“O que me move: um desejo de identificação com os humildes deste mundo...”

José Rodrigues Miguéis

Escritor:
1901 - 1980



Quando tudo aconteceu...

1901: José Claudino Rodrigues Miguéis, que virá a ser conhecido por José Rodrigues Miguéis, nasce no popular bairro de Alfama em Lisboa. Estuda no liceu Francês e nos liceus Camões e Gil Vicente.1921: Matricula-se na Faculdade de Direito. 1922: É um dos jovens que fazem parte da equipa da Seara Nova com Jaime Cortesão, José Gomes Ferreira, Irene Lisboa e outros. 1924: Forma-se em Direito na Universidade de Lisboa. 1925: É nomeado procurador-delegado da República em Setúbal. 1926: È admitido como professor no Liceu Gil Vicente. 1929: Parte para Bruxelas para aprofundar os estudos pedagógicos. 1930-31: Após uma polémica interna, discordando do rumo levado pela revista, afasta-se do grupo da Seara Nova. 1932: Estreia-se como escritor com a novela Páscoa Feliz que iria receber o Prémio Literário da Casa da Imprensa. Com o grande matemático Bento de Jesus Caraça, funda o semanário “O Globo”, suspenso ainda em 1932 pela censura. Neste mesmo ano casa com a jovem professora russa Pecia Cogan Portnoi (Pola). 1933: Regressa a Lisboa, mas não consegue fixar-se na capital. Bolseiro da Junta de Educação Nacional, licencia-se em Ciências Pedagógicas na Universidade de Bruxelas. 1935: Incomodado pela situação de opressão em que os portugueses vivem, expatria-se voluntariamente nos Estados Unidos. Aí trabalha como tradutor e como redactor das Selecções do Reader’s Digest. 1940: Casa em segundas núpcias com a luso-americana Camila Pitta Campanella. 1942: Adquire a cidadania norte-americana. 1946: Volta a Portugal, publicando Onde a Noite se Acaba. 1949-50: Está um ano a viver no Brasil 1956: Publica o conto Saudades para D. Genciana.1957: Sai a público o conto O Natal do Clandestino. 1958: Saem os contos e novelas de Léah e Outras Histórias. 1959: Publica o romance Uma Aventura Inquietante e a narrativa Um Homem Sorri à Morte com Meia Cara. Histórias”. 1960: Saem a público o romance A Escola do Paraíso, e a peça de teatro O Passageiro do Expresso. Recebe o Prémio Camilo Castelo Branco, da Sociedade Portuguesa de Escritores pela sua obra Léah e Outras Histórias. 1961: É eleito membro da Hispanic Society of América. 1962: É publicada a obra Gente da Terceira Classe (Contos e Novelas).1964: Edição de É proibido apontar. Reflexões de um burguês - I (Crónicas). 1971: Publicação de A Múmia e de O romance Nikalai! Nikalai!. 1972: É a vez de serem editadas as crónicas de O espelho poliédrico. 1973 : Publicação dos contos de Comércio com o inimigo. 1974: Saem as crónicas de As harmonias do "Canelão". Reflexões de um burguês - II 1975: São publicados os dois volumes de O Milagre Segundo Salomé. 1976: Eleito académico correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. 1979: É agraciado com a Ordem Militar de Santiago da Espada, no Grau de Grande Oficial, 1980: Em 27 de Outubro morre em Nova Iorque vítima de um ataque cardíaco. O corpo é incinerado no crematório de Manhattan.1981: Sai o romance O pão não cai do céu. 1982: Camila, sua viúva, chega a Lisboa com as suas cinzas, as quais são depositadas no Cemitério do Alto de São João num monumento fúnebre erguido em memória de José. Publicam-se os contos de Passos confusos. E prosseguem as publicações póstumas: Em 1983: Arroz do céu (Conto). Em 1984: O Anel de Contrabando. Em 1985: Uma flor na campa de Raul Proença. 1990: Sai a biografia escrita por Mário Neves. Em 1996 : Aforismos Desaforismos de Aparício.

