Lutar contra os castelhanos para restaurar a independência de Portugal? Loucura!

Manuelinho

Louquinho da cidade de Évora (patriota?):
1600? - 1638?



Quando tudo aconteceu...

1578: Batalha de Alcácer Quibir, desaparecimento de D. Sebastião, morto certamente em combate mas cujo corpo jamais será encontrado. D. Sebastião não deixa descendência e o Cardeal D. Henrique, seu tio-avô, sobe ao trono. - 1579: Morte de Luís de Camões. - 1580: Morre o Cardeal D. Henrique. Em Alcântara, D. António, Prior do Crato, pretendente ao trono, é derrotado pelas tropas de Filipe II de Castela e Portugal perde a independência. - 1581: Nas Cortes de Tomar, Filipe I jura manter a autonomia de Portugal dentro da União Ibérica. - 1598: Filipe II sobe ao trono; irá tomar medidas que porão em causa a autonomia de Portugal dentro da União Ibérica. Em consequência, o sebastianismo, messianismo ou ideologia saudosista, irá alastrar entre os portugueses. - 1614: Extinção do Conselho da Índia. - 1621: Filipe III sobe ao trono e entrega a governação da União Ibérica ao conde-duque de Olivares que passa a tratar Portugal como outra província espanhola e não mais como Reino integrado, porém autónomo. - 1630: No Brasil, os Holandeses conquistam Olinda e Recife. - 1633: Desaparece a Companhia de Comércio da Índia Oriental. - 1637: Aumento de impostos, alterações de Évora, revolta do Manuelinho que alastra por todo o Alentejo e Algarve. - 1638: O duque de Medina-Sidónia ocupa o Algarve, o duque de Bejar ocupa o Alentejo e assim é sufocada a revolta do Manuelinho. - 1640: A 1 de Dezembro é restaurada a independência de Portugal.

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CICERONE

Na passagem do Século XX para o Século XXI, que foi também a passagem do I para o II Milénio da nossa Era, dou comigo feito cicerone da cidade de Évora. Já não estranho a estranheza em que braceja a minha vida; sigo o meu destino mas não sei, ao certo, qual seja ele. Dos terraços da Sé aponto a um grupo de turistas o panorama caiado, essa alvorada que a cidade alentejana colocou entre muralhas. Ali está o Palácio do Vimioso, acolá o Palácio da Inquisição, além o Templo de Diana levantado pelos romanos, depois o Palácio dos Condes de Soure, a Casa Cadaval com a Torre das Cinco Quintas, a Igreja dos Lóios, a Biblioteca Pública, a Torre de Sertório e o solar dos Condes de Portalegre... Estão a ver?

Um dos turistas, chamado Fernando, quer saber qual o meu nome. Respondo-lhe:

- Manuelinho!

Desata a rir, pergunta:

- Homenagem ao vosso maluquinho do Século XVII?

- Compadre Fernando, não é homenagem, eu é que sou esse tal maluquinho que os espanhóis dizem ter executado em 1638.

- Ai sim? Muito me conta... Passa o tempo, já lá vão quatrocentos anos, e o amigo Manuelinho está na mesma, muito vivo e muito rijo! É espantoso!

- Vossemecê não se espante... Se até hoje a loucura dura, eu, que sou louco, perduro...

Galhofa. Também eu desato a rir, quero que tudo passe por laracha, não vão eles suspeitar que me lembro de tudo, até do tempo que antecedeu a minha existência como louquinho da cidade de Évora...




CARDEAL D. HENRIQUE

Lembro-me de ter estado na batalha de Alcácer Quibir, em 1578. Não assisti à morte d’el-Rei D. Sebastião, nem sequer o vi cair do cavalo, ocupado estava eu a terçar armas, lado a lado com o Prior do Crato. Acabámos vencidos e aprisionados pelos mouros, mas fomos libertados pouco tempo depois. Quem pagou o meu resgate foi D. António, o Prior do Crato.

Lembro-me que, durante a menoridade d’el-Rei D. Sebastião, o regente fora o Cardeal D. Henrique, seu tio-avô e chefe supremo da Inquisição. O jovem monarca desaparece em Alcácer Quibir sem deixar descendência e é por isso que o velho ranhoso passa de regente a rei. Condição que lhe dá o privilégio de nomear o herdeiro da coroa. Vários são os pretendentes, cada qual com a sua legitimidade: um português, uma portuguesa e vários estrangeiros. O velho reúne Cortes em Almeirim e tudo faz para que Filipe II de Castela seja o nomeado, a pretexto de ser neto materno do nosso D. Manuel I. Discutem e discutem, porém de peremptório nada decidem, encostada fica a porta. Filipe II está lá fora, mira, sabe de tudo o que se passa cá dentro. Para ele é muito fácil assaltar a nossa casa.

