Hoje lavei a alma...

Adonias Filho

Escritor:
1915-01-01 - 1990-01-01



Quando tudo aconteceu...

1915: nasce na fazenda paterna dita São João, em Itajuípe, Bahia, a 27 de novembro. 1934: conclui o curso secundário no Ginásio Ypiranga, em Salvador, e se lança no jornalismo. 1936: migra para o Rio de Janeiro, onde viverá quase 50 anos. 1944-45: intensa atividade jornalística, em especial como crítico polêmico no jornal A Manhã, sob o pseudônimo de Djalma Viana; desposa Rosita Galeano. 1946: estreia no romance com Servos da Morte e dirige a Editora A Noite, até 1950. 1954-56: diretor do Serviço Nacional de Teatro. 1961-71: diretor da Biblioteca Nacional. 1964: elege-se para a Academia Brasileira de Letras, Cadeira 21, e é recebido por Jorge Amado, em 14 de janeiro de 1965; nomeado diretor da Agência Nacional. 1972: presidente da Associação Brasileira de Imprensa. 1977-1990: presidente do Conselho Federal de Cultura. 1983: doutor honoris causa pela Universidade Federal da Bahia; retorno ao sul da Bahia, Fazenda Aliança. 1990: falece a 2 de agosto, de ataque cardíaco.

Ler mais...




SER VELHO

“É preciso ser velho”, disse o ficcionista, crítico literário e tradutor Adonias Filho, ao completar setenta anos, na homenagem que lhe prestamos em Itajuípe, sua terra, quando ele próprio desvelou a sua efígie na praça principal. Corrido o véu, ficou um instante a olhar-se, como se admirado de si mesmo, enquanto pequena multidão batia palmas.

As ferraduras de muitos cavalos estrugiam no calçamento, para gáudio de convidados gaúchos, que admiravam o altaneiro brio das montarias e seus cavaleiros. Absorto, o escritor via-se na efígie, na praça com o seu nome. Pouco antes, em breve e conciso discurso de agradecimento, no Clube Social, dissera a frase que ainda hoje procuro decifrar: “É preciso ser velho”.

Ser velho, porquê, para quê? Fernando Pessoa disse que navegar é preciso — mas nunca se referiu à necessidade e possível glória de envelhecer. Um poeta irlandês, Yeats, ainda embriagado pela juventude, a sua juventude, declarou que o êxtase em Bizâncio não contagiava os velhos. Sim, a juventude em Bizâncio parecia eterna, ou pelo menos predominante. Hoje, tanto tempo depois, ela inunda um planeta sem motivos para júbilos. O poeta se foi há muito tempo e a juventude se dilui qual gosma sagrada no pântano das esperanças. Por que, nesse caso, aquela aparente opção do velho escritor brasileiro pela velhice, num mundo que preza cada vez mais o hedonismo, a primavera?
Foi o que me perguntei, e ainda me pergunto. Adonias Aguiar Filho acaso desejaria advertir que a velhice é uma fase da vida em que a sabedoria amadurece — e, por conseguinte, se faz orientadora? Duvido. O mundo está cheio de velhos tolos e desguarnecidos, desde os que se alimentam pela mão alheia, e babam nos aventais, até os que engrolam palavras esclerosadas e se transformam em vultos espectrais. Cícero exaltou a senilidade em De senectude, e, no entanto, morreu vítima de sua candente dialética, com a língua atravessada por um estilete.

Velhice e sabedoria não se ajustam, embora haja velhices sãs e lúcidas. A velhice é a estação de inverno. Ali acabam os trilhos.

Mas a frase continua enigmática. Acode-me, porém, ao iniciar este depoimento, que ser velho equivale para os homens de fé e estoica resignação a ser pai, a ser mãe, testemunha, confidente, cúmplice de tudo quanto nos cerca e nos impingem. Sim, há que ser pai e mãe: uma fatalidade que nem todos escolhem, mas todos carregam nos ombros, com aquela volubilidade com que se arreia um cavalo, se apetrecha uma mula. Teria sido isso? Revejo Adonias Aguiar Filho na praça da sua aldeia, a comparar o Rio Reno ao Rio Almada, e este a escorrer perto, além da mureta da praça. Afinal, não é todo dia que o rio da nossa aldeia suplanta o Danúbio, o Tâmisa, o Tejo.

O escritor que acaba de alardear a sua velhice anda na praça de Itajuípe que agora tem o seu nome, conversa com os convidados. Veste paletó e gravata em tarde calorenta, sente-se que a indumentária lhe pesa. Ele não se queixa, mas decerto preferiria estar em mangas de camisa — e de sandálias, num alpendre, olhos postos no bando de aves que passa qual seta assestada contra o vazio do céu. Ser velho é, então, ser contemplativo? É preciso ser velho para estar mais prisioneiro da beleza da simplicidade? Mais afinado com o despojamento?

