe trouxe grande notoriedade, e mais uma controvérsia sobre a verdadeira autoria da técnica.

Discute-se se o introdutor deste tratamento, teria sido Amato Lusitano, Alderete ou Filipe Velez.

Francisco Diaz, contemporâneo de Amato, no seu livro sobre «Enfermedades de los Riñones, Bexiga y Carnosidades de la Verga», nega qualquer influência de Alderete na técnica do tratamento dos apertos da uretra, e considera um erro que Amato, numa das Centúrias, considere Alderete como o introdutor das dilatações da uretra.

Maximiano de Lemos diz que foi em 1533 ou 1534, último ano que Amato passou em Portugal, que ele praticou pela primeira vez o «Processo das Velinhas» num homem de 25 anos que tinha andado pela Índia e por África e que, como consequência de uma blenorragia, apresentava um aperto na uretra.
E esta faceta de Amato é tanto mais de espantar quanto é certo que os médicos desse tempo, e ainda os dos dois séculos que se lhe seguiram, tinham pela Cirurgia e pelos cirurgiões uma baixa estima, ou mesmo desprezo, e, em geral, limitavam-se a ver e a indicar com a ponta das suas bengalas o local onde o prático cirurgião devia sangrar ou amputar.

Inventou e descreveu uma prótese para a abóbada palatina, para resolver as fendas palatinas, que alguns atribuíram ao grande Ambroise Paré. Hoje em dia, segundo vários autores, entre os quais se encontram Leibowitz, Samoggia e Paiva Boléo, parece não restar qualquer dúvida que a invenção teria sido de Amatus e que Paré se terá limitado a usá-la, em doentes seus.

Esta prótese para a fenda palatina, ou Obturador, é descrita na Cura 14 da Quinta Centúria, como sendo um instrumento composto de huma lamina de ouro, que por meio de huma hasteasinha se engastava em huma esponja, a qual se adoptava ao buraco, aonde se conservava por dilatação, que a humidade lhe fazia adquirir. Por este modo remediou o defeito de deglutição, e pronuncia, que hum homem padecia, pela existencia de hum tal buraco.





AS GRANDES CONTROVÉRSIAS

Por terem opiniões diversas sobre qual seria o melhor local para sangrar, em casos de pleurite, estabeleceu-se uma disputa entre Amatus, Vesálio, Falópio e Eustáquio.

Em oposição a Vesálio, Amatus defendia que se devia sangrar do lado da pleurite enquanto aquele dizia que se devia sangrar sempre no braço direito.

Foi durante esta discussão que Amatus se referiu pela primeira vez à existência de válvulas na veia ázigos.

Mas não só nas questões do local para sangrar ou das válvulas venosas se forjaram ataques a Amato.

A propósito da publicação dos seus Comentários a Dioscórides (In Dioscoridis Anazarbei de medica materia ...), Pietro Andrea Mattioli atacou forte e feio, publicando em 1558 «Apologia adversus Amatum Lusitanum».

Chegou à ignominia de lhe chamar marrano, denunciando-o desse modo à Inquisição, e à deselegância de lhe acrescentar uma letra ao seu nome, escrevendo Amathus, tentando assim um trocadilho com a palavra latina que significava ignorante ou sem ciência.

Esta controvérsia foi tão divulgada que quando Johann Bauhin publicou o seu livro «História Plantarum Universalis», colocou os dois no rosto do livro com referência à controvérsia havida (Dissentimus).

A importância de Amatus Lusitanus na medicina da época pode avaliar-se pelos nomes daqueles que se bateram ou discutiram com ele.
Não fosse Amato alguém respeitado e conhecido e não veríamos por certo Vesálio, Falópio, Eustáquio ou Mattioli a perderem tempo em longas discussões com ele.

Outro qualquer seria ignorado. Mas contra Amatus lutava-se, porque era um par.

Para os portugueses de hoje, é agradável ler que as Centúrias são una della maggiori testimonanze dello stato della Medicina nel cinquecento, como Mirko Malavoti afirma em livro editado pelo Istituto di Storia della Medicina dell' Universitá di Roma.

Enche-nos de satisfação saber que Max Solomon considera Amato como o Homem que representa a Medicina do Século XVI, como erudito, anatomista e clínico.

