Sem alegria, a humanidade não compreende a simpatia nem o amor...

Ramalho Ortigão

Escritor:
1836 - 1915



Quando tudo aconteceu...

1836: Em 24 de Outubro, nasce no Porto, na Casa de Germalde, freguesia de Santo Ildefonso, José Duarte Ramalho Ortigão, filho do primeiro-tenente de Artilharia Joaquim da Costa Ramalho Ortigão e de D. Antónia Alves Duarte Silva Ramalho Ortigão. Será o primeiro de nove irmãos. 1836-1849: A sua infância é passada numa quinta do Porto, com a sua avó materna. Um tio-avô e padrinho, Frei José do Sacramento, toma a sua educação a seu cargo. 1850-1858: Com apenas 14 anos, matricula-se no curso de Direito da Universidade de Coimbra. Não completa o curso e, nos anos seguintes, leccionará francês no Colégio da Lapa, no Porto, do qual seu pai é director. Um dos seus alunos chama-se José Maria Eça de Queirós (1845-1900). Um outro, dará pelo nome de Ricardo Jorge (1858-1939) e virá a ser um conhecido cientista. Começa a colaborar no Jornal do Porto. 1859: Em 24 de Outubro, casa com D. Emília Isaura Vilaça de Araújo Vieira. Virão a ter três filhos – Vasco, Berta e Maria Feliciana. 1866: Em resultado da chamada «Questão Coimbrã» em que Antero de Quental chama cobarde a Ramalho por este ter insultado o velho e cego António Feliciano de Castilho, em 6 de Fevereiro, no Jardim de Arca de Água, Ramalho enfrenta Antero num duelo à espada e fica ferido. Publica Literatura de Hoje. 1867: Visita a Exposição Universal em Paris. Desgosta-se do ambiente que em seu redor existe no Porto e muda-se para Lisboa com a família, ocupando uma vaga para oficial de secretaria da Academia das Ciências de Lisboa. 1868: Publica Em Paris, impressões da sua viagem do ano anterior. 1870: Reencontra o seu antigo discípulo Eça de Queirós e liga-se ao grupo das Conferências do Casino. Saem as suas Histórias Cor de Rosa. 1870-71: Guerra Franco-prussiana em que a França é derrotada. Eclosão da Comuna de Paris, esmagada por uma brutal repressão. Ramalho inicia a publicação de Correio de Hoje. 1871: Com Eça de Queirós, publica em folhetins do Diário de Notícias, O Mistério da Estrada de Sintra.1871-87: Também com Eça de Queirós, a princípio, e depois sozinho, publica os volumes de As Farpas (crónica mensal da política, das letras e dos costumes). Sai a público a sua Biografia de Emília Adelaide Pimentel. 1872: Eça de Queirós parte para Havana, como cônsul de Portugal. Até 1887, redigirá sozinho As Farpas. 1874: Traduz a peça em quatro actos O Marquês de Villemer, que será representada no Teatro de D. Maria II, em Lisboa. O principal papel é desempenhado pelo grande actor Eduardo Brasão. 1875: Sai a público Banhos de Caldas e Águas Minerais.1876: Edita As Praias de Portugal. 1878: Em 10 de Novembro, Eça envia a Ramalho a sua célebre carta de Newcastle. 1879: Publica Teófilo de Braga. Esboço Biográfico. Parece ter sido também neste ano que são editadas as suas Notas de Viagem. 1880: No seu «Álbum das Glórias», Rafael Bordalo Pinheiro faz sair em Maio a caricatura de Ramalho, com a legenda «Grande estilo na toilette e na escrita». Nas comemorações do Centenário de Camões, em cuja organização participa sob a direcção de Teófilo Braga, publica Luís de Camões: a Renascença e os Lusíadas. 1883: De sua autoria, sai A Lei da Instrução Secundária na Câmara dos Deputados em Portugal.1884: No prefácio de uma nova edição de O Mistério da Estrada de Sintra, Eça e Ramalho classificam a obra como sendo um “romance execrável”. 