Não sei, nunca soube. É preciso ser velho para receber de forma espontânea, acentuada, o afeto dos amigos — quando estouram mais refregas? Talvez. A noite cai, o rio da aldeia, o Almada, continua a cumprir o seu fado, enquanto água houver, de escorrer sobre pedras e transformá-las, de tão lustrosas que ficam, em espelhos. Pássaros descem, pousam nas árvores como em poleiros, alguns se demoram a saltitar nos fios da iluminação pública, quais homens que se retardam em bares. A festa acabou. Eu também me vou. Olhando para trás, para o modelo vivo do escritor que entra no carro e volta para casa, na fazenda herdada do pai, perto do distrito de Inema, fundos do município de Ilhéus, é como se o visse aconchegado a si mesmo, junto do busto e da efígie, provavelmente consolado a essa altura pela “saudade de si mesmo”, como escreve Machado de Assis no fecho do Memorial de Aires.




FUGA

Adonias Aguiar, pai do escritor, era severo, de uma geração de disciplinadores. Prezava, assim, o empreendedorismo. Proprietário de várias fazendas de cacau em Ilhéus, avançava somente até onde ia o braço estendido, e de pés fincados no chão, apegava-se ao impulso de acumulação de capital. Sendo um dos “coronéis” (os que compravam patente da Guarda Nacional ou se distinguiam pelo patrimônio), emprestava dinheiro a juros. Guiado por uma moral rígida, que se empenhava em passar aos filhos, cobrava-lhes obediência pronta. Ao perceber que o adolescente Adonias propendia às letras, em devaneios que julgava inócuos, insurgiu-se. Queria-o médico, tinha de ser médico.

O conflito agravou-se. Um dia o velho patriarca estourou: se o filho não queria ser médico, que sumisse de sua casa e de suas vistas, que fosse para bem longe.

Sem ajuda financeira, o futuro escritor foge para o Rio de Janeiro. Tinha 16 anos. Morou em um pensionato da Rua Riachuelo, antiga Mata-Cavalos. Cinco anos depois, por instâncias da mãe Rachel (em solteira, Rachel Bastos), que havia costurado a reconciliação, retornou a Ilhéus e aos pais. Na segunda transferência para o Rio, em 1936, conhece Rosita Galeano, secretária na Livraria José Olympio Editora. Apresentados pelo editor, se casam um mês depois e ele rasga a carteira de trabalho da esposa.




POLÍTICO SEM MANDATO

Além de escritor de nomeada, foi político sem mandato. Conversava — e até mesmo conspirava — com muito gosto sobre essa atividade que, em outros escritores, despertava desgosto e nojo. Queria, quando jovem, um Brasil diferente, livre da ditadura de Getúlio Vargas, e esse impulso o levou a um equívoco: o alinhamento com a direita declarada e, para desdouro seu, comprometida com a causa do integralismo de Plínio Salgado.

Não tardou a se libertar, mas ficou a marca que a esquerda revolucionária explora até hoje. Admirava a farda, porque os militares detinham então o poder de mobilizar os quartéis e marchar contra projetos considerados ruinosos ao país. Isso explica sua ligação (em alguns casos, culto) com generais na ativa, engajados na oposição ao governo João Goulart, inimigos das “reformas de base” nas quais identificavam o ideário comunista.

Nos interregnos entre um e outro cargo público, aos quais se apegou por necessidade, Adonias era visto a uma mesa do Café Itahy, fronteiro à sede do Ministério da Educação e Cultura, no centro do Rio. Ali recebia escritores e outros amigos. Ali desabafava contra Vargas e os presidentes que considerava seus seguidores — principalmente Juscelino Kubitschek, a quem culpava pela criação de Brasília, origem, como dizia, da inflação e dívida externa.

Curiosamente, o seu prestígio com os militares de plantão não redundou em benefício próprio e familiar, salvo o de certos cargos públicos. De boa índole, de rígida formação moral, apólogo da liberdade como bem supremo (disse em discurso de posse na Academia Brasileira de Letras que “a liberdade pede luta, como a própria vida, para permanecer”), Adonias utilizou favores de militares guindados ao poder a partir da ditadura de 1964 para salvar a pele de muitos intelectuais comunistas ou simpatizantes.

Nos dias finais de vida, foi pioneiro no trato ameno a seus trabalhadores rurais, com os quais repartia parte da renda e outras benesses.




SALVADOR DE ESQUERDISTAS

Em artigo publicado (ou mais provavelmente transcrito) no Jornal da Bahia, de 12 de dezembro de 1985, o baiano Osvaldo Peralva, com quem convivi na redação de Última Hora, Rio de Janeiro, desculpa-se por não poder comparecer à festa dos 70 anos de vida de Adonias Filho.