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LISBOA A PRETO E BRANCO?

As gerações mais recentes têm uma imaginação muito dominada pelo audiovisual. Há uma generalizada tendência para imaginarmos o passado que não vivemos, nomeadamente a primeira metade do século XX, como sendo uma realidade descolorida e amorfa. Somos influenciados pelos filmes do cinema mudo que nos mostram pessoas vestidas de branco, preto ou cinzento. Como se sabe, só em 1929, com o advento do cinema sonoro, a cadência de projecção foi fixada em 24 fotogramas por segundo. Quanto à cor, só em 1933 se começou a usar. No período do cinema mudo e a preto e branco, a maioria dos filmes era rodado com cadências entre os 16 e os 20 fotogramas por segundo. O que não permitia que, na projecção, as personagens se movessem a um ritmo normal.
Há relativamente pouco tempo, numa sala repleta, onde se via um filme de Chaplin ou de Buster Keaton, uma criança perguntou em voz alta por que razão «antigamente as pessoas andavam todas aos pulinhos». A pergunta fez rir toda a gente, mas exemplifica o que quero dizer – desde o daguerreótipo à fotografia e ao cinema mudo e a preto e branco, o século XIX e as primeiras década do XX, implantaram-se no imaginário colectivo como épocas descoloridas. A televisão a cores, que a Portugal só chegou em 1980, veio reforçar essa ideia.
Porém, se conseguirmos ultrapassar o handicap das fotografias e dos filmes da época, talvez possamos imaginar a Lisboa nas primeira décadas do século passado – uma cidade muito colorida e luminosa, com muita gente pobre – que também encontra maneiras próprias de se divertir – e com uma burguesia estouvada, gastadora e ostentosa.
Vamos ocupar-nos de um homem, de um escritor que dedicou uma parte substancial da sua obra ao pulsar da sua cidade, ao crisol lisboeta onde se misturam gentes vindas de todas as partes – a cidade cosmopolita, a cidade bizarra, a cidade provinciana… Dedicou especial atenção aos humildes, à gente simples sobre a qual não se usa escrever crónicas. E fê-lo pesando as palavras em balança de ouro, como se de príncipes falasse – José Rodrigues Miguéis, um grande escritor português, muito esquecido, muito ignorado, quase nada lido.




NASCE NA RUA DA SAUDADE

É numa cidade assim como a que acima foi descrita, de grandes assimetrias sociais, mas tudo menos cinzenta, que no dia 9 de Dezembro de 1901, José Rodrigues Miguéis nasce. Será numa cidade assim que irá viver a infância, a adolescência e a juventude.

Seu pai, porteiro no Hotel Francfort de Santa Justa, é um imigrante galego, a mãe trabalha a dias em casas burguesas.. Gente humilde, mas que não vira a cara ao trabalho e investe tudo o que pode no futuro dos filhos. José é o mais novo de três irmãos. Fernando, o mais velho, combaterá na Grande Guerra e virá a morrer durante uma epidemia de tifo que assolou Lisboa. Irene, a do meio concluirá com distinção o curso de Piano do Conservatório Nacional. Morrerá solteira com noventa e um anos.

É ainda criança quando a família sai de Alfama e vai morar para um andar da Avenida Almirante Reis. Mas as primeiras recordações de infância que José Rodrigues Miguéis regista em Escola do Paraíso, decorrem em Alfama – vendo da janela «chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul».

Em algumas das suas páginas, recorda os acontecimentos mais marcantes da vida política nacional – o Regicídio, a implantação da República, a Grande Guerra, o Sidonismo e o advento da Ditadura militar. O jovem José frequenta os Liceus Camões e Gil Vicente, bem como o Colégio Francês. Bom aluno, corresponde inteiramente às expectativas dos seus pais.