Lembro-me que a 31 de Janeiro de 1580 morre o Cardeal D. Henrique. Eu, a malta, a maralha, a arraia-miúda, os pés descalços, também alguns desvairados moços burgueses, aí vamos nós, turbamulta a desfilar e a cantar pelas ruas de Lisboa:

Viva el-rei D. Henrique
No inferno muitos anos,
Pois deixou em testamento
Portugal aos castelhanos.




D. SEBASTIÃO E O PRIOR DO CRATO

Lembro-me que o Cardeal D. Henrique não suportava a amizade que ligava D. Sebastião a D. António, Prior do Crato. Por dois motivos:

Primeiro: Embora legitimado pelo Infante D. Luís, seu pai, D. António era filho de Violante Gomes, uma mulher do povo de alcunha “A Pelicana”. D. Luís fora o segundo filho de D. Manuel I. Ao Cardeal repugnava o casamento do irmão com uma plebeia. Também lhe repugnava o sobrinho, mistura de sangues era coisa que jamais poderia aceitar.

Segundo: D. António renunciara à carreira eclesiástica que o pai lhe preparara e para a qual não sentia apetência. Decisão que assanhara os furores piedosos do Cardeal.

Dois motivos que bastaram para o Cardeal o excluir da lista de pretendentes à Coroa. Os outros são D. Catarina, duquesa de Bragança; D. Manuel Felisberto, duque de Sabóia; D. Rainúncio, príncipe de Parma; D. Catarina de Médicis, rainha-mãe de França; e D. Filipe II de Castela, o preferido do Cardeal-rei.

Morre D. Henrique em 1580 e Filipe II manda as suas tropas entrar em Portugal. D. António, Prior do Crato, consegue reunir um exército de maltrapilhos para tentar resistir à invasão.

Os aristocratas portugueses omitem-se, jogam sempre pelo seguro, de longe assistem aos atropelos da populaça. Encolhem os ombros, suspiram, enfadados vão depois lamber as páginas dos Livros de Linhagens: casamentos cruzados, parentes em todas as cortes da Europa, dourada rede estendida por cima de todas as fronteiras do Velho Continente... A pátria pouco lhes diz, para eles é algo entre baldio e coutada. E são muito cautelosos, só puxam pelas armas quando têm a certeza antecipada da vitória.

É claro que nós, os pés descalços, os destravados, somos desbaratados pelos castelhanos na batalha de Alcântara. D. António consegue fugir para a ilha Terceira dos Açores. Mais tarde, com o auxílio, ora de franceses, ora de ingleses, fará mais algumas tentativas para restaurar a independência, todas frustradas. Irá morrer em Paris, em 1595.

Mas agora, em 1580, Filipe II, de Castela, já é também Filipe I, de Portugal.




FILIPE I

Lembro-me que em Abril de 1581, nas Cortes de Tomar, Filipe I jura manter no Reino:

- a língua portuguesa;

- a cunhagem de moeda própria;

- a nomeação de portugueses para os cargos de governadores;

- o respeito pelos usos, costumes e liberdades do país;

- a conservação de todos os foros;

- a colocação de soldados portugueses nas guarnições de praças e fortalezas.

É um estatuto autonómico do nosso Reino, dentro da nova União Ibérica. Do mal, o menos!

Também me lembro que, não tivesse morrido em acidente estúpido o príncipe D. Afonso, filho do nosso D. JOÃO II, a dinastia ibérica seria hoje a de Avis, pois já estava combinado o casamento de D. Afonso com a herdeira dos Reis Católicos, de Espanha. Mas as voltas da vida, ou a roda do destino, não quiseram que assim fosse.





FILIPE II

Lembro-me que os problemas começam com o nosso Filipe II, o III de Espanha.

Sobe ao trono em 1598. Manda que ministros espanhóis entrem para o Conselho de Portugal. As guarnições de alemães e italianos, que existem no Reino, não são rendidas por defensores portugueses.

Dissipa-se a nossa autonomia dentro da União Ibérica, letra-morta o juramento de Filipe I.

Alastra o descontentamento e o povo espera que D. Sebastião, numa manhã de nevoeiro, regresse ao Reino para restaurar a independência. MANOEL BOCARRO FRANCÊS, médico judeu-português, invoca e, para todos nós, aponta o Desejado:

- Eu o vi, Lusitanos, o Príncipe Encoberto...