Naquela data, o escritor já residia na fazenda Aliança, a três quilômetros do povoado de Inema. Como dissera com um riso irônico à sua nora Thais, passava a imortalidade acadêmica “com as cobras da Temerosa” (a serra em parte recoberta com os cacaueiros paternos, aos quais acrescentou muitos outros).

Às portas da velhice, o romancista de Corpo Vivo não mais resistira ao apelo telúrico e nativista do rincão. Voltou com a planilha existencial preenchida. Além de romancista, crítico e ensaísta literário, inegável ícone nos meios intelectuais, era senhor de grande influência nos meios políticos, militares e burocráticos do eixo Rio-São Paulo, além de Brasília e Bahia. Sempre foi uma referência prestigiosa. Mas andava desgostoso, introvertido.

De modo que o festejo dos 70 anos redondos se justificava, era o reconhecimento regional e local, este talvez o mais difícil. Guardo ainda hoje a boa lembrança de haver proposto e organizado o evento, que teve repercussão nacional, considerados os louros que cingiam a fronte do homenageado. Teve participação decisiva no ato a então prefeita do Itajuípe, Gilka Badaró.

No artigo, Peralva diz que Adonias, ”oriundo dos movimentos de direita, deslocou-se depois para o centro democrático, onde tem amigos das mais diversas colorações políticas”. Amigo de militares de altas patentes, contribuiu, generoso e solidário que era, “para salvar intelectuais perseguidos”, durante o regime de exceção (1964-1984). A um general que o teria admoestado porque só pedia por esquerdistas, retrucou de pronto: “Pela simples razão de que são eles que estão sendo perseguidos”.

Escreve ainda Peralva: “E não pedia simplesmente por desencargo de consciência. Insistia, batalhava, e só parava após vencer a batalha. Toda a minha pequena família — filha, ex-mulher e o signatário — lhe é devedora desse pequenino favor, que foi o de, em ocasiões diversas, recuperar a liberdade, perdida por causa de mal-entendidos com a polícia política”. Pequenino?

É importante esse testemunho de um esquerdista militante, com estágio na União Soviética (Peralva abjurou o comunismo em livro famoso, O Retrato, anterior à queda do Muro), porque vários esquerdistas sacados da cadeia pelo velho Adonias ignoraram sentimentos de gratidão. A outros, levou para a Academia Brasileira, à parte o mérito. Cavou empregos para uns (chegou ao cúmulo de renunciar a uma pasta ministerial oferecida pelo dramaturgo Guilherme de Figueiredo, irmão do presidente João, em favor de Eduardo Portella). Enviou vários intelectuais ao exterior, com bolsas de estudo na Sorbonne e em universidades espanholas. Seu apartamento na Rua República do Peru 72, quadra da praia de Copacabana, era gabinete de audiências e despachos, em especial nos finais de semana, à noite. Costumava comentar certos favores (bolsas em universidades estrangeiras, por exemplo) com uma risada:

— Vamos nos livrar dos medíocres e vaidosos!

Quase governador biônico da Bahia, com projetos já formulados e o quadro de auxiliares diretos na cabeça, veio a ser atropelado por um cacique da política da Bahia. Este, em última instância, forçou um encontro em Ilhéus. Foi recebido friamente, as propostas de fatiar politicamente a Bahia caíram mal. A partir do malogro, o cacique agiu nos bastidores e deu-se bem, apesar de toda a geopolítica do general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil.
Severo nas escolhas e julgamentos, sem transigir com a honestidade e a consciência, Adonias acabara de descer no aeroporto em Brasília, tempos depois, quando avistou o cacique e seu séquito de rota batida na sua direção. Festivo, sorridente, o desafeto estendeu-lhe a mão. Retendo a sua, Adonias disse bem alto, vermelho, porém controlado:

— Não aperto mão de traidor!

Antes de traidor, vinha um substantivo mais pesado. Esta cena me foi narrada por uma testemunha idônea. A caminho do hotel, no automóvel, o romancista comentou às gargalhadas, ainda rubro:

—Hoje eu lavei a alma.

Uma vez no hotel, ligou para o governador da Bahia (creio que o professor Roberto Santos) e comentou o episódio. Sentia-se compensado. O velho Adonias não costumava tergiversar; guiava-se por uma cartilha moral rígida, incompatível com o fisiologismo da política rasteira.

HP – A seu ver, a moldura social e a técnica condicionam a personagem ou o romancista, ao recriá-la, apela para outros poderes?

AF – O detalhe que se impôs não foi precisamente de ordem técnica. O interesse pela psicologia, consequência de sua atuação como crítico literário, obrigou-o a examinar personalidades de personagens e de ficcionistas como Dostoiévski, Balzac e Dickens. A constante no reconhecimento interiorizante, que se distenderia até romancistas contemporâneos como Jacob Wassermann e Bernanos, Faulkner e Camus, talvez explique o cuidado na conformação de suas próprias personagens. (...) Ao cuidado na formação das personagens acrescentou o rigor com que as trabalharia em Corpo Vivo. No momento, naquele instante em que retomou o romance para reescrevê-lo novamente, já admitia o romancista — qualquer romancista — como sendo o agente público que documenta as condições humanas e sociais do seu tempo.