Em 1921 matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. É um aluno brilhante. E inicia uma vida intelectual paralela à do estudo das sebentas e dos códigos. Conhece Jaime Cortesão, António Sérgio, Câmara Reys, José Gomes Ferreira, Irene Lisboa, Raul Proença, Raul Brandão, Bento de Jesus Caraça e tantos outros – faz parte do grupo da Seara Nova. Começa a colaborar em jornais como O Diabo, Diário Popular, Diário de Lisboa e República. Não só escreve, como desenha de forma primorosa. O jornalismo é, segundo José virá a dizer, «a minha única vocação revelada». Está a ser modesto, evidentemente. Mas explica até que ponto a atmosfera dos jornais, do cheiro da tinta de impressão, ao clima de nervosismo permanente e ao «arfar das máquinas de impressão», o fascina.




CASAMENTO E ESTREIA COMO ESCRITOR

Paralelamente ao estudo e ao jornalismo, desenvolve uma intensa actividade política e associativa - com colegas da Faculdade de Direito e com outros intelectuais de esquerda cria o Núcleo do Ressurgimento Nacional e a Liga da Mocidade Republicana. É eleito presidente da Associação Académica da Faculdade de Direito .Em 1924 obtém a licenciatura em Direito, sendo nomeado procurador - delegado da República em Setúbal. Em 1926 é admitido como professor no Liceu Gil Vicente, uma das escolas em que estudou.

Em 1929 obtém uma bolsa da Junta de Educação Nacional e vai para Bruxelas, em cuja Universidade conclui a licenciatura em Ciências Pedagógicas. Conhece Pola, uma jovem judia russa, Pecia Cogan Portnog. Enamoram-se e casam. Pola vem para Lisboa com o marido.

A partir de 1930 Rodrigues Miguéis entra em rota de colisão com os restantes elementos do grupo da Seara Nova. Com o grupo da Presença gera também uma polémica de sentido idêntico – a falta de ligação destes movimentos literários a organizações de massas e à luta dos trabalhadores. Não esqueçamos que, num primeiro momento, os seareiros apoiaram o 28 de Maio de 1926 e só depois, decorridas escassas semanas, compreenderam que aquela gente que viera atrás de Gomes da Costa de Braga até à capital, não viera como afirmara para «arrumar a casa», mas sim para se apossar da casa e para a transformar num presídio.

José é um simpatizante (talvez mesmo militante – há quem diga que sim) do Partido Comunista. Não tolera o elitismo que inquina os movimentos intelectuais – Seara e Presença, incluídos. Não compreende como gente da dimensão ética e cultural de seareiros e presencistas se isola em torres de marfim. Como se intelectuais e trabalhadores pertencessem a espécies diferentes.




OS ESTADOS UNIDOS

Em 1932, José estreia-se como escritor com a novela Páscoa Feliz, onde é visível a influência de Dostoievski – influência que Raul Brandão assumira já com brilhantismo. Entretanto a sua vida sentimental entra em crise aguda – sua mulher, Pola, acha Lisboa uma cidade insuportável e abandona José, voltando para o seu país. Desgostoso pelo colapso do casamento com Pola e perseguido politicamente, pois a censura não lhe dá tréguas, começa a sentir-se sufocado no seu País. O cerco torna-se asfixiante.

Há uma gota que faz transbordar a taça: em 1932, com o matemático Bento de Jesus Caraça, funda o semanário “O Globo”, mas o jornal será proibido pela censura em 1933. A situação de opressão em que os portugueses vivem, é-lhe intolerável. e ainda, esmagado psicologicamente pelo fracasso do casamento com Pola, expatria-se, resolve emigrar para os Estados Unidos.