ALTERAÇÕES DE ÉVORA

Está um calor de rachar de pedras e os seus companheiros de viagem foram ali tomar uma cervejinha. Fazem bem! E Vossemecê, compadre Fernando, entretanto aproveite para apreciar as fachadas neoclássicas e românticas das casas típicas aqui da Praça do Giraldo. Repare como foram harmoniosamente conjugados a cantaria, o estuque e o ferro forjado. Está a ver aquela ali?

Sim, sim, tem razão, esta praça foi cenário da minha revolta ou, se quiser, da revolta do Manuelinho.

Vossemecê pede que eu lhe conte como tudo aconteceu? Não sei se o deva fazer mas, já que tanto insiste, vou tentar. Se acaso me exaltar não se assuste nem leve a mal, é que remexer no meu passado dói-me um bocado. Vossemecê é mesmo curioso, não é? Pois já lhe conto, foi assim:

Em 1621 Filipe III sobe ao trono e entrega a governação da União Ibérica ao conde-duque de Olivares. Este passa a tratar Portugal como outra província espanhola e não mais como um Reino integrado porém autónomo.

Os Espanhóis, que são evidentemente os nossos amos, em 1614 extinguiram o Conselho da Índia; em 1630 deixaram que os Holandeses conquistassem Olinda e Recife, no Brasil; e em 1633 eliminaram a Companhia de Comércio da Índia Oriental. Não tarda muito o Holandês engole Angola. Assim vai-se esboroando o nosso antigo e grandioso império colonial.

Por outro lado, aqui no Alentejo cai o preço do trigo e aumento de produção não houve. A Espanha está à beira da ruína e o conde-duque de Olivares deseja reequilibrar as Finanças, porém à nossa custa. Manda taxar e recolher novos impostos, quer esfolar-nos vivos. É demais!

O corregedor André Morais Sarmento é um cachorrinho a obedecer às ordens de Madrid e às instruções de Lisboa. Convoca a Câmara de Évora para combinar a derrama do novo imposto. Os vereadores hesitam, sabem que vai haver agitação e revolta. Irritado, Morais Sarmento convoca para sua casa o borracheiro Sesinando Rodrigues, que é juiz do povo; e também o cuteleiro João Barradas, que é o seu escrivão. Ora promete, ora ameaça, tenta forçá-los a um compromisso em nome do povo que representam. Eles resistem e o corregedor chama o algoz. Sesinando aproveita uma janela aberta e salta para a praça, grita que o querem matar. O povo miúdo, que já enche a praça, reage, assalta e incendeia a Casa de Morais Sarmento. O corregedor consegue escapar pelo telhado.

Quem está quieto durante muito tempo e de repente começa a andar, parar já não consegue. Primeiro deitámos fogo à casa de Morais Sarmento. Logo a seguir corro para a igreja, comigo um magote. Trepamos à torre e tocamos o sino a rebate. A multidão morde o freio, em assuada assalta e incendeia os cartórios públicos e a Casa Fiscal, por fim arromba a prisão e liberta os presos.

Neste meio tempo, a nobreza e o alto clero reúnem-se na Igreja de Santo Antão, organizam-se em Junta para mediar os interesses do povo revoltado com os interesses da corte madrilena. Desconfiamos daquela gente, jogam sempre com um pau de dois bicos. Foi um Cardeal que nos entregou, de mão beijada, aos espanhóis. Foram os nobres que ficaram, impávidos e serenos, a assistir à batalha de Alcântara em que fomos desbaratados.

Entramos na Igreja de Santo Antão. Frente a frente, a nobreza e o clero num lado, a arraia miúda noutro. Não faço, não fazemos vénias e digo eu, diz o Sesinando, diz o Barradas, diz outro e outro, dizemos:

- Vossas Mercês, os grandes de Évora, não se importam com o suplício do povo, porque não são do povo.

- O novo imposto não vos atinge porque, abusando da vossa imunidade, Vossas Mercês não querem dever; e, abusando da vossa autoridade, não querem pagar.

- Vossas Mercês querem estar sempre de bem com o Príncipe à custa das ruínas da pátria.

- Conviver hoje com o povo para amanhã o entregar à justiça d’el-Rei, é essa a fidelidade de Vossas Mercês.

- A el-Rei Vossas Mercês oferecem, como vítima, o inocente e simples vulgo, como outrora os bárbaros gentios imolavam os meigos animais.

- Vossas Mercês, para se justificarem com el-Rei, não temem ser os mais cruéis algozes do povo.