1885: Publica mais um livro de viagens: A Holanda. 1887: No Café Tavares e no Hotel Bragança (ou ainda nas casas dos elementos do grupo) começam as reuniões semanais de Os Vencidos da Vida, que irão manter-se até 1894. Outro livro de viagens: é a vez de John Bull.1889: Em------ o rei D. Luís morre e D. Carlos sobe ao trono. Eça de Queirós integra o grupo dos Vencidos. 1891: É dado à estampa o seu livro A Fábrica das Caldas da Rainha.1893: Com Pinheiro Chagas, constitui a delegação enviada pelo Governo português à Exposição Histórico Europeia realizada em Madrid.1894: Terminam as reuniões de Os Vencidos da Vida. 1896: Edita O Culto da Arte em Portugal. 1901: Por decreto de 23 de Janeiro, é agraciado com o título de académico de mérito da Academia Real de Belas Artes. 1907: Por decreto de 30 de Novembro é nomeado vogal do Conselho Superior de Instrução Pública, por indicação da Academia das Ciências. 1908: Publica As Últimas Farpas. Após o Regicídio escreve e publica El-Rei D. Carlos, o Martirizado.1910: Logo após a implantação da República, pede a Teófilo de Braga a demissão do cargo de bibliotecário da Biblioteca da Ajuda, declarando que se recusa a aderir ao regime republicano. Parte voluntariamente para o exílio em Paris, onde começa a escrever As Farpas Esquecidas, que só sairão a público em 1946. 1912: Regressa a Portugal. 1914: Redige a sua Carta de um Velho a um Novo, dirigida a João do Amaral, a qual virá a ser publicada postumamente em 1947. Neste texto lança as bases do movimento designado por Integralismo Lusitano. 1915: Vítima de doença cancerosa é internado na Casa de Saúde do Dr. Henrique de Barros, na então Praça do Rio de Janeiro, em Lisboa, vindo a morrer no dia 27 de Setembro na sua casa na Calçada dos Caetanos, na Freguesia da Lapa. 1916: Edita-se Pela Terra Alheia. 1919: Sai o seu O Conde de Ficalho: retrato íntimo. 1924: Sai Quatro Grandes Figuras Literárias: Camões, Garrett, Camilo e Eça. 1937: Publica-se o volume As Origens da Holanda. 1944: Sai o volume inédito Primeiras Prosas: 1859-1867. Publica-se também Costumes e Perfis. Sai ainda Crónicas Portuenses. 1945: Publicam-se dois livros seus: Contos e Páginas Dispersos e Figuras e Questões Literárias. 1946: Saem as Farpas Esquecidas. 1947: Publica-se Arte Portuguesa e Cartas de um Velho a um Novo. 1948: Edita-se Correio de Hoje.1954: É inaugurada no Porto, no Jardim da Cordoaria, uma estátua de Ramalho Ortigão, da autoria de Leopoldo de Almeida. 1956: Edição de Folhas Soltas: 1865-1915. 1957: Em 28 de Novembro, Aquilino Ribeiro escreve em O Século, num artigo intitulado «Ramalho Ortigão» que «As Farpas» são as tábuas de bronze de um povo. 1976: Edição de O Rei vai Nu: História de uma vestimenta real. 1977: De Álvaro Manuel Machado sai a obra A Geração de 70 – Uma Revolução Cultural e Literária. 1987: É editado Ideias dos Dignos Pares sobre a Ginástica. 1991: Sai Ele e Ela. 1993: Edição de Cartas a Emília. 1997: Publica-se O Mar. Sai a público um livro importante para a compreensão da figura e da obra de Ramalho – O Integralismo Lusitano e a herança de «Os Vencidos da Vida», da autoria de José Manuel Quintas. 1999: De Maria João L. Ortigão, publica-se O essencial sobre Ramalho Ortigão. 2000: É editado o livro A Família de Ramalho Ortigão, de Rodrigo Ortigão de Oliveira. 2006: Edição em seis volumes de As Farpas completas, com fixação do texto, introdução e notas de Ernesto Rodrigues.