Mas mais interessante teria sido que Amatus pudesse ter tido a tranquilidade de se dedicar livre e inteiramente aos estudos e ao ensino médico, sem aquela contínua e larvar inquietação e sem o receio que a sua condição de criptojudeu lhe criava, face a uma Inquisição que não perdoava a ninguém uma maneira de pensar diferente.




A QUESTÃO DAS VÁLVULAS DA VEIA ÁZIGOS

Foi o caso que mais celeuma deu e que chegou a ter contornos pouco limpos, quase mafiosos – a descoberta das válvulas, ou os ostíolos, da veia ázigos.

Esta descoberta e revelação compartilhou-a com o seu assistente João Baptista Canano, o que não impediu que Amatus tivesse sido vítima de um agravo e tenha sido acusado de plágio por parte daqueles que atribuíram a Canano a descoberta das válvulas.

E nessas acusações, chegou-se à situação extrema e parcial, em que aqueles que não acreditavam na existência das válvulas, acusavam Amatus de se referir a elas e de defender a sua existência e aqueles que acreditavam, acusavam Amatus de plágio e diziam que o inventor tinha sido João Baptista Canano.

Se pensarmos que Canano, insigne anatomista e assistente de Amatus, destruiu, pelo fogo, toda a sua obra escrita e nunca fez referência às válvulas da veia ázigos, podemos inferir da honestidade e integridade de Amatus que, nas Centúrias, refere o seu colaborador Canano, ligando-o assim à descoberta das válvulas.

E se Amatus o não tivesse citado, nunca Canano teria visto o seu nome ligado àquela descoberta.




UM MAL PORTUGUÊS

Somos um povo de memória curta, quando temos muito para recordar.

Podemos dizer que neste pequeno país, saído da glória das descobertas, todos parecem ter esquecido aqueles que forçadamente o abandonaram. Passaram dois séculos até que um português se lembrasse de Amato.

É certo que a Inquisição que o levou a abandonar o seu país, parece ter sido a única que com ele se preocupou, embora pela pior razão. Veja-se como ela se deu conta que ele tinha «fugido para o grão Turco».

Mas foi preciso chegar a 1788, para que um português, por sinal um Familiar do Santo Officio, lhe fizesse referências várias e as mais elogiosas.

Refiro-me ao Cirurgião Militar Manoel de Sá Mattos e ao que escreveu no seu livro «Elementos de Historia Chimico-Anatomica em Geral ou Compendio Historico Critico e Chronologico sobre a Cirurgia e a Anatomia que contem os seus principios, incrementos, e ultimo estado assim em Portugal, como nas mais partes cultas do Mundo; Com a especificaçom de seus principaes Authores, suas obras, vidas, methodo, e inventos desde os primeiros seculos até ao prezente. Obra dividida em três discursos ofrecida ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Duque de Alafoens».

Mas cometeu um erro histórico quando refere que Amato «tomou as letras ordinarias para Medicina nas Universidades de Coimbra e Salamanca». Ora nesse tempo a Universidade era em Lisboa e não em Coimbra. Perdeu a História, mas ganhou Amato e o país que o viu nascer.

Na páginas 120 do seu livro, escreveu Sá Mattos que o nosso Amato Lusitano «foy conhecido em toda a Europa, por hum dos mais acreditados Medicos Chirurgicos do seu século; dizemos Chirurgico, porque elle com desabuso não commum, amando mais a razão do que os supersticiosos costumes do seu tempo, hexercitou huma e outra Medicina indiferentemente».




UM ROSTO PARA AMATO

Não se sabe ao certo como era Amato.

Durante muito tempo pensou-se que ele seria tal como era mostrado numa gravura alemã do século XVII e que era propriedade de Annibal Fernandes Thomaz.

Esta gravura foi reproduzido por Ricardo Jorge e Maximiano de Lemos e tem aparecido em inúmeras publicações sobre Amato ou noutras em que seja citado.

Pensa-se hoje que isso não é verdade e que aquela gravura reproduz, e não podia ser maior a ironia, o seu inimigo Matiolo em traje de combate ...

A comunidade histórica inclina-se para que o rosto de Amato possa ser aquele que vem reproduzido na capa da «Historia Plantarum Universalis», onde juntamente com Matiolo e Guillandinus, compõem o «Dissentimus».

Por mim, prefiro que seja esse o nosso Amato. Não de traje de combate, e de perfil, mas antes olhando-nos de frente, olhos nos olhos e na cabeça aquela boina imensa, aquecendo as ideias...




