Empresária, santa e mãe dos pobres...

A Ferreirinha

Vinhateira:
1811-01-01 - 1896-01-01



Quando tudo aconteceu...

1756: O Marquês de Pombal ameaça os agricultores do Douro que não cuidam das suas terras.1811: Antónia Adelaide Ferreira (a Ferreirinha) nasce no Concelho de Gondim (Douro). 1828-1834: Em Portugal, guerra civil entre Absolutistas e Liberais. 1834: Casamento de Antónia Adelaide com o seu primo António (filho do seu tio com o mesmo nome). 1865: A filoxera surge em Portugal e ataca a vinha duriense. 1867: Morte de António Bernardo, marido de Antónia Adelaide; a Ferreirinha combate a praga da filoxera. 1880: Falece José da Silva Torres, o segundo marido de Antónia Adelaide. 1896: Morte de Antónia Adelaide.

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CRIANÇAS E ADULTOS

Nasceste no Douro em 1811, no concelho de Gondim, perto de Peso da Régua. O meu nome? Não interessa. Tenho, mais ou menos, a tua idade,. Quando crianças. brincámos e fizemos amizade. Depois crescemos e tu assumiste a posição de patroa e eu a de um dos teus muitos empregados. Mas tivemos o cuidado de enxertar em nossa idade adulta a amizade que vinha da nossa infância.

O teu nome é Antónia Adelaide Ferreira. Mas todos te chamam a Ferreirinha, forma carinhosa para definir a bondade com que tratas a todos nós.




MARQUÊS DE POMBAL E NAPOLEÃO

Em 1756 o Marquês de Pombal ameaçou prender e expropriar os agricultores do Douro que não cuidassem das suas terras. Era o estilo prepotente do Marquês mas que, desta vez., resultou, pois junto ao rio Douro acabam por romper muitas e belas vinhas. Entre elas a de Montes e a de Rodo, de Bernardo Ferreira, o teu avô, ó Ferreirinha,

Invasões francesas! Junto à fonte de Covelinhas, Bernardo Ferreira tombou fuzilado por soldados de Napoleão. Deixou três filhos: José, António e Francisco. José, o mais velho, virá a ser o teu pai, ó Ferreirinha.




ABSOLUTISTAS E LIBERAIS

Ameaça acirrar-se a guerra civil entre Absolutistas e Liberais. Ou seja: entre os seguidores de D. Miguel e os partidários de D. Pedro.

No Peso da Régua, por volta de 1830, António Ferreira toma um rabelo rumo à foz do Douro. Desembarca em Vila Nova de Gaia, na margem esquerda, e que fica em frente à cidade do Porto (margem direita). Praticando preços bem inferiores aos do mercado, António Ferreira vende facilmente os armazéns da sua família instalados em Gaia, também as centenas e centenas de pipas de vinho generoso ali guardadas. Recorde-se que era da foz do Douro que partiam para o Reino Unido (país dos grandes clientes) navios e mais navios carregados com pipas do chamado vinho do Porto que afinal era produzido nas encostas do Douro.
Quem muito protestou contra o negócio realizado por António, foi José. Mas quando, passados poucos meses, por causa da Guerra Civil, os armazéns de Gaia são assaltados, o vinho é derramado para o Douro e a barra do Porto fica bloqueada, José dá o dito por não dito e acha que foi genial a iniciativa do irmão. Com o dinheiro realizado os Ferreiras compram o vinho de todos os vizinhos e, em sucessivos caravanas de carros de bois, tratam de transportá-lo para a barra da Figueira da Foz (rio Mondego). Dali exportam-no para o Reino Unido, como dantes tinham feito a partir da barra do Porto. Excelente negócio! Mais rica e poderosa fica a família...




CASAMENTO

Em 1834 José Ferreira casa a sua filha Antónia Adelaide com o primo direito António Bernardo, filho de António Ferreira. Tentativa de fechar a família Ferreira ao advento de estranhos? Talvez... Mas António Bernardo Ferreira (o Segundo) não liga para a cultura da vinha, é um estouvado que trata de esbanjar alegremente boa parte da fortuna dos Ferreiras. Ainda tem é tempo para fazer três filhos a Antónia Adelaide: Maria d’Assunção, António Bernardo Ferreira (o Terceiro) e Maria Virgínia (que morre na primeira infância).