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UMA FIGURA ÍMPAR DE INTELECTUAL

Pode afirmar-se que sem Ramalho Ortigão a vida cultural portuguesa, no período de charneira entre os séculos XIX e XX, não teria sido igual. Não ostentando o talento e a criatividade ficcionística do seu amigo Eça de Queirós, foi no entanto um laborioso construtor de uma obra vasta, minuciosa de uma grande abrangência e multidisciplinaridade, obra que nos ajuda a compreender aquele tempo de violentas transformações, sociais e políticas, escondidas sob a camada de uma aparente modorra intelectual. Entre os escritores da chamada Geração de 70, Ramalho Ortigão ocupa um lugar de indiscutível importância. Aproximar um Portugal provinciano, maioritariamente rural e dominado pela Igreja Católica, de uma Europa cosmopolita, industrializada, laica e socialmente mais desenvolvida, é o desiderato comum aos escritores dessa geração. Depois, a realidade de um continente, mergulhado em confrontos e em convulsões sociais, tão diferente do esplendor literário, artístico, filosófico, desilude-os profundamente. Mais tarde, já menos jovens, apostam na recuperação dos valores ancestrais, no «reaportuguesamento de Portugal». A obra de Ramalho é talvez de todas aquela que, no conteúdo dos seus livros, reflecte com maior transparência a marcha desta evolução.




AS CONFERÊNCIAS DO CASINO E A GERAÇÃO DE 70

Em «O Crime do Padre Amaro», Eça retrata, da maneira finamente irónica que lhe era peculiar, o ambiente característico das elites portuguesas da época. Estava-se no fim de Maio de 1871. Em Paris, Thiers e os elementos mais destacados da Comuna eram perseguidos e executados. Em Lisboa, as Conferências Democráticas (que passaram à história sob a designação de «Conferências do Casino», por se realizarem no Casino Lisbonense) haviam sido proibidas.. Diz ele: «Nos fins de Maio de 1871 havia grande alvoroço na Casa Havanesa do Chiado, em Lisboa. Pessoas esbaforidas chegavam, rompiam pelos grupos que atulhavam a porta, e alçando-se em bicos de pés esticavam o pescoço, por entre a massa dos chapéus» (…)«exclamando logo para algum amigo ,mais pacato que os esperara fora: - Tudo perdido! Tudo a arder!» (…)«pelo Chiado até ao Magalhães, era, por aquele dia já quente do começo do Verão, toda uma gralhada de vozes impressionadas onde as palavras – Comunistas! Versailles! Petroleiros! Thiers! Crime! Internacional! voltavam a cada momento, lançadas com furor, entre o ruído das tipóias e os pregões dos garotos gritando suplementos.» Os telegramas que iam chegando de Paris, relatando os sucessivos episódios do desmoronar da insurreição, os incêndios que lavravam, os fuzilamentos em massa, emocionavam a burguesia bem-pensante mais do que a realidade política do nosso País. «Lisboa estava dividida entre ferozes adeptos de Rochefort e de Gambetta, e defensores do imperador.» (…)«uma noite, a propósito de não sei que novo escândalo do Império, achando-nos uns poucos no Martinho, em torno de um café, exclamámos, pálidos de furor, cerrando os punhos: “Isto não pode ser! Já sofremos bastante. É necessário barricadas, é necessário descer à rua!” Descer à rua, era a ameaça terrível! E descemos o degrau do Martinho! Depois, na rua, sob o quente luar de Julho, ouvindo foguetes para os lados do Passeio Público, voltámos para lá os passos frementes – porque um de nós, o mais exaltado, encontrava lá uma certa senhora em noites de fogo preso…»




AS FARPAS

Em Maio de 1871, no ano em que se realizam as Conferências do Casino, são lançadas as Farpas, crónicas publicadas em fascículos mensais. Projecto de ambos, de Eça e de Ramalho, em Novembro de 1872, Eça, que vai ocupar um cargo diplomático em Havana, deixa as Farpas ao cuidado de Ramalho, que continuará a escrevê-las até 1882. Eça de Queirós, referindo-se ao trabalho do seu amigo neste projecto comum, escreve que com as suas Farpas, ele «estudou e pintou o seu país na alma e no corpo». Os textos escritos por Eça, num tom mais satírico do que aquele que Ramalho viria a adoptar, são, em 1890, reunidos em dois volumes com o título de Uma Campanha Alegre. Entre 1887 e 1890, As Farpas são novamente editadas, agora em onze volumes,. Nesta edição, as crónicas serão divididas por temas: vida provincial, epístolas, os indivíduos, o parlamentarismo, a religião e a arte, a sociedade, a capital, nossos filhos, movimento literário e artístico, aspectos vários da sociedade, da política e da administração.

As Farpas constituem uma implacável caricatura da sociedade portuguesa naquele último quarto de século. Desde a discriminação feita à condição feminina até à influência castradora da Igreja católica, passando por um Romantismo serôdio que inquina as artes e as letras, nada escapa às aceradas farpas. Muito dessa cáustica ironia, ainda hoje faz sentido, porque, decorrido quase século e meio, nem todas feras em que Eça e, sobretudo, Ramalho, cravaram os seus ferros, morreram. Muitas delas andam por aí à solta.