HP – Isso quer dizer que o regionalismo superior não é apenas geográfico. Faulkner seria um bom exemplo: se as matrizes são regionais, a dimensão humana é universal...

AF - Impossível fugir da Bahia, onde os romances estavam ancorados. Meio, costumes e tipos sociais — isso que constitui a matéria ficcional — interferiam flagrantemente e cortavam qualquer espécie de escapismo. E ali naquela hora, tendo Cajango nos olhos, compreendeu o que realmente importa dentro ou fora do regionalismo: é que o romance jogue com a ação episódica numa representação de vida e permita a recriação dos infinitos caminhos da criatura humana.

HP – Depois de Corpo Vivo veio O Forte. Houve mudança na sua ficção?

AF- Ele, o romancista tinha o núcleo da história desde a adolescência, ali mesmo em Salvador da Bahia, cercada de fortes por todos os lados. A dificuldade que sempre impediu fosse O Forte escrito antes de Corpo Vivo era que necessitava de ampla cobertura técnica para movê-lo da atmosfera de linguagem poética que julgava tão imprescindível quanto a estrutura moderna. E Corpo Vivo deu cobertura à sombra do artesanato e da carpintaria que por tantos anos ocupara o romancista. Está claro que, não dispusesse da experiência que se alargara em Corpo Vivo — quando tocava a órbita humana pela primeira vez — e não contasse o romancista com aquela experiência, certamente O Forte não sairia da casca.

HP – Léguas da Promissão significa um retorno à temática anterior? E por quê?

AF – Uma experiência literária (...) jamais se esgota enquanto permanecer em processo. E porque intrinsecamente interessado em captar uma dramática realidade humana e social na base de temas regionais, o romancista não teve como omitir-se (...). Surgiu, desse modo, a ideia de um livro de novelas. E escreveu por isso Léguas de Promissão. Seis as novelas e todas situadas no território de Itajuípe. Não será difícil verificar que integrados o ciclo do cacau — e partes, portanto, do monobloco temático que absorve a maior parte da obra literária — refletem de tal modo a experiência anterior que esta prossegue quase sem alterações. O lado mágico, se existe, é sempre apontado como exemplos em “O Túmulo das Aves” e “Simoa”, sempre é uma resultante da presença do menino. É possível, porém, que, além do menino, essa constante volta ao ciclo do cacau tenha explicação na vinculação física — que permanece até hoje — do romancista com a sua terra.

HP – A crítica considera As Velhas um dos pontos mais altos da sua obra, talvez pelo equilíbrio entre a documentação, a linguagem e a carpintaria. O senhor concorda?

AF – A experiência (...) não evita, mas, ao contrário, mostra a dependência do romancista ao documentário. Isso não quer dizer — e como o próprio romancista já observou em relação à ficção brasileira — que o documentário deforme o romance no sentido da penetração interiorizante, do reconhecimento psicológico ou metafísico, da busca da criatura ilhada em si mesma. Essa necessidade de conciliar o documentário com a introversão, no extremo, surgiria como um desafio e já na fase mais marcante da experiência. Luanda Beira Bahia constitui, por esse lado, um dos momentos mais expectantes para o romancista. O espaço se abriria de maneira excessivamente ampla com as locações em regiões culturalmente semelhantes, mas geograficamente diferentes. O fundo marinista por sua vez concorria para alterar a experiência na rotina temática.




SER GRAPIÚNA

Mesmo no Rio de Janeiro, então capital federal, Adonias Filho manteve os laços afetivos com a sua terra cacaueira — e pode-se dizer que os intensificou pelo acicate da memória. Era grapiúna e grapiúna permaneceu.

Convém explicar logo esse adjetivo pátrio gentílico. O Dicionário Aurélio informa, de maneira errônea e incompleta: “Alcunha que os sertanejos dão aos moradores da capital”. Escreve Jorge Amado em Gabriela, Cravo e Canela: “Chegavam (os estrangeiros) e em pouco eram ilheenses dos melhores, verdadeiros grapiúnas plantando roças.” No livro Cacau em Prosa e Verso, que é uma antologia, esclareço: “Supõe-se que a palavra igrapiúna vem do tupi igarapé-una, com o significado de riacho escuro. Em sua evolução semântica, passou a designar pequeno pássaro preto e branco popularmente conhecido como viuvinha, e encontrado em várias partes do Sul da Bahia, especialmente na bacia do Rio de Contas. Mais tarde, perdendo a vogal inicial, a palavra estendeu-se a toda a pessoa nativa da zona do cacau, ou que ali se estabelecia para cultivar cacau”.