SOCALCOS DO DOURO

O património dos Ferreiras é alargado, várias quintas à beira Douro, entre elas a de Montes, a de Rodo, a de Travassos, a de Valado, a de Monte Meão, a de Vila Maior, a de Vesúvio, a das Nogueiras e muitas outras, cerca de trinta.
Anualmente vai aumentando a produção de pipas. Mas para que a tendência se mantenha, Antónia Adelaide não desiste de emendar o declive das encostas e o consequente perigo de erosão: manda rasgar e aplainar sucessivos terraços escorados por lajes de xisto arrancadas à terra-mãe. A esses terraços interligados por escadas de pedra, o povo dá o nome de socalcos.

Trabalho hercúleo para, pelo menos, um milhar de trabalhadores a espalhar por tantas quintas. Mas é fácil mobilizá-los, estão sempre ao dispor d’a Ferreirinha...




FILOXERA

Filoxera é o nome dado a um pulgão que suga, seca e mata as raízes das videiras. Surge em Portugal cerca de 1865. Por causa dessa praga as vinhas do Douro são quase todas destruídas.
Antónia Adelaide segue para a Inglaterra em busca de uma solução para o flagelo. Ali toma conhecimento que existem videiras americanas cujas raízes são imunes ao ataque da filoxera. Portanto, para alcançar sucesso no plantio das vinhas, as castas europeias devem ser enxertadas em raízes americanas.
António Bernardo Ferreira (o Segundo) morre em 1867. Antónia Adelaide, a viúva, tem apenas 33 anos, está na força da idade. É quanto lhe basta para mobilizar os seus mil trabalhadores para a tarefa de enxertar e tornar a plantar milhões de cepas, e tudo isto com o apoio de especialistas em enxertos do Cartaxo, os quais trata de chamar e contratar.




FORTUNA E CRISE

O Duque de Saldanha, Presidente do Conselho de Ministros, fica deslumbrado com a fortuna d’a Ferreirinha. Tão ofuscado que pretende meter-lhe o dente, Mas como? É muito simples, pensa ele: basta casar o seu filho com a filha de Antónia Adelaide. Esta agradece mas recusa o convite. Por dois motivos: 1º) Maria d’Assunção tem apenas onze anos. 2º) Esposo deve ser escolhido pela donzela e por mais ninguém do que ela.

Antónia Adelaide apanha depois um zunzum: a filha d’a Ferreirinha vai ser raptada pelos homens do Duque de Saldanha, assédio! Mãe e filha disfarçam-se de camponesas e, ajudadas pelo povo, fogem para Espanha e dali saltam para Londres.

Mais tarde a Maria d’Assunção casa com o Conde de Azambuja e a Antónia Adelaide casa com José da Silva Torres, seu secretário administrativo (e que irá falecer em 1880). Resolvidos os assuntos de matrimónio, os quatro regressam a Portugal.
Mas para além dos desencontros sentimentais, há outras crises:
A mais castigadora é a comercial: abundância de produção, porém o vinho fica nas adegas, não há mercado, não se vende! Muitos são os durienses que resolvem emigrar para o Brasil em busca de melhores condições de vida,. Mas na casa dos teus mil operários, ó Ferreirinha, nunca falta pão, estás sempre presente.
Para impedir as quintas do Douro de caírem na mão dos ingleses, a Ferreirinha compra uma atrás da outra. Mais tarde irá entregá-las por preço simbólico (ou até doá-las) aos antigos proprietários,
Outra iniciativa: a Ferreirinha não pára de subsidiar a construção dos hospitais de Peso da Régua, de Vila Real, de Moncorvo e de Lamego.
Ó Antónia Adelaide: é de estranhar que todo o povo duriense ora te chame Ferreirinha, ora santa, ora mãe dos pobres?




MORTE

Superada a crise comercial, o vinho do Porto Ferreira continua a ser o mais apreciado na Europa, inclusive em todas as casas reais que disputam as suas reservas.. Porém Antónia Adelaide, sem aviso prévio, morre em 1896 na Casa das Nogueiras. Funeral concorrido, milhares e milhares de comovidos acompanhantes até ao cemitério de Peso da Régua.. Ela tem (ou tinha?) cerca de 85 anos. Mais ou menos a minha idade e também eu já estou com os pés para a cova. E quando eu morrer estarei pensando em ti, ó Ferreirinha, estou certo disso...