A RELAÇÃO DE RAMALHO ORTIGÃO COM EÇA DE QUEIRÓS

Amistosa, mas não inteiramente pacífica, eis como podemos classificar a relação entre estas duas importantes figuras da nossa cultura das últimas décadas do século XIX. Não raro, as opiniões de ambos são divergentes. Por exemplo, a propósito das Farpas, projecto de ambos, mas que Ramalho conduz sozinho desde cedo, Eça emitirá depois uma opinião desfavorável: «São uma colecção de pilhérias envelhecidas que não valem o papel em que estão impressas e descreveu-as como unicamente um riso imenso, trotando, como as tubas de Josué, em torno a cidadelas que decerto não perderam uma só pedra, por que as vejo ainda, direitas, mais altas, da dor torpedo lodo, estirando por cima de nós a sua sombra mimosa» (…) «todo este livro é um riso que peleja». Ramalho não gosta deste apreciação tão negativa de um trabalho a que deu tanto de si mesmo.




UM GRUPO JANTANTE: OS VENCIDOS DA VIDA

Ramalho Ortigão é uma das figuras de proa deste grupo de intelectuais que inscreve como objectivo prioritário do seu «programa» o tal «reaportuguesamento» de um Portugal cujas elites pareciam querer tornar o País numa cópia (desfigurada) da sociedade francesa. Além de Ramalho, fazem parte do grupo, Antero de Quental, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, o Conde de Ficalho, Carlos Lima de Mayer, António Cândido, o conde de Arnoso, o marquês de Soveral, Carlos Lobo de Ávila, o conde de Sabugosa. Eça de Queirós junta-se ao grupo em 1889, logo lançando uma mordaz definição dos Vencidos - «grupo jantante». De facto, os convívios semanais são feitos em jantares no Hotel Bragança ou no Tavares. O rei D. Carlos, no qual os «Vencidos» depositavam grandes esperanças, foi eleito por unanimidade «confrade suplente do grupo».

Homens que na juventude tinham sido seduzidos pelo socialismo utópico, situavam-se agora nos antípodas dos generosos princípios revolucionários, criando um movimento elitista, diletante, aquilo a que hoje talvez chamássemos um lóbi. Na realidade, os «vencidos» tinham, mercê do seu grande prestígio, influência sobretudo junto do príncipe herdeiro. Quando em 1889 o rei D. Luís morre e D. Carlos sobe ao trono, têm a sensação de que um deles reina. De certo modo, é como se todos reinassem.




O REGICÍDIO – D. CARLOS O MARTIRIZADO

Quando, em 1 de Fevereiro de 1908, D. Carlos e D. Luís Filipe são mortos no Terreiro do Paço, haviam passado cerca de vinte anos sobre a constituição dos Vencidos. Muitos deles já morreram – Antero, em 1891, Oliveira Martins, em 1894, Carlos Lobo de Ávila, em 1895, Eça de Queirós, em 1900, o Conde de Ficalho, em 1903… Ramalho é um dos sobreviventes (tal como Guerra Junqueiro, que falecerá em 1923). Já se disse como estes homens sentiam D. Carlos de Bragança como um dos seus. O Regicídio amargura Ramalho que escreve um emocionado texto – D. Carlos o Martirizado. Após a implantação da República, requer a Teófilo Braga a demissão do cargo na Biblioteca da Ajuda, dizendo explicitamente que se recusa a aderir ao novo regime, para não ir engrossar «o abjecto número de percevejos que de um buraco estou vendo nojosamente cobrir o leito da governação».

Exila-se voluntariamente em Paris onde começa a redigir as Últimas Farpas (1911-1914), contra o regime republicano. Em 1912 volta ao País. Em 1914, escreve a famosa Carta de um Velho a um Novo, endereçada a João do Amaral, apoiando o seu Integralismo Lusitano. É um movimento criado, em 1913, entre exilados portugueses, católicos e monárquicos, na Bélgica. Começando por reivindicar uma raiz cultural e rebelando-se contra o anticlericalismo primário da República, depressa assume contornos políticos. Aglutinando inclusivamente republicanos descontentes. Em 1914, em Coimbra, o movimento consolida-se em torno da revista Nação Portuguesa. Apoiava o rei deposto e exilado, D. Manuel II, recusando o rotativismo dos Partidos ideológicos do final da Monarquia Constitucional, e visando uma Monarquia assente na representação municipalista e sindicalista. É a estes princípios que um Ramalho já longe do fulgor revolucionário da juventude, adere.