A primeira manifestação literária do ciclo do cacau no ficcionismo brasileiro data de Inglês de Souza [Herculano Marcos], com O Cacaulista (1876) e O Coronel Sangrado (1877), romances ambientados na Amazônia, sob o pseudônimo de Luiz Dolzani, na transição do romantismo para o realismo, segunda metade do século XIX. O autor era natural de Óbidos, no Pará. Segundo a ensaísta Bella Jozef, “o romance realista brasileiro definiu-se por volta de 1880, recolhendo as influências de Flaubert, Balzac, Zola, dos Goncourt, de Eça de Queiroz, corroborado pela filosofia de Taine.”

O tema cacaulista reaparece de lampejo em Fruta do Mato (1920), romance de Afrânio Peixoto, no seguinte diálogo:

“Propuseram-me a compra de uma fazenda e por dez réis de mel coado...

“Quem é tolo ainda, e nestes tempos?, perguntou Zoroastro.

“Dez mil pés de cacaueiros frutíferos, continuei, outros tantos novos, de vários tamanhos, terras ainda a aproveitar, velho casarão, dependências, roçados nos fundos... tudo apenas por dez contos de réis... uma pechincha!”

Em Maria Bonita, romance de 1914, do mesmo Afrânio, lê-se: “Depois, sob a latada verde do cacaual, suspensa pelas colunas negras e esgalhadas dos troncos, ao que os brincos das flores miúdas e dos frutos incipientes serviam de enfeite, na casca escura e despida”. E mais adiante: “Houve depois passeios pela fazenda, à sombra dos cacaueiros, o bosque dos frutos de ouro, como ao promotor aprouve chamá-los, frase que o capitão Albernaz conservou...”

Somente em 1941, no romance Terras do Sem Fim, Jorge Amado cunharia a frase “árvore dos frutos de ouro”, sem dúvida inspirada em Afrânio. Mas também foi antecedido pelo contista cearense Saboia Ribeiro, que emigrou para o sul baiano e chegou a ser prefeito de Ubaitaba, com três volumes de contos sobre o cacau, um dos quais, Rincões dos Frutos de Ouro, é de 1928. Retomaram a temática, trazendo-a até o declínio em fins do século passado, os ficcionistas grapiúnas Jorge Medauar e Hélio Pólvora.

Ser grapiúna é ter nas veias, além do sangue, a seiva nativa. A consciência de que saiu de um ventre amplo — o dos cacauais — e este o segue e o envolve e o embala, onde quer que esteja. O grapiúna carrega cheiros e sabores agridoces na memória — os que emanam de frutas agrestes, mas, sobretudo, da polpa branca do cacau, que é mel com um travo de acidez. A mata primitiva, que ele suprimiu para plantar cacau, deixou-lhe no íntimo o tormento dos mistérios e do misticismo que encerrava. O grapiúna raramente questiona a liberdade, pois nasceu com ela, legada pelo bugre e pelo negro que souberam arrancá-la do europeu.

No entanto, o grapiúna é também um ciclotímico; apesar da livre iniciativa, oscila emotivamente — da alegria contagiosa, quando sobem as cotações do produto, ao pessimismo cismarento. Há nele uma sensação de tragédia iminente, de destino ou fado que lhe cumpre respeitar. Estes e outros traços de uma cultura regional de “tipicidade evidente” (expressão de Adonias) ressumam do seu Sul da Bahia: Chão do Cacau, estudo geográfico, histórico e antropológico.




LUANDA BEIRA BAHIA

No período de 1955 a 1960 é intensa a atividade crítica de Adonias. Prega um romance brasileiro novo, que seja esculpido, que ressalte a linguagem, que reflita um projeto arquitetônico — nisso influenciando vários escritores iniciantes. Apegado à corrente dos ciclos regionais na ficção, bate-se, no entanto, por um regionalismo literário superior, com ênfase nos conflitos e destinos do homem. Costumava aludir a um “regionalismo de espírito” do qual William Faulkner, uma de suas paixões ao lado de Julien Green e Jacob Wassermann, seria referência. Do romancista judeu alemão, em colaboração com Octávio de Faria, traduziu Golovin, Gaspar Hauser e O Processo Maurizius; a mesma parceria assina a tradução de Judas, o Obscuro, de Thomas Hardy, percorrido por uma tragicidade em que ambos se banhavam a gosto. Também traduziu O Pântano do Diabo, de George Sand, e A Família Brontë, de Robert de Traz — mas não chegou a fundar a prometida Editora Ocidente, com a tradução de Enquanto Agonizo, de Faulkner, realizada anos depois pelo autor deste perfil (Rio de Janeiro, Editora Expressão e Cultura).

O ofício de crítico literário leva Adonias às páginas do Diário Popular, de Lisboa. No decênio seguinte, vai aos Estados Unidos e participa em Moçambique do II Congresso das Comunidades de Cultura Portuguesa. Seus romances e ensaios são traduzidos para várias línguas, prêmios de expressão se sucedem no Brasil: Paula Brito, Jabuti, Golfinho de Ouro, Pen Clube do Brasil, Brasília (conjunto de obra), Fundação Educacional do Paraná etc.