- O melhor será Vossas Mercês dividirem-se: os que desejam juntar-se ao povo, saltem para cá; os que são contra nós fiquem onde estão e a ver vamos o que vai acontecer...

Engolem em seco. Pois engulam, não são os nobres que nos detêm! Nem bispos, arcebispos, ou cardeais... Todos eles estão acostumados a que as nossas explosões sejam de pavio curto. Desta vez enganam-se, temos chefes que entrançam o estopim e mantêm a chama acesa.

Reparo que passei agora a ser o louquinho de Évora. Sou muito popular na cidade. Todos me conhecem, todos acham muita graça à minha mania de beliscar as maminhas das mocinhas distraídas. Por ironia, ou troça, ou galhofa, os chefes apontam-me, dão-me palmadinhas nas costas, dizem e apregoam que esta é a revolta do Manuelinho. Se é loucura lutar contra os castelhanos para restaurar a independência de Portugal, então só um louquinho é que poderia chefiar tal revolta... Sarcasmo desfraldado, chalaça a drapejar, e também eu me desmancho a rir. Mas a exaltação, ou o cagaço, põe a minha mioleira a fermentar e, de repente, passo de lerdo a lesto, vá lá alguém explicar o porquê desta alteração...

Não nos quedamos por Évora. Emissários nossos correm todo o Alentejo e o Algarve, o Reino pega fogo pelo sul. E o incêndio alastra até Abrantes e a Santarém, até ao Porto e a Viana do Castelo. Afinal todos os portugueses, os do povo miúdo, querem pátria independente.

Em Vila Viçosa, a dois passos de Évora, fica o paço ducal dos Bragança. Também nesse burgo o povo se amotina. D. João, para acalmar os ânimos, está de cama, finge estar doente, e põe o seu filho de 3 anos, D. Teodósio, a passear sozinho pelas ruas. Para não assustar a criança, o povo sossega. Somos gente afectuosa, gente parva. É assim que D. João evita comprometer-se, quer com os revoltosos, quer com el-Rei.

Como? Sim, sim, compadre Fernando, é esse mesmo, D. João, duque de Bragança, que daqui a três anos, em 1640, será el-Rei D. João IV de Portugal. Mas em 1637 ele não quer comprometer-se, não tem ainda a antecipada certeza da vitória. Esta certeza só virá à tona quando, lá longe na Península, antes dos Pirinéus, os levantamentos pró-indepência da Catalunha vierem a ocorrer, dividindo os castelhanos em duas frentes repressoras, uma a sudeste p’rós lados de Barcelona, outra a oeste p’rós lados de Lisboa. Sabem muito, estes nobres, jamais se arriscam, porém petiscam sempre... Enquanto eles se escusam e vacilam, nós é que pomos o pescoço no cepo, sempre...

Portanto, por omissão dos nobres, mais uma vez estamos condenados, tal como no tempo do Prior do Crato. A tropa do duque de Medina-Sidónia, capitão-general da Andaluzia, transpõe a fronteira e sufoca a rebelião no Algarve. O exército do duque de Bejar, comandante da Cantábria, nos princípios de 1638 entra no Alentejo, entra em Évora e põe termo à revolta do Manuelinho. Dizem que fui executado. Lá isso fui, mas não em carne e osso, só em efígie. Tal como eu, Sesinando Rodrigues, João Barradas e outros chefes da revolta... Só em efígie, porque entretanto já tínhamos dado à sola e estávamos homiziados em casa de gente amiga...

Apesar da minha mágoa com os nobres (em geral) e com o duque de Bragança (em particular), três anos depois, no dia 1.º de Dezembro de 1640, quando da Restauração da Independência, não posso deixar de gritar um viva Portugal! e um outro viva D. João IV!

Em 1644 D. João IV quer fazer mercê a Sesinando Rodrigues. Mas o juiz do povo pede escusas, não aceita recompensas, pois fez apenas o que mandava a sua consciência. Bravo Sesinando!

Engenhoso é o discurso do PADRE ANTÓNIO VIEIRA, tenta mudar o curso do sebastianismo e espera que ele vá desaguar no Palácio da Restauração para honra e benefício de D. João IV... Sinais dos tempos! Ou, melhor dizendo: sinais da mudança dos tempos!

Já lá vão mais de 4 séculos e tudo recordo, memória, nitidez, e de mim devia sobrar apenas um esqueleto. É tudo muito estranho, parece que vivo, ou sobrevivo, fora do tempo, não sei o que se passa.

A propósito de esqueleto, ó compadre Fernando, repare: aquela é a Igreja de São Francisco. Lá dentro é que fica a Capela dos Ossos, coisa macabra. Vossemecê conhece?