CENTÚRIAS

Curationum medicinalium centuriae septem. Foi assim que Amato chamou à sua mais importante obra médica que foi escrevendo ao longo do tempo e nas várias cidades onde viveu.

As Centúrias foram escritas a pouco e pouco, como não podia deixar de ser, já que por Centúria se entende a descrição e apresentação de 100 casos clínicos.

Escreveu-as com a preocupação de lhes dar ordem e sistematização, numerando cada caso e dando título a cada um dos cem casos clínicos que compunham cada Centúria.

Continham uma pequena descrição do caso, o nome e a idade do doente, uma descrição precisa da doença, da terapêutica e da cura. E em relação ao tratamento juntava ou não opiniões de Hipócrates, Galeno ou Avicena.

Das muitas edições conhecidas, posso destacar as que foram impressas em:
Florença (1551) – Edição Princeps da Primeira Centúria
Veneza (1552) – Segunda Centúria
Veneza (1560, 1567 e 1580) – Primeira e Segunda Centúrias reunidas
Veneza (1556, 1565 e 1580) – Segunda, Terceira e Quarta Centúrias reunidas
Veneza (1563) – Quarta Centúria
Veneza (1556, 1557 e 1567) – Primeira, Segunda, Terceira e Quarta Centúrias reunidas
Veneza (1556, 1559 e 1580) – Terceira e Quarta Centúrias reunidas
Veneza (1560 e 1576) – Quinta e Sexta Centúrias reunidas
Veneza (1558) – Sexta Centúria
Veneza (1564 e 1580) – Segunda, Quinta e Sexta Centúrias reunidas
Veneza (1561, 1566, 1570 e 1580) – Sétima Centúria

As Sete Centúrias só foram publicadas num só volume, já Amato tinha morrido há 22 anos. A primeira edição da obra completa foi publicada em 1580, em Léon e foi seguida por outras e variadas edições como a de Alcaná de Henares, em 1584, as de Paris, em 1613, 1617 e 1620, a de Bordéus também em 1620, a de Genéve em 1621, a de Barcelona em 1628, a de Frankfurt em 1646 e a de Veneza em 1654.

Amato Lusitano demorou vinte anos a escrever esta sua mais importante obra. Iniciadas em Ferrara, em 1541, as Centúrias só seriam terminadas em 1561, já em Salónica.

Escreveu-as em latim, o que lhes assegurou a larga difusão que mereciam, com edições e traduções várias, que se calculam ser mais do que as 59 conhecidas.

Amato, ao contrário de muitos autores prestigiados daquela época, sempre se apoiou na literatura médica existente, uma clara marca que a sua formação universitária lhe tinha deixado.

Deve-se a Amato Lusitano a primeira descrição da encefalite letárgica e uma das primeiras descrições de um caso de púrpura.

Nos comentários à Cura n° 100 da Sexta Centúria de Curas Médicas, intitulada «De ferimentos na cabeça, com o crânio descoberto, e se é possível tratar-se com segurança por meio de remédios secantes ou por cataplasmas húmidas, como o digestivo de gema de ovo e semelhantes», usou o diálogo com os experientes e sabedores Cirurgiões Celetano e Vanuccio.

Provavelmente lembrando-se do caso e da morte de Henrique II de França, durante um torneio, resolve convidar os seus interlocutores a supor que um certo indivíduo caiu de um cavalo, ou foi ferido fortemente por qualquer objecto espesso e pesado.

A descrição do caso clínico é em tudo semelhante ao que se passou com aquele rei, mas neste caso não foi necessário «cortar as cabeças a quatro criminosos para que os cirurgiões pudessem simular o traumatismo e aprendessem com isso».

Talvez estes casos tenham levado a que Amato escrevesse que «Nesta nossa profissão, como muito bem sabem quantos a exercem, podem acontecer milagres e até se diz que a Medicina tem muito de Divino, mas temos que estar sempre atentos a todos os pormenores e aos mais pequenos sinais».




O JURAMENTO DE AMATUS

Na sua Centúria VII, apresenta o seu «Juramento», que nos traz à memória o célebre Juramento de Hipócrates que, ainda hoje, todos seguimos e juramos.

É sabido que Amato Lusitano tratou um Papa, cardeais, nobres, generais, mas também tratou soldados, mercadores, marinheiros, prostitutas...