A «RAMALHAL FIGURA»

Como se sabe, esta expressão, definidora de Ramalho Ortigão, pertence a Eça de Queirós que a põe na boca do seu Fradique Mendes. Ouçamos alguém que chegou quase até aos nossos dias e que conheceu o nosso homem – o jornalista Augusto de Castro (1883-1971), descrevê-lo: «Ainda conheci o Ramalho do largo chapéu desabado, bigode frondoso à Segundo Império,» (…) «Estou a vê-lo a subir a Rua do Alecrim, com a sua grossa bengala inglesa, o andar largo, o ar esfuziante, ou descer vagarosamente o Chiado, ao lado de Rafael Bordalo, que foi o Ramalho Ortigão da caricatura portuguesa.» E conta como convivendo com Ramalho numas termas do Norte o ouviu afirmar «-O português não sabe andar. Daí lhe provém quase todos os seus defeitos de consciência e de corpo. O andar não é apenas um exercício. É uma escola. A andar educa-se a espinha, enrijecem-se os rins, tempera-se a alma. O português corcova e arrasta-se.» E Ramalho, perante os circunstantes exemplificou como se devi andar. Augusto de Castro atreve-se a comentar: «-O que eu admiro é que, sendo o Sr. Ramalho tão amigo de Eça de Queirós, nunca o ensinasse a andar…». Em resposta, sai uma farpa de Ramalho:

«-Efectivamente, o Queirós não andava. Trotava…»

Procurando definir a dimensão política de Ramalho, digamos que é um conservador lúcido e atento. Como todos os seus companheiros dos Vencidos da Vida, acreditou que a monarquia poderia ser revitalizada com a subida ao trono de D. Carlos I – na «Revista de Portugal», Eça de Queirós escreveu: «O Rei surge como a única força que no País ainda vive e opera».




SEM ALEGRIA, A HUMANIDADE NÃO COMPREENDE A SIMPATIA NEM O AMOR

Estamos no conturbado ano de 1915 – a guerra devora a Europa. Em Portugal, prossegue o atribulado percurso da Primeira República, com mudanças de governo, motins populares, movimentos militares, intentonas… Em Março, sai o primeiro número de Orpheu, uma revista literária que irá revolucionar o mundo das artes e das letras. Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Raul Leal, Santa-Rita Pintor e outros. São jovens que propugnam e praticam uma arte e uma literatura que Ramalho não compreende. Tem agora 79 anos. É uma figura incontornável da cultura nacional – múltiplas honrarias consagram uma vida dedicada ao esforço de tornar o País melhor. Na realidade, comendas e condecorações não faltaram a Ramalho Ortigão – Foi Comendador da Ordem de Cristo e da Ordem da Rosa, no Brasil, Grã-Cruz da Ordem de Isabel a Católica, em Espanha, membro das academias brasileira, espanhola, argentina, etc.

Em 1871, com 35 anos, ainda jovem e cheio de energia, numa das suas aceradas farpas diz - «Pesa sobre vós uma responsabilidade tremenda. No estado em que se acha a sociedade portuguesa, a família é um duplo refúgio – do coração e do espírito. A família é dos pouquíssimos meios pelos quais ainda é lícito em Portugal a um homem honrado influir para o bem no destino do seu século. Querido leitor! O modo mais eficaz de seres útil à tua pátria é educares o teu filho. Consagra-te a ele”.

Agora, debilitado, está a perder a batalha contra um cancro. É internado na casa de saúde do Dr. Henrique de Barros, situada na agora Praça do Príncipe Real, então chamada Praça do Rio de Janeiro, em Lisboa. Mas nada há a fazer. Morre em sua casa da Calçada dos Caetanos, na freguesia da Lapa.

No dia 27 de Setembro de 1915 deixava de existir um português que, com alegria e profundidade, escalpelizou a sua época, as figuras dominantes do seu tempo, cravando-lhe alegremente as suas farpas. Porque, como ele disse «Sem alegria, a humanidade não compreende a simpatia nem o amor».