No seu livro Gente da Terceira Classe narra como, primeiro a bordo do paquete Arlanza viaja até Southampton e depois atravessa o Atlântico no Normandie. Nos Estados Unidos viria a trabalhar como tradutor e redactor das Selecções do Reader's Digest. Durante a sua permanência nos EUA, mantém uma grande actividade cultual, colaborando em jornais portugueses e também na imprensa de língua castelhana. A Guerra Civil começa no Verão de 36 e José Rodrigues Miguéis apoia sem reservas a causa da República espanhola. Em universidades e noutras instituições culturais, faz conferências em que defende a posição do governo legítimo republicano , eleito democraticamente, e verbera o bando franquista que mergulha Espanha no caos de uma cruenta guerra civil.

Em 1940 casa em segundas núpcias com a luso-americana Camila Pitta Campanella e em 1942 adquire a cidadania norte-americana. No ano de 1946: publica no Brasil Onde a Noite se Acaba, uma colecção de contos. Entre os anos de 1949 e 1950, vive no Brasil. Vão sendo publicadas algumas obras suas: os contos Saudades para D. Genciana, O Natal do Clandestino. Em 1958 publica os contos e novelas de Léah e Outras Histórias. No ano seguinte é a vez do romance Uma Aventura Inquietante e da narrativa Um Homem Sorri à Morte com Meia Cara. Uma narrativa autobiográfica, pois baseia-se numa paralisia facial que o obriga a estar mais de um mês internado no Hospital de Bellevue.




O REGRESSO A PORTUGAL. A IDENTIFICAÇÃO COM OS HUMILDES

Pela primeira vez desde que emigrou, vem a Portugal. A mãe e Irene, sua irmã, anseiam pela sua vinda, pois não o vêem há muitos anos. Em 1960: publica o romance A Escola do Paraíso, e a peça de teatro O Passageiro do Expresso. Recebe o Prémio Camilo Castelo Branco, pela sua obra Léah e Outras Histórias. Em 1961 uma emocionante homenagem dos republicanos espanhóis no exílio, gratos pela sua acção a favor da República - é eleito membro da Hispanic Society of América. Em 1962 é a vez de Gente da Terceira Classe (Contos e Novelas), baseado na experiência da viagem para os Estados Unidos. E publica numerosas obras, conforme se refere no texto cronológico de abertura.

Em 27 de Outubro, vitimado por um acidente cardiovascular, morre em Nova Iorque. De acordo com a sua vontade expressa o corpo é cremado no Cemitério de Manhattan. Em 1982, Camila Campanella Miguéis, a viúva chega a Lisboa trazendo consigo uma pequena urna com as cinzas de José. Num monumento erguido à sua memória no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa, a urna é depositada numa cerimónia singela. O seu espólio, manuscritos, dactiloscritos, os seus desenhos, tudo é doado à Universidade de Brown, sendo, no entanto, feito um microfilme desse espólio destinado à Biblioteca Nacional.

Talvez um dia seja devidamente compreendida a importância deste escritor e se entenda que, herdeiro de escritores como Raul Brandão e Ferreira de Castro, a sua escrita funcionou como charneira entre esse realismo descarnado e o movimento neo-realista.

Porque o que, sem êxito, propusera ao grupo da Seara é, basicamente, a linha que, anos mais tarde, norteará o neo-realismo. Pode e deve ser considerado um precursor do movimento que nos irá trazer uma literatura ligada à luta política e apoiada pela filosofia marxista – homens como Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, José Gomes Ferreira. Homens que assumem um papel semelhante ao que no século anterior se tinha consubstanciado na Geração de 70 – em que jovens munidos do seu socialismo utópico enfrentam um romantismo que, partindo das letras e das artes, contamina a filosofia política com ideais de uma estética eivada de pressupostos classistas e desumanos.

José Rodrigues Miguéis, com a sua escrita pura e de uma grande riqueza vocabular, abriu a estrada que liga a literatura à vida das pessoas comuns. Em Gente da Terceira Classe diz «Começo a compreender, com espanto, o que me move: um desejo de identificação com os humildes deste mundo..». Seria bom que o lêssemos com a atenção que a excelência da sua obra justifica.