Na viagem a Portugal e África (Angola, Moçambique e São Tomé), em 1957, está seguramente a gênese do romance Luanda Beira Bahia. Data de 1971 e se resumiria à história de amor entre Caúla e Iuta — ela, do cais de Luanda; ele, canoeiro de Ilhéus, Bahia —, caso não divisássemos a ambição maior de buscar as raízes africanas na formação do povo brasileiro: a ancestralidade negra, a religiosidade primitiva, os mitos, o movimento da negritude, a africanidade, enfim, que a política externa brasileira parece ignorar ou menosprezar na época. Uma árvore sacramental, uma jindiba (o romancista grafa o vocábulo com j), portentosa na praia do Pontal dos Ilhéus, é o símbolo genealógico de uma atração forte, de uma convergência carnal de protagonistas de dois continentes. Mas os fados lhes traçaram destinos trágicos: ambos são filhos de João Joanes, o Sardento. O tema do incesto culmina em Ilhéus, quando ambos se desc0brem irmãos: Caúla mata os filhos — aquelas sementes do enlace abominável — e se suicida.




TECLA EMUDECIDA

Sentindo-se despojado de esperanças de renovação política e bem-estar coletivo, escritor emudecido (até hoje...) pela mídia, embora de circulação corrente, Adonias Filho volta aos fundos do município de Ilhéus, ao povoado de Inema, à sua ermida. E ali, alquebrado, pela primeira vez um velho antes de completar 75 anos, escreveu o último romance, O Homem de Branco, sobre o fundador da Cruz Vermelha. Rosita, sua mulher, havia falecido cerca de um mês antes.

Vendo-o e ouvindo-o, eu tinha a certeza de que dentro dele uma tecla emudecera. O piano já não estava afinado para a sinfonia mozartiana daquele júbilo que irrompia de repente na risada grossa e rouca, nos sulcos do rosto cavados pelo riso.

Ainda assim, despertou-me duas vezes. É domingo, estou em Itabuna, à beira de outro rio, o Cachoeira. Ainda não deram sete horas, o telefone toca.

— É Adonias. Estou falando de Inema, a capital do mundo.

Conversa rápida, ele apertado no incômodo posto telefônico de Inema, na rua deserta, o povoado talvez encoberto pela bruma. Quer apenas falar para alguém, conjugar-se. Exprime em viva voz o seu monólogo surdo.

Quando a Nestlé prestou-lhe em São Paulo uma homenagem póstuma, numa de suas Bienais de Literatura, encarregaram-me de providenciar as fotografias de sua ambiência rural: a casa da Fazenda Aliança, a pastagem, os cacaueiros que subiam a Serra da Temerosa ou se perfilavam no charco por ele aterrado para plantar caules agora frutíferos. O posto telefônico. O alpendre de onde olhava pássaros em bando cruzarem os ares. Raquel de Queiroz, de quem ele muito gostava, olhou tudo, pousou uma mão no meu ombro e disse:

— É.

Apenas isso, em voz baixa — e retirou-se. A verificação, talvez, de que a nossa vida, por melhor que seja, se encurta e se ensombrece, se reduz a um monossílabo melancólico, quando os amigos tombam.




CORTEJO, CHUVA E NÉVOA

Noite de 2 de agosto de 1990, uma quinta-feira. Chove. Faz frio. Chega, depois da meia-noite, a notícia por telefone. Lício Fontes, amigo de Thais, nora de Adonias e provedor de uma das netas do romancista de Corpo Vivo, me comunica que ele morreu de acidente cardiovascular, na solidão da fazenda.

Estradas enlameadas e desertas. O carro, um utilitário em cuja cabine se espremem o motorista, Lício Fontes, o poeta Telmo Padilha e eu, sacoleja nos buracos. Vamos buscar o corpo do romancista, do ensaísta, daquele que, na comprida noite da ditadura militar, livrou tantos intelectuais da cadeia e da tortura.

A chuva agora cai pesada, com um barulho que fustiga o tambor da terra. Os cacaueiros, de ambos os lados da estrada de chão, são vultos amortalhados na neblina. Antes de chegarmos à fazenda, nas imediações do povoado de Pimenteiras, damos com a camioneta da família, que traz o corpo, dirigida por Adonias Neto, um dos dois filhos agora órfãos. São quase 2 horas da manhã.

Três automóveis formam o cortejo até Itajuípe, Itabuna e Ilhéus, de onde o corpo, após a necropsia, seguirá de avião para o velório na Academia Brasileira de Letras. Ainda não vi Adonias morto. O cortejo fúnebre detém-se em Itajuípe, que está afundada na névoa espessa da manhã próxima. Enxerga-se pouco, as árvores da praça são vultos quase indistintos, há um corredor de trevas no leito do rio Almada. Ninguém nas ruas.