Por isso pôde escrever no seu Testamento que «Sempre tratei os meus doentes com igual cuidado, quer fossem pobres ou nascidos em nobreza, sem procurar saber se eram hebreus, cristãos ou sequazes da lei Maometana; Sempre fui parcimonioso nos honorários e muitas vezes sem qualquer paga, tendo sempre mais em vista que os doentes recobrem a saúde do que tornar-me rico pelos seus dinheiros; Como autor de escritos médicos e ao publicar os meus livros quis só promover que a fé intacta das coisas chegasse ao conhecimento dos vindouros, sem outra ambição que não fosse contribuir de qualquer modo para a saúde da humanidade, sem nada fingir, acrescentar ou alterar em minha honra».

Grandes palavras para todos meditarem. A começar nos juizes da Santa Inquisição...

Mas falar do Juramento de Amato Lusitano obriga a que não se omita nenhuma parte, já que se trata de um código de comportamento profissional, que foi publicado no ano de 1559. Por isso aqui fica, tal e qual como foi escrito, para meditação dos leitores:

«Juro perante Deus imortal e pelos seus dez santíssimos sacramentos, dados no Monte Sinai ao Povo Hebreu, por intermédio de Moisés, após o cativeiro no Egipto, que na minha clínica nunca tive mais a peito do que promover que a Fé intacta das coisas chegasse ao conhecimento dos vindouros.
Nada fingi, acrescentei ou alterei em minha honra ou que não fosse em benefício dos mortais.
Nunca lisonjeei, nem censurei ninguém ou fui indulgente com quem quer que fosse por motivo de amizades particulares;
Sempre em tudo exigi a verdade;
Se sou perjuro, caia sobre mim a ira do Senhor e de Rafael seu Ministro e ninguém mais tenha confiança no exercício da minha arte;
Quanto a honorários, que se costuma dar aos médicos, também fui sempre parcimonioso no pedir, tendo tratado muita gente com mediana recompensa e muita outra gratuitamente.
Muitas vezes rejeitei firmemente grandes salários, tendo sempre mais em vista que os doentes por minha intervenção recuperassem a saúde do que tornar-me mais rico pela sua liberalidade ou pelos seus dinheiros;
Para tratar os doentes, jamais cuidei de saber se eram hebreus, cristãos, ou sequazes da Lei Maometana;
Nunca provoquei a doença;
Nos prognósticos sempre disse o que sentia;
Não favoreci um farmacêutico mais do que outro, a não ser quando nalgum reconhecia, por ventura, mais perícia na arte e mais bondade no coração, porque então o preferia aos demais;
Ao receitar sempre atendi às possibilidades pecuniárias do doente, usando de relativa ponderação nos medicamentos prescritos;
Nunca divulguei o segredo a mim confiado.
Nunca a ninguém propinei poção venenosa;
Com a minha intervenção nunca foi provocado o aborto;
Nas minhas consultas e visitas médicas femininas nunca pratiquei a menor torpeza;
Em suma, jamais fiz coisa de que se envergonhasse um Médico preclaro e egrégio.
Sempre tive diante dos olhos, para os imitar, os exemplos de Hipócrates e Galeno, os Pais da Medicina, não desprezando as Obras Monumentais de alguns outros excelentes Mestres na Arte Médica;
Fui sempre diligente no estudo e, por tal forma, que nenhuma ocupação ou circunstância, por mais urgente que fosse, me desviou da leitura dos bons autores;
Nem o prejuízo dos interesses particulares, nem as viagens por mar, nem as minhas pequenas deambulações por terra, nem por fim o próprio exílio, me abalaram a alma, como convém ao Homem Sábio;
Os discípulos que até hoje tenho tido, em grande número e em lugar dos filhos, tenho educado, sempre os ensinei muito sinceramente a que se inspirassem no exemplo dos bons;
Os meus livros de Medicina nunca os publiquei com outra ambição que não fosse o contribuir de qualquer modo para a saúde da Humanidade;
Se o consegui, deixo a resposta ao julgamento dos outros, na certeza de que tal foi sempre a minha intenção e o maior dos meus desejos”

Feito em Salónica, no ano do Mundo 5.319 (1559 da nossa Era).

Naturalmente, este Juramento faz-nos recordar Ambroise Paré, esse nome impar do século XVI e Pai da Cirurgia que, quando foi nomeado cirurgião do Rei, e foi por este perguntado se assim passaria a tratá-lo melhor, este lhe respondeu que não, pela simples razão de que a todos tratava como se fossem Reis.

É de homens assim que a História se faz.