Alguém abre o porta-malas da camioneta, da qual retiraram o último banco. Finalmente me aproximo. Lá está, sobre uma espécie de marquesão, estiraçado, hirto, na sua última viagem, o velho amigo. Sereno, como parecia às vezes, e agora definitivamente calmo – ele que tanto se afligia e se enfezava com os rumos do País. Vestiram-lhe um terno antigo. A morte é simples, eu penso. A morte é a certeza. Mas o trespasse de Adonias, homem e escritor aparentemente sem graves conflitos de consciência e imune a desesperos existenciais agudos (apesar de desgostos familiares), banhado por um halo de resignação que o óbito da mulher acentuara, a morte de Adonias — provavelmente causada por um grande susto — tem uma simplicidade franciscana, misericordiosa.

A simplicidade de quem busca e acha e costuma dividir. A humildade que somente as consciências bem trabalhadas praticam. A naturalidade que deve ser um objetivo, o ponto terminal de um processo penoso, depuração e decantação — aquela borra do vinho da vida, segundo um lampejo de Machado de Assis.




IMAGENS E PALAVRAS

Católico, Adonias deixara nos últimos anos de frequentar assiduamente a igreja e praticar os ritos de sua fé. Certa tarde, na varanda de sua casa rural, perguntei-lhe se a crença perdurava.

“Sim. Deixei de ir à missa, mas continuo católico. A missas atuais se tornaram estranhas ou insatisfatórias Por isso procuro um entendimento direto com Deus”.

Além da relativa perda da fé, preocupava-o a decadência da cultura — ou, melhor dizendo, dos meios de fazer cultura legitima e divulgá-la. E mais: o abastardamento veloz da atividade política.

Em outras conversas, porque cruzávamos, às vezes, de carro, a estrada de chão que vai do povoado de União Queimada a Inema, e nessas ocasiões parávamos para um diálogo que podia durar um minuto ou meia hora, ele me confessou que deixara de crer em três coisas.

“Quais?”

“Poder, glória, ambição. A glória não dura mais de vinte anos; às vezes é mais fugaz que uma nuvem de verão. O poder se degenera com uma velocidade espantosa”.

“E a ambição?”

“É o inferno dos que querem e perseguem o êxito a qualquer preço, e por quaisquer meios”.

De outra feita, como se arrematando um pensamento anterior, declarou-me:

“É preciso crescer. Crescer de corpo, individualmente, e crescer por dentro, na consciência”.

Não se iludia mais. “A vida”, confessou em outro encontro, “está no limite do suportável; alguma coisa muito ruim poderá acontecer. O que me fez pensar em Macbeth: “Something wicked this way comes”. Algo maligno está a caminho.

“Enquanto o nosso povo permanecer ignorante, bronco e alheado, será presa fácil de armadilhas, da demagogia de políticos profissionais e da frieza dos tecnocratas”, ouço-o dizer. Ainda forte e robusto, ao menos na aparência, nenhum sinal ostensivo prenunciava o infarto.

“Já trouxe a biblioteca?”

“Ainda não”.

“Não sente a necessidade de releituras?”

“Sim. Para isso estão aqui os meus livros básicos, sobretudo os clássicos gregos, mais Wassermann, Jouhandeau, Julien Green, Georges Bernanos, Thomas Hardy, Faulkner, Dostoiévski. E alguns brasileiros e portugueses”.

“Não tem saudades da cidade grande, dos amigos?”

“Quando preciso falar com um deles, faço a ligação do posto telefônico de Inema”.

“Mas as conversas no café, na Academia, os encontros...”

“Meus amigos estão quase todos mortos”.

“Quem eram?”

“Santa Rosa, Octávio de Faria, Lúcio Cardoso, Dinah Silveira de Queiroz, Cornélio Penna, Jorge Lacerda, Oswaldo Goeldi, Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz...”




MUSEU DA SIMPLICIDADE

De passagem por Itajuípe, no sul baiano, aproveito para reverenciar-lhe a memória. Subo dois degraus, na praça com o seu nome, avanço por entre canteiros e olho mais uma vez o rosto severo, um tanto amargurado do romancista, na efígie em bronze pregada em marco de cimento.

Mas, o que vejo? O escritor chora. De seus olhos descem dois sulcos brancos semelhantes a cordas líquidas de uma chuva alvacenta. Um vândalo coroou-lhe a cabeça com uma espécie de barrete e desenhou as lágrimas que descem até os cantos da boca. O vandalismo parece deixar mais contido e resignado o autor das novelas densas de Léguas de Promissão.

Recordo, então, o dia festivo em que ele, desvelado o busto, viu-se diante de si mesmo, com a maior gravidade, sem comentários. Talvez sentisse pudor. Os cascos de cavalos árdegos arrancavam faíscas do calçamento, na cavalgada que sucedeu a homenagem oficial, com a presença de escritores de outros Estados. Anos depois, falecido Adonias, a municipalidade recolheu objetos que lhe pertenciam, para uma pequena mostra. É o Memorial Adonias Filho.

Esse acervo está perto do lago, no prédio da Secretaria de Cultura. À esquerda, no fundo, alteiam-se dois retratos a óleo — um de autoria do seu sobrinho Célio Aguiar, pintado em 1985. Mostra-o de frente, na conhecida atitude séria, quase austera. O outro data de 2000, feito sobre fotos por Haroldo Santos. Adonias está sentado, de fardão acadêmico, meio de perfil, e segura ao colo o chapéu branco da indumentária acadêmica. Pinturas exatas, quase fotográficas.

Sob o vidro de um catafalco de madeira, no centro da sala, algumas lembranças, poucas: o facão embainhado com que andava pelas plantações da Serra da Temerosa, uma estatueta do Prêmio Jabuti, medalhas, comendas, uma lanterna que o guiava à noite, nas imediações da casa modesta em que os trabalhadores comiam com ele, à mesa, a mesma fritura de carne seca com feijão, arroz e salada. Com o óculo de alcance também arrolado no acervo, creio que ele procurasse suas estrelas na terra — que eram sinais de chuva, no alto da serra coberta de cacaueiros, e os primeiros frutos do ano, no vale que fora um charco e ele aterrou para cultivar cacau. Um dia percorremos juntos esses cacaueiros novos, de dez anos — e o fazendeiro Adonias estava animado.

No minúsculo museu, tudo muito simples, de uma simplicidade franciscana, de uma modéstia exemplar — reflexo da alma desse escritor grapiúna, que se cercou durante a vida de coisas apenas essenciais. Amigo, como já dito, de alguns militares, ao longo da ditadura, quase nenhum proveito tirou para si e família, da órbita do poder discricionário.

Sob este aspecto da solidariedade, Adonias foi homem generoso. Tinha a cepa do humanista praticante. Parecia viver o moralismo da era vitoriana inglesa numa sociedade em que predominam o roubo, a trapaça, a indiferença, as traições e egoísmos. Suas atitudes, sua casa, sua vida eram assépticas; na sua “limpa solidão”, a mesma de Manuel Bandeira, vicejavam, para sua alegria interior, as rosas virginais da literatura. Não saberia viver sem ler e escrever, nutrientes indispensáveis a uma dieta de filósofo estoico.

A um canto, a cadeira em que se sentava para escrever ficção, a mesa, a máquina Remington, tamanho médio, em que eram passados a limpo os manuscritos. Pois costumava escrever a lápis de ponta aguçada, em letra finíssima, microscópica, que somente ele próprio decifrava. O fardão posto em manequim dá a impressão de que há muito não o escovam. A simplicidade do acervo, em comparação ao de outros escritores, chega a doer. E mais o destino que lhe deram: a companhia de medíocres intelectuais da terra, completamente ignorados além dos portais da cidade.

Havia em Ilhéus, no Arquivo Público (se não lhes deram fim), alguns cadernos e originais datilografados de obras de Adonias, incluindo, se não estou enganado, os do romance Corpo Vivo, uma de suas obras mestras. Então é isto a glória? – eu penso ao sair do Memorial. É a glória que lhe coube neste desastrado país em que o êxito da atividade intelectual depende muito da agressividade hipócrita de quem a pratica. E para agravar o quadro, Adonias buscou deliberadamente o caminho mais árduo: o pudor, a vereda de um estilo castigado, penoso, retórico, de belezas que desejam ser procuradas e achadas, e que em vez de atrair os raros leitores parece retorcida sobre si mesma, como a cauda dos escorpiões.

Residiu em Copacabana, tinha amigos, era requisitado, fazia caminhadas no calçadão da praia. No entanto, decidiu retornar ao sul baiano. Estaria em busca do modelo paterno, ou talvez de refúgio? Sabe-se lá. Mas, se o poeta (Raimundo Correia) nos permite a paródia, diríamos que as emoções nunca ficam onde nós as pomos, e nunca as pomos onde já não estamos.


Fontes:

Adonias Filho; Amado, Jorge — A Nação Grapiúna. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1965.
Sul da Bahia: Chão de Cacau. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2.a edição, 1978.
O Romance Brasileiro de 30. Rio de Janeiro, Bloch , 1983.
“Adonias por Adonias”, in: Revista da Academia de Letras da Bahia, n.o 6, janeiro de 1986, p. 131.
Pólvora, Hélio — O Espaço Interior. Ilhéus, Editora da Universidade do Mar e da Mata, 1999.
Cacau em Prosa e Verso (parceria com Telmo Padilha). Rio de Janeiro, 1978.
Memorial de Outono. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2005.